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4ª Mentira - O Guardião (Parte 3)

Lied (LD)

4ª Mentira - O Guardião (Parte 3)

Revisão: Venâncio Matos

Naomi, com um sorriso no rosto por ter conseguido falar com Lied, segue diretamente para casa.

Ao abrir a porta, e sem forças para andar até o quarto, desaba no sofá da sala de estar. Pensaria no reflexo do rapaz de cabelos vermelhos que viu em Lied.

“Não sei por quê, mas sinto que não foi uma coincidência…”

O próximo pensamento seria o último antes do permanente fechar de olhos.

“Hoje... foi o meu primeiro dia.”

O primeiro dia da sua nova vida...

 

...

 

Lied deixou de ter um lugar para chamar de casa a partir do momento em que a sua moradia foi levada pelas chamas.

Não tinha, portanto, um lugar para dormir, nem pessoa que lhe desse alojamento. Mesmo que alguém lhe oferecesse um teto ele provavelmente não aceitaria, dado o enorme orgulho que carrega.

A rua era, a esta altura, a sua residência, pelo menos durante a próxima noitada.

— Mesmo que esteja completamente desfeita, não importa como veja, esta é a minha única casa.

O rapaz contemplava a frente do seu destruído lar. A pequena esperança de que voltasse a ser o que era enganava a vista – a imagem da casa decadente era substituída pelo seu estado original. Mas era tudo fantasia da mente. A realidade era o que estava à sua frente.

Lied entrou. Subiu as escadas, a estrutura já mal se aguentava. Agachou-se e deixou-se encostar à parede entre o seu quarto e o banheiro. Dali, através de uma brecha do telhado da casa, era possível ver a lua no seu esplendor.

Olhou ao redor. Viu-se mais novo numa correria subindo as escadas para o quarto enquanto que os seus pais o advertiam do andar inferior. Mais forte do que o pesar, é a saudade.

Lied começou a ficar sonolento. Não tentou forçar os olhos, deixo-os simplesmente fecharem-se naturalmente. Quando já estava tudo apagado, restando apenas um plano de fundo negro, um zunido do vento o fez abrir os olhos.

— Hm...?

A realidade, onde estava em casa de frente para a lua, parecia ter se misturado com o cenário da sua alma. Metade, metade. Começou a nevar estranhamente.

— Neve...?

A olho nu pareciam mesmo flocos de chuva congelada, mas ao caírem na frente de Lied deu para perceber que não era neve, mas sim aquelas bolinhas azuis do fenômeno que Lied e Naomi testemunharam.

Ao seu lado direito Lied podia ver a Maçã de Adão, fora da cesta. E na esquerda, apoiado como Lied, repousava um jovem de cabelos e olhos vermelhos que sorria para a lua.

O sorriso fez Lied ligá-lo ao capuchinho vermelho. De fato eram exatamente a mesma pessoa, com a cruz e tudo.

— Quem é... que realmente é...?

O rapaz murmurou qualquer coisa que não chegou aos ouvidos de Lied, muito também por culpa do sono, que voltava a pesar.

Apenas uma palavra alcançou o aparelho auditivo. Um nome.

           “Lied” – seu próprio nome.

A noite caiu e o predestinado herói adormeceu.

 

...

 

O dia amanheceu. Martyr, Zechariah, Varius, Core e Nemo, reunidos à mesa da sala temporária do grupo, discutem os últimos detalhes da próxima fase da missão.

Martyr mostrava a sua típica cara de poucos amigos, o que indicava que tinha voltado ao normal. Nemo também parecia recuperado do “trauma” do dia anterior, que felizmente apenas o assombrou por algumas horas.

Core, que tinha notado ontem que algo de estranho se passava com Nemo, ainda o olhava algumas vezes de relance. Lembrou-se de ver Nemo, como nunca antes o vira, aterrorizado, com tremores por todo o corpo.

— Você... está realmente bem?

Um arrepio na espinha.

— Haha, eu estou melhor do que nunca! Pelo menos não estou mal ao ponto de você ter de se preocupar comigo!

“Ele está perfeitamente bem”, só conseguia pensar Core.

— E quanto a você? Olhando para a sua cara de morta, diria que não dormiu bem.

Core bloqueou com a questão de Nemo, deixando mesmo de passar para a próxima página do livro. De fato, tinha passado mal a noite.

Já fazia um tempo... desde que tinha sonhado com “aquilo”. Os recentes encontros da jovem parecem ter revivido velhos sonhos.

Zechariah ergue-se da cadeira. O centro das atenções era agora o cabeça do grupo, posição devidamente concedida pelo líder e uma escolha que todos os membros, sem exceção, respeitam. Mesmo Martyr, que prefere ser o “manda-chuva”, não ousou contrariar a decisão. É o quão grande é a reputação de Zechariah.

— Nós vamos agora avançar para a próxima fase da missão. É desnecessário dizer que falhas são inadmissíveis, até porque não somos os únicos nesta “corrida”. Alguma dúvida?

Nemo é o único que levanta a mão.

— Não é muito importante, mas estou curioso. O que é que o senhor Zechariah vai fazer? Qual é exatamente o seu “papel”?

— Eu... sim, podemos dizer que vou “cumprir formalidades” — Zechariah sorri.

— Isso quer dizer...? — Core intervém.

— “Eles” — Varius sucede no raciocínio.

Martyr suspira. Terá ainda de esperar pela sua vez de se divertir.

— Ah, não é nada de especial, só uma questão de etiqueta. Vou apenas “cumprimentar” o inimigo... os nossos rivais nesta “corrida” — Zechariah diz.

 

...

 

Xanthus caminha em direção ao palco do próximo espetáculo, onde uma promessa, após anos de espera, será finalmente cumprida. Coberto pelo capuz, ele segue para cumprir com o seu voto de vida.

 

...

 

Cerca de dois minutos depois de Martyr, Varius, Core e Nemo serem dispensados.

Restando apenas Zechariah, o líder do grupo, na sala, tendo cada membro ido desempenhar o seu devido “papel”. O sorriso presunçoso nunca larga o rosto dele.

— Bem, eu também vou andando.

Antes de abandonar a sala o homem tem um momento único e afetuoso consigo mesmo, com o seu espírito. Não era todos os dias que tinha a chance de refletir sobre si.

— O dia por fim chegou, Zaccharias. Vê bem... Esse seu espetro... vai finalmente entrar em ação.

Ao abrir a porta para sair, Zechariah é recebido por um vento forte vindo das janelas abertas e que faz soprar elegantemente o manto preto. Nunca antes o rosto dele exprimira tanta determinação.

O seu destino era... o lugar onde Lied e Xanthus iriam se encontrar pela segunda vez.

 

...

 

Susumu, restabelecido, abraçou o novo dia com toda a motivação que brotou durante a noite.

O detetive levantou-se um pouco depois de Tatsuo. Como era sábado não tinha aulas, mas ainda tinha seu outro trabalho.

A delegacia estava estranhamente barulhenta. Burburinhos de agentes radiantes ecoavam pelo corredor.

“Isso é realmente incentivador.”

“É verdade... Agora é que a nossa delegacia será certamente considerada a melhor de Ganeden, não, do mundo! O futuro dos nossos detetives está definivamente garantido.”

“Depois do Susumu, um novo detetive tão ou mais talentoso desponta. Que orgulho... do nosso recrutamento...”

Entre algumas lágrimas de alegria, as pessoas festejam este triunfo. Pelo visto, apenas Susumu não tinha ideia nenhuma do que se passava.

“Do que é que eles estão falando?”

A caminho do gabinete que pertencia ao pai, ele encontra-se com dois colegas investigadores eufóricos.

— Ó, Susumu! Meus parabéns!

— O primeiro parceiro a gente nunca esquece, e o teu é o melhor possível!

— A partir de agora será um “senpai”, e é o dever do senpai cuidar do seu “kouhai”! Dêem-se bem e serão a melhor dupla de investigadores da história! Esperamos muitas alegrias de vocês!

“Parceiro? Senpai? O que...?”, pensava Susumu, cada vez mais confuso.

Exaltado, o jovem abriu a porta do escritório sem nem sequer bater.

— Pai, o que é que está acontecendo...

Tatsuo trocava impressões com uma outra pessoa antes de interromper o filho.

Susumu! Eu ia te ligar, mas ainda bem que chegou!

Susumu analisava o indivíduo desconhecido: uma criança muito bem vestida, gravata verde e camisa branca, com olhos esverdeados e cabelo espetado.

— Deixe-me devidamente apresentá-lo. O nome dele é Nemo, tem 5 anos a menos do que você e a partir de hoje será o seu parceiro de investigação.

O jovem de seu nome Nemo levanta o queixo e aproxima-se. O sorriso vaidoso do último confrontava o olhar pouco cortês de Susumu, Tatsuo entre ambos.

Nemo convida Susumu a um aperto de mão, um sorriso travesso no rosto.

— É um prazer... Susumu-senpai.

 

...

 

Acordou. Ao abrir os olhos, Lied é recebido por um forte clarão do sol da manhã.

Levantou-se do chão e saiu para a rua, não movimentada. Depois do que aconteceu as pessoas recusam a se aproximar do local do crime, temendo que caia sobre elas a mesma contrariedade.

Nesse sentido Lied é um amaldiçoado, pois sobreviveu apenas para sofrer da tragédia. A maldição de estar vivo...

Irônico. Amaldiçoado por viver, não era como já se sentia antes de tudo acontecer? Esta maldição... será que um dia iria realmente se livrar dela?

O prazer de viver era, neste momento, aquilo que essencialmente buscava, e a solução para a praga que o infestava. Poderia realmente senti-lo? Alguém como ele...?

Balançou a cabeça; esvaziava a mente. Não faria sentido ficar preso a esses pensamentos. Não deve viver o futuro, e sim o presente, que é a sua realidade.

Sabia onde tinha de ir agora. Já adiou o suficiente esse encontro. Estava na hora... de confrontar quem mais sabe.

 

...

 

Chegou ao parque onde já aguardava o encapuzado branco.

O gramado ventoso, palco deste inevitável encontro, perpassava o horizonte desenhado.

Lied e Xanthus — os dois escolhidos para abrir as cortinas do volume seguinte da nossa história — finalmente confrontam-se.

 

O destino é reservado para aqueles que forem escolhidos.

E este grande e culpado rapaz, assim como os que vieram antes dele, gira a roda que move o mundo e dá prosseguimento à história.

É o nosso protagonista e esta é uma “mentira”, uma aventura em busca da verdade.

 


[FIM DO CAPÍTULO]
[FIM DO ARCO "GANEDEN"]

[FIM DO VOLUME 1]



Por Mitsuaki Seiji | 10/09/18 às 12:57 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério