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Capítulo 71 - Instável

Legado dos Deuses (LDD)

Capítulo 71 - Instável

Autor: Yuri Cavalier | Revisão: Paragon


Fukai estava dentro da sala arrumando todos os seus mantimentos. Desde o começo, ele teve a ideia de passar a planta da casa dos Ferio adiante para que pudesse destruir boa parte da sua família, seria um ataque brutal o que ele planejava, e ainda assim, mesmo que os Thug negasse a ele qualquer coisa, ele tinha na mente a armação completa de todos os lados.

Ele procurou suas espadas em todos os cantos do quarto que esteve alojado durante os dias em Thug, porém a única coisa que encontrou foi uma curta adaga deixada sobre a mesa, nada além disso.

O garoto estava prestes a sair do quarto quando dois toques fortes do lado de fora ecoaram para dentro.

- Quem é? - Fukai perguntou de volta.

- Tulio.

Fukai respirou fundo balançando sua cabeça antes de responder para que o homem entrasse no quarto.

Tulio abriu a porta colocando apenas a cabeça para dentro vendo o garoto, estava com as roupas habituais que os de sua Seita lhe dera e esperava sentado na cama com seus braços cruzados. O homem entrou meio sem graça com duas bainhas nas mãos, uma delas torta.

Fukai rapidamente se levantou ao olhar para as duas espadas, estavam limpas, sem poeira e bem lustradas, a única coisa que estava diferente era que Lingot tinha um traço curvado mais para a esquerda do que o normal.

- Desculpe em atrapalhar. - Tulio disse logo de cara e entregou as espadas. - Senhora Avallon mandou que eu lhe entregasse isso.

Ele devolveu as espadas ao garoto que as recebeu com cuidado avaliando completamente o material que fora revestido.

- Nosso melhor ferreiro colocou um revestimento extra na bainha para que pudesse ser mais defensiva do que o normal, espero que não se incomode... - Tulio falou coçando a cabeça meio sem graça. - E sobre a lâmina da espada curvada...

Fukai não o deixou continuar, ele sacou a espada rapidamente fazendo um barulho fino de lâmina arrastando na parte interior da bainha. Era a parte que foi curvada para baixo pelo Caçador, a imagem de que a falta de força de Fukai revelada em um objeto.

- Agradeço por ter trago elas para mim, Tulio. - Fukai disse educadamente. - E peço desculpas pelo que eu disse antes.

- Sobre o que? - O homem perguntou confuso.

- Sobre sua família prender você e usá-los para qualquer coisa, eu entendi depois de ter passado um tempo aqui que não é o jeito que as coisas realmente funcionam. - Fukai abaixou sua cabeça em respeito e desculpa. - Sinto muito por ter dito as outras coisas sobre sua família também.

O homem ficou em silêncio por um tempo, mas logo começou a rir alto.

Fukai levantou sua cabeça confuso e esperou até que ele estivesse parado de rir.

- Não leve essas coisas tão a sério, minha família com certeza usa muitas pessoas para fazerem o que querem. - Tulio falou. - Mas o que aconteceu, aconteceu, eu não posso mudar nada do passado, mas posso tentar algo pra frente, assim que deve ser as coisas.

Fukai deu um sorriso de lado, o homem tinha uma filosofia de vida muito melhor do que a dele e de outras pessoas.

Olha para frente, isso era mais fácil de falar do que fazer.

- Eu também tenho que me desculpar, eu te julguei errado, assim que falou que era um Ferio, eu entrei em um modo vingativo, queria descontar em você tudo o que tinha em mente, se eu tivesse sido mais racional, talvez suas espadas não estivessem assim e as técnicas seriam ainda nossas.

Fukai discordou dele, não era por sua causa que as espadas foram danificadas.

- As minhas espadas estão assim por minha culpa, ainda tenho muito a melhorar, por isso não se culpe, eu tenho que melhorar, isso é certo. - Ele foi sincero consigo mesmo naquela hora. - O mundo é grande demais para um garoto fraco como eu cair em qualquer batalha e perder.

Tulio continuava observando aquele garoto, não era algo normal, mas pelo que via, a cada palavra que o garoto soltava, ele dominava uma parte de si, era como se estivesse refinando sua própria maneira de ver e pensar.

O homem era subordinado de grandes Anciões e da Senhora Avallon e sempre esteve presente quando o discurso de um deles era louvável, se encantava em ouvir que os mais velhos eram os mais sábios, e queria um dia chegar a esse nível.

O garoto a sua frente, por outro lado, parecia ter chegado a esse nível muito antes de atingir a idade de 20 anos.

Era como observar uma evolução constante de um ser minúsculo para algo grande.

Fukai Ferio, um nome que talvez Tulio não precisava esquecer tão cedo.

- Ser fraco é algo muito bom, sabia? - O homem disse se sentando na cadeira ao lado da porta e sorrindo ao lembrar de coisas passadas de sua infância. - Somos cautelosos quando somos medrosos, e quando fracos, temos no instinto que devemos sobreviver.

O garoto assentiu aquela explicação, mas não disse nada, pois o homem continuou a falar.

- Quando pequeno, meu pai era dono de uma loja só de espadas e me fez treinar bastante, mas entre os meus irmãos, eu era o único que não tinha muito apego a lutas. - Ele revelou rindo, e parou por um momento. - Não que eu não levava jeito, mas porque eu tinha outros sonhos, talvez no fundo, meu pai queria que um de nós fossemos o que ele nunca pôde ser.

- E o que era? - Fukai perguntou se sentando, estava interessado na história.

- Um grande espadachim e cultivador. - Tulio respondeu, e deu de ombros - Para ele, ser alguém de valor era crescer e se tornar um bom espadachim e mestre, para mim era ser respeitado pelos seus bons atos.

Tulio respirou fundo com a imagem do seu pai na cabeça.

- Quando ele foi morto pela sua família, eu jurei que iria vingar o meu pai de qualquer forma, e até tentei pedir ajuda aos meus irmãos, mas todos eles estavam longes demais seguindo o seu próprio caminho. - Tulio explicou. - Quando não houve resposta de nenhum deles, eu então abandonei o negócio de espadas que meu pai havia passado a mim e me juntei ao esquadrão tentando ter a vingança.

Fukai ouviu aquilo com um pouco de pesar no coração, ele nunca tinha ouvido falar dos ataques obscuros que os Ferio haviam feito contra os Thug, e era bem mais sinistros do que imaginava.

O desejo obsessivo dos Ferio por técnicas era muito maior do que Fukai havia imaginado, mas sem querer pensar sobre isso, ele mesmo tinha esse desejo de se tornar mais completo por meio de técnicas e métodos especiais.

Todos aqueles que um dia já foram fracos tendem a desejar mais e mais poder para que não voltem para o estado miserável que estavam, e assim era com o próprio Fukai.

No fundo de sua mente, a imagem das minas de carvão e dos trabalhadores esfomeados lutando pelas suas vidas lhe atormentavam sempre.

Seu pesadelo sempre veio do seu passado, desde sempre.

- Eu sei que isso vai ser bem estranho da minha parte, Fukai. - Tulio falou com olhos suplicantes. - Mas a minha vida toda eu dediquei a estar ao lado do meu pai, e isso foi até depois que ele faleceu, então, por favor...

O homem se levantou cadeira e abaixou a cabeça em forma de súplica e respeito.

- Eu não quero que você tenha o mesmo destino que eu e busque somente a vingança, ainda é novo e tem um talento incrível, não o desperdice com esse desejo de revogar as coisas ruins aos outros.

Por um momento, Fukai ficou estático. Essas palavras, eram as mesmas coisas que sua mãe havia lhe dito antes de partir, era como se houvesse algo sempre o avisando sobre vingança e devolver da mesma moeda.

Era um sinal? Fukai não acreditava nessas coisas, só na coincidência.

- Eu entendo que tem suas próprias histórias, Tulio. - Fukai disse colocando as espadas de volta na bainha e as guardando. - Mas eu tenho que ver o mundo por minha conta, assim que eu souber que a vingança é realmente um prato frio, eu não mais a farei, mas até lá, limparei todos os dias a lâmina de minha espada para os meus inimigos.

O homem não estava assustado com aquelas palavras, mas por incrível que parecesse, ele sempre associava Fukai a alguém de extremo valor que algum dia faria a diferença no continente que estavam, o único problema era se essa mudança seria boa ou ruim.

Ficando um pouco parado na frente do garoto, Tulio afirmou com a cabeça em um movimento lento envolvendo sua preocupação.

- Tão novo e tão decidido.

O homem estava prestes a falar, as palavras agarradas na sua garganta quando um estrondo enorme ecoou.

Os dois viraram a cabeça para a parede, havia vindo de muito longe, mas ainda assim, foi completamente audível.

E no momento seguinte, a explosão dentro do quarto jogando tudo e todos os dois para o outro canto em uma pressão enorme envolvendo chamas e uma forte ventania.

Fukai bateu suas costas contra a parede e caiu no chão segurando o próprio braço esquerdo, ele tinha batido com o pulso virado de lado.

Ele buscou os olhos a sua volta, estava tudo empoeirado, a fumaça crescia junto dos gritos miseráveis que vinha do lado de fora, Fukai tateou a parede ainda ajoelhado até bater contra algo no chão.

O garoto buscou o que havia lhe parado e ali, com os olhos mórbidos e mais de 13 estacas de madeira e pedras perfurando o corpo, Tulio, com os dois braços estirados para os lados, morto.

Fukai não teve nem tempo de olhar para ele novamente, foi surpreendido por um grito raivoso que surgiu de fora do quarto, onde dessa vez a névoa toda de poeira ocultava a sua posição e do agressor.

A pessoa que se lançou para dentro do quarto carregava uma lança nas mãos e estava completamente enfurecido, ele trazia uma roupa marrom e um símbolo na parte de trás das costas.

O símbolo da raposa.

Fukai na mesma hora reconheceu, era o mesmo que ele carregava na sua antiga roupa.

Era o símbolo dos Calto.

 

Por Amnésia | 08/03/18 às 19:14 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Wuxia, Xianxia, Brasileira, Poder, Adulto, Elementos de Cultivo, Ação