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16ª Mentira - Reencarnação

Lied (LD)

16ª Mentira - Reencarnação

Revisão: Venâncio Matos

O espírito e o corpo físico se tornam um.

Um milagroso fenômeno, uma manifestação da força interior de um indivíduo.

Tal sincronização concede um extraordinário poder, um modo que não conhece limites na sua evolução: o Spirit Mode (Modo Espírito).

 

De modo a despertar o Spirit Mode, Lied infiltra-se juntamente com Zaccharias no aglomerado de mortos que procuram a reencarnação através da passagem de provações.

O grupo passou com louvor as duas primeiras provações e finalmente chegou à última e derradeira provação. Lamentavelmente, Lied já não tinha energia de sobra para forçar a passagem bloqueada pela cordilheira.

Meshulam, o primeiro Shinigami da história de Mictlan, surge diante deles e os informa inesperadamente do sucesso na passagem da provação.

Com as três provações passadas, apenas resta a Luna e aos outros finalmente reencarnar!

 

— Vá, vamos andando. É hora de reencarnar! — o Shinigami diz alegremente.

Luna e os espíritos restantes limpam a cara de choro e seguem as instruções do Deus da Morte. Enquanto isso, Lied e Zaccharias juntam-se a eles em frente ao portal de saída.

Vendo que estavam todos preparados, Meshulam passa pelo portal. O grupo  o segue.

...

 

8º Nível do Submundo, Sala da Reencarnação.

O teletransporte os leva diretamente ao destino predeterminado.

— Como podem adivinhar, esta é a “Sala da Reencarnação”, o lugar em que os espíritos reencarnam — o Shinigami introduz.

Luna observa aquilo que parece ser uma cápsula com tamanho suficiente para receber o corpo de um ser humano. Meshulam percebe essa observação e caminha até o pé do recipiente.

— Isto? É onde vocês vão entrar.

— Nós temos de ficar dentro disso...? — Hector não consegue deixar de sentir-se um pouco desconfortável.

— É só um pouquinho, quando derem por vocês já terão reencarnado! Bem, não saberão que reencarnaram, haha.

— N-Não percamos tempo então. É o momento pelo qual tanto ansiamos, afinal de contas — surpreendentemente, é Liana que dá o primeiro passo em frente.

Sem ninguém perceber, aquela mulher tímida e sem auto-estima havia amadurecido, tudo graças ao que passaram durante as provações.

— A todos, muito obrigado! Se não tivesse tido vocês como grupo, provavelmente não estaria agora aqui. Eu... estou realmente agradecida — Liana, dentro do recipiente, abaixa a cabeça em forma de agradecimento e por um momento fita Lied, o que capta a atenção do humano — Caso eu seja novamente estéril, prometo que não perderei desta vez a esperança. Se não posso criar a minha própria vida, então adotarei uma e ajudarei ela a encontrar a felicidade. Este é... o juramento do meu espírito.

“Estéril...”, pensou Lied.

Exatamente como a mãe adotiva do rapaz...

Antes de partir, Liana mostra um sorriso de enorme gratidão dedicado a todos ali presentes. Os companheiros durante a jornada devolvem o sorriso.

— Obrigado... e até um dia, senhora Liana — Eduardus acena com a cabeça.

Despedidas feitas, a mulher desmaterializa-se em partículas espirituais, deixando a cápsula novamente vazia. Pouco tempo depois da reencarnação, é Hector que avança inspirado pela iniciativa de Liana.

— Eu... fui uma pessoa imbecil e um péssimo pai. Se tivesse essa hipótese, gostaria de voltar atrás no tempo e de fazer aquilo que não fiz. Mas essa não é uma opção... a vida que vivemos não voltará. Só nos resta... começar tudo do zero.

Enquanto o ouvia, Lied não conseguia deixar de pensar no seu pai adotivo, que era bastante parecido com Hector…

— Esta minha próxima chance, eu definitivamente não irei desperdiçá-la.

— Eu sei que não — Eduardus lança um sorriso confiante ao homem, o qual seria retribuído.

Hector reencarna. Já só restam agora Eduardus e Luna. O agente se encaminha para ser o próximo a reencarnar.

Dentro da cápsula, o agente asteca coloca toda a sua atenção em Lied, que é ligeiramente surpreendido.

— Quando você apareceu, Lied, e disse que ia parar dez mil facas por sua conta, eu não conseguia duvidar das suas possibilidades apesar de saber que era irracional… — o polícia fecha os olhos e reabre-os com um sorriso — Não tem pessoas preocupadas contigo? Família ou amigos?

— A minha única família eram os meus pais adotivos, que estão mortos — Lied encara o chão friamente.

— Ó... as minhas condolências.

— Quanto a amigos... eu não tenho nenhum.

— Por quê?

— Porque nunca precisei na minha vida. E dificilmente irei precisar...

— Entendo...

Quando parecia que a conversa iria terminar ali…

— Você é um policial, não é? — Lied pergunta.

— Bem, era, haha.

— Existe um rapaz mais ou menos da minha idade que conheci antes de vir para Mictlan... Ele é um detetive e estava responsável pelo caso em que os meus pais foram assassinados… — a última revelação abalou naturalmente Eduardus e até Luna, que somente escutava — No fim me disse que não sabia o quão difícil era preservar a justiça e que nunca entenderia a dor dele...

— Percebo... disse que ele é da tua idade? Um jovem agente, ainda por cima... Não conheço o sistema de justiça do seu mundo, Tellus, mas julgando pelas palavras desse rapaz, talvez não seja muito diferente do nosso — ele faz uma pausa momentânea — Eu morri durante uma perseguição. Assassinado. O criminoso era um colega nosso que havia sido apanhado em atos de corrupção dentro da polícia asteca. Esse homem também era um utilizador de Spirit Mode e a minha unidade não estava preparada. Além de mim, creio que mais dois ou três agentes perderam a vida naquele dia.

O trágico passado que ainda não havia sido revelado...

— Não querer que mais pessoas inocentes se magoem e que a justiça preserve... Pode parecer uma utopia, e talvez seja mesmo uma, mas um mundo assim é um desejo nosso, os “defensores” dela. E por isso é que posso entendê-lo…

Mesmo que fosse um mundo demasiado perfeito para existir, tanto Susumu como Eduardus acreditavam ser possível construir uma sociedade com base nos princípios do que é justo.

— Não ter sido capaz de ajudar na preservação dos valores em que acredito... esse é o meu arrependimento de vida.

— Mas você ultrapassou isso. Por isso é que está aqui — Meshulam intervém.

— Sim. Agora penso já estar preparado... para tentar mais uma vez defender aquilo em que acredito.

— Aquilo... em que acredita... — Lied murmura, intrigado pelas palavras de Eduardus.

No que é que Lied acreditaria...? Seria essa uma questão que já tinha resposta?

— Lied! Eu rezo para que também encontre os seus próprios e genuínos princípios! — Eduardus ergue a cabeça de forma vitoriosa.

Enquanto ele desaparecia, ainda houve tempo para deixar uma última mensagem:

— Sendo você, eu tenho a certeza... que encontrará.

E assim reencarnou.

“Os meus... princípios...”, o rapaz pensa.

Chegou, finalmente, a vez de Luna. Não querendo ficar atrás dos outros espíritos em determinação, a moça dirige-se sem demora ao recipiente.

Acomodada, Luna passa os olhos por todos aqueles que a observavam, começando pelo Shinigami, corvo falante, e por último… Lied.

— Aaaaah, nem posso acreditar. Já estava conformada e tudo... — ela suspira e olha para Lied — Caramba... por que é que teve que aparecer...? — sussurra.

Lied percebe que a moça disse algo, mas não consegue captar com clareza.

À mente de Luna vêm as memórias recentes das provações, sendo a memória da primeira provação – Lied desviando-se das dez mil facas – a de maior destaque. Quando o conheceu, a jovem não dava nada por ele...

— O que é que vai fazer em seguida? Não conseguiu despertar o Spirit Mode, não é?

A pergunta é certeira e incomoda Lied, cuja frustração é perfeitamente visível.

— Não... falta alguma coisa... Não sei o quê, mas falta...

— E enquanto não conseguir essa “coisa”, não descansará...

— Sim. A todo o custo.

Para derrotar Martyr, era indispensável que obtivesse o Spirit Mode. Foi aquela determinação inabalável que cativou Luna profundamente...

— Está na hora — o Shinigami relembra a adolescente asteca.

Luna acenaria com a cabeça antes de voltar a encarar Lied. No momento em que ambos os olhares se cruzam novamente, o corpo espiritual dela começa a desvanecer-se.

— Se está à espera de uma despedida piegas, eu não tenho nada interessante para te dizer! — ela diz.

— Eu não estou...

— E é...?

O silêncio breve irrompe.

— Você... também chegou a alguma conclusão? Como os outros... — Lied pergunta.

— Sim — Luna, cujo processo de desaparecimento já ia na cintura, responde com um sorriso.

— Percebo... ainda bem para você.

— Ei... — a moça não deixaria a conversa terminar ali.

— O que foi?

— Obrigada... por ter aparecido.

— Eu já te disse que...

— Obrigada... por existir.

Aquele último agradecimento tocou verdadeiramente o coração de Lied. Nunca antes ninguém havia expressado tão abertamente a apreciação pela sua pessoa, pela sua existência.

— Lied, há algo que quero te pergunta antes de ir.

— O-O quê...?

— Sabe, existem muitas pessoas lá fora, como eu e os outros espíritos, que sofrem todos os dias e que se duvidar só precisam de uma mão, uma mão como a sua, para darem a volta às suas vidas. Se... se voltar a cruzar com alguém com problemas no futuro, irá ajudar?

— Que pergunta é essa...? D-Depende... se ganhar alguma coisa com isso...

Não, aquela não era a sua sincera resposta vinda do coração.

Luna, que já tinha parte do peito apagando, é tomada de surpresa por uma figura que começa a se materializar através do espírito de Lied. No preciso momento em que o vulto ganhou uma forma física plena, ela percebeu de imediato de quem se tratava.

Claro!! — Adão responde sinceramente por Lied.

Como era uma conexão do espírito de Lied com o espírito de Luna, Meshulam não conseguia ver Adão.

— Compreendo... então era por isso...! — tudo começou finalmente a fazer sentido para a asteca, que esboçava um sorriso de enorme felicidade.

As lágrimas dela escorriam lentamente...

Entretanto, a conexão com Lied não foi a única ligação, pois no lugar do corvo falante, Zaccharias, um indivíduo aparece. Sim, por alguns instantes, Luna pode ver a forma humana do corvo.

— Você é...! Por quê...? — apesar de nunca o ter conhecido em vida, aquela também é uma identidade decifrável.

Luna olha para Lied e os pontos interligam-se.

— Ah... por sua causa... — um novo sorriso radiante se abria…

A relação secretamente desvendada... Seria graças ao momentum da reencarnação que tudo se conectava na perfeição?

— Inacreditável, Lied...! Você tem estas pessoas incríveis te ajudando! Só... pode ser o destino, né? — Luna abaixa a cabeça um pouco — E eu também... fiz parte do teu destino...

A dissolução do corpo está prestes a terminar... É quando a asteca tem uma súbita visualização das suas memórias passadas!

A memória da sua morte...

No tronco da árvore, uma mensagem estava escrita. A letra era infantil, claramente pertencente a um rapaz não mais velho do que Luna.

“Um dia nós voltaremos os três aqui. Eu, o Klaus e o Verus. É uma promessa!”

No último segundo que tinha restante, ela fixou o olhar na assinatura do autor da mensagem.

O nome era...

“Lied”

...

 

Uma memória da sua vida...

Encontramo-nos em Aztecorum, a capital de Aqua.

Enquanto Luna caminhava junto à estátua de Adão, duas crianças do sexo masculino e da mesma idade passam correndo por ela.

O rapaz que ia atrás tinha cabelo loiro e olhos verdes escuros, já o rapaz que ia à frente tinha cabelo preto e olhos verdes claros.

— Rápido, Klaus! Estão todos à nossa espera!

— S-Sim!

A criança chamada Klaus bateria contra a moça sem querer e pediria desculpa timidamente.

Luna observaria os dois à distância. Não havia dúvida. Aquele apressado menino de olhos verdes claros era... Lied.

...

 

Regressamos ao presente...

Luna é vista emocionada, incapaz de conter as suas emoções após conectar as memórias que nunca haviam sido explicadas.

— É mesmo verdade... eu realmente... fiz parte do teu destino, Lied!!

Antes de desaparecer totalmente, a jovem esticou a mão. Lied não compreendia, mas o instinto lhe dizia para segurar a mão de Luna, o que ele faria.

...

 

Quando deu por si...

— Onde... é que estou?

Lied encontra-se num espaço escuro e vazio, sem identidade própria.

— A minha alma...?

Não, a Maçã de Adão não podia ser vista.

— A alma dela...?

Não, também não devia ser a alma de Luna. Aquilo é, na verdade, uma dimensão que se abriu fisicamente entre memórias perdidas de Lied e graças à influência das próprias lembranças da asteca.

— Hã…? Uma pessoa...?

Ao fundo do corredor negro sem fim, alguém permanecia em pé. Um impulso comandou mais uma vez Lied para correr até onde a figura aguardava. A aparência do vulto começava a ficar nítida à medida que se aproximava – uma criança loira de olhos verdes escuros!

A cada passo que dava, a familiaridade de Lied em relação àquele moço aumentava. O loiro vira as costas e se afasta.

— E-Espera! Quem é você?

O inesperado acontece e um mal misterioso tenta obstruir Lied – cobras surgem e envolvem o corpo, procurando pará-lo. Ao longe, também o loiro é envolvido por cobras, e de maneira mais brutal – era consumido. Devorado.

Lied fazia de tudo para continuar a sua perseguição, mas não tinha a força necessária para se livrar das serpentes.

— Espera... ESPERA...!

Não podia ceder. Sentia que, se cedesse ali, iria se arrepender para o resto da sua vida.

Jurava que sabia o nome dele. Estava na ponta da língua… A memória ganhava força enquanto avançava, então tinha que prosseguir.

Lied não tinha mais resistência para oferecer às cobras. É quando... finalmente...!

Sim, o nome é...!!

— KLAUS!!!!!!!!!

O rapaz de nome Klaus gira a cabeça de modo a sorrir ligeiramente para Lied. Um sorriso trágico que engloba inimaginável sofrimento.

O desfecho passa pela escuridão infinita engolindo tudo e todos...

...

 

Lied está de volta à sala.

Luna não se encontrava mais, o que significa que já havia reencarnado. Entretanto, algo de estranho ocorria com Lied. Lágrimas vertiam sem parar dos olhos.

— Ei... Zaccharias... hã... hã... por que é que... estou chorando? — a expressão desgostada procura Zaccharias, que está sentado no ombro.

Pela segunda vez desde que se lembra… ele chorou.

 

O destino é reservado para aqueles que forem escolhidos.

E estes inocentes rapazes, assim como os que vieram antes deles, giram a roda que move o mundo e dão prosseguimento à história.

Esta é uma “mentira”, uma aventura em busca da verdade.

 

Lied... e Klaus.

Ligados pelo mesmo destino, os dois... voltariam a se cruzar.

 

[FIM DO CAPÍTULO]

Por Mitsuaki Seiji | 25/12/18 às 22:16 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério