CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
4ª Mentira - O Guardião (Parte 2)

Lied (LD)

4ª Mentira - O Guardião (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Lied, incrédulo, ainda fitava o lugar onde Martyr se encontrava antes de ser sugado. O rapaz virou-se para o encapuzado vermelho, que permanecia calmo. Separados por alguns metros, com a maçã entre eles.

Quem... é você?

O capuchinho vermelho ignorou a pergunta e começou a caminhar até ele. Lied ainda hesitou diante da sua aproximação, mas não ousou desafiá-lo. A passos leves passava ao seu lado. A ligeira diferença de altura, caracterizada em centímetros, era visível. Por uma breve fração de segundos, os dois se encararam.

Apenas naquele instante é que um vislumbre do que estava oculto pelo capuz foi possível. No peito, escondida pela roupa, uma cruz soou.

O encapuzado lançou um sorriso afetuoso a Lied. O último, por experiência própria, soube ver além daquela expressão sorridente.

Além do sorriso, ele viu uma tristeza aguda. Um sorriso que inspirava esperança, direcionada a Lied, mas que expirava o fracasso próprio.

O capuchinho ofuscou-se assim como todo o espaço. E tudo ficou branco...


...


— Lied!

Naomi e Susumu olhavam o “recém acordado”. Ele – não, eles – tinham retornado.

Martyr, que regressara um pouco mais cedo, dificilmente ficava em pé, dolorido. Já Lied sentia apenas um incompreensível cansaço, como se a longa estadia na sua alma o tivesse desgastado.

Lied ergueu-se do chão, apoiando-se nos seus próprios joelhos e ignorando os cotovelos dos dois. Susumu deduzia na sua cabeça – estes efeitos colaterais não ocorreram antes.

— Não se levante ainda!

— Eu estou bem... Mais importante...

Os três fitavam Martyr. A ferida na sua mão, de onde sangrava, prendeu a atenção de Naomi.

— Ele... está sangrando...!

O loiro riu-se levemente ao verificar os olhares de dó, nomeadamente de Naomi.

— Haha, não me olhem com esses olhos... pena é o que menos quero de vocês...

Martyr fixou pesadamente o seu olhar carregado, ainda com a feição de cobra, em Lied. Foi quando o miúdo percebeu algo pela primeira vez nele.

Os olhos carregados de ego não enganavam. Ele já os tinha visto em algum lugar antes. Naquele momento, Lied jurava... estar vendo-se num espelho.

Sim... eles tinham os mesmos olhos. Olhos guiados pelo mesmo destino.

— Da próxima vez, SEREI EU A TE DEVORAR.

 

...

 

Martyr desapareceu sem deixar rastos.

— O que... é que aconteceu...? — Naomi não compreende.

Susumu e Lied, calados, ainda processavam o que aconteceu. Susumu, de cabeça baixa, dirige-se efusivamente a Lied e o levanta agressivamente pela gola.

— Maldito...! Sabendo que isso podia acontecer, eu disse para ficar na delegacia. Por que é que me desobedeceu? Quer morrer?

Lied se lembrou que já tinha estado numa situação parecida. Ah, naquele dia, com o seu pai. A última vez que trocara palavras com ele.

— Eu não estaria seguro mesmo se tivesse ficado, essa é só uma ideia errada que você tem. Eles foram capazes de assassinar sem deixar qualquer rasto. Acima disso, conseguiram enganar facilmente a polícia.

— Cale-se... O que é que você... — Susumu não queria ouvir mais.

— Fizeram-nos pensar que tudo aquilo não tinha passado de um acidente. Eu nunca estaria salvo em suas mãos.

Mas Lied tinha de dizer a verdade, mesmo que ela fosse cruel.

— Para ser franco, eu acho patético. A maneira como foram manipulados e enganados, e depois tentaram, já tarde demais, reassumir o caso... uma tentativa bem patética de se redimirem.

            — Você não sabe de nada, então não fale como se soubesse! — o volume de voz alto de Susumu imperou temporariamente o silêncio.

— Vocês dois, por favor, parem... — Naomi tentava acalmar ambos.

O pedido da moça seria ouvido. Susumu larga Lied e afasta-se deles. Antes de sair do beco, ainda diria uma última coisa.

— Quem é que você pensa que, diariamente e nas sombras, quase sempre sem crédito nenhum, cuida das pessoas, desta cidade? Você não tem noção... do quão difícil é preservar a justiça.

Lied e Naomi distanciavam-se dele, em metros e em pensamentos.

Vocês não entendem... a nossa dor. Nunca entenderão...

“Esta sociedade... é podre. Sem salvação.”

O abatido Susumu retira-se após esta pesada declaração.

 

...

 

O malsucedido detetive caminha por entre as ruas escuras pela noite. Sobre ele, a lua na sua forma crescente.

Já era tarde e imaginando que a sua demora estava preocupando o pai, daria naturalmente por terminado o dever de hoje.

Não é como se tivesse tido algum progresso digno de ser prezado, mas só poderia acreditar que o amanhã se revelaria um melhor dia.

“Melhores dias virão” — esse é o argumento do seu coração.

Contrariamente à parte emocional, a parte mental raciocinava de maneira diferente. Esta tinha em conta os resultados anteriores e estimava com base neles os resultados futuros.

Se formos por essa linha de raciocínio, “fracasso” é a palavra certa para definir a progressão do jovem neste caso em particular. Nunca antes Susumu havia enfrentado tamanho insucesso.

Parou de andar. Encostou-se a uma parede na qual pousou o estremecido punho direito. Coincidentemente, pequenas gotas de água começavam a cair do céu abaixo.

O sentimento de insuficiência no que diz respeito às suas capacidades... era tudo inédito e incompreensível para este jovem.

Incapacidade — esse é o argumento da sua mente.

Ele já entendeu. Começou a andar novamente.

Se falhou, é porque precisou de algo. Se precisa de alguma coisa, então é com natural obrigação que vai procurar obter isso que lhe falta. E seguindo essa lógica, o amanhã já correrá de maneira diferente, com resultados diferentes.

Basta crescer. Estender as asas, como se fosse a primeira vez, e voar até onde ainda não voou.

            Chegou em casa. Tatsuo tinha adormecido no sofá da sala enquanto esperava pelo filho. Esperava ver o homem, de braços cruzados e sentado na poltrona, ansiosamente aguardando a sua chegada. Bem, não podia culpá-lo.

Em sua mente vinham lembranças passadas; o pai, em público, sendo injustamente criticado pelo desfecho de um caso; contrariamente, numa outra memória, o detetive não era devidamente reconhecido pelo sucesso da investigação.

Em ambas as recordações Susumu assistia sempre ao longe, no meio da multidão. Testemunha da injustiça desta sociedade.

Sim, isto tudo também era por ele, pelo seu pai. Tomou um bom banho e entrou no aconchego da sua cama. Os seus membros estavam cansados, a mente envolvida em mil e um pensamentos.

Descansar agora para depois dar tudo o que tem... e o que não tem. Em prol da justiça, em prol de si mesmo, e em prol do seu benfeitor.

O justiceiro caiu no sono.

 

...

 

Dentro de Susumu, o Homem das Correntes fazia o seu próprio julgamento. As correntes dançavam à sua volta. O retrato de Martyr, quem o detetive havia confrontado…

            “Aqueles olhos... não há dúvida... Então está começando...”

 

...

 

Lied e Naomi eram os únicos que restavam naquele beco, palco de encontros destinados. Naomi sentia-se meio perturbada com a saída tumultuosa do detetive, mas acreditava que um dia conseguiriam fazer as pazes.

Sem dizer uma única palavra, também Lied avança para a saída.

— Espera!

Naomi não o deixaria sair assim. Não depois de tudo o que aconteceu e do tempo que passou desde a última vez que falaram. Ela, um pouco nervosa, não sabia bem como iniciar a conversa.

— Que estranho... a última vez que falamos foi há menos de uma semana, mas sinto como se tivesse sido há um mês. Muitas coisas aconteceram, né...? Em tão pouco tempo...

Lied não virava o rosto para confrontá-la.

— Sabe, nestes últimos dias eu vi, ouvi e compreendi várias coisas. Ah, não é como se tivesse realmente entendido tudo, ainda estou processando muita informação... Mas aprendi mesmo muita coisa, sobre mim, sobre a vida... sobre tudo. E no fim, apesar de ainda não entender, eu acho que cheguei a uma decisão. Viver sem rodeios e seguir sempre em frente, pelo caminho que estiver diante de mim. Esse é... o meu objetivo!

Naomi vê que o rapaz não tinha ainda a intenção de interferir.

— Você também, certo? Encontrou um objetivo...

Instintivamente, Naomi havia percebido as mudanças mentais que ocorreram nele e que já faziam efeito na aura exterior que apresentava.

Lied finalmente reagiu. Lembrou-se do seu juramento a Martyr, o compromisso de não deixar o grupo roubar a Maçã de Adão. Uma última imagem, a do capuchinho vermelho, surgiu na sua mente.

Ele revirou a cabeça para o lado e encarou Naomi, a implacável convicção retratada no rosto.

— Sim.

Por um instante, Naomi jurou ter visto em Lied uma outra figura familiar. Alguém igualmente extravagante e de determinação inabalável.

Um de cabelos pretos como o ébano, e o outro de cabelos vermelhos como a resina.

Um de olhos verdes claros como o agrião, e o outro de olhos carmesim como o tomate.

Um contraste deleitoso que opunha duas pessoas com o mesmo tipo de aura.

Aquele “sim” foi suficiente para convencer Naomi... de que estava tudo bem. Não havia com o que se preocupar. Assim como ela, Lied encontrou uma razão para continuar vivendo.

Lied retomou a caminhada e abandonou o beco. Naomi seria a última a sair, indo depois dele.

 

Cada um seguiria por caminhos opostos.

Com isto dito, a parada final de ambos será sempre a mesma. Uma circunstância do destino.

Não importa por onde vão, eles sempre se encontrarão. Essa é a sina que partilham.

 

 ...

 

Martyr regressa ao edifício da Câmara Municipal, a base deles enquanto sua estadia em Ganeden. Notavelmente mal-humorado, passa pelos corredores até à sala onde se agrupam.

À espera dele encontram-se Zechariah e Varius, o primeiro de braços cruzados e encostado ao peitoral de uma das janelas, e o segundo quietamente de pé. Core e Nemo aguardavam dentro da sala.

O sorriso de Zechariah era o sorriso de quem já imaginava o desfecho da confrontação de Martyr com Lied. Essa expressão fazia o loiro perder um pouco mais de paciência.

— Ei. Bem-vindo de volta — diz Zechariah.

Martyr, abatido, coloca-se entre Varius e o sorridente Zechariah.

— Parece que não preciso perguntar como correu…

— Tss...

Martyr cerra o punho coberto pelas ataduras. O aperto faz com que um pouco de sangue, do ferimento do combate, jorre pela mão. Rendido, ele olha de relance para Varius.

— É como disse, Varius. Ela… é intocável. Ele… aquele maldito de capuz vermelho estava guardando a maçã.

Começou a trazer à memória imagens da luta travada: as fotografias mentais refletiam a superioridade do capuchinho vermelho durante o combate, do princípio ao fim.

— Ridiculamente rápido... os meus olhos não conseguiam acompanhá-lo. Muito forte... aquelas raízes que controlava eram de uma rigidez que nunca tinha visto.

Martyr, evidentemente possesso para continuar falando sobre a sua derrota, deixou-os, indo sempre em frente pelo corredor.

 

...

 

Quando esteve na alma de Lied, Varius pressentiu hostilidade que parecia vir de outra presença, alguém entre eles que o obrigou a recuar definitivamente. A aproximação à Maçã de Adão ativou de imediato um mecanismo que a protegia (as raízes crescendo sobre a cesta), impedindo-o de tocar sequer no alvo.

Então era mesmo isso... esse “alguém” está guardando-a de quem a queira levar dali.

Um guardião...

Zechariah deixou escapar um sorriso rasgado.

— Capuz vermelho, hã...? E raízes...

Ele conhecia a identidade do misterioso guardião. E Varius percebeu isso, chegando ele também lá.

— Podia ser... Adão?

Zechariah recompôs-se em pé. Não tirava do rosto o sorriso que o caracterizava.

A hora finalmente chegou. Ele esteve à espera por este momento.

— Agora... é que vai ficar interessante.

 

...

 

Martyr atravessa todo o corredor para se dirigir ao banheiro do piso. Nemo, que abandonou a sala sem ninguém dar conta, vai discretamente atrás dele.

O homem entra no banheiro, Nemo decide ficar escondido à porta. Martyr está de cabeça para baixo, incapaz de encarar a si mesmo ao espelho.

— Eu sei que está aí. Sai.

Assim como ordenado, Nemo revela-se. O sorriso atrevido fazia adivinhar que tinha algo em mente.

— Não consegue ver que não estou no humor para brincadeiras?

Nemo, que ainda estava meio dentro, meio fora do banheiro, entra completamente, a porta deixada metade aberta.

— Brincar? Nunca... até mesmo eu sei ver quando não é a melhor altura para isso. É só que, senhor Martyr...

— Hã?

— Custa-me a acreditar que alguém poderoso como o senhor foi facilmente derrotado. O oponente só podia ser mesmo bastante forte...

Ciente do sarcasmo que o tinha como alvo, Martyr não podia ignorá-lo.

— O que é que está querendo dizer?

— O que eu estou querendo dizer é... talvez o senhor seja um pouquinho fraco, não?

Nemo iria se arrepender de ter mexido com Martyr no seu estado possesso…

O homem, imóvel, deixou de encarar Nemo por uns segundos. A criança tentaria tranquilizá-lo.

— Por favor, não fique assim. Eu tenho certeza que, se continuar praticando, poderá atingir o meu nível. Em centenas de anos, claro... haha.

Martyr não responde.

— Senhor... Martyr?

Martyr contorce repentinamente o corpo para a frente e aproxima-se lentamente. Olhos demoníacos despertam.

— Sabe que estou num “dia não”, e mesmo assim testa a minha paciência…

Uma cobra ilusória, encarnação do medo em si, desliza em volta do crânio da criança. A serpente contorna o pescoço - simulação de uma constrição, técnica mortal de algumas cobras.

 

...

 

Nemo sentia-se sendo sufocado. O pavor psicológico que aflige a criança é insuportável. Este último só perceberia que tudo não passava de uma ilusão gerada por Martyr no seu cessar, tamanho era o falso realismo do que estava sentindo.

Um sussurro medonho daria o golpe mental final em Nemo:

— Você... quer ser devorado?

O corpo, paralisado, não conseguiria se mover por alguns segundos. Já o traumatismo da mente demoraria ainda um bom tempo para sarar.

Logo quando pode, Nemo libertou-se do estrangulamento psicológico que suspendia os seus membros e escapou dali.

“Peço desculpa”, só conseguia pensar…

Um tresloucado Martyr, deixado para trás, ria desvairadamente.

— HAHA. HAHAHA. HAHAHAHA!

De alguma maneira ele sentia-se agora capaz de encarar o seu reflexo no espelho. Imitando uma cobra, lambe o sangue todo da sua mão.

Lied, o capuchinho vermelho e a Maçã de Adão vêm-lhe à cabeça ao mesmo tempo, o segundo em maior destaque.

           — CHAPEUZINHO...!


...

Por Mitsuaki Seiji | 10/09/18 às 12:50 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa