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1ª Mentira - Ignotum per Ignotius (Parte 2)

Lied (LD)

1ª Mentira - Ignotum per Ignotius (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: HebiTantei

Bem no fundo, ele sabia. Como em outras vezes, o seu instinto… estava certo.

— Responde!! Eu disse... PARA RESPONDER!!! — ordenou antes de sair disparado até ele, os dois que se encontravam separados por uma distância de dez metros.

Uma ação precipitada de Lied, que antes de atingir a marca dos sete metros já se encontrava inexplicavelmente imobilizado. O rapaz viu-se levitando no ar, isto enquanto era estrangulado por qualquer coisa invisível, obra do homem.

A dor era tão sufocante que, se tivesse continuado por mais uns segundos, o jovem provavelmente teria mesmo morrido.

Lied pode notar, por um momento, a insolência do assassino. Ligeiramente coberto pela fumaça, um sorriso. Uma imagem tenebrosa que ia se dissipando à medida que o nosso protagonista perdia a consciência devido à asfixia.

Foi tudo muito rápido. Instantes antes de desmaiar, Lied ainda ouve o sujeito proferir algo:

Já te disseram...? Que tem os olhos de uma cobra?

Seria aquele... o fim?

— O quê? — Lied surpreendeu-se num piscar de olhos ao se ver num espaço escuro e frio, caído no chão.

Sim, é o mesmo lugar que confrontou várias vezes nos seus arrepiantes sonhos. Um autêntico vácuo com um pobre e perdido rapaz no seu meio, completamente sozinho, como sempre estivera em toda a sua vida.

E exatamente no mesmo lugar, em cima da cesta, permanecia a maçã vermelha para onde Lied olhava continuamente. Diferente de antes, ela não se apresentava tão reluzente, um pouco à imagem dele.

— Percebo... e pensar que o lugar que visitara tantas vezes nos meus sonhos seria onde iria dar o meu último suspiro. Todas as noites, quem eu confrontava não era ninguém mais, ninguém menos, que o meu próprio túmulo. Que irônico — encara o teto negro com uma expressão desgastada no rosto.

Tentou se levantar, mas não sentia forças para isso. Como algo lhe estivesse dizendo para ficar ali deitado e não tentar se erguer.

— Eu vou mesmo… morrer?

Não - uma nova e repentina voz negou, porém com um volume muito baixo, o que fez com que Lied, que perdia o sentido da audição, não ouvisse.

— Então este era o meu destino...?

Lied mergulhava cada vez mais no vazio da sua alma.

Não — a mesma voz negou, agora mais alto, mas ainda não o suficiente para Lied conseguir ouvir.

— Eu... falhei? — perguntou-se naquele que seria o seu último suspiro.

Não — a voz voltou a negar, mais alto e desta vez ouvida com sucesso.

Aquele “não” salvou Lied a tempo, antes que este caísse num sono do qual não iria despertar.

Para além do rapaz também o espaço despertou, deixando para trás o clima negativo e negro para ser preenchido por uma energia positiva e dourada. A maçã, com tonalidade de ouro, luzia.

Lied tapou ligeiramente os olhos de forma a evitar que a luz que irradiava da maçã, e que enchia agora toda a dimensão, não o atingisse.

No entanto, ele percebeu eventualmente que esse fulgor não lhe fazia mal; muito pelo contrário, trazia ao seu coração magoado uma sensação vigorosa.

No meio de tanta claridade, da fruta saiu uma jovem magra e estimativamente quatro anos mais velha do que Lied, com um cabelo comprido azul turquesa.

A mulher caminhou até parar em frente de Lied. Ela estende a sua mão num gesto generoso, como se estivesse a oferecer a força necessária para o jovem se levantar.

Quem... é...?

Quem era e o que fazia ali, isso pouco importava agora. Lied aceitou o gesto carinhoso da senhora, erguendo-se do chão vazio e abraçando a luz intensa. Podia sentir a mesma felicidade de antes crescendo gradualmente à medida que era absorvido pelas ondas luminosas.

Antes da desconhecida desaparecer, ele conseguiu ver: de relance, estampado no rosto dela, um sorriso tão lindo quanto a dona dele. Lied devolveu o sorriso.

Apenas aquilo havia dado ao rapaz algo que ele nunca tivera na vida - a vontade de viver.

Sim. Ele foi salvo. O jovem que estivera perdido… fora encontrado.

 

 

Lied recupera a consciência, vendo-se deitado numa maca de ambulância e rodeado de paramédicos atarefados. Uma multidão de curiosos observa a casa ardendo, os bombeiros tentam a todo o custo apagar o fogo que consome a habitação. Ele ainda consegue sentir o fulgor de antes impressionando-lhe a vista, o coração dele tocado emocionalmente.

Quem seria realmente aquela mulher, e por quê motivo teria acudido o rapaz? Duas questões que Lied iria querer mais tarde ou mais cedo respondidas.

Lied sai da maca e afasta-se discretamente. Naomi, que também tinha sido atraída pela comoção enquanto procurava pelo rapaz, vê Lied e vai atrás dele.

Lied, ainda algo atordoado, apressa-se para sair daquele lugar turbulento. A melodia das chamas devorando lentamente a sua casa, os sussurros das pessoas que testemunhavam a cena... toda aquela aglomeração de sons perturbava-o psicologicamente.

Um som angustioso palpava o interior de Lied ao mesmo tempo que corria por entre a rua que dava acesso ao Parque Municipal. Ele tapava os ouvidos numa tentativa de se apartar do exterior, mas em vão. 

Memórias antigas, algumas felizes, mas dado o contexto atual tristes, invadiam a mente.

Ganeden, há 8 anos atrás.

Orfanato Regenbogen Alemão para "arco-íris", o único asilo em toda esta ilha asiática.

O único orfanato em Ganeden, tem proporções medianas e a sua estrutura é muito bem cuidada, tendo passado recentemente por uma reforma a níveis internos e externos.

O seu exterior é vivamente colorido pelas sete cores do espectro solar, a pintura de um arco-íris vê-se atravessando de um canto do edifício para o outro. As dez letras do nome do orfanato são pintadas distributivamente com essas cores.

O interior do hospício é de grande simplicidade, nunca fugindo ao padrão arco-íris que é a grande marca do orfanato. A entrada pode impressionar quem entra pela primeira vez, é uma das maiores divisões do estabelecimento.

Lá dentro, nesta tarde quente de Verão, um órfão de apenas oito anos de idade acompanhado por uma auxiliar do orfanato prepara-se para ser adotado por um casal relativamente novo, nos seus 30 anos.

— Muito obrigado por aceitarem cuidar dele — agradecia a moça da instituição.

— Não, nós é que agradecemos - respondia a jovem mulher, sorrindo juntamente com o marido — Eu sou estéril, então sempre quis ter um filho — mirava um sorriso bondoso agora no menino, que tinha percebido, mas que teimava em olhar nos olhos.

— Ah, então era isso — a auxiliar vira-se para a criança — Olha, a partir de agora eles serão os teus pais. Cumprimenta-os — apelava, sem sucesso.

— Ele não fala muito, hã? — comentava o homem, olhando por um bocado para o pequeno.

— É, peço desculpa. Acontece que este menino não tem nenhuma memória antes de vir para o orfanato. O paradeiro dos pais biológicos é desconhecido e o próprio não tem qualquer recordação anterior que possa ajudar a localizá-los. Um autêntico mistério, podemos dizer que ele “caiu completamente do céu”.

— Amnésia...? — concluía o senhor.

— A única coisa de que se lembra é o seu nome – “Lied”. É apenas isso que sabemos.

— Lied, é...? — dizia num tom manso a nova mãe de Lied, abaixando-se — É um prazer.

Lied encarou-a por uns breves segundos, mas voltou a desviar o olhar vazio.

 

 

Lied, cada vez mais sobressaltado, corria até ao parque que já podia ser visto ao longe.

Ao passo que as suas lembranças vinham ao de cima, algo parecia querer muito sair dos seus olhos. Devagarinho, esse “algo” tomava uma forma perceptível, um sintoma muito natural e simples.

6 meses depois de Lied ser adotado.

Lied prepara-se para sair mais uma vez, sozinho e sem dizer nada, da sua nova casa. Quando não está na escola, ele costuma passar a maior parte do tempo fora, no parque mais próximo de si. Os pais já se habituaram às saídas de Lied, esperando ainda assim que ele tome as devidas atitudes.

A mãe surge uma vez atrás dele, fazendo-o parar por um instante. Lied de vez em quando era repreendido pelo pai, mas a mãe curiosamente nunca havia ralhado com ele, aceitando sempre de bom grado aquilo que o rapaz decidisse fazer por conta própria.

No fim, ela dizia sempre a mesma coisa:

— Não se esqueça de voltar para casa, está bem?

 

 

Lied finalmente chega ao seu destino.

Não aguenta mais e cai na relva do parque, as mãos se firmando no chão, os olhos encovados completamente fechados, zonzo e principalmente frustrado.

Mil e umas recordações dos seus pais com ele passavam em slides na sua mente, quase como um filme de vida: o seu pai indo buscar o filho que não voltava do parque; a mãe fechando o zíper da mochila para ele; o rapaz já com 10 anos e os pais nas férias de Verão daquele ano, a lembrança retratada naquela fotografia que havia sido, entretanto, extinguida pelo fogo.

Gotas de água começavam a cair, não do céu, mas dos seus próprios olhos. Foi como se aquele encontro, o sorriso da “mulher misteriosa”, tivesse despertado as emoções adormecidas, ou digamos contidas, durante este tempo todo.

Em pranto de quem perdeu e daquilo que nunca disse e que queria dizer, o jovem deixa escorrer lágrimas pelo rosto, molhando as ervas com sentimentos.

Pela primeira vez desde que se lembra… ele chorou.

 

 

Naomi finalmente alcança Lied. Imediatamente esconde-se atrás de um banco do parque no momento em que repara que algo de estranho se passava com o rapaz. Escondida, a jovem observa o lacrimejar do rapaz, uma faceta emocionada que ela nunca vira nele antes.

Naomi começa repentinamente a ver dois pontinhos azuis a girar à volta de Lied, o último estando “muito ocupado” no momento para notar a presença deles.

Impressionantemente, as duas bolas tomam a forma de duas pessoas, uma mulher e um homem nos seus quarenta anos. Sim, eram os pais adotivos de Lied em forma de espíritos, os quais mostravam um grato e triste sorriso à medida que abraçavam ao mesmo tempo o filho.

Foi aí que Naomi percebeu que era àquilo a que Lied se referia na conversa deles - as bolinhas azuis tomando a forma de humanos. Quando Naomi deu conta, eles já não estavam mais lá.

Mas Lied ainda chorava, derramando as lágrimas que por todos estes anos havia contido dentro de si. A jovem entendeu isso e resolveu deixá-lo sozinho, indo embora.

Por coincidência, foi quando Naomi saiu que uma nova cara se revelou no lugar. Desta vez Lied percebeu, acalmando-se por um bocado para olhar de relance nele: um jovem encapuçado branco beirando os 20 anos de idade.

Dezenas de bolinhas azuis manifestaram-se subitamente - reagiam à presença do recém-chegado ocupando toda a atmosfera do parque, um cenário fascinante.

O encapuçado aponta o dedo indicador esquerdo a Lied, o último pasmado, lágrimas ainda escorrendo pela sua face. Mais cedo ele talvez teria questionado a aparição do homem, mas no seu estado atual só consegue ficar calado.

— Vai deixar essas lágrimas te cegarem e fugir novamente? — perguntava o sujeito.

Atrás deles os gritos eufóricos das pessoas podiam ser ouvidos, o céu cinzento espreitava por cima dos dois.

— Ou... vai encarar? O teu próprio destino?

Antes que pudesse pensar duas vezes a respeito da pergunta do estranho, Lied começou a sentir-se sonolento. Foi quando o seu instinto lhe disse que o homem tinha feito qualquer coisa.

O sono começou a ficar mais pesado e o cansaço de tanto ter chorado e sido sobrecarregado pelas suas emoções manifestava-se. Por curiosidade, iniciava-se o pôr-do-sol.

Lied cedeu, deixando-se desabar no gramado que mais parecia agora uma enorme cama com várias almofadas para aconchegá-lo.

— Eu...

Sentia a sua consciência a dizer-lhe… que era hora de dormir. 

Segundos antes de cair no sono profundo, o jovem lembrou-se que, há muito tempo, nesta vida ou numa vida passada, alguém costumava dizer-lhe sempre algo antes de dormir.

Não se lembrava de quem, apenas da complexa e ainda assim suave frase:

— Carpe Noctem Latim para "boa noite" ou "aproveite a noite" — murmurou, caindo em seguida no seu mais longo e calmo sono.


Aproveite a noite…


[FIM DO CAPÍTULO]

[INÍCIO DO ARCO "GANEDEN"]

Por ScryzZ | 01/09/18 às 20:28 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério