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Memória 34 - Doença.

Lagrimas de Jade (LJ)

Memória 34 - Doença.

Daidoji Kamia um velho rival de Soichiro. Esse abutre já fez todo o tipo de coisa para tomar o que meu pai já conquistou. Minha mãe estava nessa lista até que ela descobriu e foi der uma conversa de mulher para verme com o infeliz. Lembro-me que meu pai estava deveras feliz naquele dia, não sei se porque minha mãe disse que preferia meu pai ou pelo prejuízo que ela causou aos cofres de seu inimigo, tudo o que lembro é que meu pai a encheu de presentes quando ela retornou.

De alguma forma Kamia deve ter descoberto sobre os perfumes que Ruma produz exclusivamente para meu pai e resolveu que deveria possuí-los no lugar dele. Eu não duvido, na verdade eu tenho certeza, que aquele crápula tenha envolvimento com a falta de contato entre Soichiro e Sayo-san. Se isso for verdade há apenas duas possibilidades ou Hideki está morto ou ele nos traiu e espero profundamente que seja a primeira opção ou teremos que demonstrar um pouco do nosso amor para ele.

― Quando ele veio vê-la Sayo-san? – perguntei.

― Ele não veio pessoalmente na primeira vez – ela disse – mandou uma serva entregar um presente. Eu não poderia receber um inimigo de Soichiro-san, mas depois que fiquei desamparada com os problemas da vila ele estendeu a mão para mim. Mandou alguns curandeiros para tentar resolver o problema e chegou até a vir pessoalmente, mas não teve nenhum resultado.

― Se o que me contas é verdade então achar que ele está envolvido com a doença seria errado – comentei.

― Ele podia estar envolvido? – Sayo-san pergunto assustada.

― Vindo daquele homem eu não duvidaria que fosse verdade – respondi – porém se fosse o caso ele conseguiria resolver o problema facilmente. A senhora e o que faz são muito importantes para Soichiro, Sayo-san nunca se esqueça disso quando estiver tratando com outras pessoas.

― Entendo – ela disse cabisbaixa – mas se ele não está envolvido com a doença como você enxerga seu envolvimento?

― Pense um pouco Sayo-san – respondi com um sorriso e outra pergunta – como ele poderia fazer uma intriga surgir entre a senhora e Soichiro?

Sayo-san ficou pensativa ela não parecia conseguir pensar em nada. Uma pena, era muito simples imaginar o que poderia ser. O jovem que estava com ela havia estado calado todo o tempo durante a conversa, mas dessa vez ele resolveu interferir pela primeira vez.

― As mensagens? – ouvi a voz do rapaz e virei a cabeça na direção dele, ele parecia um pouco inseguro do que estava falando, mas teve coragem de perguntar.

― O que o faz pensar assim? – perguntei.

― Minha tia é muito fiel a Soichiro-sama, eu posso dizer isso pelo tanto que ela fala dele – ela falou seguro de suas palavras – a primeira coisa a se fazer para se aproximar dela deveria ser abalar essa fidelidade e a melhor forma de fazer isso seria fazendo ela duvidar da importância que ela tem para ele.

― Nada mau – comentei com um sorriso – qual o seu nome?

― Mirumoto Takeshi é um prazer conhecê-lo – o rapaz respondeu um pouco nervoso.

― Shosuro Ichijou, digo o mesmo – respondi – é bom encontra um jovem promissor, presumo que seja você que irá me acompanhar pela vila.

― Sim, será um prazer acompanhá-lo Ichijou-san – ele disse curvando-se para mim.

― Agora que as duvidas foram sancionadas eu irei dirigir-me até a vila para investigar melhor os desaparecimentos – disse virando-me para Sayo-san – por favor me informe se houver alguma melhora.

― Sim – Sayo-san disse curvando-se para mim – deixe-me agradece-lo mais uma vez por ajudar minha filha e por abrir meus olhos para a situação.

― Deixe disso Sayo-san – respondi – eu que fico feliz por esse assunto ser resolvido sem maiores problemas.

Saímos do quarto e Takeshi-san me ajudou guiando-me para a saída da mansão. A vila estava um pouco mais movimentada agora, pelo que Takeshi-san contou havia alguns visitantes de outras vilas. Eles queriam comprar os produtos de sua tia dado sua fama. Havia também alguns vendedores ambulantes oferecendo todo tipo de coisa. Alguns ofereciam vinagre, o cheiro era bem desagradável se você quer minha opinião. Havia também um ou outro que vendiam remédios, posso dizer que a maioria vendia esse tipo de produto.

Talvez tenham ouvido os boatos sobre as pessoas doentes naquela vila e resolveram vir ate ela para ganhar uns trocados a mais. Ninguém em sã consciência confiaria nesse tipo de gente, a maioria são charlatões que vendem água misturada com sabe-se lá o que. Tudo apenas para ganhar mais dinheiro as custas de pessoas desesperadas e naquela vila havia várias dessas pessoas. Ninguém sabia do que se tratava a doença, havia muitas pessoas desacreditadas. A vila agora era o palco para enganadores brilharem e saírem lucrando.

Havia um pequeno grupo de pessoas ouvindo atentamente o vendedor que dizia ser o único a vender um poderoso elixir que curaria qualquer doença. Aquilo não me dizia respeito então apenas dei de ombros e parei um transeunte qualquer. Perguntei-lhe se ele conhecia alguma das pessoas que estavam doentes. O homem curvou-se longamente para nós dois e apontou para uma casa ali perto. Segundo ele seu amigo estava com problemas de saúde já há alguns dias. Agradeci-o pela informação e rumei em direção à casa que foi apontada.

No caminho parei em uma pequena barraca de frutas e comprei dois pêssegos. Paguei por eles e pedi pela ajuda de Takeshi-san. O rapaz escolheu os dois melhores que encontrou e ainda assim estava maduros demais. Comi um com certo desgosto, era doce, mas não havia nenhuma suculência, parecia até que eu estava comendo uma fruta feita de massa. Controlei-me para não voltar até a barraca o pobre homem provavelmente nem deveria ter culpa. Guardei o segundo pêssego para jogá-lo fora mais tarde. Sim eu sei é um desperdício, mas eu não iria comer algo tão ruim daquele jeito.

Paramos a frente da casa e chamamos à porta. Um menino veio nos recebe. Ele tinha cabelos curtos e bagunçados e olhos curiosos. O menino não parecia entender bem quem nós erámos, não deveria ter nem mais que seis anos, ainda não tinha sido educado corretamente por seus pais. Para ele nós éramos apenas dois homens grandes e com roupas bem mais novas e limpas que as dele. Takeshi-san estranhou o menino que ficou apenas parado nos olhando, mas para mim aquilo estava dentro da normalidade.

Uma mulher veio em seguida e quando nos viu ficou pálida ela jogou-se ao chão de joelhos segurando a cabeça do menino contra o chão pedindo por misericórdia para o seu filho. Ela tremia pelo medo e com muita razão. Não são todos, mas os Samurais têm um ego que pode ser facilmente ferido por algo tão simples quanto uma reverencia. Quando alguém de nível inferior encontrar alguém acima, socialmente, sua primeira reação deve ser reverenciar de forma adequada ou estará insultando o outro. Samurais não costumam levar muito bem esse tipo de comportamento, para outro Samurai o máximo que irá acontecer e levar uma advertência e até mesmo boatos podem surgir, mas para um heimin isso pode levar a morte.

Hemins são a população mais abundante no Império, no entanto suas vidas estão nas mãos do Samurai. Nós temos o direito de matar um heimin sem nenhum problema maior. Nós somos nobres e eles apenas servos, quem iria nos punir por acabar com a vida de um ser insolente? É fato que o bushidô condena pessoas que tenham esse tipo de ato, pois a compaixão é uma das virtudes do Caminho do Guerreiro, mas isso é tudo que acontecerá com um Samurai, levar uma advertência ou ter sua Honra questionada.

Eu posso até entender que muitos Samurais valorizam bastante pela própria honra, mais até que suas próprias vidas, mas quando a única punição é algo tão superficial quanto ficar desonrado para mim isso é banal.

― Está tudo bem mulher – falei para a tranquilizar – levante sua cabeça. Apenas eduque corretamente sua criança, outros podem não ter uma atitude como a minha.

― Muito obrigado, meu senhor – a mulher disse aliviada – o que trás nobres Samurais a minha humilde casa?

― Ficamos sabendo da condição do seu marido – Takeshi-san falou – gostaríamos de vê-lo.

 A mulher nos olhou com um brilho de esperança, outros já haviam abandonado seu marido entregando-o a própria sorte para morrer agonizando ou sobreviver depois de muito sofrimento.  Aqueles dois homens, no entanto, pareciam querer salva-lo ou pelo menos tentar e isso já era mais que o suficiente para aquela pobre mulher. Senti um cheiro salgado no ar e ouvi quando ela curvou-se abraçando as próprias roupas. Ela tremia e soluçava diversos agradecimentos.

Toquei-lhe no ombro e lhe dei um sorriso. O cheiro salgado apenas ficou mais forte enquanto ela me olhava. Seus olhos estavam marejados e inchados pelas lágrimas. Provavelmente ela já havia chorado muitas vezes nesses dias que seu marido estava incapacitado. Tudo indicava sua morte, quem iria culpá-la de estar sentindo tanta dor? Você? Continuei a prestar atenção nela e entre meus dedos percebi que ela estava magra, provavelmente fazia alguns dias que não comia, talvez pela preocupação com seu parceiro ou simplesmente por não ter o que comer. Sem alguém para trabalhar naquela casa ela logo entraria em colapso.

A ela dei todo o tempo que precisava para recuperar-se do choque, se é que posso falar assim. Takeshi-san já estava ficando impaciente por estar demorando tanto, mas não fez nada em consideração a mim, o que fico bastante agradecido. Como a mulher faria tudo o que eu pedia eu preferia tratá-la da melhor maneira possível, ainda são humanos, por que eu deveria tratar um humano, mesmo que inferior a mim como um animal? Creio que passei muito tempo com minha mãe e seus ensinamentos sobre Compaixão. Eu, é claro, não vejo nada de ruim nisso, prestar um pouco de compaixão pelos inferiores os fazem trabalhar com muito mais entusiasmo e dedicação. Ao meu ver estou no lucro aqui.

A mulher nos levou até o quarto. O cheiro naquele pequeno quarto era muito forte. O homem ali não tomava banho há alguns dias, pois as dores em seu corpo eram grandes demais para aguentar até ficar sentado. Seu coração batia fraco, tão lendo que parecia a ponto de parar. Aquele homem não ficaria vivo por muito mais tempo, algo deveria ser feito o mais rápido possível para salvar sua vida. Aproximei-me cuidadosamente para não acordá-lo, ele havia finalmente conseguido dormir depois de dias em claro, não consigo nem mesmo imaginar o sofrimento... na verdade eu até consigo. Naomi me fez passar pelo inferno durante o treinamento é claro que eu posso imaginar o quão cansado aquela pobre alma estava.

Takeshi-san, seguindo meus passos, aproximou-se com o máximo de cuidado. Ajoelhei-me ao lado daquele homem e o jovem Dragão do outro de frente para mim. Cuidadosamente eu toquei a pele do paciente e ouvi um barulho estranho que me fez recuar no mesmo momento por medo de feri-lo. Sob meu toque os ossos dele pareciam a ponto de se partir. O som foi tão alto que passei dois segundos em silêncio esperando que alguém comentasse, mas traindo minhas expectativas ninguém o fez. O som foi o mesmo que uma tabua pobre ao ser pisada, um gemido baixo muito próximo ao de madeira seguido por o seco som de madeira sendo partido.

― Você não ouviu isso? – perguntei em um sussurro.

― Isso o quê? – Takeshi perguntou confuso.

― Os ossos dele partindo-se quando toquei – comentei.

― Eu não ouvi nada, Ichijou-san – ele disse ainda mais confuso – o senhor deve estar ouvido coisas.

― Espero que seja verdade – falei.

Virei-me novamente para o homem e passei a mão pelo braço do mesmo. Ele estava tão magro quanto a sua mulher, ele não estava alimentando-se direito. Quando questionada sobre isso ela falou que estava evitando o máximo possível alimentá-lo. Tudo que ele conseguia comer sem problemas era um mingau de arroz bem fino, mas estava com problemas para continuar, pois não tinha dinheiro o bastante agora que seu marido havia parado de trabalhar.

Quando ele comia comidas mais pesadas que mingau ele normalmente se engasgaria. Quando aconteceu a primeira vez e o esmo quase morreu engasgado a mulher teve que recorrer a algo bem mais leve para tentar pelo menos o manter nutrido.

― O estado dele não é bom – falei calmamente – apenas mingau não é o bastante para mantê-lo nutrido, desse jeito se a doença não o matar a fome irá. Seu corpo ficou muito magro provavelmente pela falta de comida com nutrição o bastante.

― Então não podemos fazer nada por ele? – Takeshi perguntou.

― Encontrar o motivo da doença seria uma ótima ajuda – comentei.

― Isso é muito vago Ichijou-san – ele disse.

De fato, mas não havia muito o que fazer. Ele não resistiria mais muito tempo estando fraco daquele jeito e com a falta de comida naquela casa a sua chance de recuperação seria quase nula. Quando andei pela vila eu notei que provavelmente os outros heimins estavam na mesma situação. Muitos murmúrios podiam ser ouvidos para todos os lados. Reclamações e os prantos de pessoas morrendo de fome. Podia sentir por entre meus dedos suas barrigas vazias e clamando por um pouco de arroz.

Quando pensei sobre isso eu vi o problema. Em nossa cultura havia apenas arroz como base culinária, em geral os Rokuganis comiam arroz no café da manha, almoço e jantar. Tendo isso como base podemos dizer que ficamos totalmente a mercê da produção de arroz do Clã Garça, sem a produção deles o Império passaria fome, claro que isso era um exagero de minha parte, mas não ficava muito longe da verdade. Preciso apresentar a meu pai essa minha ideia delirante e buscar uma contramedida ficar nas mãos de apenas um Clã seria um erro fatal e nos levaria à ruina.

Enquanto eu pensava as pessoas dentro do recinto olhavam para mim nervosas. A família daquele homem ainda tinha esperanças no que poderíamos fazer para salvá-lo, eles estavam em estado de negação e provavelmente ignoraram o que havia sido falado mais cedo. Minha mente explanou o problema um pouco mais a fundo e houve apenas uma ideia que poderia ser aplicada, mas creio que dificilmente daria algum resultado. Eu deveria falar com meu pai, talvez ele pudesse mandar alguns mantimentos pelo menos para suprir as necessidades básicas da vila até que o problema fosse resolvido.

― Existe uma forma – eu falei – pelo menos de conseguir comida para fazer a vila resistir um pouco mais, seria difícil, mas não custa nada tentar.

― E o que o senhor faria? – Takeshi perguntou.

― Precisarei enviar uma carta a meu pai – suspirei – se o problema da comida vai ser resolvida ou nem agora depende apenas de mim. Preciso voltar até a mansão e pegar meu material de escrita.

― Precisa que eu vá com você? – Takeshi perguntou.

― Não acho que seja necessário – respondi – ei menino, você conhece outras pessoas que estão doentes como o seu pai?

Ouvi um solavanco vindo da minha direita e um pequeno coração que disparou quando foi chamado. Talvez depois de ser repreendido por sua mãe o garoto ficou mais receoso de falar conosco. Aguardei um pouco até que ele respondesse, mas não ouvi nada. Takeshi disse que o menino sabia e eu virei-me para ele confuso. “Ele balançou a cabeça?”, perguntei e o meu parceiro disse que sim. Não consegui conter a risada, acho que é bem obvio que porque eu sou cego eu não teria como saber de algo assim, mas o menino não tinha culpa.

― Pegue isso e leve meu amigo aqui até a casa de outra pessoa – falei oferecendo o pêssego que havia comprado, fazer isso seria melhor que jogar fora pelo menos – e depois disso me espere no centro da vila naquele poço. Quando me avistar fale comigo entendeu?

― Sim senhor – o menino falou hesitante e nervoso.

Entreguei-lhe o pêssego e sai da casa. Ouvi quando Takeshi falou com o menino de para onde iriam enquanto ele comia alegremente a fruta que eu havia lhe dado. Rumei para a mansão de Sayo-san prestando sempre atenção aos ânimos da vila. Havia de fato muitas pessoas reclamando das condições e os problemas que a Ruma estava passando naquele momento. A produção de alimentos estava caindo justamente por não haver pessoas o suficiente para trabalhar e mesmo os outros produtos estavam em queda.

Alguns comerciantes estavam reclamando em um canto sobre as poucas vendas que tiveram desde que chegaram ali e os recém-chegados não estavam tão animados quanto deveriam estar. Eu estava começando a ficar preocupado com o que poderia acontecer com a própria vila se aquilo continuasse. Creio que o único comerciante que estava muito satisfeito com as próprias vendas era o charlatão que vendia os medicamentos. Obvio que em um lugar passando por um momento tão desesperador alguém como ele se daria bem. Tive que controlar meu novo e a vontade que tinha de desmascarar aquele ser, mas me contive, pois eu tinha outras coisas com o que me preocupar naquele momento.

Parei no meio da praça, lembrei-me que Mayuu estaria muito ocupada no tratamento da filha de Sayo-san, eu não deveria incomodá-la naquele momento. Pensei então em outra pessoa que com certeza me ajudaria e que seria muito mais vantajoso pedir por seu auxilio. Asuka-san seria a pessoa que eu iria incomodar naquele momento. Virei-me em meus próprios calcanhares e fui em direção a hospedaria dela.

Quando lá cheguei fui recebido por um caloroso Bem-vindo de várias gueixas que estavam à porta esperando pelos clientes. Dei um sorriso de volta para elas e pedi que uma delas me guiasse até Asuka-san. Houve uma pequena disputa para saber qual delas me levaria e acabou vitoriosa, depois da pequena troca de palavras entre elas que Aiko-san, aquela que me servira na noite anterior, levar-me-ia ao meu destino.

Asuka-san estava em sua sala particular revendo alguns papéis. Ela parecia muito ocupada e me pareceu um pouco indelicado de minha parte atrapalhar-lhe, mas a situação era urgente demais para esperar. Ela ficou aborrecida ao ser incomodada em meio aos seus afazeres, mas ficou contente em saber que era eu quem estava a atrapalhando. Devo dizer que isso ajudou a suavizar sua reação, mas eu ainda podia sentir a insatisfação em sua voz. Ela convidou-me para entrar, passei pela porta corrediça e sentei-me em uma almofada a frente dela. Foi-me oferecido um pouco de chá que eu aceitei com satisfação.

― O que o trás aqui novamente Ichijou-san? – Asuka perguntou-me.

― Preciso de um grande favor seu – falei enquanto tomava o chá – é algo que merece nossa atenção urgentemente.

― Entendo – ela falou – Aiko nos deixe sozinhos um pouco.

― Não existe necessidade disso, Asuka-san – falei com um sorriso – não é como se fosse um segredo, afinal.

Asuka-san ficou em silêncio por um momento e abriu um sorriso. Ela pareceu entender minhas intenções. Normalmente se pediria para ficar sozinho ao discutir um assunto urgente, mas eu não queria isso naquele momento. Ela poderia supor que o que deveríamos tratar deveria ser espalhado pela vila, afinal que lugar melhor para es espalhar um boato que uma Okiya, o fluxo de pessoas nesse tipo de estabelecimento era muito maior. Asuka-san fez um comentário, mas eu ignorei, pois não era tão importante, era apenas a verdade.

― Preciso enviar uma carta a meu pai com urgência – falei – mas como a senhora deve saber eu não posso escrevê-la sozinho. Devo pedir sua ajuda para a escrever e enviar para meu pai o quanto antes.

― Isso não será um problema – ela comentou – qual o assunto?

― Sobre a fome da vila – falei.

Esse tema parece ter pego ela de surpresa. Seu coração disparou naquele momento. É claro que ela sabia sobre o que eu estava falando e claro que ela sabia o que isso implicava para a vila como um todo. A produção estava baixa e muitas pessoas não estavam conseguindo se recuperar ou menos resistir bem a própria doença por falta de comida. Como a maioria dos servos precisava trabalhar para poder sustentar-se não havia como eles se manterem por muito tempo se não estivessem trabalhando. Ao meu ver, isso é apenas uma suposição minha, muitas das mortes que aconteceram teve como motivo a própria fome que mesmo a doença.

Claro, seria tolo de minha parte negar que a doença teve uma forte influencia nisso, mas a falta de comida estava agravando ainda mais. Asuka-san entendeu meus motivos para ajudar, não havia nenhuma ou quase nenhuma, ao seu ver, empatia em minhas ações. Eu sei, esse pensamento dela era um pouco cruel para comigo, mas eu não podia fazer muito. Claro que eu me importava com a situação daquelas pessoas. Ser um Escorpião não me transformava ou me caracterizava como um monstro, mas havia, é claro, outros motivos por trás daquilo.

― Se esse é o caso, eu irei ajudá-lo – ela falou com um sorriso.

Por Yamimura | 07/04/19 às 10:54 | Ação, Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Drama, Maduro, Horror