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1ª Mentira - Ignotum per Ignotius (Parte 1)

Lied (LD)

1ª Mentira - Ignotum per Ignotius (Parte 1)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: HebiTantei

A vida. O espírito. A alma.

Estas três peças tiveram, ao longo da história, as suas definições discutidas e desfiguradas, assim como colocadas à prova.

Vidas se encontraram. Espíritos batalharam. Almas expiraram.

Um ciclo que se continuará a repetir até à próxima era... e para toda a eternidade.




Uma espaçosa e escura dimensão, um cenário vazio e deprimente.

Um rapaz de 16 anos, cabelo preto e olhos esverdeados claros, caminha silenciosamente pelo caminho invisível que se vai abrindo a cada passo que é dado para a frente. Enquanto anda, ele vai ouvindo vozes exteriores que lhe sufocam.

“É arrogante com as pessoas, até mal-educado com os próprios pais.”

“Sabia? Aquele menino não só ofendeu um colega de turma como também bateu nele. O pobre coitado acabou hospitalizado.”

“Eh…? Que horrível.”

— Cala a boca — ordenava Lied.

“O pior é que ainda respondeu à própria professora! Não é apenas uma criança indisciplinada, ele é uma cobra em forma de pessoa! Caramba, e pensar que o meu rapaz convive com uma aberração daquelas!”

— Eu já disse… para calar logo essa boca.

As vozes agoniantes soavam firmemente. O espaço, vibratório, reagia a Lied, mostrando alguns sinais de instabilidade. 

Após caminhar por algum tempo, o jovem perdido finalmente avistou algo no meio do nada. É exatamente como dizem, “uma luz no fim do túnel”. 

Aproximou-se do objeto. Numa cesta imaterial, uma maçã vermelha repousava. 

No momento em que colocou a palma da mão direita nela, a maçã reluziu opostamente às vibrações provocadas pelas vozes, como se estivesse tentando superar as emoções negativas no ar com o seu fulgor incandescente. Agora com uma tonalidade dourada, a fruta foi bem-sucedida.

— Novamente. Aquele estranho sonho. 

Lied acordou, despertando de um sonho que já havia experimentado várias vezes antes e que, até agora, não conseguira entender na sua essência.

Uma vez, alguém disse que “sonhar com maçãs é desgosto”.

Sentou-se na cama. Não sabia o que era preferível: a realidade ou aquela imagem horripilante e opressiva que lhe amargava as entranhas. 

Lied nunca recuara na sua palavra, independentemente de qual fosse a situação em que se encontrava. Imparcial nas suas decisões. Vivia apenas por ele e mais ninguém. Essa era a sua lei.

Não, não era isso. No fundo, a norma adotada pela raça humana e por Lied era a mesma. As atitudes dos humanos enojavam-no consequentemente.

Ignorantes. Alheios à verdade e presos numa ilusão a que chamam de “vida”.

Ingênuos. Achando que podiam ficar presos a um sistema frágil e vulnerável para sempre.

Mesmo que por vezes parecesse estar sendo manipulado pelos que estão à sua volta, o jovem não permitia ser iludido pela sociedade.

Não valia a pena se incomodar. Sim, com eles, os humanos. Sabia que um dia a humanidade teria aquilo que sempre mereceu: um destino digno e que assentasse bem na inutilidade deles.

Lied levantou-se e saiu do quarto em direção ao banheiro. Bateu na porta, violentamente. Sem resposta. Entrou e tomou um longo banho. 

Vestiu-se, pegou na mochila e olhou para o seu relógio de pulso. 08:36. Estava atrasado para a escola. 

Desceu rapidamente as escadas e encontrou-se com os seus progenitores, que estavam a tomar tranquilamente o café da manhã. O pai, que barrava umas torradas, observou-o enquanto se preparava para sair.

— Não vai comer nada?

Lied ignorou-o, voltando-lhe as costas.

O pai, sentindo-se desprezado, aproximou-se dele e levantou-o pela gola da camisa do uniforme escolar. Estava entrando no calor do momento.

— Já chega! Exijo que me respeite, afinal de contas, sou eu que te sustento!

Os olhos verdes claros do filho cruzavam-se com os de cinza do pai. Um cruzamento de olhares tingidos de ódio.

— Não te devo nada — respondeu Lied, cuspindo para o chão de seguida.

— Chega...! — dizia a mãe para o marido, parando por um momento de beber o seu chá de ervas matinal.

O pai o deixou cair e pisou em sua perna, o que causou alguma dor. Lied saiu de casa a coxear, indignado com a atitude daqueles intrometidos pais. 

Ganeden, uma Ilha na Ásia, de línguas oficiais o japonês e o alemão.

Sabendo que já estava atrasado, Lied resolveu fazer uma parada no Parque Municipal antes de ir “marcar presença” na aula. 

Enquanto se encaminhava para o parque Lied era rodeado de minúsculos pontos azuis, dezenas deles que preenchiam em encadeamento a atmosfera. Curiosamente, todos esses pontos pareciam se mover seguindo uma determinada rota. 

Desde pequeno que o rapaz conseguia vê-los. Nunca encontrou uma pessoa com a mesma capacidade que ele; ou talvez nunca se deu ao trabalho de tentar encontrar. 

Subiu a rua e virou à esquerda, entrando no centro da cidade onde se localiza o parque. É composto por uma pequena extensão de ervas, alguns candeeiros e bancos. O lugar em que Lied costuma relaxar.

Deitou-se, retirando de um bolso das calças os seus fones de ouvido. As músicas que o rapaz ouve são todas de uma forma musical denominada Kunstlied, de um teor sentimental intenso. Por algum motivo, esse era um gênero nostálgico a Lied.

Entretanto, ele não estava sozinho ali. Ultimamente, uma moça com o uniforme da mesma escola dele tem visitado bastante o parque, que só costuma encher aos fins-de-semana. De cabelo alaranjado e olhos azuis claros, ela limita-se a repousar ali, à semelhança de Lied.

Mesmo sendo os únicos a frequentar diariamente aquele espaço, os dois estudantes nunca tinham entrado em contato um com o outro. Lied percebia que algo nele a incomodava, mas não tinha interesse em saber o quê.

Passaram-se dez minutos - dez minutos de puro silêncio onde apenas se ouvia o esvoaçar das folhas das árvores.

Tendo relaxado o suficiente, Lied levantou-se e abandonou o parque, deixando para trás a jovem que o olhou de relance, e seguiu diretamente para a escola.

Entrou pelos portões metálicos que rangiam ao toque do vento numa irritante melodia. Subiu as escadas que levavam a um segundo andar, no qual estão as salas de aula.

Procurou a porta da sua classe e pensou se deveria, porventura, entrar ou não. Preparou-se para sair dali, mas lembrou-se de súbito dos seus pais. Entrou na sala, agora sem hesitar.

— Você...! Mais uma vez atrasado...! — exclamava o professor momentos antes de reparar na perna lesionada — L-Lied-kun... não se importaria de ir à enfermaria, fazendo favor? 

Contrariado, Lied fechou a porta num estrondo, tudo isto enquanto os seus colegas olhavam para o aluno “nem um pouco sociável”, e foi até à enfermaria da escola.

... 

Chegou o fim do dia. Hora de sair da escola e ir para casa.

O pôr-do-sol era maravilhoso àquela hora. As flores de cerejeira caídas em frente do portão da escola voavam de um lado para o outro numa dança cor-de-rosa.

Lied avançava por entre elas, evitando olhar para outros estudantes. Ligeiramente atrás de si saía um grupo alegre de moças. Uma delas, a do parque, observava atentamente Lied, sabendo que ele iria hoje para o mesmo lugar de sempre.

...

Finalmente chegou a casa. Lied deixou a mochila da escola no quarto, vestiu umas roupas mais casuais e preparou-se para ir ao parque. No momento em que abria a porta de casa, o pai surge seguido da mãe. 

— Filho... eu...! — o pai hesita no final.

A mãe esperava que o marido tivesse o discurso na língua, mas o homem não teve coragem para dar o passo à frente. Lied ignorou, preparando-se para sair.

— Lied... eu e o seu pai pedimos imensa desculpa. Então, não se esqueça de voltar para casa, está bem? — disse a mãe num tom suave e maternal, esboçando um lindo sorriso.

Lied refletiu por um segundo, mas acabou mesmo por sair impetuosamente.

Chega ao parque. A jovem estava lá novamente.

Lied deitou-se, contemplando os pontos azulados e tentando tocá-los com a ponta dos dedos. As árvores e a relva dançavam ao ritmo do vento.

Perguntava-se a si mesmo se devia ter ficado para ouvir as palavras do pai e se devia ter dito algo à mãe. Não, não se arrependia.

Passaram-se novamente dez silenciosos minutos e nenhum contato entre eles.

A jovem, voltada de cócoras para Lied, olhava de vez em quando para ele. A moça inclinou as costas para o lado e começou a fixar a vista nele, com claros sinais de querer iniciar uma conversa. 

— Hum... — tentava ganhar a atenção do rapaz.

Lied, que usava a cabeça como almofada, finalmente responde: 

— Estou ouvindo — não tirava os olhos do céu.

“Se estava ouvindo, então por que é que não respondeu logo...?”, ela pensava para si mesma, comicamente revoltada.

— Hoje, à saída e entrada da escola, ontem, anteontem... para onde eu vou, você vai. Nas últimas duas semanas, tem sido sempre assim — comentou Lied, deixando-a sem jeito — Então? O que é que você quer?

“Ele até é um excelente observador para alguém que não se preocupa em observar os outros”, concluiu a moça na sua mente. 

Suspirando, ela se ergueu do gramado e dirigiu-se a Lied. Ao pé dele, agachou-se e tocou com o dedo indicador direito no mesmo ponto azul no qual Lied estava em contato, chocando com o dedo do rapaz. 

— Eu também... consigo ver.

Os dois fitavam igualmente o encontro dos seus dedos e a esfera azulada visível a ambos. Tal revelação surpreendeu Lied, que não esperava que mais alguém conseguisse ver aqueles estranhos pontinhos.

— Era por isso que você me incomodava o dia todo com a sua presença... percebo... então não sou o único, hã...?

— Não, me desculpe por isso — a moça desculpou-se num tom hilário. 

Ela levanta-se ao mesmo tempo que Lied, o qual passa as mãos pelas calças enrelvadas.

— Desde quando? — Lied pergunta de costas voltadas.

— Comecei a ver apenas muito recentemente, um pouco antes de começar a vir aqui — respondeu ela com uma expressão preocupada e a olhar para baixo.

— Seu nome é Naomi, certo? — perguntou Lied, virando-se ligeiramente para a jovem.

— Eh? Como é que sabe?!

Lied mostrou na sua mão esquerda um cartão de identificação da escola, que continha, para além de outras informações, o nome da jovem.

— Ah! Isso é meu!

— Deixou cair — Lied dá voltas ao cartão antes de devolvê-lo com um arremesso a Naomi.

— E-E o seu nome é Lied, certo?!

— Sim. Bom trabalho de stalker.

— N-Não quero ouvir isso de alguém que pega nas coisas dos outros sem autorização! — retrucou Naomi.

— Recentemente... 

Lied segurava o queixo, pensativo. Tentava encaixar as peças do quebra-cabeça, atitude que despertou a curiosidade de Naomi.

— No momento em que começou a ver, ou ligeiramente antes, aconteceu algo de estranho consigo? Algo que pudesse ter provocado o fenômeno? — inquiriu Lied, virando-se para Naomi.

— Não sei... não me vem nada de anormal à cabeça... — respondia Naomi — Mas por quê? Aconteceu algo consigo?

— Não... eu consigo ver desde que me lembro — Lied põe a mão por um instante na testa, quase que tentando lembrar-se de algo que nunca tinha acontecido.

— De qualquer maneira, estas bolinhas azuis... o que são realmente...? — inquiriu Naomi.

— Não sei exatamente... — dizia Lied — Elas amontoam-se por conta própria e tomam sempre a mesma direção, como se estivessem programadas para irem para o mesmo lugar. Sim... essa é a minha única certeza. Estes pontos azuis… estão vivos — toca novamente na esfera azulada.

— V-Vivos...? — Naomi engole a saliva. 

— Não é apenas isso... há mais uma coisa — dizia Lied.

— Mais uma coisa...?

— Foi apenas de relance, mas eu tenho certeza do que vi. Eles… tomando formas humanas.

Antes que a incrédula Naomi pudesse dizer mais alguma coisa, uma fumaça densa começou a pintar o céu de cinza. Essa fumaça, provavelmente de um incêndio, vinha exatamente de onde Lied vive - a sua casa.

— Vem de lá...! — o adolescente entendeu imediatamente.

Lied sai correndo do parque sem trocar últimas palavras com Naomi.

— E-Espere! — Naomi grita e vai apressadamente atrás dele.

Enquanto abandonam o parque, um vulto os espreitava de onde estavam. Encapuçado, de capuz e mantos brancos. Uma aparição que precedia o que estava para vir.

...

Lied correu rapidamente, empurrando diversas pessoas que obstruíam o caminho, os olhos focados na fumaça que cobria o céu.   

Naomi acabaria por ficar para trás, entre a multidão que cada vez mais se aglomerava à frente da casa em chamas. Ouve-se uma sirene - os bombeiros vinham a caminho. 

Lied fugia dos braços dos bombeiros recém-chegados que o tentavam controlar. Mas nada podia parar Lied. Não agora, naquele momento. 

O rapaz desliza por entre as tábuas de madeira e as ondas de fogo que queimavam toda a casa. Ele consegue entrar através de uma brecha que teria milagrosamente sobrevivido e decidido ajudar Lied.

Estava agora naquilo a que se podia chamar os “restos” do hall de entrada. A mobília estava num processo de decadência.

Uma fotografia em cima de uma mesa-de-cabeceira, com Lied nos seus dez anos e os pais, que havia sido tirada nas férias de Verão daquele ano, encontrava-se neste exato momento a dissipar-se. O pai e a mãe sorriam. Lied, nem tanto. 

A porta que dava para a sala-de-jantar tinha sido destruída, deixando a entrada aberta e livre de obstáculos. Um passo. Dois passos. Três passos. Entrou. E foi quando viu. 

Na sua frente, uma figura com um manto preto revestido a ouro que se estendia das costas para trás encontrava-se por entre o fogo alaranjado dançante.

Pela sua estatura era um homem de 30 e poucos anos, não sendo possível ver a cara, que era escondida pelo vapor.

Lied, ofegante, deu voltas com os olhos ao compartimento, tentando encontrar rastros dos seus pais. Mas nada, não conseguia ver um vestígio dos seus corpos. Eram apenas os dois ali.

Ou eles tinham conseguido se salvar... ou haviam sido “completamente dizimados”. Mas tal seria realmente, humanamente possível? Ele não queria pensar nessa possibilidade. 

Cada vez que pensava sentia a cabeça pesada e os pensamentos confusos. Abanou ligeiramente a cabeça, voltando a focar o olhar ansioso no indivíduo.

— Onde? Onde é que estão...?! O QUE É QUE VOCÊ FEZ COM ELES?! 

Por ScryzZ | 01/09/18 às 20:12 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério