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3ª Mentira - Iduma (Parte 1)

Lied (LD)

3ª Mentira - Iduma (Parte 1)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Susumu e Lied, enfim frente-a-frente! E as perguntas poderão ser feitas...

Os dois garotos foram levados até o posto da polícia. Nenhum deles abriu a boca durante a viagem. Lied era, claramente, o mais pensativo.

Foram deixados na delegacia, esta pouco movimentada já que a maioria dos agentes estavam todos em serviço externo. No momento, situavam-se numa pequena e fechada sala, com uma mesa e duas cadeiras dispostas nas quais se sentaram.

— Antes que faça qualquer pergunta, fica sabendo que eu não sei muito mais do que você. Sobre “eles”... e sobre mim...

De fato, e apesar de ser o “protagonista” do caso, Lied revelava tanto desconhecimento quanto Susumu.

O detetive podia ver que o rapaz não estava querendo esconder nada. Um dos aspectos que o fez ganhar o título de “prodígio” era precisamente a capacidade de ler nas entrelinhas e ver além do óbvio.

Nesse quesito, Lied revelava uma demoníaca sinceridade. Aquela calma era surpreendente. Normalmente, um jovem que passasse por tudo aquilo que Lied passou não resistiria ao constrangimento de relembrar memórias tenebrosas.

“Um indivíduo tanto peculiar como suspeito”, pensava Susumu.

— Compreendo... Sendo assim, só tenho uma pergunta a fazer.

 

...

 

O entardecer trazia desejados reencontros predestinados por algo maior.

Naomi persegue o menino de cabelos rubros. Apesar de só ter olhado de relance tinha certeza que era o mesmo garoto dos seus sonhos, já que também usava uma cruz no pescoço.

E mesmo que não fosse a mesma pessoa, não havia mal nenhum em pelo menos ter a certeza. Ou assim pensava, já que a criança fugia a todo o gás dela.

— Por favor, espera! Eu não vou fazer nada, então... espera só um pouco!

As poucas pessoas ainda na rua, perplexas, contemplavam-na. Pelo visto, Naomi era a única que conseguia vê-lo.

— Hã...? Desapareceu...

Chegou a um beco sem saída. Tinha-o perdido inacreditavelmente de vista. Frustrada, seguiu o caminho de volta para casa.

“Já chega por hoje”, pensava.

...

 

— Consegue supor... o porquê de estar no centro de tudo?

Em outras palavras, o que Susumu pretende mesmo saber era o que é que eles realmente queriam de Lied. Por que motivo é que tudo girava ao redor dele?

A pergunta despertou a curiosidade de Lied – a “maçã dourada” era o pensamento mais lógico que lhe passava pela cabeça. A própria atitude ambiciosa do homem que confrontara na sua “alma” dava a entender que é a maçã que desejam.

Ainda assim, Lied preferiu deixar para si as suas conjecturas. O nível de confiança em Susumu não era alto o suficiente para confiar a sua vida a ele. Aliás, no momento não há ninguém no mundo em que Lied realmente confie.

Após ter feito o seu pequeno inquérito a Lied, Susumu abandonou o posto policial para continuar a sua investigação. Antes disso, teve a certeza de fazer sinal a um agente da delegacia para não deixar Lied sair.

Sabendo que é ele quem os indivíduos misteriosos queriam, era demasiado negligente permitir que o rapaz perambulasse na rua, correndo risco de ser emboscado.

Mas Lied não é do tipo que fica quieto e acata as ordens. Arranjaria uma maneira de escapar do controle prisional, pois sabia que não podia simplesmente ficar ali parado.

O agente que estava fora da sala, junto à porta, não era propriamente o mais hábil. Aproveitando esse desleixe, o jovem escapou dos olhos vigilantes pelas costas.

As fases seguintes da fuga eram mais fáceis, pois os agentes restantes que se encontravam no local estavam todos fechados nos seus próprios gabinetes. Agora ao ar livre, lembrou-se do encapuçado branco... Iria tentar encontrá-lo novamente.

 

...

 

Mais um dia de aulas, este ainda repleto de murmúrios a respeito do desaparecimento de um aluno. Naomi mantinha-se de bico calado - sentia que não devia dizer nada aos professores nem a ninguém sobre Lied.

Mas na sua cabeça não deixava de pensar a respeito do moço de cabelo rubro dos seus sonhos. Será que conseguiria voltar a vê-lo...?

 

...

 

Na sala ao lado, os mesmos burburinhos a respeito de Lied ecoavam. Era conversa em toda a ilha.

Uma estudante dessa mesma turma, que usava um nome falso para esconder a sua verdadeira identidade, tentava não prestar muita atenção. O que é irônico, porque ela era quem mais sabia e mesmo assim fingia nada saber.

Como parte da sua missão, Core infiltrara-se na sociedade de Ganeden como estudante. Conseguira até agora passar completamente despercebida.

É preciso também realçar que, apesar de só se ter “transferido” este ano, conseguiu integrar-se perfeitamente no grupo, com as suas notáveis classificações a deixarem o seu disfarce ainda mais convincente.

O professor fecha o livro e de imediato os alunos levantam-se da mesa.

Mais um dia tedioso se passou para Core. Quanto tempo mais teria de cumprir esta rotina enfadonha? Mesmo o fato de usar uniforme diariamente repugnava-lhe.

De mala ao ombro, a jovem abandona a escola e desloca-se diretamente para a base do grupo em Ganeden. Enquanto se dirige até ao Parque Municipal, Core pressente uma energia familiar e de algum modo nostálgica perto de si.

Ela revira a cabeça diversas vezes até se encontrar com a fonte da sensação. Um rapaz nos seus 12 anos, de jaqueta azul e branca, olhos e cabelos vermelhos.

Os dois olhares cruzaram-se por instantes, um sorriso endiabrado abrindo-se no menino antes de sair disparado correndo para sabe-se lá onde.

— Espera aí! — Core correu atrás dele.

...

 

Naomi ainda não tinha conseguido tirar o menino da cabeça. A sua existência ocupava-lhe tanto a mente que nem Lied lhe vinha mais aos pensamentos.

Assim como os seus colegas, Naomi despediu-se por dois dias da escola, já que hoje era sexta-feira e o final de semana seguia-se.

No seu caminho para casa não deixou de notar a pressa de uma moça que, a julgar pelo uniforme que vestia, frequentava a mesma escola que Naomi. Reconhecia aquele rosto - parecia ser da turma ao lado.

A observação ajudou-a a abstrair-se dos seus pensamentos, mas não por muito tempo...

 

...

 

Core ainda foi obrigada a exigir das suas pernas; anormal a rapidez com que a criança corria. E a julgar pela sua postura, dava a entender que podia correr ainda mais depressa.

Esta atitude irritou Core, que se sentiu subestimada, o que a estimulou a aumentar a velocidade. Os dois prolongaram-se até uma rua sem saída relativamente longe do parque.




A criança, agitada, movia as pernas de um lado para o outro, para a frente e para trás.

Nem Core nem o rapaz se sentiam fatigados pela corrida. O último principalmente, que estava superenérgico.

— Eeeeeeh...? Não é que até é bem forte? — o tom provocador dele era evidente.

A frenética Core fitava-o fixamente, examinando com atenção o seu fluxo espiritual. Sentia que não era a primeira vez que o via.

— Quem é você?!

O moço abana a cabeça em sinal de desaprovação.

— Direto para as perguntas... mas sabe, não é assim que funciona, pelo menos comigo — com o grande Iduma!! AH! Acabei de dizer quem sou! Mas esse nome não te diz nada… né?

Core não responde.

— HMMM… façamos assim…!

O menino de nome Iduma colocou-se de pé, mesmo no limite do parapeito.

— Já brincou de pega-pega? Eh? Não? Nunca?! Nem uma vez?! O quê, que sem graça! — ele fazia caretas enquanto dizia.

“Qual é o problema dele?”, pensava Core.

Conseguia ser tão ou mais irritante do que Nemo, e isso é difícil.

— Se levar a vida demasiado a sério, terá rugas antes do tempo!

Iduma parou as suas macaquices por um momento para fitar a jovem. Numa análise espiritual, a conclusão que tirou foi alegoricamente o seu natural sorriso sarcástico. Ele também a reconhece.

— Explicando de maneira fácil…

— Se eu te apanhar, você me dirá a sua identidade. Vamos logo — Core interrompe Iduma.

“Sem papas na língua”, pensava Iduma.

— Para te dar uma chance, eu não vou correr com toda a minha velocidade! Huuum, vejamos... que tal 50%? Mais 20% daquilo que corri agora mesmo!

Iduma recompôs-se.

— Ok...

Iniciou um leve e rápido aquecimento antes de meter mãos (ou pernas) à obra.

Uma aura branca vestiu seguidamente o corpo de Iduma, os olhos rubros tomaram uma tonalidade cor da neve. No pescoço, uma cruz branca vibrante surgiu. Esta mudança de aparência apanhou Core de surpresa, que a reconhecia.

— Essa cruz...!

— VAMOS NOS DIVERTIR!

...

 

Naomi, cabisbaixa, caminha até sua casa.

É melhor dormir para desnortear o cérebro de tanto stress mental. Mas pensando bem, não faria dormir sonhar com “ele” novamente? Não importa o que faça, acabará sempre por se sentir da mesma maneira.

Naomi avista uma criança a passar a uma velocidade quase supersônica pela rua. Não deu e tempo de ver a cara, mas alguma coisa a fez perceber de quem se tratava. Sim, Naomi podia ainda sentir restos na atmosfera... daquela energia familiar.

Ia ignorar aquela nova oportunidade concedida? E simplesmente esquecer tudo e esperar que o tempo leve memórias perdidas e questões não respondidas?

Mas se a jovem fizer isso... o que vai lhe restar depois? Não tinha sido ela que desejara, do fundo do coração, por uma mudança extrema na sua vida enfadonha? Por um rumo diferente e entusiasmante?

Iria recusar mesmo a chance de concretizar os seus desejos? De revolucionar a sua vida para todo o sempre?

Na sua mente, ela ainda nem tinha se decidido, mas isso não evitou que as suas pernas começassem a se mover sozinhas, ao ritmo do seu coração, que batia forte.

Ansiosa, abordou uma senhora de meia-idade que regava flores:

— Hum...! Por acaso viu passar agora mesmo um rapaz de cabelos e olhos vermelhos?

— De cabelos e olhos vermelhos...? Não, não vi ninguém assim.

— Percebo... Obrigada.

Desapontada, despediu-se e retomou a sua busca. Como é que iria encontrá-lo se ninguém o via e ele não deixava qualquer vestígio?

«Vestígio»

Deu-se um clique na cabeça de Naomi; recordou-se da presença de há pouco e tentou senti-la novamente.

Idealiza.

Idealizava o homem nos 20 anos dos seus sonhos e a sua forma criança que agora perseguia.

E sente.

Um novo clique suscitou a aparição de uma via invisível no ar que parecia guiar até quem ela procurava. Seguindo a orientação que lhe tinha sido “divinamente” dada, ela correu.

Felizmente Naomi tinha umas pernas flexíveis que lhe permitiam ser uma das melhores, se não a melhor aluna em Educação Física. Não é como se ela treinasse todos os dias para conseguir ter essas exibições, desde pequena que possui esse dote físico.

Podia sentir. Tinha essa capacidade. Estava cada vez mais perto.

A cada passo que dava, a estrada imaterial abria-se mais. Um universo de novos caminhos que abrangiam novas possibilidades.

Uma última rua estreita sucedia-se. E nela, o seu destino a esperava. Deu tudo de si e esse esforço gigantesco recompensou-a.

Naturalmente cansada, os seus joelhos quase a penderem no chão. Ao lado de Naomi, fitando-a com espanto, está a moça que vira há pouco. E na frente das duas jovens, o enigmático menino de cabelos escarlates. Ela... finalmente o alcançou.

— Finalmente... gasp... gasp... te alcancei...!

Iduma dá uma leve risada.

— Finalmente, né?

...

 

Na base do grupo misterioso...

— Caramba, a Core está demorando muito! Será que ficou fazendo trabalhos extra? Se sim, então é bem feito! Ehehehe — Nemo zombava, como já era hábito.

— De fato, ela está demorando mais tempo do que se esperava — Zechariah estranhava a demora da moça.

Varius não comentava, limitando-se a ficar em silêncio, como normalmente está.

— O quê, ela logo aparecerá. Não é motivo de preocupação... — Martyr, descontraído, levantou-se da cadeira e começou a caminhar para a saída da sala.

— Ei, Martyr, não sei o que pensa exatamente em fazer, mas não exagere. Nós temos apenas um trabalho. Não se distraia dele — Zechariah relembrou o dever de Martyr e de todos.

— Eh, não fique inquieto. Eu só vou “cumprimentar” o nosso alvo. Vocês podem fazer “reconhecimento” e eu não?

Varius colocou os olhos suspeitos sobre Martyr.

— Agora... é a minha vez — Martyr declarou, abandonando a sala com um sorriso ávido.

O seu alvo, Lied, nem imaginava aquilo que lhe esperava.

Por ScryzZ | 01/09/18 às 20:36 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa