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4ª Mentira - O Guardião (Parte 1)

Lied (LD)

4ª Mentira - O Guardião (Parte 1)

Revisão: Venâncio Matos

Lied finalmente alcança a origem da voz - um homem nos seus 20 anos de idade.

A ele juntaram-se Naomi e Susumu, ambos em perseguição do rapaz de olhos verdes claros.

Com os seus futuros conectados, ligados pelo mesmo fio do destino, o trio confronta Martyr. E com isto entramos no clímax do primeiro Arco!

  

            — Ha. Haha. Hahaha! — o sujeito, meio desvairado, é incapaz de conter a risada.

Para Martyr, toda aquela situação era verdadeiramente divertida.

— Quem é... essa pessoa...? — Naomi se sente insegura diante o desconhecido.

— Esse padrão de cores... não pode ser?! — Susumu focou na roupa que o homem vestia.

O prudente Lied não abria a boca para falar, aguardando por qualquer movimento de Martyr.

— Haha, é como dizem... “o destino marca a hora”! Eu sou Martyr! Prazer.

Martyr analisa os dois recém-chegados. Dirige a vista a Susumu.

— Você é... aaaaah, o detetive da Visibilidade que o Varius mencionou. E então, já descobriu algo? — o sarcasmo era evidente demais.

— Visibilidade...? — Susumu murmura.

Martyr virou-se para Naomi e fitou-a por alguns segundos, não dizendo nada, e apenas concluindo a sua análise com um sorriso diabólico.

— Eu gostaria de falar um pouco mais, mas o tempo é limitado e não tenho realmente assunto com vocês.

Martyr desaparece e volta a aparecer na frente de Lied, sobressaltando tanto o último quanto Naomi e Susumu.


...


            Lied encontra-se mais uma vez no único espaço sagrado dele, ou assim pensava até pouco tempo, quando mais uma pessoa foi capaz de colocar os pés nele.

Agora que se lembra, esse indivíduo, Varius, havia designado tecnicamente aquele lugar. O nome técnico era...

— “Alma”. A minha... mente.

E a sua consciência era novamente invadida…

— É, é até bem normal...

Lied curva-se para a frente. A alguns metros de si, estava o novo invasor, Martyr.

— Bem, também pode ser como dizem... “as aparências enganam”.

— Já chega. Eu estou farto desses seus joguinhos. O que é que realmente querem de mim?!

O sorridente Martyr dá um passo em frente.

— Pois é... deixe-me esclarecer o que disse antes. Tecnicamente, você não é o meu alvo. Aquilo que nós queremos, não, aquilo que eu quero, não é você, mas o que está dentro de ti.

— Isso é...?

Lied inclina a cabeça para trás e observa a maçã dentro da cesta.

— Sim. A maçã divina... a Maçã de Adão!

— A... “Maçã de Adão”...?

Martyr caminha tranquilamente em direção a Lied.

— Mas é difícil de entender... “Inalcançável”? Como, se estou tão perto? “Esperar pelo desenvolvimento do espírito”? Que idiotice. Por quê adiar o que pode ser feito agora?

Martyr fita o jovem com desprezo.

— Desenvolvimento... de fato, você parece ter certa aptidão espiritual. Eu admito. Para um humano, claro.

Ele tenta irritar Lied com o seu olhar desprezível. A intenção de desestabilizar Lied já não é de agora, estando Martyr desde que entrou em contato com o jovem tentando tocar nos pontos mais sensíveis do seu coração.

No entanto, como nas outras tentativas, essa aversão pura não alcançava nem o coração, nem o espírito dele.

Lied começou a se recordar de algumas de suas vivências até agora: o dia em que a sua vida mudou — a morte dos pais; o confronto com Zechariah, o assassino; a mulher misteriosa que o salvou; Varius, o segundo indivíduo...

E dentro dessas experiências, uma experiência se destacou: o encontro com o encapuzado branco... e as suas palavras que ressoaram fortemente no peito.

“(...) vai encarar? O seu próprio destino?”

Lied inspirou e expirou fundo. Os seus pulsos estalaram enquanto se recompunha em pé.

— Eu ainda não entendo nada. Não sei o que quero, e não tenho a mínima ideia daquilo que será a minha vida daqui em diante. No fundo continuo bastante perdido... sobre mim.

O adolescente ergueu o olhar sobre Martyr.

— Mas uma certeza pelo menos tenho: eu possuo um destino. Posso não saber exatamente o quê, mas sei que há algo à minha espera no futuro.

Olhos nos olhos, expressão mais determinada do que nunca.

— Eu já me decidi. Essa vida... eu vou vivê-la. E o meu próprio destino... eu vou procurá-lo. Aonde ele me levará, eu não sei. Mas enquanto continuar a seguir em frente, eu definitivamente encontrarei... um lugar aonde pertenço.

Martyr sorri com desdém. Já tinha percebido o desafio que lhe fora feito.

— E então? O que é que isso tem a ver ao estar à minha frente, barrando o meu caminho?

Lied revira a cabeça para olhar por uma última vez para a cesta.

— Eu não sei o que ela realmente é ou significa para vocês, mas essa maçã, de alguma forma, tem estado no centro da mudança na minha vida. Sinto que preciso dela, se quero realmente entender quem eu sou.

O sorriso de Martyr esvai-se, dando lugar a uma expressão de indignação.

— E é por isso que não vou deixar... vocês levarem-na!

Martyr solta um sorriso abafado.

— Você vai protegê-la... com a sua vida em jogo?

Lied devolve o sorriso e responde com convicção:

Eu não vou morrer.

O loiro lê essa determinação inabalável nos olhos do rapaz.

“Aqueles olhos...”, pensava.

Tinham uma aura familiar. Desagradável, que lhe fazia tremer as entranhas. Sim, lembrava-lhe “dele”... do líder.

A agitação tomou conta do lugar. O impulso assassino de Martyr despertou.

ENTÃO VAMOS VER VOCÊ TENTAR!

O homem levantou a mão esquerda, coberta por ataduras, e a direcionou a Lied. A investida foi suspensa no exato momento em que o jovem ia ser golpeado - a mão foi radicalmente enrolada por raízes, que saíram do chão invisível, para surpresa tanto de Martyr quanto de Lied.

Os dois sentiram a súbita presença de mais alguém.

Quase que caído do céu, atrás de Lied e sentado de cócoras em frente da cesta, um encapuzado desconhecido. Ligeiramente mais velho do que Lied, de manto e capuz vermelhos. Um autêntico "chapeuzinho vermelho".

            — QUEM É?! — Martyr pergunta.

 

...



De volta a Naomi e Susumu, os dois deixados para trás... Lied se encontrava imóvel e pálido, os olhos abertos e com a mesma animação de antes do ocorrido. Já Martyr havia simplesmente desaparecido.

— O-O que aconteceu?

Um fenômeno que Susumu já testemunhara ao contrário de Naomi, que não compreendia a situação atual.

— Isto é... como da outra vez...

Naomi sacudiu Lied várias vezes, mas sem resposta. O ar de inquietação da moça respirava-se ali.

— Ei, Lied! Diz alguma coisa! Lied!

— Receio que seja inútil...

— É...?

— Infelizmente, a única coisa que podemos fazer agora é esperar. Esperar... pelo retorno deles... — o detetive resguardou-se e tentava agora confortar a jovem.

Naomi olhava para o rapaz-estátua.

“Lied...”, só conseguia pensar...


...

 

Lied e Martyr permaneciam ambos atônitos. Martyr ainda questionou ferozmente a identidade do encapuzado, mas o desconhecido não respondeu à pergunta, limitando-se a agir conforme o seu “programado instinto”.

Uma nova massa de raízes brota do chão e agarra Lied, afastando-o do alcance de Martyr e colocando-o perto do chapeuzinho vermelho. Pelo que parece, é a sua intenção defendê-lo.

— Porra... sempre que me vou divertir, aparece alguém para estragar a festa antes de ela começar.

Martyr tenta arrancar as raízes enroscadas na mão, mas sem sucesso.

“Muito rígidas... o que raios é isso...?”, ele pensava.

— Ei, não pensa em tirar isto de mim, ?

Novas raízes irromperam do chão e de imediato se dirigiram ao alvo. Para evitar males maiores, Martyr foi obrigado a colocar toda a sua força no último segundo de forma a rebentar com a estirpe que não queria a todo o custo sair, e assim conseguir desviar-se da investida impetuosa.

O uso descontrolado de força produziu um ferimento na mão (que já estava protegida por ataduras), e da ferida jorrou um pouco de sangue.

“E-Ei, sério?”, pensava o loiro.

— Não pretende mesmo conversar, não é?

A ignorância volta a ser a resposta do encapuzado, que parte novamente ao ataque. Desta vez não se trata de uma investida em massa, mas sim de uma concentração de várias investidas individuais, quase que mecanizadas.

Uma-a-uma, numa sucessão instantânea de raízes que deixa Martyr com pouco tempo de resposta, tamanha a velocidade a que cada raiz se move. Ainda ia conseguindo evitar ser atingido, mas sempre por um triz.

“N-Não é possível... eu não consigo acompanhar...! A minha Visibilidade... não é boa o suficiente...!”

          É rápido demais...

          “Os meus olhos... não conseguem seguir os ataques dele!”

         …mesmo para os olhos dele.

Lied, ao lado do encapuzado vermelho, ia assistindo à luta que estava sendo totalmente ganha pelo chapeuzinho. Nunca na vida, nem nos seus sonhos, imaginava que ia um dia testemunhar tal cenário surreal.

Lied estava assistindo à batalha, mas apenas conseguia realmente ver tênues faíscas no ar..

Examinou o chapeuzinho - o capuz não permitia que se visse o rosto. Contemplou-o por alguns segundos.

“Que concentração...”

Como se fosse um robô…

Martyr ia tentando a todo o custo contornar as raízes pilotadas para chegar perto do oponente. Contudo, a intensidade aliada à velocidade das investidas não permitia que uma oportunidade para isso aparecesse e, assim, o indivíduo ia ficando sem escapatória.

As coisas ficariam mais complicadas a partir do momento em que o raio de ataques se expandiu por todo o local e a única trajetória havia se multiplicado em várias trajetórias.

Raízes vindas de diversos pontos, lados e ângulos assaltavam agora Martyr. Ele não tinha como vencer.

“Entendo... agora compreendo...! Então é por isso...”

O loiro foi encostado a uma parede invisível e nela encurralado.

Uma onda de raízes aprisionou-o no ar - pregado na parede e impedido dos seus movimentos. As mãos, os joelhos, os pés... cada membro do seu corpo detido.

Martyr esboçou um sorriso de reconhecimento. Ao longe, fitava o encapuzado.

“Inalcançável, hã...? De fato...”

            Um... monstro. De um nível completamente diferente.

“Incrível... ele o encurralou completamente...!”, pensava Lied ao verificar a supremacia total do seu protetor.

O chapeuzinho vermelho apanhou Lied de surpresa ao fazer o seu primeiro movimento anímico. Pôs-se em pé e ficou ali quieto, sem dizer uma única palavra ou mexer um único dedo. Aquilo que parecia um colar por debaixo do capuz estremeceu com o impulso realizado para se levantar.

O encapuzado somente fixava o olhar no seu alvo imobilizado. Enquanto isso, a parede na qual este tinha sido subjugado distorcia-se, levando-o para fora da alma.

Era uma ordem... de expulsão. Martyr ainda tentou mover os seus confinados membros, mas em vão.

“Então este é o limite... o meu limite...”

Lied não conseguia acreditar. Surpreso, presenciava o desfecho da batalha.

“E-Ele está sendo absorvido...!”

O oponente derrotado ainda teve tempo de exibir um sorriso glorioso antes de ser engolido pelas entranhas da mente.

Porém... ele regressaria temporariamente do abismo. Uma força de vontade tremenda fez Martyr irromper por uns breves segundos, tempo o suficiente para fazer a sua “declaração de guerra”.

As raízes forçavam-no a partir, mas por alguns instantes elas não eram mais fortes do que o homem. Tal “milagre” apanhou até mesmo o encapuzado de surpresa, que pela primeira vez demonstrou alguma reação emocional.

Naquele momento, algo ou alguém dentro de Martyr influenciou o seu comportamento. Não tomou o controle dele, pois as palavras ainda vinham da sua própria boca, do seu próprio coração.

Uma mudança fisiológica, característica desse fenômeno, destacou-se particularmente - uns olhos que transpareciam rancor e um grande sentimento de vingança. Olhos... de uma cobra. Aquela expressão demoníaca captou igualmente a atenção de Lied.

HAHA, FASCINANTE! É REALMENTE FASCINANTE! EU TENHO DE ADMITIR, É ALGO ALÉM DO QUE EU ESPERAVA.

Uma personalidade psicopata comandava-o.

Lied não sabia muito bem a quem é que Martyr se referia, se a ele ou se ao chapeuzinho. Os seus olhos pareciam encará-lo, mas ao mesmo tempo olhavam para o encapuzado vermelho…

O tempo de Martyr esgotava-se à medida que era absorvido pela superfície interna do espaço.

POR ENQUANTO É TUDO, MAS NÃO SE ENGANE. NÓS SÓ ESTAMOS FAZENDO UMA PAUSA... A BATALHA AINDA NÃO ACABOU. A VERDADEIRA LUTA... AINDA ESTÁ PARA COMEÇAR!

Antes de ser completamente e permanentemente engolido, ainda teve tempo para declarar um último juramento:

EU DEFINITIVAMENTE GANHAREI!

Martyr apontou o dedo à Maçã de Adão.

A MAÇÃ DE ADÃO... SERÁ MINHA!

Expulso…

 

...

Por Mitsuaki Seiji | 10/09/18 às 12:42 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério