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Capítulo 58 - As aberrações de nosso mundo

Legado dos Deuses (LDD)

Capítulo 58 - As aberrações de nosso mundo

Autor: Amnésia | Revisão: Paragon

Cerca de uma semana, assim foi a viagem de Fukai depois que se afastou do Instituto, das famílias e da Seita Calto. Ele sequer olhou para trás, caminhava com seus passos e de forma lenta sem se preocupar com nada atrás.

O setor que envolvia os Calto, ou que envolvia a sua família, nada disso importava. Fukai Ferio carregava esses nomes apenas por levar, não havia ligação entre uma coisa e outra, ou assim ele imaginava.

As matas fechadas que envolvia todo o último território dos Calto, finalmente, haviam sido encontradas. Demorava cerca de quase 6 dias para fazer trilha de uma ponta a outra dentro de todo o território que os Calto haviam conquistado. Não era um lugar ruim para se acampar, mas as feras que habitavam aquela área eram mais atentas do que as demais.

Fukai havia ouvido muito sobre os Corvos e Abutres que desciam cortando o céu e atacavam suas presas quando estavam dormindo, mas em todo o tempo que ele fez, nada foi encontrado. Nenhuma besta, nenhum inimigo, nada que o preocupasse, e isso o incomodava.

A Floresta era formada por árvores de troncos médios chegando a 4 metros; as copas eram ramificadas produzindo um guarda-chuva contra as chuvas fortes e os raios solares, o que atribuía falta de luz dentro.

A grama era rasteira se esticando como um tapete natural em todas as direções, os poucos arbustos que eram mais altos se colocavam ao lado das árvores, eram simples, pequenas folhas crescendo para os lados formando um pequeno reservatório de água, e era dali que Fukai tirava sua bebida.

Ele caminhou até a moita, retirou as duas espadas que estavam em sua cintura, ambas do lado direito, e as colocou no chão. Se curvou e afundou o cantil que achou pela viagem dentro do pequeno círculo de água e terra.

Enchendo o cantil, ele respirou fundo antes de se sentar e tomar um gole.

- O bom de viajar com dois espíritos é que não preciso dividir água. – Ele falou rindo para si mesmo.

Reynold apareceu ao seu lado com uma cara indiferente, sendo bem mais fechado, ele começou aos poucos a tomar a confiança de Fukai, suas anotações sobre a mudança de clima, sobre a natureza e até mesmo sobre as pequenas plantas que podiam ser comidas.

Ele era um perito na arte de sobrevivência, diferente de Razam que era perito na arte da espada.

- O lugar não é todo mal. – Rey disse ainda olhando em volta. – Como eu disse, as moitas maiores conseguem produzir mais água, não deixe que a terra entre no cantil.

- Eu entendi depois de ter bebido terra, na primeira vez. – Fukai disse com o gosto de terra ainda na boca, e cuspiu tentando tirar o sentimento seco da garganta. – Me diz, como você aprendeu sobre esse tipo de coisa?

Reynold olhou para o garoto com olhos cansados, sentado no chão e sem se preocupar, o curioso garoto tomava outro pouco de água.

- Treinei muito tempo na chamada Floresta Plana do Plano Celestial. – Ele falou indiferente.

Dessa vez, Razam apareceu ao lado esquerdo com os braços cruzados e um sorriso no rosto, um sorriso medíocre.

- Então você também caiu lá? – E deu um risinho. – Aquela é a maior floresta de todo Plano Celestial, demora cerca de 4 anos para você fazer toda a extensão dela em linha reta, me diga, quanto tempo conseguiu ficar lá dentro antes de sair?

Reynold encarou Razam, os olhos cansados do espírito nem sequer pareciam vivos, mas ele respondeu de bom grado.

- Fiquei cerca de 73 anos, mas os 4 anos para sair, no total de 77 anos. – Ele não falou com um tom orgulhoso, era sério e bem composto na presença de qualquer um. – E você, Guerreiro das Orquídeas?

Razam parecia ter comida estragada pela cara e careta que fez, desviou o olhar para o lado antes de suspirar.

- Só 19 anos, fui o melhor da minha turma. – Ele disse levantando a sobrancelha, mas logo apontou seu dedo para Reynold erguendo a voz. – Mas isso não quer dizer que você é melhor que eu, ouviu?

Fukai se encantou pela cena seguinte onde Rey deu um sorriso fraco e nada falso como era das outras vezes quando Razam implicava com ele.

- Nunca me igualei a ninguém, nem irei fazer isso. – Ele disse olhando para o outro lado movendo sua cabeça para o alto. – Sua arte é diferente da minha, eu aprendi a sobreviver escapando dos outros e não lutando.

Razam o aplaudiu.

- Belas palavras.

Fukai riu dos dois, mesmo que Razam fosse um pouco implicante com Reynold, os dois tinham um certo laço, não era laços familiares, mas um laço de vida.

Mas ainda assim, Fukai não gostava muito do fato de que estava seguindo sem uma direção só por Razam, mesmo que ele fosse seu primeiro mestre, isso não queria dizer nada, seguir para a morte não era tão bom quanto seguir sobrevivendo.

Então, ele se decidiu.

- Rey... – Ele chamou o espírito que se virou.

- Hm?

Fukai coçou a cabeça um pouco antes de falar.

- Pode me ensinar o que aprendeu sobre sobrevivência?

O espírito o olhou de lado procurando algum sinal de enganação por parte do garoto, mas não encontrou. Eram sinais verdadeiros de alguém que queria aprender sobre como se manter vivo de qualquer maneira.

Rey se voltou para Razam que, de braços cruzados, nada disse. Então, ele olhou para o garoto.

- A arte da espada é o melhor caminho que alguém deve recorrer quando se tem o mundo nas costas, não acha? – Sua voz foi mais forte do que o habitual deixando Fukai mais curioso. – Sobreviver correndo é um ato covarde para qualquer um.

Fukai não pôde ficar parada e se levantou rapidamente o repreendendo.

- Ato covarde? Desde quando correr é um ato covarde? – Ele falou mais forte que Rey o fazendo levantar sua sobrancelha. – Ato covarde é desistir antes de tentar, isso é covarde, não lutar pela sua vida.

Razam concordou com um leve balançar de cabeça, mas nada disse, de novo.

- Quer ser treinado por alguém que viveu mais da metade da vida humana dentro de uma floresta acumulando recursos e experiências para nunca mais usar depois? – Reynold inclinou a parte superior na direção de Fukai, e pela primeira vez o garoto viu uma cicatriz que ligava da parte de trás da orelha até as costas sumindo por dentro da roupa. – Não pense que sobreviver depende de algum te ensinando, o perigo é o mesmo ou até mais complicado.

Fukai mostrou sua mão direita para ele, logo puxou toda a manga do casaco mostrando seu braço todo cicatrizado, cheiro de marcas e suas veias com cores verdes.

- Eu sei o que é passar por vida ou morte. – E encarou Razam rapidamente. – Diga para ele, Razam.

Razam abanou as mãos negando.

- Não tenho nada a ver com essa conversa de vocês, eu treino espadachins, não corredores. – Ele disse a Fukai, e o garoto pisou forte no chão querendo contestar.

- Por que toda essa dificuldade de me ensinar? – E dessa vez sua fúria foi direcionada para Razam. – Desde que comecei a aprender com você, a única coisa que me ensinou foi uma técnica de suporte, nada mais.

Reynold olhou para Razam assustado que não percebeu o outro lhe encarando.

- Eu te ensinei aquilo que era para ser ensinado. – Ele caminhou saindo do lado da árvore e segurou o colarinho da roupa de Fukai materializando sua mão em forma física, e o ergueu no ar. – Está descontente com isso?

Fukai deu um tapa na mão de Razam voltando ao solo, sua cara fechada e seus olhos afiados combateram a boca fechada e sinistra do Guerreiro das Orquídeas.

Era um combate de frente.

- Algo me diz que vocês dois são bem próximos. – Rey comentou virando de costas.

Tanto Fukai quanto Razam encararam o outro, Reynold era pouco falador, mas quando falava era algo sério.

- Do que está falando? – Razam logo o cortou.

- Ensinar a arte dos Demônios para um garoto, você deve gostar bem dele. – Reynold falou, simplesmente.

E Razam se atentou. Medo do Escuro era uma técnica antiga, pouco utilizada por ter que cumprir certas condições para usá-la, e no Plano Celestial poucos a conheciam como Arte dos Demônios.

Fukai por outro lado ficou ainda mais eufórico ao ouvir sobre aquilo, Reynold conhecia a técnica que aprendeu, então devia ser algo mais forte do que pensava antes.

- O que é essa Arte do Demônio? – O garoto perguntou a Reynold.

O espírito se sentou no chão e respirou fundo.

- Em todos os setores existente, há raças diferentes. – Ele explicou. – Antes de começarmos a falar, você devia entender isso já que agora está presente em uma competição que está valendo a sua vida.

Fukai entendeu.

- Demônios? Vou me lembrar disso. – E se sentou forçando a Razam, cansado e entediado, também a escutar do seu lado. – Continue...

- Não é algo que muitas pessoas escutam, mas dentro da Floresta Plana você aprende a compreender o mundo em que vive. – Ele suspirou antes de falar. – Nesse plano, existem cerca de 5 mundos, desses mundos, apenas 2 são conhecidos como bons criadores de guerreiros.

Reynold apontou para seu próprio peito e depois mirou o dedo para Razam.

- Eu e ele somos dois que vieram desses mundos. – Ele falou fazendo Razam ficar carrancudo. – O nome de minha terra se chamava Trix, e tinha cerca de mil a dois mil vezes mais concentração de energia no ar e no solo, o que acelerava muito nossa cultivação.

Razam não deixou de assentir mesmo carrancudo.

- Quando eu tinha 12 anos, eu já era do Reino Terrestre. – Reynold falou, mas não se orgulhou disso, continuou conversando normalmente. – Quando atingi a marca de 30 anos já estava no pico do Reino Sol Nascente, no fim, quando fui chamado a fazer parte de algo maior do que eu mesmo, lá no Plano Celestial, eu tinha 46 anos prestes a entrar no Reino Céu Celeste.

Fukai abriu sua boca cheio de descrença, ele gaguejou um pouco com as palavras, mas logo conseguiu comentar.

- 30 anos e estava no pico do Reino Sol Nascente? – Ele quase explodiu rindo. – Você devia ser um gênio.

Razam balançou a cabeça dando um tapa nas costas de Fukai.

- Nos nossos mundos também há pessoas que não são consideradas gênios, sabia?

Fukai olhou para Razam e depois seu rosto voltou para onde Reynold o esperava. 0 espirito conhecia bem a inteligência de Fukai e lhe deixou ligar os pontos que Razam soltou.

- Você... era alguém fraco?

Reynold riu dele, o único riso que alguém poderia dar naquela hora, com tristeza e nenhum orgulho.

- Isso mesmo. – Ele afirmou passando a mão sobre passando sua mão sobre as pernas e a dobrou em forma de lótus. – Na minha terra, as pessoas que tinham 12 anos já deviam estar no pico do Reino Terrestre enquanto eu estava ainda criando meu contato com o solo.

Fukai não acreditou, ele virou seu rosto para Razam no mesmo instante.

- E você, em que reino estava quando chegou aos 12 anos?

Razam estalou a língua irritado.

- Estava no sexto nível do Reino Elementar. – E cuspiu o pouco da sua saliva acumulada no chão. – E eu também não era considerado um dos melhores do lugar que treinei.

Essas informações que Fukai acabara de receber não foram nada suaves.

12 anos e metade do Reino Elementar? 30 anos e reino Gladiador? E mesmo assim não era considerado forte?

Aberrações que não eram aberrações.

Mas Rey parou a linha de raciocínio do garoto.

- Esse nível que você acha absurdo, ele só equivale para os humanos.

A voz de Reynold mudou exatamente com o rosto de Razam que ficou sombrio.

- Os Demônios, eles são as aberrações de nosso mundo.

Por Amnésia | 01/03/18 às 18:54 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Wuxia, Xianxia, Brasileira, Poder, Adulto, Elementos de Cultivo, Ação