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Capítulo 69 - Dao

Legado dos Deuses (LDD)

Capítulo 69 - Dao

Autor: Yuri Cavalier | Revisão: Paragon

Houve tumultos por toda a Seita Thug quando foram avisados de que haveria uma nova mediação de impostos, de início as pessoas começaram a conversar entre eles para que essa questão se resolvesse rapidamente, mas não era tão fácil assim.

As conversas sobre a situação financeira somada com a perda da jade com a técnica e o estilo de uma das famílias gerou forte influência sobre a Seita.

Era claro que o objetivo era tentar recuperar o mais rápido possível as duas coisas roubadas, porém, não havia homens suficientes para o trabalho.

Entre os que estavam como candidatos a sair e recuperar os dois objetos, alguns foram mandados anteriormente em missões e expedições, e outros estavam patrulhando a base de Thug muito longe daquelas terras.

O Impasse estava começando a surgir, isso era o esperado.

Dentro da praça ornamentada por pilares grandes feitos de pedra, as pessoas começaram a debater sobre o assunto elevando sua voz para os Anciões que sentados não muito longe os escutavam com clareza sem um pingo de emoção nas faces.

Tulio era um dos que estavam de pé apontando o dedo diretamente para frente confrontando e tentando tirar do sério os homens mais velhos e sábios.

- Isso é idiotice. - Ele berrou furioso. - Como vamos recuperar algo que está dentro de uma das casas da Seita Naita, absurdo, eles possuem o dobro da nossa força.

Outros gritaram junto dele.

- Não temos forças e nem homens o suficiente para o trabalho, estamos começando a ficar presos e sem dinheiro, não era hora para tentarmos atacar outros lugares.

- Isso mesmo, se devemos fazer algo, que seja estabilizar a situação dos preços das mercadorias e expedições para fora da Seita. - Outro gritou raivosamente. - Não são pedaços de Jade que temos que colocar na mesa para as nossas crianças comerem, mas sim alimento.

As pessoas estavam cada vez mais enfurecidas e humilhavam constantemente cada um dos Anciãos presentes, mas nenhum deles sequer levantou a voz. Suas auras continuaram levemente no como se tudo aquilo fosse esperado.

Não muito longe deles, Avallon e Fukai estavam parados observando a cena se desenrolar a frente deles.

De começo, o próprio Fukai achou estranho a forma como os cidadãos estavam agindo perante aos seus próprios Anciões, eram agressivos e não poupavam palavras de jeito algum, pareciam ser até mesmos acostumados com essa situação.

Avallon encarou o garoto com um sorriso fraco e voltou a apoiar seus braços na bengala que segurava enquanto sentada.

- Não fique assustado com isso. - Ela disse chamando sua atenção. - Todos que veem isso pela primeira vez ficam assustados, a forma como tratamos os mais velhos lhe incomoda, não é?

- Sim. - Fukai concordou observando a cena de um dos moradores apontar seu dedo para um Ancião cheio de hostilidade. - Onde morava, nós não podíamos sequer falar sobre como nos tratavam, era como se fosse um crime.

Avallon riu daquilo com satisfação.

- Somos pessoas diplomáticas, usamos o verbo para falar mais e agir menos. - Ela acenou para onde um dos Anciões balançava a cabeça ouvindo os cidadãos. - Quando chegamos a um novo critério que envolve as pessoas a nossa volta, temos que reorganizar suas mentes, os fazer entender o motivo por estarmos fazendo tal coisa e como será a consequência dessas ações.

- Tanto as boas quanto as más? - Fukai perguntou admirado.

Nunca tinha presenciado nada parecido em nenhum outro lugar. Para ele, a certeza de que o mundo pertencia o forte estava presa e enraizada em sua mente por muitos anos.

Avallon riu.

- Tanto as boas quanto as más, jovenzinho. - E continuou. - Leve o caso de Tulio, ele perdeu tudo o que tinha quando vivia fora daqui, esteve sempre correndo atrás da vingança pelos assassinos de sua família, mas nós nunca o deixamos fazer isso.

O próprio Fukai ficou assustado, ele tinha dito a Tulio que sua família o prendia por ele não ter nada a que se agarrar, agora ele pôde compreender que a própria Seita Thug o prendia para que ele não morresse.

Não era algo que Seitas e famílias faziam, quando um membro estava pronto para se entregar a uma luta sem sentido, eles o deixavam ir para que não atrapalhasse em nada. Assim Fukai viveu por anos e anos com sua família nos Ferio.

- Ainda tem o pensamento de que somos pessoas fracas, não é? - Avallon perguntou com um sorriso meio misterioso. - Ainda assim, há coisas que apenas nós podemos resolver com a fala, não adianta tentar usar o poder.

Fukai continuou a ouvindo, era uma mulher sábia e estava aprendendo bastante durante o tempo dentro da Seita Thug.

- Quando nós temos que usar a língua, esquecemos das armas. - Ela disse focada na multidão a sua frente. - Mas a língua é uma arma por si só.

- Como assim?

- Assim como você utiliza meios com as espadas, técnicas para aprender a controlar sua própria Energia e seu Elemento, outros também conseguem criam métodos para que a linguagem fique mais fácil e maleável para quem a ouve.

Ela disse aquilo tão casualmente que deixou Fukai um pouco confuso, o garoto tentava compreender, mas estava difícil.

Avallon riu dele.

- Para resumir, existem diversos caminhos no qual um ser humano pode escolher, algo como o caminho da espada, chamado de Dao da Espada e também o Dao da Linguagem. - Ela escreveu o símbolo no ar usando sua profunda Energia. - Cada Dao, caminho, tem seu próprio significado e um nível de compreensão, quanto mais focado e harmônico está com o Dao, mais forte é sua compreensão.

Fukai abriu sua boca meio maravilhado.

- E como posso saber que estou decorrendo do Dao da Espada? Quantos Dao existem espalhados pelo mundo? Posso aprender quantos deles?

Avallon o fez se calar abanando sua mão para ele enquanto sorria.

- Calma, calma. - Ela o acalmou. - Suas perguntas não podem ser respondidas por outras pessoas, mas no momento em que você expande sua mente além de sua própria existência, entenderá que o Dao percorre todo o mundo, mas que ninguém pode controlar todos.

Ela suspirou e apontou para o Ancião mais perto dela.

- Esse é Jaoki, ele possuí o Dao da paciência, o caminho que os antigos adoradores de Buda seguiam, sua leveza é a chave para seu caminho, entretanto… quanto mais calmo está, mais forte são as emoções.

- O que quer dizer? - Fukai perguntou e logo olhou para o velho homem que virou seu rosto no mesmo instante para o garoto e deu um sorriso.

Fukai congelou com aquilo.

- Quanto mais calmo, mais forte é sua concentração, e como consequência seus sentidos são apurados com a máxima capacidade. - Avallon o explicou sorrindo de volta para Joaki. - Exatamente é com o Dao da Linguagem entre nós.

Ela apontou para os últimos dois Anciãos presentes na direita.

- Não é que todos somos guerreiros, a cidade precisa de pessoas que possam reger e conduzir os outros assim como um forte líder faz. Aqueles são os dois consultores do Patriarca, são eles quem fazem as transições de informações e também cuidam do dinheiro.

- O Patriarca não tem controle sobre nenhuma posse de dinheiro ou alimento? - Fukai mais uma vez ficou bem surpreso.

- Ele dá controle para aqueles de maior confiança, não é algo que pessoas da sua Seita fazem não é, eles têm Elders que são classificados com o maior poder, assim criando uma hierarquia desigual para a sociedade em que vivem. - Avallon riu olhando para Fukai de lado. - Se a própria população tem o controle e voz, quem é o Patriarca para ir contra todos eles?

Fukai engoliu o seco, esse era um padrão de civilização que nunca tinha ouvido falar. Era dar direito a todos para falar o que quiserem, mexer no que quiserem e argumentar onde quiserem.

Era um lugar unido nas suas próprias condutas e regras.

- Eu vejo que está começando a entender o motivo de sermos tão simples, mas deixe eu te falar. - Ela chegou bem perto do ouvido de Fukai. - Não é porque somos simples que tomamos medidas idiotas.

Fukai recuou a cabeça com um olhar assustado, por um pequeno e curto período que Avallon falou em seu ouvido, ele pôde presenciar a fria e mortal aura da mulher idosa.

Ela era perigosa, mais do que ele imaginava.

Dando um sorriso meio simples, Avallon continuou.

- Desde que começamos a criar nossa própria civilização que tem direitos, nós tomamos medidas diferentes das habituais, como por exemplo, trocamos algumas peças originais de alguns sistemas e não deixamos que outras pessoas saibam.

Ela olhou para Fukai e acenou com a cabeça.

- Assim na pior das hipóteses os que roubam são nadas menos do que réplicas mal feitas.

O que antes Fukai pensava ser um erro bisonho da parte dos Thug se revelou como um ponto forte, eles usavam métodos diferentes dos que os outros e por isso eram fracos aos olhos de todos.

- Pode ser que tenham roubado algumas coisas, mas não é para se desesperar. - Ela disse. - É complicado para eles entenderem que as técnicas que possuímos nada mais são do que cópias, porque assim pensarão que estão sendo passados para trás.

- Está se referindo aos cidadãos a nossa volta?

Ela riu de Fukai.

- Parece ser mais inteligente do que eu pensava.

Fukai a olhou torto com raiva, ela era uma mulher totalmente diferente do que estava acostumado a ter conversas. Na família dos Ferio, as mulheres todas eram colocadas como fracas, excluindo apenas algumas de detinham do poder por sua posição.

Ali, presente no meio de tantas pessoas, Fukai descobria um mundo novo, um mundo que esteve sempre ao lado de sua casa, mas nunca abriu os olhos para enxergá-los.

Era uma visão bela observar os demais pedindo pelos seus direitos, parecia ser obrigação de todos eles falarem como se sentiam e como queriam que houvesse uma resposta por parte dos Anciãos e também do Patriarca.

Por incríveis momentos, Fukai estava diante a uma sociedade igualitária.

Isso era difícil dele associar, mas era bonito e agradável ver isso.

Avallon estava acostumada com os forasteiros surpresos com a forma como as pessoas dependiam do Patriarca e como clamavam pelos seus direitos. Com a grande quantidade de pessoas que estavam vindo e indo dentro da Seita Thug, essa era uma visão que carregariam por muito tempo.

Mas ela talvez nunca imaginaria como isso faria de Fukai alguém diferente.

As pessoas sempre estavam fazendo críticas sobre como esse sistema era ruim, era como dar vida a sociedade para que ela se rebelasse. Isso era o que Avallon escutava sempre, mas vindo de Fukai, as palavras que o garoto soltou foram:

- Isso é inacreditável!

Era um garoto um tanto quanto estranho, mas ele conseguia entender muito bem os lados de todos, devia ser por algum passado distante que Avallon não conhecia, mas ao ouvir esse tipo de elogio era como se uma parte de sua mente que sempre esteve preocupada com essa liberdade fosse apagada.

A sociedade justa que corria entre os Thug deixava Fukai com os olhos brilhantes.

Avallon com a ajuda de sua bengala se levantou e esperou que Fukai parasse de ouvir sobre as reclamações que envolviam os alimentos e suprimentos de outros locais que serviam de apoio para os Thug.

- Temos outros lugares para ir, senhora? - Fukai se levantou rapidamente limpando as roupas brancas que ofereceram a ele quando estava sendo curado.

- Temos que conversar com Gallo, ele lhe dará instruções de locais para que você não seja visto pelos Ferio. - Avallon começou a andar lentamente para a direção oposta da praça. - Quanto mais rápido sair desse distrito, mais rápido os Ferio não irão mais te procurar.

Fukai abaixou a cabeça concordando. Desde o dia que ele foi atacado e teve os ferimentos de Razam e Reynold colocados na sua conta, o garoto decidiu que não era hora de atacar com todas as suas forças os territórios a sua volta.

Ele tinha que ficar forte, conseguir aos poucos se elevar e não deixar que nenhum outro se machucasse por falta da sua força.

- Tudo bem. - Ele assentiu com um ar decidido. - Mas eu quero fazer uma proposta para vocês, uma na qual não direi de bom grado e sem pedir algo em troca.

Avallon continuou andando a frente de Fukai, ela deu um sorriso fraco, era esse momento que ela esperava.

A hora de reaver contas com um antigo inimigo!

 

Por Amnésia | 08/03/18 às 06:03 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Wuxia, Xianxia, Brasileira, Poder, Adulto, Elementos de Cultivo, Ação