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Capítulo 31 - Ramos

Legado dos Deuses (LDD)

Capítulo 31 - Ramos

Autor: Amnésia | Revisão: Paragon

Quando Fukai voltou ao pátio principal da família Ferio, o sol já estava nascendo. Os primeiros raios solares deixaram o ambiente muito mais vivido do que o habitual.

Mesmo ainda sendo apenas de manhã, o ramo secundário da família Ferio quase todo já havia se levantado. De acordo com as ordens do Patriarca atual, todos aqueles que não poderiam se manter com as moedas que recebiam mensalmente teriam que trabalhar nos campos fora dos portões.

Aquela era uma ordem dura, quando Fukai observava os rostos tristes das pessoas passando para fora do portão principal com enxadas e foices, com sacos de fertilizantes e também com roupas imundas, o seu corpo quase todo enrijecia.

A cena de todos eles passando pela mesmo coisa todos os dias, assim como o próprio Fukai e seu irmão, France passaram uma vez. Dois anos foram o tempo que eles ficaram ali, dos sete anos até os nove, mas ainda assim, a dor que ultrapassava seu corpo era algo que nem mesmo alguém como ele podia segurar.

Fukai teve que abaixar sua cabeça para que não ficasse mais irritado, ele fechou os olhos e respirou fundo na esperança de que as lembranças de sua infância dolorida fosse embora.

Mesmo que France fosse casado com Ana, a filha do Patriarca, eles ainda tiveram que passar.

Seu punho coçava enquanto seu braço esquerdo tremia sozinho.

- Ehh, desculpe, senhor.. - Uma voz fraca soou ao seu lado. - Precisa de ajuda com alguma coisa?

Fukai olhou para trás, a garota de cabelos curtos nos ombros e olhos vermelhos a encarava de maneira preocupada, e sorriu quando Fukai perdeu toda a dor de seu corpo. Ele nunca tinha visto essa pessoa antes, mas a sensação de paz ao tê-la ali ao seu lado foi bem gratificante.

A jovem sorriu e se curvou a frente dele fazendo seu enorme casaco preto cair para frente desajeitado, ela o apertou contra o peito ficando um pouco vermelha.

Fukai se curvou a frente dela como saudação também sorrindo de maneira fraca.

- Sou Pin Ferio, eu observei o senhor parado e não pude deixar de perceber que parecia estar com dor.

Interessante…

- Sou Fukai Ferio, obrigado por se preocupar. - Ele disse gentilmente coçando a cabeça. - Eh, eu nunca a vi por aqui.

Pin concordou com a mão a frente do rosto, seu gentil gesto encantou completamente Fukai, ela era sem duvidas uma menina pura, aquele sorriso encantador e uma aura tão boa que Fukai não conseguia acreditar.

Dentro daquela família nojenta dos Ferio realmente existia alguém assim?

- Eu sou filha de Ty Ferio, estávamos de viagem com ele faz quase 5 anos, e por isso não deve me conhecer direito.

Fukai acirrou seu sorriso para uma expressão complicada.

- Ty Ferio não é o nome do homem que tem o título de “Contratante Abissal”?

Pin revelou um pouco de espanto e logo sorriu gentilmente, aquele sorriso tão alegre fazia Fukai sempre respirar mais pesadamente.

Que sentimento estranho é esse?/(Paragon: Cadeia nesse Fukai)

- Não sabia que conhecia o titulo de meu pai. - Pin respondeu alegremente. - Faz muitos anos desde que saímos, então não sabia que alguém tão novo saberia quem ele era.

- Ah, eu sempre estou lendo sobre as pessoas importantes para essa família, então sei bastante sobre seu pai. - Ele disse casualmente. - Bom, já que está em casa depois de tanto tempo, você deve estar bem perdida, não é?

Pin concordou rapidamente e estava prestes a falar quando uma segunda voz soou.

- Fukai, você estava aqui.. - Era de uma mulher, Ana Ferio aterrissou ao lado dele rapidamente, ela estava indiferente para o garoto, mas quando viu Pin Ferio a sua frente, ela rapidamente abaixou a cabeça em respeito. - Desculpe, senhorita, não há vi por aqui.

Pin também a saudou abaixando a cabeça meio envergonhada.

- Não é nada, eu estava apenas conversando com Fukai.

- Você o conhece, senhorita? - Ana levantou sua cabeça curiosa. - Pelo que me lembro, a senhorita chegou ontem a noite, não tinha ideia de que já o conhecia.

- Não, não.. - Pin abanou as mãos. - Eu acabei de conhecê-lo, eu só estava passando e avistei as pessoas saindo rapidamente pelo portão principal e ele estava por aqui, então eu parei para conversar.

Ana abriu a boca concordando com Pin.

- Bom, você não precisa se preocupar com as pessoas, aqui fora está muito sujo, vamos voltar para o palácio do Patriarca…

Fukai mais uma vez enrijeceu, e dessa vez Pin imediatamente o olhou, ela conseguia perfeitamente ver a aura sendo liberada do corpo das outras pessoas, os seus olhos vermelhos sem dúvidas eram especiais.

Uma névoa negra, vermelha e roxa emergia do corpo de Fukai enquanto ele se virava e começava a andar para longe.

- Hey, meu pai deseja falar com você agora. - Ela segurou o braço dele.

Fukai puxou seu braço com um movimento brusco.

- Você não se preocupa com as pessoas que estão indo para o lado de fora? - Fukai foi bem claro apontando para os moradores que saíam de cabeça baixa, seus rostos sujos, braços fracos carregando equipamentos para o trabalho. - Realmente, vendo a situação que essa família está, eu não quero nem mesmo ter o nome que vocês carregam.

- Acha mesmo que essas suas palavras vazias podem afetar em algo aqui, Fukai? - Ana perguntou indiferente. - Não é porque sou casada com seu irmão que eu devia me importar com você, diferente dele, você ainda é ridiculamente infantil, ele conhecia os motivos e preceitos de nossa família, ele se orgulhava de nós.

Fukai riu dela.

- Então todos vocês são idiotas. - Ele falou com raiva. - Olhe para esse lugar.. - E abriu os braços falando alto o suficiente para que os moradores parassem de andar e o encarassem. - Eles trabalham para se manterem vivos, eles trabalham para conseguirem alimento na mesa, eles trabalham e metade do que é deles vai para vocês do ramos principais.

- Acha mesmo que meu irmão se orgulhava disso? Ele e eu trabalhamos nisso por dois anos inteiros e quase morremos por doenças, e ainda assim nosso trabalho nunca foi valorizado. - Ele disse com raiva dizendo a verdade. - O que você sabe sobre trabalhar pesado? O que você fez todos os anos além de estar nas custas de todas essas pessoas e sentar na sua cama e cultivar?

- O que sabe sobre como é sofrer todos os dias para conseguir se manter vivo? - Fukai urrou com raiva, as veias de seus braços já estavam aparecendo claramente. - Eu não dou a mínima para esse lugar.

Ana engoliu o seco, ela definitivamente nada sabia sobre como era trabalhar duro, ouvir aquelas palavras era como ter um arco a sua frente, ele podia puxar totalmente a arma para Fukai, mas sem a flecha que era seu argumento, ela não valia de nada.

No final, até mesmo Pin ficou atordoada, ela nunca conheceu o seu lugar de nascimento muito bem, sempre esteve fora por causa de seus pais, sempre esteve viajando por incontáveis lugares e conhecendo o mundo maravilhoso fora da família Ferio.

E também, ela nunca teve contato com as pessoas mais inferiores que ela.

Seu pai nunca foi contra ela poder conversar com as pessoas que trabalhavam e não eram praticantes, mas sua mãe, ela era extremamente rigorosa e nunca deixou a garota se aproximar.

Por sua curiosidade ser muito grande, ela finalmente pôde ver com seus próprios olhos ao se aproximar de manhã daquelas pessoas, seus rostos, suas fracas presenças, estavam mais e mais descontentes.

Isso tudo era resultado do trabalho diário..

- Se atreve a dizer que somos uma família que explora os outros? - Ana contradisse depois de quase 10 segundos.

- E vou esconder a verdade? - Fukai deu de ombros falando alto. - Olhe para eles, o ramo principal vive a custas dos que eles podem pegar, e ainda assim, como conseguem enxergá-los apenas sendo estorvos?

- É por isso que não somos mais uma das Grandes famílias protetoras da Seita Calto, veja nossa situação. - Fukai apontou em volta para as pessoas o encarando. - Nós firmamos um sistema que não faz nada além de massacrar o mais fraco.

- Se minha mãe e meus irmãos não tivessem morado aqui, eu cuspiria nesse solo. - E recuou seus olhos para Pin, ele balançou a cabeça e continuou. - Se você chegou aqui hoje, então se acostume com esse lugar de merda, pessoas que só veem a si mesmo se escondem atrás de poderes enquanto os mais fracos são usados de peões.

Fukai riu amargamente do que estava falando.

- Essa é a família Ferio, ou melhor, o que restou dela…

Fukai recuou dois passos antes de se virar e começar a ir embora, confiante por tudo o que disse, ele continuou caminhando.

Ana praguejou, era claro que tudo o que ele disse era a verdade, mas como sua família poderia sobreviver sem explorar a parte debaixo da sociedade?

Era tudo uma questão de lógica, a sociedade mais fraca permanecia por baixo das mais fortes, sempre foi assim e sempre será.

Mas as palavras de Fukai não era nada vazias, elas continham uma força de convicção e crença que ninguém outro a mais poderia afirmar.

Observando Fukai parar mais uma vez, o coração de Ana acelerou.

- Diga a seu pai que caso o Segundo Elder tente me matar de novo como ontem, eu vou destruir completamente a parte superior da família Ferio em dois anos. - Fukai virou sua cabeça revelando seus olhos firmes e frios. - Além disso, como você mesmo disse a Aner no dia que retornei, eu não preciso aceitar ninguém na minha família, isso também inclui você.

Fukai mudou seu olhar para Pim.

- Me desculpe por você ver a realidade desse lugar, perdoe as minhas palavras duras. - E parou um pouco antes de seu coração se aquecer vendo aquele puro e inocente rosto ficar meio deprimido. - A família Ferio não é um terço do que era antes…

Chegando perto do portão, Fukai parou na frente de todos aqueles que uma vez se estacionaram para assistir ao garoto dizer a verdade na frente de uma das mais poderosas mulheres do antiga geração.

Fukai se curvou na frente de todos eles os levando a se assustar rapidamente, sem saber o que fazer, os moradores começaram a curvar a cabeça para Fukai de volta.

Com aquele sentimento de sofrimento percorrendo cada um dos seus ossos, Fukai finalmente disse:

- Eu admiro todos vocês que estão aqui hoje, pelo bem de suas famílias, eu… - Fukai fechou os olhos não querendo dizer aquelas palavras. - Eu, como filho do antigo protetor, ofereço as minhas desculpas por estarem nesse estado lamentável.

As palavras ‘Antigo Protetor’ era algo que ninguém além do ramo principal podia ouvir, mas ali, na frente de todas essas pessoas, Fukai usou o título de seu pai para que pudesse retomar a dignidade e honra que aquelas pessoas mereciam.

- Eu não sou digno de receber as honras do antigo protetor. - Um deles caiu em joelhos com suas mãos erguidas acima a frente da cabeça. - Não mereço, não mereço…

- Que o antigo protetor salve nossa família, que ele retorne ou que o atual protetor ascenda. - Outros caíram ajoelhados.

Em poucos instantes todos os que estavam saindo para começar o dia se ajoelharam a frente de Fukai, todos eles agradecendo por terem consigo de volta um pouco da fé e esperança que o antigo protetor trazia.

A confiança que todos eles tinham no antigo protetor não podia ser medida.

Enquanto todos eles estavam de joelhos, Fukai ainda estava curvado saudando em respeito a todos eles.

Pin e Ana não puderam ficar mais alarmadas.

Pin Ferio estava sempre certa de que sua família seria algo como um representativo de perfeição, mas no momento que seu pai lhe informou que eles não faziam mais parte das grandes famílias, sua perfeição começou aos poucos a se tornar uma melodia mais seca.

A verdade era bem mais diferente do que a realidade… 

Por Amnésia | 20/01/18 às 00:08 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Wuxia, Xianxia, Brasileira, Poder, Adulto, Elementos de Cultivo, Ação