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10ª Mentira - Os Olhos de Adão (Parte 1)

Lied (LD)

10ª Mentira - Os Olhos de Adão (Parte 1)

Revisão: Venâncio Matos


O espírito e o corpo físico se tornam um.

Esse é um milagroso fenômeno, uma manifestação da força interior de um indivíduo.

Tal sincronização concede um extraordinário poder, um modo que não conhece limites na sua evolução: o Spirit Mode (Modo Espírito).

 

De modo a despertar o Spirit Mode, Lied infiltra-se juntamente com Zaccharias no aglomerado de mortos que procuram a reencarnação através da passagem de provações.

Num início de provação bastante intenso, Lied vai conseguindo esquivar-se com sucesso das facas, mas vê-se inevitavelmente perante uma situação de tudo ou nada.

É quando, em meio do desespero, uma excêntrica figura surge diante do nosso protagonista. Será este misterioso indivíduo a chave para a superação?! Que respostas trará ao desesperado Lied?!

A primeira provação, “Vento Cortante”, chega ao seu derradeiro capítulo!

 

O corpo de Lied mantém-se imóvel no chão. Eduardus, não conseguindo mais apenas assistir, prepara-se para ir ajudá-lo.

— Não vá. Esta é a luta do Lied e apenas do Lied. Ao ir ajudá-lo, estará indo contra a vontade do próprio — Zaccharias diz.

— M-Mas... naquelas condições ele já não...!

— O Lied ainda não morreu. Eu posso sentir. O espírito dele pode ter caído no sono, mas continua bem vivo.

— E se o sono... acabar sendo eterno? Está vivo no momento, mas pode ser uma questão de segundos… — Luna chega-se à frente.

— Nesse caso, não há nada que se possa fazer. Ao aceitar este desafio, ele sabia o que estava em jogo. Estará apenas... colhendo o que plantou.

Então mesmo aquele corvo otimista não podia fechar os olhos à realidade, concluía Luna. A jovem asteca encara cruamente o corpo ocioso de Lied.

“Sim, este é… o limite das pessoas.”

...

Regressamos ao conto do passado a fim de colocar um ponto final nele.

O céu azul-turquesa começava a dar lugar a um azul escuro da noite, a incandescente lua elevava-se entre as estrelas do telhado sagrado. Luna chega finalmente à sua habitação e encontra os seus pais, ambos em seus 30 anos, saindo de casa.

— Ah, Luna! Correu tudo bem na escola? — a mãe cumprimenta a filha com um sorriso no rosto.

— O Pai e a Mãe estão de saída agora. A reunião hoje poderá demorar um pouco mais do que o normal, então não espere por nós para comer — o pai, igualmente sorridente, diz.

Luna, silenciosa, apenas acena com a cabeça. O pai faz uma pequena festa no cabelo de Luna.

— Comporte-se. Até logo! — a mãe despede-se.

A porta fechou-se suavemente diante de Luna, agora sozinha em casa.

A reunião que mencionaram era referente ao grupo de adoração de Eva, ao qual os pais da moça pertenciam. O nome dela, “Luna”, é precisamente uma homenagem prestada a Eva.

Todos os dias, ao fim da tarde e depois do trabalho, lá iam eles marcar presença naquele compromisso, ao qual só estão comprometidos por vontade própria, não sendo uma obrigação por lei.

Sim, os heróis de Luna são os seus esforçados e incansáveis pais que seguem a mesma rotina diária sem reclamações, mesmo quando a sua apertada agenda tira algum tempo com a filha.

Aquela seria a última reunião deles... e a última vez que Luna os veria antes do cruel destino bater-lhes à porta. Naquele final de tarde, o culto de Eva seria atacado por improváveis sobreviventes do grupo de adoração da Serpente Falante.

Entre as vítimas do ataque estariam infelizmente os pais de Luna, se tornando órfã após a fatalidade. A vida... perdeu todo o significado. O tempo se passaria...

“Heróis que morrem e deixam os outros para trás...”

...

10 anos depois, um mês e meio antes de Luna chegar a Mictlan.

Luna está trancada no seu quarto. Ela se trancou em casa e se desligou da realidade depois do que aconteceu.

Os seus pais eram a única família que havia tido, e como Luna nunca tinha feito amigos, ninguém ia visitá-la. Ela também tinha recusado ir para um centro de adoção.

Mas estava tudo bem assim. A deterioração psicológica, e agora mesmo física, com a falta de apetite, eram as consequências que Luna procurava... para colocar um fim na sua vida.

...

 

1º dia

O método atual de suicídio – não comer – iria certamente levá-la ao limite, mas um asteca pode aguentar cerca de dois meses sem se alimentar e Luna não pretendia esperar tanto tempo.

2º dia

Não era suficiente. É preciso tentar algo diferente. Continuando assim, viverá mais tempo do que aquele que deseja viver.

3º dia

Na manhã do terceiro dia, dois vizinhos de Luna conversam sobre a jovem que nunca mais saiu de casa.

— Ela... não se recuperou, hã?

— Sim... a 2ª Guerra Espiritual foi um grande choque para todos, mas o ataque que se sucedeu anteriormente, dois anos antes da guerra, também é inesquecível.

— Espero que se anime... algum dia.

4º dia

Como sempre, ela está fechada no seu desarrumado quarto. Após refletir nestes últimos dias, Luna chegou à conclusão de que uma morte rápida não será uma morte indolor.

Existe um lugar. Um lugar que lhe dará o único golpe final que precisa.

5º dia

De madrugada avermelhada, sem pessoas circulando na rua, Luna sai dez anos depois para respirar ar fresco. O dia do regresso... é também o dia da partida eterna.

Antes de se dirigir às montanhas, o lugar em que planejava suicidar-se, passaria por uma última vez pela célebre estátua da capital, esta que permaneceu intocável mesmo após a 2ª Guerra Espiritual.

A figura de Adão esculpida, o olhar congelado cruzando-se com a gigante escultura.

“Inexistentes. Heróis... não existem.”

...

 

Antes de partir para as montanhas, Luna alimentou-se bem de modo a aguentar a escalada e fez as duas possíveis despedidas que tinha para fazer neste mundo: despediu-se da casa onde viveu durante toda a sua vida, na qual criou inúmeras memórias com os seus falecidos pais; e disse adeus a Adão, deixando bem claro no fim que não lhe respeitava como os outros respeitam.

...

 

O monte que Luna escalava neste momento com muita dificuldade é traiçoeiro, com ladeiras muito inclinadas, e perigoso, devido aos animais selvagens que habitavam as montanhas, e por esse motivo é que as autoridades aconselhavam as pessoas a não subir.

Luna subiu com muito esforço um terço do relevo, todavia o topo ainda não era visível. Apesar do cume estar muito distante de si, olhar para baixo fazia parecer o contrário.

Um som ecoa repentinamente pela vegetação. Os pássaros reagem ao eco produzido e levantam as asas, abandonando os ramos.

— O-O que é que foi isto? — Luna hesita perante o súbito barulho que parece sair de uma árvore distante.

O barulho é reproduzido novamente, desta vez mais ensurdecedor e intimidante. Por detrás do tronco revela-se uma silhueta colossal que arrepia a espinha da rapariga.

Foi com relativa facilidade que Luna identificou o monstro. Tratava-se de um Urso Espiritual, um dos predadores mais temíveis que se podem encontrar nas montanhas.

“T-Tenho de fugir. Caso contrário... caso contrário... eu irei morrer.”

Ela vira as costas e começa a correr para dentro da mata. O urso também não perde tempo e vai imediatamente atrás da sua presa.

“Espera. Irei morrer? Não é para isso que vim precisamente para aqui? EU ESTOU CANSADA! Pode não ser uma morte indolor, mas isso não importa! A dor acabará no momento em que morrer. Eu tenho de agarrar esta chance e...”

No momento em que se virava para confrontar o urso, Luna é surpreendida pela rápida aproximação do mamífero. Ali estava ele, abismal e feroz, a poucos metros de si.

“R-Rápido!!”

O urso a ataca impiedosamente com uma das suas garras. Um grande “X” é desenhado no peito de Luna ao mesmo tempo em ela é lançada contra uma árvore atrás de si.

A força do vento é tanta que também derruba a árvore na qual Luna choca-se; o tronco desaba e leva a jovem consigo. Para sorte dela, a árvore não foi completamente descolada das suas raízes no solo e pendeu, o que permitiu que ela pudesse agarrar-se à haste.

Do peito da moça jorrava sangue incontrolavelmente, uma hemorragia. O líquido vermelho pingava torrencialmente. Luna olhou de relance para baixo. Uma queda de pelo menos 20 metros.

Se as suas mãos se despegarem por um segundo do caule em que se estão segurando… O seu instinto de ser vivo queria viver, enquanto que o coração desejava tirar as mãos e abraçar a morte.

Era também uma questão de tempo até a árvore ser separada da sua base ou até mesmo do urso chegar perto da presa. Podia escolher, mas o seu destino não mudaria independentemente da escolha que fizesse.

Antes de descer ao abismo, Luna enxergou algo. No tronco da árvore, uma mensagem estava escrita. A letra é infantil, claramente pertencente a um rapaz não mais velho do que Luna.

“Um dia nós três voltaremos aqui. Eu, o Klaus e o Verus. É uma promessa!”

— “Klaus”?

Sentia que já tinha ouvido aquele segundo nome antes. Sim, o nome de um dos rapazes que passou por Luna há muito tempo atrás.

No último segundo que tinha restante, fixou o olhar na assinatura do autor da mensagem. À semelhança do outro nome, também achava que conhecia de algum lugar.

Os dedos escorregaram e Luna caiu. No fim conseguiu mesmo aquilo que queria – a morte. E assim termina o conto do seu passado...

 

...

 

— Eu acredito — Eduardus afirma mais uma vez a sua crença.

— Você acredita? No quê? — Luna pergunta com uma cara de desconsideração.

Os olhos do ex-agente são carregados de uma convicção inabalável. Para ele, a esperança ainda não tinha morrido.

— Eu acredito... que o Lied irá levantar-se. Com toda a certeza.

Luna queria rir, mas a expressão sincera de Eduardus impediu que fizesse troça.

“Idiota.”

...

 

Por Mitsuaki Seiji | 07/12/18 às 19:53 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa