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3ª Mentira - Iduma (Parte 2)

Lied (LD)

3ª Mentira - Iduma (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Core examinava atentamente Naomi - o uniforme indicava que também era uma estudante da escola na qual Core se infiltrara.

Por não ligar muito aos outros (não memorizou sequer os nomes dos professores), Core não reconhecia a face dela, e podia ser que elas até fossem da mesma turma.

Um pequeno e significante pormenor tomou a atenção da jovem, que voltou a fitar Naomi com maior estranheza.

— Você... consegue ver?

— Se... consigo ver...? Ah...! — fez-se luz na cabeça de Naomi.

Agora que se lembrava, nas outras vezes em que perseguia o rapaz e perguntava por orientação as pessoas pareciam não saber de quem exatamente falava.

Então era isso... Não é como se a criança tivesse constantemente passado sem elas notarem; simplesmente não conseguiam vê-lo.

— Aaaaaaah... Logo quando finalmente nos reunimos... — Iduma, cuja cruz no peito oscilava continuamente, interrompeu-as.

O moço suspirou e saltou para cima de um muro.

— Desculpem, mas se demorar muito, o Xanthus vai ficar zangado com Iduma! E então, se o Xanthus fica chateado ele conta ao Didagus, e se o Didagus se irrita, é o meu fim...!

Naomi ainda tentava ler a personalidade de Iduma e compreender as “falsas” lágrimas que queriam escorrer dos olhos do rapaz. Já Core é apanhada de surpresa com a menção dos nomes, nomeadamente…

— Didagus... Você podia ser um deles?!

— Ah, mas não se preocupem. Nós voltaremos a nos ver com toda a certeza — Iduma finge não ouvir Core e se prepara para sair.

— Espera! — Core ainda brandou, mas não se sentiu pronta naquele momento para outra perseguição.

— Ele se foi... novamente...

Naomi sentia-se decepcionada por não ter conseguido realmente falar com a criança, mas era só isso. Sentimentos como tristeza ou arrependimento não existiam, apenas a alegria de ter conseguido dar um passo em frente na vida que quer viver daqui para a frente. De alguma maneira, ela sentia que tinha amadurecido.

“Então as pessoas daqui também conseguem...”, Core pensava enquanto olhava para Naomi.

Core voltou as costas, afastando-se de Naomi. Ela também não podia ficar ali mais tempo já que tinha os seus companheiros à espera.

— Ah...! Aonde é que vai...? — Naomi perguntava.

— Não te interessa — Core não se vira, continuando a andar.

— Mas... eu ainda tenho perguntas…!

Naquele momento a moça de cabelo azulado percebeu que não podia, agora, sair simplesmente dali.

Apesar da sua verdadeira identidade não ter sido descoberta, o fato de as suas aptidões terem sido testemunhadas por outra pessoa poderia, de alguma maneira, comprometer toda a discrição. Pela primeira vez na vida Core sentiu a necessidade de ter Nemo ao pé de si, devido ao que ia fazer.

Core virou-se e começou a caminhar devagar até Naomi. Toca no peito dela com o polegar, porém… a reação não foi a esperada. Tanto Naomi como Core sofreram dos mesmos sintomas — o peito latejou no exato segundo em que o contato físico foi realizado.

Nas duas mentes, uma mesma compilação de imagens passava: flashes de uma jovem de cabelo azul turquesa. Ao chegarem ao final do “álbum”, deu-se um apagão mental que as colapsou temporariamente.

As duas recompuseram-se superficialmente do colapso. Core, abalada, retira-se em debandada, deixando Naomi sozinha.

— E-Espera...! — Naomi ainda tentou chamá-la de volta, mas em vão.

O que... tinha sido aquilo...?

 

...

 

Num outro beco longínquo, duas figuras carismáticas trocam impressões. O mais velho, de capuz e manto brancos, ralha com o mais novo. 

— Você tem realmente noção do que viemos fazer aqui? Pretende colocar tudo a perder com as suas brincadeiras tolas?

— Eeeeeh?! Está sendo injusto, Xanthus! Quer dizer, desta vez Iduma voltou a tempo! E um bocadinho de “reconhecimento” também não faz mal nenhum, ou faz...?

O encapuçado branco, de seu nome Xanthus, vira as costas para Iduma.

— O nosso alvo já estava reconhecido antes sequer de virmos. Iduma, não aja mais de maneira imprudente. Caso contrário...

A expressão de Iduma agravou-se ao ser confrontado com a possível consequência.

— Sim, vou contar ao Didagus.

— Não, por favor! Tudo menos isso!

— Então estamos esclarecidos. E continuo achando que devia usar um capuz como eu. Uma questão de discrição.

— Bahahaha! Desculpa, esse não é bem o meu estilo! E se é para ser discreto, então basta ativar a minha forma espiritual. Assim ninguém me vê, certo?

Xanthus suspira perante o argumento dele.

— Esse é um mau hábito seu.

Xanthus começa a se afastar lentamente de Iduma.

— Mas Xanthus... você também tem andado se divertindo às escondidas, não é verdade? Isso também faz parte? Da nossa missão…?

A ironia de Iduma não escapou a Xanthus; então ele o tinha visto indo se encontrar com Lied.

— Aquilo fui eu cumprindo uma promessa de muito tempo atrás, a qual também considero um dever meu. Mas ainda foi metade dela... falta fazer uma última coisa para estar cumprida.

Xanthus se prepara para sair do beco. Iduma, sorridente, encara as costas do homem.

— E é isso que vai fazer agora, não é? Terminar de cumprir essa “promessa”.

Xanthus olha para Iduma de lado.

— Já sabe o que vem a seguir. Lembre-se: “eles” também já estão em movimento. Não baixa a guarda, Iduma.

O moço de cabelos carmesim volta-se. O seu sorriso confiante intensifica-se.

— Preocupe-se contigo, porque comigo - o grande Iduma - não precisa se preocupar.

Os dois saem ao mesmo tempo do seu beco, cada um para lugares diferentes, para cumprir os seus próprios deveres.

 

...

 

Susumu, quase um vagabundo nas ruas de Ganeden, vagueia sem um destino predefinido.

Na sua cabeça tenta reunir as peças do quebra-cabeças que já adquiriu: os dois homens claramente compatriotas; o assassinato dos pais adotivos de Lied; a bala que inexplicavelmente atravessou o corpo do sujeito e furou a parede da casa. Nenhuma destas peças queria se encaixar no quebra-cabeça mental do detetive. E finalmente a última peça, o centro de tudo: Lied.

Susumu já tinha experiência de investigação, tendo colaborado na solução de diversos e complexos casos, mas pela primeira vez desde que começou neste trabalho, ele não consegue tirar qualquer conclusão. Nada... fazia sentido.

No entanto tinha que continuar investigando, pois estava em jogo a verdade por trás da morte de pessoas e o destruir de vidas de outras.

Justiça tinha de ser feita. Alguém tem de fazê-la.

— Eu acho que devia mesmo descansar um pouco... de tudo.

Uma voz masculina espessa faz soar de dentro de Susumu. Num instante, Susumu, ou o seu corpo mental, é transportado para um cenário pouco alegre, escuro e sem nenhuma luz para iluminá-lo.

Na sua frente, uma silhueta ergue-se nas trevas. Dos pés que não podem ser vistos, aquilo que parecem ser correntes surgem. Estas se desdobram e se dispersam perante o jovem detetive.

— Ah, mas não se preocupe. Eu posso tomar conta do caso por si.

Susumu deixa escapar um sorriso.

— Você nunca desiste, não é?

— Desistir? Você é que tem que desistir. Olha bem para ti: por fora pode parecer que está perfeitamente bem, mas a verdade é que está totalmente acabado. Ao ponto de desabar a qualquer momento. 

Susumu suspira.




— Eu agradeço a preocupação, porém é como já disse mil e uma vezes. Eu não vou descansar até cumprir o meu dever.

O detetive encara vivamente a sombra, ou o “Homem das Correntes”, como Susumu costuma chamá-lo.

— É difícil. É cansativo. É doloroso. Não posso negar que me sinto várias vezes perto do meu limite, ou até mesmo além dele. Mas sabe...?

A determinação nos olhos de Susumu é mais do que notável. A silhueta não consegue deixar de reconhecer o vigor e a força espiritual daquele rapaz.

— Ninguém disse que não ia ser difícil, cansativo e doloroso. E não precisavam dizer, porque é natural... esse é o preço a pagar por algo maior. Lutar contra a injustiça e proteger a justiça... Pela defesa desses valores, eu estou disposto a descartar até mesmo a minha vida.

A aura da sombra torna-se mais intensa. Como se o seu humor tivesse ficado mais sério.

— “Justiça”, hã...? É irônica, essa sua obsessão por algo que não existe. Nem neste, nem no outro mundo... Enfim, não importa o que eu diga, essa sua visão não vai mudar. Não mudou antes e não mudará agora.

A silhueta se lembra de uma das conversas que tivera com Susumu, quando o último era mais novo, muito antes de se transformar no jovem que é hoje.

 

...

 

O pequeno Susumu de 10 anos estuda avidamente no seu quarto quando é mais uma vez interrompido.

— Por que é que se esforça mais do que precisa? Aquilo que já estudasse é mais do que suficiente para tirar as melhoras notas da turma, ou melhor, da escola.

— Porque não é suficiente. Ser o melhor aqui não basta. Eu preciso me esforçar ainda mais... se quero proteger — o inocente e inabalável moço responde.

— Proteger? O quê?

— A justiça. Ela é... algo muito grande e difícil de defender!

O tom de voz do Homem das Correntes engrossa ao fazer uma arrepiante afirmação:

— Jovem, isto pode ser difícil de ouvir e aceitar, mas essa “justiça” da qual fala não existe. Eu próprio posso garantir que não...

A sombra esperava agora receber uma resposta embirrenta; o tipo de resposta teimosa que esperaríamos de uma criança insistente e imatura.

— E então se não existe? Basta criá-la com as minhas próprias forças!

O Homem das Correntes não sabia se devia rir ou chorar da ingenuidade daquele moço. Resolveu apenas sorrir e confessar... a sua admiração pela simples e absoluta convicção dele.

 

...

 

Voltando ao presente, o sorriso da silhueta se abre ainda mais quando recorda Susumu de um acordo feito entre os dois, mais ou menos na mesma época...

— Enfim, acredito que ainda não se esqueceu, não é? Do nosso “acordo”.

— É claro que não... Quando me deparar com um caso que não posso ou consigo absolutamente resolver, mesmo após dar tudo de mim para o solucionar, eu te deixarei assumir desse exato momento em diante — Susumu sorri continuamente.

Antes de se arrastar de volta para dentro da escuridão imensa, a silhueta ainda sussurra:

— Hm... é bom que não se esqueça.

            Esta era outra tragédia, igualmente inevitável…

 

 

Susumu retorna para si mesmo. Ele não vai falhar... falhar não é opção. Como sempre o detetive iria concluir com sucesso os seus quebra-cabeças. Ou, pelo menos, ele acreditava que sim...

— Bem... hora de continuar trabalhando.

Susumu prossegue com a sua investigação, que voltaria trazendo um encontro destinado...

 

...

 

Lied, que saiu discretamente da delegacia, vai à procura do encapuçado branco.

Estava agora mesmo passando pela escola, um edifício que em tempos lhe causara muito tédio. Será que voltaria a frequentar? Espera sinceramente que não.

Perguntava-se se Susumu já regressara à delegacia e percebido que ele havia escapado. Se fosse esse o caso, então a esta altura já estavam no seu encalço. Tinha de se apressar.

— Está com muita pressa... Atrasado para a festa? Ou há alguém que quer tanto assim encontrar?

Uma voz masculina e atrevida soou por entre as cerejeiras. Ao mesmo tempo que Lied jurava que estivesse vindo das árvores, ela parecia estar sendo ecoada na sua mente.

Estaria ouvindo vozes agora...?

— Tranquilo, não sou fruto da sua imaginação. Explicando de maneira simples, eu estou me comunicando contigo através da sua mente. Só não posso garantir que esteja muito longe de ti...

Fazia sentido. O fato de jurar que a voz ressoava das cerejeiras era uma indicação de que o emissor estava perto dele, o receptor. A questão é: exatamente onde?

— Quem é você?! Mostre-se!

O homem deu umas risadas perante a ansiedade de Lied.

— Vá, acalme-se. Não é como se tivesse alguém realmente te esperando, então vamos conversar um pouco.

A resposta sarcástica do misterioso indivíduo, referente à morte dos seus pais, não passou batida pelo rapaz, que um tempo atrás teria respondido na mesma moeda.

Agora, sentia-se capaz de controlar as emoções e se acalmar quando a situação assim necessita. Essa também foi uma “capacidade” concedida pela mulher misteriosa, ou mais propriamente pelo encontro dos dois, que trouxe harmonia ao espírito.

Mas se o homem sabia da morte deles, então isso só podia significar uma coisa.

— Você... é um “deles”?!

— Haha, bingo! Até que tem um raciocínio rápido... pena ele sozinho não ter sido suficiente... para evitar a morte deles!

As provocações não faziam efeito nele. Lied começou a correr de imediato ao redor do local. Qualquer um acharia que estava maluco, mas a sua ação tinha o propósito de localizar a fonte do som.

— Hahaha, métodos rudimentares não te vão ajudar. Não ouça, ao invés disso, sinta. Vá em frente, eu sei que é capaz!

Não ouvir, mas sim sentir? Como raios é que ele poderia fazer isso? Instintivamente, Lied foi capaz de executar a tarefa cuja execução não entendia há um segundo. Como exatamente, não lhe perguntem. Foi tudo por mero instinto.

Conseguia sentir a energia que a voz expelia, e através dela determinar a localização da pessoa por trás da comunicação mental.

— Oh, vê? Eu sabia que conseguia! Agora... vem me pegar!

Lied não pensou duas vezes — o encapuçado podia esperar. Correu a toda velocidade  em direção à origem da voz.

 

...

 

Naomi não cambaleava, mas ainda sentia tonturas do choque entre ela e a outra moça. Não entendia o que realmente tinha acontecido entre as duas para sofrer de tamanha repercussão. Entretanto, a outra jovem parecia ter ficado em pior estado.

E aquela mulher de cabelo azul turquesa... quem poderia ser?

A própria Naomi reconhecia mudanças positivas em si. A lucidez com que pensava e a harmonia em que se sentia... e tudo graças ao encontro com a criança dos seus sonhos.

Apesar de não ter elucidado nem quem ele era ou o que representava para a moça, Naomi sentia-se realizada por ter ao menos conseguido confrontá-lo.

Um sorriso alegre se formou. Apenas isso... já era uma realização de vida. Um passo em frente rumo ao futuro.

O sorriso se dissiparia ao ver o sumido Lied correr pela rua fora. Não o vira desde aquele dia.

Incrível como desde então tanta coisa tinha acontecido. Num curto espaço de tempo, a sua vida tinha dado voltas.

E quanto a Lied...? Será que as suas feridas se haviam cicatrizado, pelo menos um pouco?

Tinha de lhe abordar sobre isso. Lied também já era... uma coincidência importante da sua vida.

— Espera, Lied!

 

...

 

Susumu não tem um destino fixo na sua investigação, muito por conta das circunstâncias do caso. Desconhecia tanto a facção que investigava como os seus integrantes.

Sem informações nas mãos, tinha apenas a fotografia visual do homem que confrontara. Nesse retrato mental destacava-se a tatuagem de uma pirâmide e um olho no seu centro na mão.

Apesar da falta de pistas que o pudessem levar aos “criminosos”, ele ainda perseguia a verdade com a sua intuição.

— Hm...?

Susumu viu ao longe uma figura familiar, que corria como se não houvesse amanhã.

— Aquele é... não podia ser...?!

Ao ver Lied livre e desatado, Susumu se arrependeu de não ter se preocupado mais com a possibilidade de o rapaz fugir da delegacia. Tendo em mente a sua enorme convicção, era inevitável que fosse tentar escapar.

Mas não fazia sentido agora chorar pelo leite derramado. O próximo passo tem de ser para a frente.

 

...

 

Lied contornava corredores e decifrava becos de modo a encontrar as suas saídas, tudo enquanto corria a todo o gás em “perseguição sensorial” do homem.

O adolescente contornou agora mesmo um beco, sentindo a presença do indivíduo no lado oposto. Era assim, em ziguezague, que perseguia a origem da voz.

— Isso, isso! Que ótimo uso da “Sensibilidade”!

Estava perto. Ao virar a próxima rua...!

            — Encontrei!

 

...

 

Os destinos de três jovens entrelaçaram-se. Não é inédito na história, mas sempre especial de se ver. Naomi, que vinha do corredor direito, e Susumu, do corredor esquerdo.

O detetive lançou o seu olhar feroz sobre Lied.

— O que é que pensa que está fa...

Susumu reparou também na presença de Naomi, a moça que interrogara na escola.

— Você é...!

Lied não escondia o seu espanto, principalmente pela aparição de Naomi. Esta estava igualmente surpresa por ver o detetive ali.

— Ah...! O detetive-san! Se não estou enganada, o seu nome é... Suzume?

— Susumu! Mas isso não interessa, por que é que vocês dois estão...

A atenção do trio virou-se imediatamente para a frente. Na parede que traçava o fim do beco, uma figura jazia - um homem de cabelos dourados.

Martyr não conseguiu deixar de escapar uma gargalhada, tamanha era a graça desta sina do destino.

Por ScryzZ | 01/09/18 às 20:39 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa