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Capítulo 57 - A contente despedida

Legado dos Deuses (LDD)

Capítulo 57 - A contente despedida

Autor: Amnésia | Revisão: Paragon

Parados não muito longe da estrada principal que ligava a cidade e o Instituto Darey Mason, Pin e Fukai Ferio estavam ambos sentados em uma pedra lisa larga que se ligava uma árvore a outra.

Tinha passado cerca de 4 horas desde que partiram, deixaram o cheiro de sangue e terra para trás, e acima disso, deixaram também a pessoa que estava os espionando. Os dois reconheceram que era o diretor, mas preferiram ficar calados do que aumentar a voz.

E o diretor também tinha assuntos mais sérios para tomar do que espiar duas crianças, ele era honrado demais para fazer algo tão baixo quanto isso.

Agora, parados um olhando para o outro, ambos largaram suas respirações pesadas.

Pin Ferio sentava de pernas cruzadas com seu braço apoiado na perna e sua cabeça no braço de baixo.

- É um pouco desafiador, não acha? – Ela perguntou tirando o silêncio entre eles com uma pergunta um tanto estranha.

- Desafiador? – Ele perguntou virando a cabeça para o lado. – Do que está falando?

- Estou falando do chamado dos Deuses. – Ela respondeu rindo ajeitando o óculos por cima do nariz. – Com um chamado desses, qualquer um acharia bem desafiador, não acha?

Fukai balançou a cabeça negando dela na mesma hora.

- Desafiador é uma luta na qual tenho certeza que não vou morrer. – Ele respondeu. – Estamos em uma batalha de verdade, na qual morremos.

Pin riu dele elegantemente.

- Você fala como o meu pai, ele disse que você se parece muito com o Antigo Protetor, sempre preocupado e calculista. – Ela o deu uma olhada mais profunda tentando enxergar mais do que podia, através da mente do jovem. – Me pergunto o que vai fazer agora?

Fukai balançou a mão em um movimento inútil.

- Alguma coisa que não seja ficar e esperar pelos outros virem me buscar. – Ele soou mais fraco do que o esperado, tossiu algumas vezes e colocou a mão no pescoço. – E você, o que vai fazer?

Ela deu de ombros.

- Eu fui instruída por Polka por vários anos, viajei por incontáveis lugares e aprendi a sobreviver. – Ela disse com total tranquilidade. – O fato de que continuarei aqui é para proteger minha família, o nome Ferio nunca me foi nada além de um sobrenome.

- Não tenho motivos para permanecer aqui. – Ele disse coçando a bochecha a encarando. – Por que você não me disse que sabia tanto?

Pin riu como resposta.

- Como você reagiria se uma pessoa que nunca encontrou na vida começasse a falar sobre espíritos e espadas, sobre uma guerra iminente e que carrego tudo isso em segredo?

Por um momento Fukai riu, mas a expressão de Pin ficou séria, e esperou a resposta.

- Acho que não saberia lidar com isso. – Ele revelou. – Mas sabendo que pode atrair os perigos, por que continuar perto das pessoas que você ama?

Ela franziu a sobrancelha.

- Quando você ama algo, você a protege. – Ela disse. – Não ama nada?

Essa pergunta foi a mais íntima até agora que fez a ele. Pin esperou que Fukai lhe dissesse algo sobre as pessoas a sua volta, sobre alguma antiga amiga ou namorada, mas o que ele fez foi sorrir, um sorriso largo contagiante ao mesmo tempo que os dois espíritos apareceram ao seu lado.

Razam fazendo cara feia para Reynold que desviava seu rosto para o lado como se não estivesse presente escutando nada.

- As pessoas que eu amei foram as pessoas que me deixaram.

Essa frase, particularmente de Fukai, lhe doía. A dor de ter as imagens de seu irmão, sua mãe e irmã indo embora, e seu pai, o homem no qual não faz ideia de onde veio ou para onde foi. Apenas ali, naquela situação, ele se colocou a rir.

- Eu não amo ninguém, mas quero proteger e levar esses dois para onde devem estar.

Pin ficou observando Razam e Reynold por um certo tempo antes de rir de volta.

- Sua mentalidade de proteger não é diferente da minha, só difere os meios que segue.

Os dois trocaram um curto sorriso.

Razam se sentou ao lado de onde Polka estava, ele deu um suspiro largo antes de encarar a mulher com olhos complicados.

- Me desculpe...

Polka cruzou seus braços e virou seu rosto para o outro lado, mas Razam insistiu.

- Realmente peço perdão. – Ele disse juntando as mãos em forma de concha. – Se eu soubesse que aquilo iria acontecer, eu teria ido na frente.

Polka balançou a cabeça triste, quase derramando as lágrimas.

- Não me magoa o fato de você ter me deixado, mas sim o fato de que todos nos Plano Celestial terem ido contra mim quando os avisei. – Ela disse chateada, sua voz meio fraca e um olhar caído. – Quando me mandaram caminhar pelo Vale Azul, eu pensei que estaria em casa.

Razam abaixou a cabeça.

- Mas meus pais morreram assim que pisei lá como forma de pagamento. – Ela disse em tom de choro, a imagem de uma mulher forte foi quase que rompida pelo breve choro. – Depois que o Deus Eterno me disse que não tinha mais volta, não consegui me segurar.

Razam a abraçou com força, com tanta força, suas dores eram iguais. Ele aproximou seu nariz perto da cabeça dela e a segurou com força.

- Desculpe por não ter feito nada naquela hora para ajudar. – Ele disse baixinho.

Um pouco de longo, Reynold observava os dois, ele nada disse, abaixou sua cabeça e fez uma oração rápida para os familiares de Polka.

- É nos corações puros que nascem a dor. – Ele disse depois de orar, e chamou atenção dos dois espíritos. – Não se feche para uma vingança, Polka, ela vai acabar te corrompendo.

A espírito concordou retirando sua cabeça do peito de Razam que encarou Reynold com um pouco de raiva, ele estava desfrutando do momento.

- Não quero que os demais pensem que eu estou em busca de me vingar. – Ela disse limpando os olhos um pouco vermelhos. – Mas hoje eu tenho algo que sempre quis, alguém para ensinar e passar a minha essência.

Reynold a encarou com um pouco de surpresa.

- A garota?

- Hm. – Ela resmungou. – Ela é muito mais do que os olhos aparentam, se eu conseguir fazê-la enxergar o mundo da maneira correta, ela se tornará alguém mais forte do que eu.

Razam riu daquilo cruzando seus braços.

- Sua confiança é tão grande assim?

Ela não respondeu de imediato, e o encarou.

- A sua é?

As sobrancelhas tiveram um leve sobressalto como se não se importasse com isso.

Polka não continuou e se virou para Reynold.

- E você, parece que não é tão familiarizado com o garoto e nem com Razam.

Reynold riu daquilo balançando a cabeça.

- Meu portador acabou por morrer nas mãos de um Tigre Amarelo. – Ele disse nada orgulhoso. – Eu devia estar furioso por ele se deixar ser acertado, mas no fim, não foi tão ruim.

Razam o deu um olhar meio hostil quando Reynold sorriu, não era um sorriso bom.

No Plano Celestial há duas pessoas nas quais não se pode confiar, nos que possuem grande poder, e os que nada tem a perder.

O primeiro, são considerados os mais fortes, e o segundo, os mais loucos.

Razam não tinha medo de pessoas que usavam seu poder para conquistar algo, isso era até lógico para ele, mas os Loucos, esses eram os que atormentavam a vida de Razam.

Foi dos Loucos que vieram planos para assassinar a família do Guerreiro das Orquídeas, fora por causa dos loucos que reinos e cidades do Plano Celestial foram esmagados. Ninguém gostava de pessoas que não tinha nada a perder, dariam sua vida a coisas absurdas.

O pior tipo de inimigo.

- Se tentar fazer algo para cima do garoto, teremos um pouco de confusão. – Razam o alertou deixando que Reynold pudesse presenciar a aura pesada que o rodeava.

- Não se preocupe. – Reynold deu um risinho abanando a mão. – Ele é o meu portador agora, não posso fazer nada com ele... não fisicamente.

Razam apertou o punho e nada disse mais, ele ia ficar de olho nesse cara mais tempo.

- No final, tem uma coincidência e tanto, não acha, Razam? – Polka tirou a hostilidade com suas palavras fracas. – Nos encontramos, de novo.

Com um pouco de pesar na voz e na própria mente, ele concordou.

- De certa forma, sim.

- Espero que o seu garoto possa te levar de volta, será uma viagem um tanto longa. – Ela devolveu sorrindo, o céu começou a tirar as pesadas nuvens cinzentas deixando o azul tomar um pouco do seu rumo. – A caminhada é longa...

Razam desviou seu olhar para onde Fukai e Pin estavam conversando e rindo sobre algumas coisas, e não conseguiu falar nada para si mesmo dessa ocasião. O garoto estava sorrindo, dentro de sua mente, a quantidade de coisas que ele passou não foram nada agradáveis, nada bonitas, todas lembranças que o destruíram alguma vez.

Um garoto de 16 anos um tanto feito como homem. Razam não podia elogiar por ele ter encarado todos os desafios que teve, mas elogiava e admirava o quanto ele tentou para superar cada desafio.

Fukai ria ao lado de Pin.

- Suas viagens foram todas aventuras assim?

Pin concordou.

- Minha mãe não deixava que eu me misturasse com os demais, mas eu fugia para expedições com o meu pai sempre, foi assim que conheci Polka e a minha adaga. – Ela explicou tocando a arma na cintura. – Ela vale muito para mim.

Fukai concordou sorridente.

- O mesmo para mim. – Ele disse e olhou para o céu meio azulado, estava começando a clarear muito, estava na hora de partir. – Enfim, espero que nas próximas vezes que nos vermos possamos passar mais tempo juntos.

Pin concordou com a cabeça sorridente também.

- Vamos nos ver bem cedo, eu acho.

Fukai que tinha se levantado, a olhou com curiosidade.

- Como assim?

- Não é nada, é só um pressentimento. – Ela respondeu ajeitando os seus óculos por cima do nariz, seus olhos vermelhos iluminados pelos raios do sol. – Mas de qualquer forma, eu não quero te atrasar.

- Tudo bem, prefiro viajar no dia para ser sincero, menos lugares para tropeçar e essas coisas. – Ele riu.

- Com certeza deve ser por isso. – Ela riu de volta. – Bom...

A garota se ergueu da pedra lisa e ficou de frente para Fukai, os dois se encararam com sorriso largos nos rostos. A paz e harmonia que os dois passavam para si eram coisas que apenas amantes naturais podiam criar.

Era um sentimento bom que duas pessoas faziam questão de passar quando estavam acompanhadas de outras que gostavam.

- Isso é um até logo. – Ele esticou a mão para cumprimentá-la.

A garota negou com a cabeça o cumprimento de mão, e avançou o abraçando.

Pin passou seu braço por trás das costas de Fukai abraçando com força, e foi retribuída com o mesmo movimento, ele a apertou com força, era primeira despedida feliz que ele fazia.

Todas as outras, todos da sua família, foram despedidas que não tinham nenhum ponto bom.

Ele a abraçou mais forte ao se lembrar disso.

- Pin Ferio, eu nunca vou te esquecer!

Por Amnésia | 01/03/18 às 18:53 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Wuxia, Xianxia, Brasileira, Poder, Adulto, Elementos de Cultivo, Ação