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2ª Mentira - A Maçã de Adão (Parte 1)

Lied (LD)

2ª Mentira - A Maçã de Adão (Parte 1)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Um amplo e desbotado espaço. No centro deste ermo, uma majestosa e grandíssima árvore que vai até ao teto infinito. E a contemplá-la ao longe, uma moça curiosa.

Naomi caminha em direção ao gigantesco tronco arbóreo. Encostada à árvore está uma criança nos seus 8 anos de idade, que tinha apenas a si mesma como companhia.

Ei... por que é que está sozinho? perguntou Naomi.

O menino, de cabelo carmesim, não reage à abordagem da jovem. Era como se ela não estivesse ali presente, de corpo e espírito.

Ah, desculpa. É óbvio o porquê. Você... não tem mais ninguém senão a ti... assim como eu...

Uma brisa suave remexe as madeixas avermelhadas do pequeno solitário, que levanta a cabeça para aparentemente sorrir à cabisbaixa Naomi.

O garoto ergue-se de imediato do solo, uma ação que apanha Naomi de surpresa, e começa a correr disparatadamente para o horizonte sem nada.

Aonde... é que vai...?

Uma pergunta sem sentido, pensava Naomi.

Nem mesmo ele sabe para onde vai... ou para onde deve ir. Estava apenas... fugindo. Fugindo da solidão, assim como ela...

O vento ficou mais forte, as folhas da árvore esvoaçaram com uma única rajada tal como o cabelo comprido de Naomi, que fechou por momentos os olhos para se desviar de qualquer coisa que pudesse entrar neles.

Reabriu-os, as sobrancelhas assomadas pelo pasmo. A criança continuava correndo, contra tudo e todos, contra a solidão e a tristeza. Sempre... para a frente.

Do nada um vulto feminino surgiu ao lado dele, acompanhando-o na sua corrida. Logo em seguida apareceu uma figura masculina, que se juntou a eles.

Mas não parava por aqui. Devagarinho, e enquanto o rapaz crescia em altura e idade, mais e mais pessoas se aglomeravam ao seu redor, ao redor de uma só pessoa.

Ele... não estava mais sozinho.

Naomi esboçou um leve sorriso, contente pelo feito daquele homem, outrora somente um pintassilgo que não voava mesmo tendo asas.

Todavia, e até uma certa paragem no seu percurso, ele parou, assim como uma máquina que quebrou e perdeu o seu objetivo.

As imagens humanas que o seguiam iam saindo de vista, uma a uma. A última imagem a abandonar o seu lado, a de sexo feminino que o primeiro acompanhou, ainda tentou aproximar-se dele para lhe dizer algo, mas desistiu.

E assim o deixou finalmente só.

Naomi aproximou-se do jovem, agora com 20 anos, esperando ver no seu semblante o mesmo sorriso que o levara a superar todas as adversidades passadas.

Mas ele não o esboçava mais... ou não conseguia esboçar. Somente uma faceta de desespero e de solidão era visível.

 

...

 

Desta vez foi um sonho bem diferente acordou Naomi, abrindo os olhos gentilmente.

A garota já tivera antes sonhos similares, com pessoas que nunca acreditara ter visto na sua vida, mas ultimamente eles têm acontecido com maior frequência.

“Por que será?”, perguntava-se.

Para o caso de ainda não me ter apresentado, eu chamo-me Naomi Setsuko, tenho 16 anos e estudo numa escola local desta gigante ilha asiática chamada Ganeden.

Não sou uma aluna brilhante, apesar da minha mãe sempre ter dito que tinha capacidades para fazer mais e melhor.

Ah, sobre os meus pais, a minha mãe faleceu de uma doença crônica faz hoje 3 anos, já o meu pai nem cheguei a conhecê-lo, dado que ele morreu quando eu ainda nem sabia falar.

Com isto dito, eu sempre tive o apoio dos meus familiares mais próximos e as minhas amigas nunca me fizeram sentir sozinha. Ah, esta última parte é uma mentira.

Mesmo que pareça ser muito alegre e animada, a verdade é que cada dia para mim passa lentamente, tamanho é o entusiasmo que tenho com a minha rotina diária.

Eu não tenho pensamentos suicidas, mas admito que gostaria que a minha vida mudasse de maneira extrema. Ou pelo menos gostaria de encontrar alguém que acabasse com este desgosto, com esta profunda solidão.

Naomi suspirou, revirando-se na cama. Lembrou-se de Lied. Como estaria depois “daquilo”...?

 

...

 

Na esquadra local da polícia, dois detetives, um com apenas 17 anos e outro com idade para ser seu pai, dialogam.

Susumu, como é que está a escola? pergunta o mais velho que está sentado na cadeira da secretária.

O mais novo, de nome Susumu, cabelo azulado espetado, encontrava-se de pé e olhava alguns papéis.

Bem responde tranquilamente Susumu, não desviando o olhar dos documentos.

Hm... dizia Tatsuo, o veterano detetive - Se estiver muito difícil balancear ambos os trabalhos, pode sempre tirar uma folga...

Não, sem problemas - respondeu o jovem agente, que trabalhava como investigador policial em meio período Obrigado, mas não precisa se preocupar, Pai tranquilizava o filho, esboçando um sorriso no rosto.

Susumu nota na secretária um relatório recente com apenas quatro dias.

Isso é...?

Ah, o acidente de quatro dias atrás. Duas pessoas mortas. O único sobrevivente, o filho, continua desaparecido.

Acidente, hã...? - murmurava Susumu, não muito convencido com a conclusão do caso.

Interessado?

Bem... talvez um pouco Susumu atenta a fotografia de Lied.

 

...

 

Final da tarde. As aulas acabaram por hoje e multidões de estudantes vão saindo. Naomi, com o seu sorriso meio falso, sai com colegas.

Susumu, que resolveu investigar o caso por conta própria, fica à entrada da escola. Olha para o relatório.

Então esta é a escola dele… que coincidência.

Curiosamente, Susumu também frequentava a mesma escola.

As estudantes femininas que vão abandonando o estabelecimento não deixam de elogiar o jovem e belo detective (algumas o reconhecendo como estudante dali). Susumu vai perguntando se algum dos alunos conhece o rapaz na foto.

Ele não é muito popular, hã... é melhor perguntar a alguns dos professores.

Quando se prepara para questionar o porteiro, uma moça não muito mais nova do que Susumu se aproxima dele.

Hum... o meu nome é Naomi e esse rapaz... eu o conheço diz, bastante receosa.

Susumu encara Naomi e mostra a sua identificação de detetive enquanto se apresenta:

Eu sou Susumu, um detetive que também é por acaso um aluno desta escola. Não sei se é do seu conhecimento, mas faz uma semana que ele está desaparecido. Não tendo, que se saiba, mais nenhum familiar após a morte dos seus pais adotivos, a procura pelo seu paradeiro tem tido proporções muito limitadas.

O vocabulário complexo estava fazendo Naomi se sentir tonta. Arrependia-se agora de ter começado a conversa.

Então, sendo a única conhecida dele, gostaria de saber se tem alguma informação que possa dar de modo a conseguir encontrá-lo.

Naomi apenas o ouvia, de cabeça para baixo com um olhar deprimido, vindo à mente memórias de há quatro dias atrás: os pais mortos, que ela associava à cena da reunião deles, e Lied chorando. Tem uma memória ainda mais recente, após aquele dia, na qual Naomi visita o parque esperando encontrar Lied como sempre... mas o jovem nunca mais aparecera por lá.

Peço desculpa, mas eu não sei de nada Naomi evita dizer o pouco que sabia.

Susumu lamentava a falta de sorte.

Percebo. De qualquer maneira, se souber, entretanto, de alguma coisa, agradecia que entrasses em contato – Susumu entrega um cartão de contato a Naomi.

O detetive abandonou o local sem tentar questionar mais gente.

 

...

 

Naomi acreditou que o correto seria confrontar o detetive, mas se arrependeu à última hora quando percebeu que podia estar colocando Lied em ainda mais problemas.

Cansada, só pensava agora chegar em casa e relaxar a mente da desordem que a incomoda. A moça vislumbra alguém familiar enquanto caminhava.

Você é...!

Um rapaz nos seus 12 anos, de cabelos e olhos avermelhados, fita por instantes Naomi antes de sair correndo.

Espera! grita Naomi, indo logo atrás dele.

 

...

 

Lied não tem noção de quantos dias esteve dormindo e de quanto tempo se passou desde então. Sentia a cabeça um bocado tonta, talvez de ter estado este tempo todo perdido no sono.

Ergueu-se, deixando-se ficar sentado na cama de um pequeno quarto que não lhe dizia nada. Teria sido o “encapuçado branco” que o levara para lá após o rapaz adormecer?

Notou na mesinha de cabeceira uma maçã, provavelmente deixada por ele. Que ironia!

Por acaso o rapaz estava com fome, o que era normal depois de tantos dias sem comer. Mas aquela maçã não apenas instigou a fome; também o fez lembrar da maçã dourada que sempre via nos seus sonhos.

A imagem dessa mesma majestosa maçã trouxe outras lembranças, todas encadeadas cronologicamente: o confronto com o assassino; o encontro com a “mulher misteriosa”; finalmente o encapuçado branco e a questão que este deixara a Lied.

Eu...

Com a resposta formulada e a decisão tomada, ele parte para confrontar o seu destino.

 

...

 

Susumu havia reparado na expressão irresoluta de Naomi, não tendo escapado ao jovem detetive esse palpite de que a moça estava escondendo algo dele. Ele sabia que teria de inquiri-la outra vez mais tarde.

Após visitar a escola, já só restava um local para investigar. O detetive desloca-se até à cena do acidente, o lugar em que acredita existirem provas que confirmem as suas suspeitas.

Fitas de perigo sinalizavam para não entrar viam-se por toda a parte da frente da casa, a porta já toda desfeita. O local já tinha sido todo revisto e nele não haviam encontrado nada de relevante.

— “Terei de fazer deste jeito”, pensava, colocando de seguida a mão esquerda na parede exterior da habitação e fechando os olhos com o intuito de concentrar-se.

À sua mente vinham imagens claras em slides, cenas dos eventos ocorridos na tarde em que tudo aconteceu.

O compartimento ardendo. Lied confrontando um homem de cabelo preto comprido e sendo elevado no ar por algo invisível. O sorriso do segundo e o desmaiar do primeiro.

Isto é...?! — diz ao ver o flashback.

Logo de seguida um vulto surge inesperadamente atrás de Susumu, surpreendendo-o.

Uma segunda pessoa não estava nos planos o indivíduo diz irreverentemente

Quando Susumu virou as costas ele já não estava lá, tendo reaparecido dentro da casa. O detetive foi correndo para dentro dela, escancarando a porta ao entrar.

Susumu sacou da pistola que o pai havia dado, só autorizado a usar em casos extremos, e apontou-a ao suspeito que vestia um casacão coincidentemente no mesmo padrão de cores (dourado e preto) do assassino dos pais de Lied.

Quem é você?! questionou Susumu.

O jovem adulto, 20 e poucos anos, olhos lilás claros e de cabelo preto liso, sentava-se nos degraus da casa.

Finalmente chegou ele afirma misteriosamente.

O quê?! - exclamava Susumu enquanto a sombra de alguém espreitava na porta derrubada há pouco pelo detective.

Parece que o Zechariah estava certo dizia o homem ao contemplar a terceira pessoa na área “Ele definitivamente voltará... ao lugar em que tudo aconteceu” – cita o tal de Zechariah.

Esse “Zechariah”... é o outro? Lied associa calmamente.

Lied posicionava-se ao lado direito de Susumu, o último que olhava lateralmente para o rapaz desaparecido com um olhar surpreso e que, entretanto, havia baixado a pistola.

Quem sabe responde o misterioso homem, não muito disposto a dar a resposta que Lied queria.

 

Por ScryzZ | 01/09/18 às 20:30 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa