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Capítulo 20 - Sozinho

Legado dos Deuses (LDD)

Capítulo 20 - Sozinho

Autor: Amnésia

- Filho.. - Uma voz veio pelo corredor. - Você voltou...

A mulher se segurava na parede do corredor, seus olhos semifechados quase caídos, usava uma tunica cinza limpa, seus cabelos que tinham uma cor negra possuíam alguns fios brancos caídos, a mulher tinha um rosto tão cansado que era impossível descrever o tipo de tortura que ela se apresentava.

Fukai levantou imediatamente, seu coração pesou enquanto ele caminhou um passo de cada vez encarando aquela pessoa que com esforço colocou um sorriso no rosto.

- Mãe...

Sua garganta quase se fechou quando ele disse aquilo. Sua mãe, Amelia Ferio, era conhecida por ser uma das maiores batedoras no auge de sua idade, e ali presente a sua frente, uma carcaça de uma mulher que jamais se apresentou como uma batedora.

Ela fora castigada pela doença que a atingia, mas vendo seu filho são e salvo depois de ter saído, a energia de Amelia dobrou, inconscientemente ela ganhou uma nova força para se colocar de pé.

- Meu filho, que bom que está salvo. - Ela falou parada o deixando se aproximar cada vez mais, ela abriu seus braços e o abraçou com toda a força do mundo. - Eu sabia que você não deixaria nenhuma de nós sozinha.

- Nunca, minha mãe. - Fukai abraçou sua mãe com tanta força quanto podia, ele sempre foi fiel a sua casa, e sua mãe era uma das únicas pessoas capazes de tornar aquele mundo sombrio em um arco-íris claro.

Afagando os cabelos de Fukai, Amelia deu um beijo em sua cabeça e sorriu.

- Eu acredito em você, obrigado por estar de volta. - E o soltou. - Vamos para o quarto, gostaria de saber como conseguiu passar em primeiro lugar. - E seus olhos foram para a cintura onde a bainha de uma espada ainda estava ali, ela sorriu se virando. - Lina, venha também.

A pequena menina seguiu correndo animada, passou Fukai e deu a mão a Amelina, vendo sua mãe de pé, ela não conseguiu não ficar animada, fazia quase uma semana desde que ficara em repouso direto, e isso deixou Lina incomodada.

A força vital de Amelia era fraca, mas ainda ela se mantinha de pé com toda sua força. Sua doença era algo que ninguém conseguiu descobrir a origem, durante muitos anos, Fukai reuniu boa parte dos médicos para pudessem conduzir uma investigação, mas nada foi achado.

Nunca foi falada a Lina sobre a doença verdadeira de sua mãe, apenas Fukai e o Patriarca atual dos Ferio foram conduzidos e alertados.

Amelia era uma das poucas pessoas que não poderia passar dos seus 60 anos por ter algo chamado "Faconoestria", uma doença que atacava perfeitamente os órgãos vitais um por um durante os anos, e com isso caso ela usasse sua energia ou Profundo Poder, seu corpo se gastaria mais e ela morreria mais rápido.

Fukai chorou por 7 dias sozinho isolado de sua casa para que sua família não precisasse ouvir sobre isso.

E depois de anos e anos de repouso, os únicos órgãos que Amelia ainda tinham restando era seu coração, pulmão e rim.

A comida que poderia ingerir era apenas a que Lina podia fazer, sopa com pedaços de frango, legumes e verduras.

Para Lina, cuidar de sua mãe não era uma escolha, mas sim uma obrigação, foi dito a ela que sua mãe estava começando a ficar velha, e com isso seu corpo estava ficando cada vez mais idoso.

Mas a mentira era algo curto, todos dentro da grande família Ferio conheceram Amelia nos seus tempos mais dourados, uma mulher com mais de 100 anos exatos, isso era suficiente para dizer que sua doença não era algo comum.

E como na grande família Ferio havia mais de 100 praticantes e cultivadores com mais de 100 anos, eles adotaram para que ninguém se aproximasse da casa de Amelia por medo de que outros podiam pegar aquela doença.

Fukai era o único que realmente conhecia e também o único que cuidava de sua mãe com dignidade.

Entrando no quarto, os três se sentaram ao chão coberto por um carpete feito de pelo de Ursos Negros, Amelia foi a primeira a se sentar com dificuldade seguida por seus dois filhos, ela sorria feliz por ver suas duas crianças tão grandes.

Fukai a observava calmamente, cada traço do corpo de sua mãe parecia querer cair a qualquer momento, o momento era muito mais que crítico.

- Mãe...

Amelia o mostrou a palma da mão o parando no mesmo momento.

- Filho, parabéns.. - Amelia deu um sorriso largo para ele. - Você passou nos testes do Instituto mais bem remunerado da Seita Calto e também uma das dez mais grandes Instituições de todo o Império, eu fico satisfeita de ter feito um garoto tão bom quanto você.

Fukai não conseguiu dizer nada, as palavras estavam todas agarradas em sua garganta prestes a sair, mas ele se segurava, sua mãe parecia tão feliz, era impossível dizer algo que a incomodasse naquele momento.

- Eu sei que você se sacrificou para ajudar algumas pessoas de outras grandes famílias, você realmente tem um bom coração como seu Grande Irmão. - Ao pronunciar o Grande Irmão o brilho no rosto de Amelia ficou meio obscuro. - Sempre está pensando no bem de toda a sua família, não é?

Sem palavras, o garoto só pôde assentir com uma dor enorme no seu peito.

- Desde o nove anos carregando um fardo maior do que pode carregar, tudo em prol pela sua família, não é? - Amelia foi direta, ela queria ir direto ao ponto antes de poder fazer o que mais queria. - Seus sonhos, suas ideias, sua vida, tudo isso foi tomado por mim, pelo seu pai e pelo seu irmão mais velho...

Fukai abaixou a cabeça ajoelhado indo direto para o chão, ele não podia deixar as lágrimas caírem.

- Eu sei o quanto tem sofrido, meu garoto. - Ela dizia ainda com aquele sorriso no rosto, mesmo que fosse falso, ela ainda o mantinha ali. - Você, a pessoa que tinha tudo para se tornar um dos pilares de todo o mundo, alguém cujo poder poderia ser tão grande quanto qualquer patriarca foi limitado pela sua própria família.

Lina abaixou a cabeça, ela nunca tinha ouvido isso de sua mãe até agora, ela sentia pena de Fukai, ele estava em um estado tão horrível ajoelhado de cabeça no chão.

Todo o peso foi jogado para cima dele com tamanha força e pressão, um garoto de 16 anos foi capaz de suportar tudo isso e de cabeça erguida.

- Me desculpe, mãe.

- Não, eu deveria falar isso, a minha doença não era algo que alguém poderia prever, eu sei disso, todos nós sabemos, mas... você lutou por nós, e ainda está fazendo isso. - Amelia esticou sua mão a frente a pousando sobre a cabeça de Fukai. - Por muitos anos, eu queria ter dito algo a você, e acho que hoje é o dia.

Ainda sem levantar sua cabeça, Fukai lutou para não chorar, um sentimento ruim crescia em torno de si como uma barreira, parecia que algo ruim logo começaria, e de olhos fechados, ele não queria ver nada daquilo.

Amelia esticou sua mão para o lado em direção a uma prateleira, uma caixa veio voando e parou em sua mão, era feita de madeira de formato quadricular com um desenho de dois anéis negros circundavam a tampa.

Destampando a caixa, Amelia colocou a caixa no chão a frente de seus dois filhos.

- Por favor, Fukai, preciso que você olhe para isso.

Fukai ergueu sua cabeça devagar, e encarou aquela caixa, ele engoliu o seco com medo.

- Isso é...?

- Sim, essa é a caixa que seu pai deixou faz quase 13 anos, antes foi a vez do seu irmão, e agora está na sua vez de partir.

Fukai se arrastou desesperado.

- Não, eu não vou deixar isso tudo para trás. - Ele ficou de frente para sua mãe derrubando a pequena caixa para o chão. - E a senhora, e Lina?

Amelia não o respondeu, ao invés disso pegou a caixa caída e recolocou no lugar séria, depois disso olhou para seu filho diretamente nos olhos.

- France foi um grande presente que seu pai nos deu, sabia? - Amelia falou como se conversasse com outra pessoa. - Seu pai me disse que depois dele eu ainda teria dois filhos, um garoto muito bom e uma menina ainda mais preciosa.

Amelia sorriu.

- Ele me disse que o segundo garoto teria algo que outras pessoas não tem, um futuro que poucas pessoas não poderiam ver, ele seria capaz de fazer tudo, mas acima de tudo, ele seria humilde como ele próprio.

Fukai tapou seu rosto chorando.

- Você pode odiar seu pai com todas as suas forças, o chamar de covarde, o bater, o arremessar, mas você herdou o coração e humildade dele, então assim como você não revida contra as pessoas do lado de fora da sua casa, ele não revidaria contra você.

A mão de Fukai apertava mais e mais o seu rosto.

Aquele covarde que foi embora... Como ousa dizer que me pareço com ele?

Como ele tem coragem de dizer que somos parecidos, ele mesmo não está aqui para me dizer isso.

- Sem conhecer a história dele, você nunca poderá o entender perfeitamente, Fukai. - Como se lendo a mente de seu filho, Amelia falou. - Você está cada vez mais afastado do seu objetivo, eu sei o motivo de ter ido se inscrever nos testes de Darey Mason, mas eu não vou aceitar a recompensa.

O corpo de Fukai se aquecia com fervor, era uma situação que nunca esperaria, nem em todos os seus sonhos mais escuros.

Aquilo era uma despedida? Era isso?

Fukai levantou sua cabeça prestes a falar quando sua mãe concordou.

- Sim, isso é uma despedida minha e de Lina. - Ela falou sorrindo. - Nós duas somos as últimas herdeiras de um lugar chamado Grand Finale, um lugar onde você não poderia imaginar.

Nessa hora, até mesmo Razam prendeu a respiração e engoliu o seco.

- Nós, mulheres, somos as únicas que podemos repousar lá, e lá eu poderei ser tratada perfeitamente, minhas doenças serão curadas e Lina estará segura comigo. - Amelia parou de sorrir seguindo os olhos de Fukai. - Você ficará sozinho.

Lina abaixou sua cabeça quando Fukai a olhou, ela então já sabia!

Se sentando sem reação, Fukai não conseguia reunir seus pensamentos.

- Grand Finale é um lugar longe demais, está em uma constelação tão longe que ninguém nesse planeta poderia chegar, mas eu espero que um dia você possa ir até lá, e o que está dentro dessa caixa pode ser algo que te indique o caminho quando for forte o suficiente.

Fukai segurou a caixa nas mãos e a olhou de cabeça baixa, não era nada de anormal, tudo aquilo era um pedaço de madeira com algo dentro.

- Está errado, o que está ai dentro foi dado por ser pai, ele atualmente não pode me ajudar, mas deixou essa missão para você e seu irmão. - Amelia disse. - As coisas que pensam de seu pai, não as leve diretamente para o coração.

- O mundo está cheio de coisas ruins que deixam as pessoas mais ruins ainda. A maldade corroí os mais bondosos, os corações mais humildes são levados a ganância, os mais fortes são arrogantes, os mais felizes são jogados no abismo da infelicidade.

- Fukai, deixe seus inimigos de lado, os esqueça, não os deixe que se aproximem de você, não os deixem que encontrem o seu ponto fraco. Seja forte para proteger, não para destruir, ajude os demais que precisam, seja o mais bondoso que puder.

Amelia colocou a mão no lado esquerdo do peito.

- Você é uma pessoa que foi criada para um bem maior do que a glória, por favor, não deixe que ninguém faça você se sentir inferior.

E parou de falar enquanto sorriu deixando uma lágrima cair, ela escorreu pela bochecha até o queixo e pingou no chão.

Era a primeira vez que Fukai a via chorar.

- Eu aguentei míseros 13 anos para poder chorar, essa é única passagem para Grand Finale, mas sei que você chorou muito quando seu irmão se foi, quando você foi colocado para baixo por todas as pessoas de fora.

- Meu filho. - Amelia encostou no ombro dele se inclinando para frente. - Você pode me jurar uma coisa?

- Qualquer coisa. - Ele respondeu tão rápido quanto uma flecha. - Qualquer coisa pela senhora, qualquer coisa que queira, eu não vou recusar.

Amelia sorriu, uma luz amarela como uma barreira começou a aparecer aos poucos ao redor de seu corpo e de Lina, as duas pareciam carregar aquela barreira e sua cor aumentava cada vez mais.

Aquele era o processo de teleporte para Grand Finale.

- Então jure para mim que não vai deixar as pessoas te fazerem sofrer como aconteceu todos esses anos por minha causa.

Fukai concordou limpando os olhos rapidamente, ele abaixou a cabeça encostando sua testa nas pernas de sua mãe.

- Eu prometo.

- E faça amizades, elas são mais importantes do que qualquer coisa, e tenha uma mulher, uma esposa para que não fique triste como seu pai era antes de me conhecer. - Amelia deixou uma risada fraca percorrer. - E seja feliz, seja forte, transforme o mundo, por mim, por sua irmã e por seu irmão.

A luz fez com que Fukai se afastasse, o calor que ela emitia era grande demais. Se arrastando ainda sentado, Fukai levou a mão a frente dos olhos o protegendo da luz.

- Irmão mais velho, desculpe por não ter falado nada, você sempre esteve mal por nossa causa, mas nunca pudemos fazer nada para ajudar. - Lina falou toda chorosa. - Você pode me perdoar?

- Lina, não precisa falar nada. - Amelia a respondeu. - Fukai é o garoto que nunca deixou a culpa cair para cima de nós, não é mesmo, meu filho?

Fukai fechou os olhos quando não suportou a luz e os apertou se protegendo enquanto tudo no seu quarto foi jogado para os lados, somente ele e a caixa ficaram intactas.

O brilho desapareceu na mesma hora, a cor amarelada que pairava no ar desapareceu junto do som de Amelia e Lina, o silêncio por sua vez pegou a situação.

Fukai parou: Isso era um sonho? Um pesadelo? Eu devia acordar?

Começando a tremer, os batimentos do garoto começaram a acelerar, seu corpo não reagia muito rápido, sua Profunda Energia estava totalmente desequilibrada, tudo estava completamente bagunçado.

Razam nada fez, ele continuou parado de braços cruzados observando calado as mudanças acontecendo.

O peito de Fukai revelou uma dor que o consumiu por completo, ele caiu deitado de peito com uma careta de dor, todo o seu corpo estava suando, seus músculos se debatendo, ele sofria sozinho.

Tremendo de dor, deitado com a cabeça virada para o lado, a última imagem que permaneceu antes dele cair foi da caixa de madeira que seu pai havia deixado para ele.

Por Amnésia | 25/12/17 às 17:22 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Wuxia, Xianxia, Brasileira, Poder, Adulto, Elementos de Cultivo, Ação