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Memória 32 - Boas Vindas

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 32 - Boas Vindas

Autor: Yamimura | Revisão: Shinku

Nota do Autor:

 

       Eu gostaria antes de mais nada pedir desculpas para aquelas pessoas que estavam acompanhando as minhas postagens. Eu tinha uma frequência e acabei quebrando ela por motivos pessoas. Eu iniciei meu processo para terminar a faculdade e isso acabou balançando meu Emocional, fiquei com um bloqueio mental e não estava conseguindo escrever até que essa semana um lapso aconteceu e eu consegui escrever alguma coisa. Espero que eu não tenha deixando nenhum dos meus leitores com raiva de mim. Eu escrevo pra mim mesmo, mas tendo vocês em mente. Sem leitores eu não tenho porque continuar postando. Gostaria de pedir que continuem me dando suporte se for possível. Eu pretendo voltar a postar com a mesma frequência já que o bloqueio mental parece ter sido perfura. Agradeço a todos desde já e desejo a todos uma boa Leitura.

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― Ichijou-sama? – ouvi uma delicada voz perfurando através do manto de horror.

Um arrepio percorreu todo o meu corpo enquanto aquela suave voz reverberava por todo o meu ser, livrando-me de meus temores. Já não percebia nenhuma das sensações que tinha me deixado inquieto. O vento já não era tão gelado e os rangidos já não aconteciam mais. O cheiro podre fora substituído por um delicioso e suave aroma de flores.

― Quem está ai? - perguntei calmamente.

― Aiko, meu senhor – ela falou de forma afável - Asuka-sama pediu que eu o acompanhasse por esta noite.

Aiko era uma doce jovem esforçada e talvez uma das gueixas mais requisitadas da casa. Ela era uma das poucas gueixas que tinha uma habilidade musical digna de uma Okyia de uma cidade maior; como Ryoko Owari. Ela seria uma boa adição à Canção dos beija-flores, depois que estivesse em posse de meu pai. Claro que eu achava um exagero de Asuka-san quando ela me falou do suposto talento daquela menina, mas depois de ouvi-la tocar fiquei admirado com sua performance.

De fato, aquela menina merecia uma oportunidade que infelizmente até aquele dia ainda não lhe tinha chegado. Talvez meu pai tenha ignorado os apelos de Asuka-san ao falar daquela menina, mas agora que eu estava aqui as coisas poderiam mudar para ela. Sua música e sua voz eram de fato dignas de estarem em um lugar melhor que aquele. Não estou, de forma alguma, desmerecendo o trabalho de Asuka-san em gerir aquela Okyia, era fato que a Mãe tinha feito um trabalho maravilhoso, levando em consideração o estado atual daquela vila, mas a menina merecia coisa melhor.

Restava saber a sua aparência. Entenda que não quero desmerecer as pessoas feias, mas sejamos sinceros. Você iria até uma Okyia que tivesse gueixas feias? Certamente que não, e eu também não iria. Claro que com o trabalho de uma boa maquiadora poderia esconder a falta de simetria de um rosto, mas colocar gueixas e Hokans bonitos seria muito melhor. Seria muito trabalhoso e o gasto excessivo poderia não dar um retorno tão grande para a Okiya. É claro que eu confiava no trabalho de Asuka-san, ela não é nenhuma novata no ramo, mas eu precisava de algo além de fé para basear-me ou eu cometeria erros irreparáveis.

Mesmo que eu usasse minha visão agora, eu não teria uma visão tão clara do rosto dela; eu precisava de uma opinião imparcial sobre o assunto. Para a minha sorte, eu tinha alguém junto a mim que poderia ajudar-me a ter certeza. Pedi que Mayuu fosse chamada ao meu quarto e que viesse assim que estivesse confortável de fazê-lo. O jantar então foi servido, duas outras servas da casa trouxeram-me um prato digno de uma Okiya de primeira classe. Sushi. Sinceramente, eu fui pego de surpresa. Não esperava haver um artista naquele lugar.

Qual o problema jovem? Ah, você acha estranho eu ter chamado um “cozinheiro” de sushi de artista? Bem, não é mentira, afinal fazer sushi é uma Arte que envolve uma técnica que não é para qualquer um. Dominá-la exige uma quantidade boa de talento e determinação, e não são todos que são aceitos pelo sensei que ensina as técnicas. Por isso, fiquei surpreso em encontrar um Artista nessa pequena vila. Obviamente que não é porque ele conseguiu dominar a técnica que seu sushi seja bom, tudo envolve habilidade pessoal; por isso falei que é necessário talento além de determinação.

Caso você já tenha comido sushi em vários lugares você deve notar a diferença entre eles. Comida não é sempre a mesma, chefes diferentes fazem comida diferente mesmo que a receita seja a mesma. Uma boa comida depende, além de ingredientes de qualidade, um chefe de qualidade, habilidoso e rígido em seus fundamentos. Rígido para oferecer o mínimo de qualidade às pessoas que comerão seus pratos e não no próprio aprendizado. Cozinhar é uma Arte, assim afirma Kaito, meu cunhado. Para ele, a Arte deve estar sempre em constante aperfeiçoamento e um chefe jamais deve pensar que chegou em seu limite, pois quando pensar assim sua comida perderá o sabor.

O sabor daquela refeição era razoável, nada surpreendente como um todo. Posso, no entanto, falar do acompanhamento; uma bebida bem incomum para meu paladar. Era alcoólico, o que me fez gostar um pouco mais dela, mas tinha um sabor totalmente novo. Era feito de morango e se eu não me engano o nome era “Vinho”. Confesso que foi um nome estranho para mim, mas a doçura dele fez a estranheza passar. Era diferente de saquê, seu gosto era muito mais suave e doce, o que equilibrava muito bem com o sushi que eu estava comendo.

Claro que parando para analisar isso só acontecia porque o sushi daquela noite havia sido feito especialmente para ser apreciado com aquele sabor. Essa combinação deixava o gosto da comida muito melhor. A música também ajudou muito naquele momento; pelo menos naquele instante eu consegui esquecer completamente o sentimento desconfortante que estava martelando na minha mente.

Eu não conseguia explicar o que tinha sentido alguns momentos antes, quando eu estava sozinho naquele quarto. Pareceu muito real para ser apenas um sonho acordado. Talvez fosse melhor esquecer, mas de alguma forma, bem lá no fundo, eu sabia que não seria possível simplesmente esquecer. Eu precisava saber o que estava acontecendo, pois aquilo poderia ser o que estava afetando toda a vila. De alguma forma eu podia sentir que havia algo por trás de tudo aquilo; algo ou alguém puxando as cortas daquilo que estava consumindo a vila em uma valsa degradante de peste e loucura.

Loucura, pois, se o que aconteceu comigo aconteceu com pessoas comuns, aquelas pessoas já não estariam completamente sãs. Se eu que sou alguém treinado ainda estou abalado com o que aconteceu, eu temo pelas pessoas mais fracas de espírito que passaram pelo mesmo. Em meio aos meus pensamentos, a música continuou me forçando a esquecer aquilo que me afligia. Cheguei, por um momento, o que para mim foi mais que o bastante, a relaxar.

Mayuu entrou no quarto algum tempo depois que eu já havia terminado de jantar. Ela parecia levemente aborrecida por estar sendo incomodada àquela hora por mim, mas não falou nada. Ela já havia comido antes de vir até mim; precisava dar-lhe alguma coisa para desculpar-me pelo inconveniente. Quando apresentei meu pedido Mayuu ficou inicialmente em choque e depois, apenas por um segundo eu notei uma pequena irritação em sua voz; talvez fosse minha imaginação.

Ela comentou que a menina em questão era bela o bastante ao seu ver. Ela tinha o rosto um pouco redondo, mas nada que iria afetar desde que o problema fosse resolvido. Seus olhos eram bonitos e pareciam duas pérolas negras. Seu nariz era levemente fino e arrebitado. O sorriso que ela fazia ao cantar iluminava bem o seu rosto, demonstrando o quanto era apaixonada por aquilo, e por ter lábios tão finos e delicados o seu sorriso era o que fazia toda a sua beleza aflorar.

Fiquei impressionado com os comentários de Mayuu, ela tinha pegado em pontos bem específicos para uma boa descrição; ela pareceu-me forçada a fazer isso, é claro. Devo desculpar-me com ela pelo inconveniente assim que possível, preciso descobrir que tipo de cosias ela gosta para poder aproximar-me com um devido pedido de desculpas. Isso é o mínimo aceitável. Pedi que minha sobrinha me acompanhasse um pouco mais antes de nos separarmos para dormir. Amanhã o dia seria longo e precisaríamos de um bom descanso para aguentar o próximo dia. Perguntei o que ela tinha achado à primeira vista da cidade e aparentemente sua visão geral não era tão diferente da minha, o que é claro, foi um alívio para mim. Nada pior que descobrir que a fonte de meus receios atuais eram nada mais que mera imaginação.

Mayuu disse que fisicamente não havia nada de errado com a cidade. Além de vários pequenos animais que pareciam verdadeiras pragas; nada muito alarmante, no entanto. Ela disse ter visto morcegos voando para todos os lados, mas de alguma forma pareciam evitar entrar aos montes na vila, além disso, pode ver pequenos vultos rápidos como flechas entrando por pequenas brechas escuras e apertadas das casas comuns. Havia também uma pequena quantidade de moscas passando em alguns corredores imundos.

Claro que sendo dito dessa forma você pode achar algo muito ruim, mas lembre-se que aquele lugar era uma vila muito pequena no meio de um bosque. Insetos e animais como aqueles são comuns. Claro que a sua quantidade pode vir a ser algo incômodo, mas esse problema seria fácil de resolver.

Fora isso a cidade era bem comum. As casas eram relativamente bem cuidadas e a cidade no geral era bem limpa. As ruas eram bem tratadas e não havia lixo espalhado ou jogado pelo chão. O zelo com o próprio território era algo padrão para um senhor. Para um próprio senhor de uma casa isso era importante, pois assim como dizia as sábias palavras de Akodo: “Uma casa é como um pedaço da alma de um Samurai”, creio que essas palavras sejam dele, mas mesmo que não, isso não importa; essas palavras querem dizer que você pode saber muito sobre o senhor de um lugar tendo como base a forma como ele trata seu próprio ambiente.

Dito isso, ainda havia algo estranho naquela cidade. Para Mayuu, assim como para mim, aquilo era muito mais uma impressão que qualquer outra coisa, mas para a menina aquilo parecia muito mais sério. Ela disse que ao entrar em contato com os kamis, os pequenos deuses lhe revelaram um comportamento muito inquieto. Não havia um motivo certo para isso, os próprios kamis não sabiam dizer porque motivos eles estavam daquela forma, mas definitivamente havia algo ali. Uma força desconhecida que parecia brincar com todas as coisas vivas.

Os kamis pediram para dar um jeito naquela força, seja lá o que ela fosse, pois mesmo que quisessem eles não poderiam interferir. Acho que entendo o que isso quer dizer, mesmo que para você possa ser um pouco estranho. Os kamis são forças da natureza e devem agir como tal; de fato eles poderiam estar incomodados e poderiam querer fazer algo a respeito da situação, mas eles não poderiam fazer sozinhos. Forças da natureza devem agir como o próprio nome diz. Quando um shugenja pede pela intervenção dos kamis eles podem de fato interferir na ordem natural, porque tal interferência não será definitiva.

Mesmo os kamis mais agressivos como os kamis do fogo, que têm o poder para destruir, não tornam sua destruição algo definitivo. Mesmo quando seu poder é invocado para destruir uma vida. Segundo os mestres shugenjas, a vida é um grande ciclo, aquilo que morre um dia volta a vida de uma forma completamente diferente. Isso, é claro, não quer dizer que shugenjas devam ser usados como assassinos, pois de certa forma essas pessoas também se tornam elementos da natureza. Seus poderes são usados normalmente e principalmente pelo bem maior e não pelo egoísmo de engrandecer a si mesmos.

Em resumo, os kamis não podem interferir por eles mesmos na ordem natural, mas podem se assim lhe for pedido por um shugenja. Os pequenos deuses detestam as pessoas com a maldade em seu cerne, e assim vem sendo desde o início das Eras. Você pode estar se perguntando como existem shugenjas Escorpiões, então, isso é fácil de responder; nós não somos maus e os adoráveis kamis sabem disso. Escorpiões fazem apenas o que é necessário, somos egoístas sim, mas nosso egoísmo não é apenas para deixar nosso Clã mais poderoso. Nós somos a mão oculta do Imperador, assim tem sido desde Hantei primeiro e assim será até o dia que o Império se tornar poeira.

Você acha que eu estou sendo muito pessimista ao dizer isso? Eu deveria dizer que você é muito tolo ou apenas inocente demais para achar o contrário. Entenda meu jovem, nada nesse mundo enorme e inexplorado para nossa sociedade Rokugani é definitivo, nem mesmo a areia sobre os seus pés será sempre a mesma. Tudo é mutável e tudo é destrutível. Algo só é indestrutível porque não foi encontrado uma forma de ser destruído, nada mais.

Havia um outro problema que gerou preocupação até mesmo em mim; mesmo que eu não soubesse o quanto isso era ruim eu poderia entender que se algo assim aconteceu, a situação não era das melhores. Os kamis pareciam cansados e fracos. Mayuu teve que explicar o que isso significava para mim, pois como eu disse, eu não entendia sobre o assunto. Normalmente os kamis estariam dessa forma por dois motivos e um não excluía o outro, apenas piorava o problema.

O primeiro motivo seria a utilização de uma Prece muito poderosa. Feitiços tão poderosos que poderiam ser capazes de abalar a estrutura da realidade. Mayuu já havia estudado um feitiço como esse antes; obviamente ela não sabia usar tal feitiço, mas conhecer é uma ótima maneira de aprender. Quando a Prece correta era feita, uma rajada descomunal de fogo seria liberada contra o alvo e dificilmente alguma coisa viva poderia suportar tamanho poder. Depois que o feitiço fosse lançado, os kamis de fogo ficariam muito agitados por algum tempo; fontes de fogo como fogueiras ou tochas ficariam mais agressivas, mas depois de um tempo os kamis ficariam exauridos e não teriam forças para auxiliar novamente por um curto espaço de tempo.

O segundo motivo seria, assim como o primeiro, uma influência externa aos próprios kamis, mas algo muito pior dessa vez. Seria a interferência da mácula. Não é que a mácula enfraqueça os kamis, mas o conjunto dela faz isso. Nas terras sombrias, como os Caranguejos costumam chamar, os kamis estão a todo tempo exauridos e são muito mais raros, pois os pequenos deuses evitam aquele lugar maldito. A corrupção daquelas terras enoja os kamis e as pessoas que são influenciadas por tais forças malignas são evitadas por eles.

Infelizmente, nenhum desses dois motivos pareciam encaixar bem. Não havia, entretanto, segundo Mayuu, a mesma sensação naquela vila que as terras sombrias passavam. Ela não havia como explicar de uma forma para alguém que nunca pisou naquele lugar pudesse entender, e preferi não a forçar a isto. Além do que, não havia nenhum boato sobre um acontecimento tão estranho, nessa área, quanto um pilar de fogo destruindo alguma coisa, esse tipo de história voaria pelas terras Escorpiãs facilmente.

Mayuu expressou sua preocupação com aquele pedido dos kamis; ela entendia o motivo, mas não havia como ajudar. Os kamis do vento não lhe sussurram nada que pudesse parecer errado, e mesmo os kamis da terra estavam incertos. Tudo que ambos diziam com convicção era que as pessoas naquele lugar estavam sofrendo muito mais do que poderiam suportar, e que logo não haveria mais quem pudesse suportar o que quer que fosse.

Aquelas palavras martelaram em minha cabeça pelo resto da noite. Fui dormir preocupado primeiro com a nossa própria segurança e com a de todos os que estavam envolvidos. Resolvi resguardar-me com o que eu tinha sentido antes, não deveria estar preocupando alguém tão jovem, além do que ela já estava. Mayuu ainda era apenas uma criança e me doía a envolver em algo tão perigoso como o que eu tinha nas mãos. Talvez fosse melhor eu a enviar de volta para casa para a manter segura, mas eu sei que ela não iria aceitar de bom grado.

Seria um tapa na cara de meu pai também. Mayuu havia sido enviada com um propósito. Envia-la de volta para casa naquele momento seria uma vergonha para o meu pai. Bem, eu devo admitir que fazê-lo passar vergonha quase me fez continuar seguindo esse meu desejo, mas eu decidi que precisava de Mayuu ali. Eu não era um shugenja, e o auxílio de um invocador de deuses poderia vir muito a calhar quando o momento pedisse.

Na manhã seguinte, fui acordado por passos vindo na direção de meu quarto. Verifiquei se minha espada ainda estava ao meu lado, no lugar em que eu havia a colocado na noite anterior e isso encheu-me de alívio. Uma voz suave veio do outro lado da parede de papel; Asuka-san acordou-me pedindo desculpas e disse que algumas pessoas vieram convidar-me a ter com a chefe da vila. Preparei-me para sair, por precaução eu levei todas as minhas ferramentas e deixei o resto de minha bagagem na Pétalas dançantes.

Mayuu demorou um pouco mais para aparecer no hall de entrada, aonde haviam dois guardas esperando por nós. Foi dito que Sayo-san havia ficado ciente de nossa chegada na noite anterior, mas que preferiu não nos convocar por achar que estaríamos cansados da viagem. Os guardas foram muito desdenhosos com nossa presença, mas absteram-se de fazer qualquer tipo de comentário que poderiam coloca-los em maus lençóis. Eu estava ali como um Magistrado, afinal minha posição social estava muito mais alta que a deles e um comentário errado poderia complicá-los.

A vila não era tão movimentada quanto eu achei que seria. Ruma era conhecida na região como um ponto para as mulheres, onde poderiam comprar boas maquiagens, para o uso diário, e pelos bons perfumes que eram produzidos aqui. A vila, no entanto, mesmo durante o dia, era meio morta. Havia um ou outro heimin transportando caixas ou limpando as ruas, mas fora isso tudo era pacífico, pacífico demais, até.

Os guardas levaram Mayuu e eu até a mansão da chefe da vila. A casa ficava à alguns metros da hospedaria, não demoramos muito para chegar. Havia uma brisa agradável vindo naquela direção. Não havia notado tal brisa na noite anterior, pois o próprio ar pareceu-me meio morto naquele momento. Talvez com os sentidos sendo tão estimulados pela estranheza que o lugar passa, fizeram uma brisa tão deliciosa passar despercebida.

O vento trazia consigo o frescor e aroma de diversos tipos de flores. Era um cheiro doce e suave de uma mescla única de vários tipos de flores que junto à umidade daquele pequeno e límpido lado, por trás da mansão, davam um sabor único ao vento. Próximo à mansão não haviam casas nem construções, e talvez por esse motivo o ar aqui corria de forma mais natural. Era como um pequeno campo aberto. Ao lado da mansão ficava um grande canteiro onde eram cultivados vários tipos de flores. Aquelas deveriam ser usadas para criar os perfumes e as maquiagens, que faziam dessa vila tão importante para meu pai.

A mansão era muito simples para eu perder meu tempo detalhando como ela era. Eu não podia esperar mais de uma pequena vila. Era bem arrumada e com bons móveis, afinal um senhor deveria demonstrar pelo menos um pouco de dignidade quanto a própria casa. Fomos guiados até a sala onde Sayo-san já estava nos aguardando. Ela parecia um pouco zangada e impaciente, mas não deixou de ser cortês por isso. Algumas pessoas deveriam aprender com aquela mulher a portar-se ou a tratar melhor as visitas, certo?

― Bem-vindos à Ruma – ela disse no tom mais brando e caloroso que pode – fico feliz por Soichiro-sama ter enviado alguém para tentar ajudar minha filha.

Aquilo não era uma mentira, mas devo dizer que algo me incomodava em sua fala. Ela parecia bem forçada a dizer aquilo, como devo dizer, sua felicidade parecia muito forçada, fingida. Isso não era apenas uma impressão minha, era a verdade. Talvez a demora de resposta de meu pai tenha sido lenta? Impossível, não fazia nem três dias que ele tinha recebido a carta pedindo por ajuda, algo não cheirava bem nessa vila.

― Pode ser um pouco tarde para as apresentações, mas eu chamo-me Shosuro Ichijou, filho de Shosuro Shoichiro – falei em um calmo como um sorriso – essa ao meu lado é Soshi Mayuu, minha adorável sobrinha.

Mayuu curvou-se longamente apresentando-se para Sayo-san que parecia ter uma barreira ao seu redor protegendo de qualquer tentativa nossa de nos aproximarmos. Eu não poderia e nem deveria culpa-la por uma atitude tão fria de sua parte. Uma de suas preciosas filhas estava doente com uma doença até agora desconhecida, e só as Fortunas poderiam saber o que aquela pobre mulher estava passando até aquele momento.

― Devo agradecer suas boas vindas, Sayo-san – disse curvando-me levemente para ela – e desculpar-me pela demora em responder. Posso estar sendo apressado, mas poderia levar-nos até sua filha doente?

― Não é problema nenhum – ela disse seca – mas nenhum médico pareceu saber o que estava tentando tratar.

― Não será nenhum problema – disse com um sorriso – minha pequena sobrinha é uma invocadora de kamis, ela deve conseguir identificar a fonte do problema, certo, Mayuu-san?

― Não deve ser nenhum problema – Mayuu disse de uma forma muito fria, provavelmente ela não gostava de ser tratada daquela forma.

Aquela deveria ter sido a primeira expressão boa que consegui de Sayo-san naquele dia e talvez a última. Ela ficou verdadeiramente surpresa quando disse que Mayuu era uma shugenja e seu coração tremeu com a notícia. Mayuu agora era a esperança de sua filha ficar melhor e da suposta doença deixar de ser um problema até mesmo para a Vila. Shugenjas são raros de encontrar no império, não é qualquer um que consegue ter afinidade para as técnicas envolvidas, mas sua raridade são uma prova de quão incríveis são estas pessoas.

― Devo escrever uma carta para Soichiro-sama agradecendo por tamanha consideração – ela disse curvando-se e poderia até haver uma menção de lágrima no canto de seus olhos – agradeço também à pequena shugenja por dignar-se a prestar tamanho favor para minha família.

― Pare, não há motivos para agradecer ainda – Mayuu disse com a voz trêmula – salvar pessoas que precisam deve ser algo natural para um Samurai.

Realmente, salvar aqueles que precisam é o básico, afinal Jin, Compaixão, do bushido é algo que todo Samurai deve ter. Teoricamente todo Samurai e todo Clã se presta aplica a Compaixão. Os Escorpiões, pode ser uma surpresa para você, é um dos Clãs que o aplicam, afinal àqueles inferiores sempre têm suas utilidades. Creio que o Clã que realmente é compassivo porque é de sua natureza seja o Clã Fênix; é tido que a Fênix ensina o Tao Shinsei para os de menor posição social, pois eles acreditam que a proteção espiritual, que o Tao oferece, é tão importante quanto a proteção física.

― Suas palavras são reconfortantes, jovem senhorita – Sayo disse curvando-se para ela – eu os guiarei até minha filha, por aqui.

Por Yamimura | 24/03/19 às 12:34 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror