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5ª Mentira - Homo faber suae ipsae fortunae est (Parte 1)

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5ª Mentira - Homo faber suae ipsae fortunae est (Parte 1)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Na véspera do início de uma nova fase da missão, Core tem uma noite bem turbulenta...

 

Num ambiente rural, casas de palha caíam. Um fogo intenso consumia a vegetação enquanto vozes desesperadas de mulheres e crianças se faziam ouvir bem alto.

Core, aparentemente no corpo de outra pessoa que não o dela (uma jovem relativamente mais velha, de cabelo comprido azul turquesa e usando um colar de uma lua em sua fase minguante), corria desesperada para o principal centro da comoção - o campo de batalha.


...

 

Numa realidade semelhante, porém com algumas diferenças, tais como o material das casas, que eram mais modernas e refinadas. O cenário em si era claramente mais contemporâneo.

Da mesma forma, Core, em seu corpo de criança, seguia em direção à origem daquele inferno. Assim como na outra experiência, as pessoas à sua volta ajoelhavam-se e imploravam pela salvação de um senhor no céu.

Uma das divergências desta realidade era a presença daquilo que pareciam ser militares. Estes soldados tentavam a todo o custo acalmar os plebeus, mas em vão.

Não obstante, a pequena Core continuaria a correr com todas as suas forças, ignorando os gritos de socorro.

Por que é que ela seguia para aquele lugar? O que é que acreditava estar lá?

Os seus pais...? Será que eles estão bem?

Não, não é isso. É claro que uma das suas intenções era se reunir com seus pais, mas isso não explica o porquê de se dirigir com tanta certeza para aquele ponto. Intuição...?

A menina alcançaria a tão perseguida vista, um panorama que se arrependera de perseguir irracionalmente nesta segunda metade do pesadelo.

Vertigens. A cabeça dava voltas, os seus joelhos tremiam. Desmaiou.

 

...

 

Voltamos à primeira realidade com Core na posse de um atormentado corpo feminino. A adolescente também estava ajoelhava na terra, perdida na sua mente depois de encarar a visão aterradora à frente.

Um rapaz de cabelo curto carmesim, com uma cruz transparente e vibrante no pescoço e coberto por um capuz vermelho, estende a mão. Um líquido vermelho espesso pinga da palma. Ao baixar a cabeça, também deu para reparar no mesmo líquido jorrando dela.

Tudo bem? — o jovem pergunta, esboçando um sorriso forçado.

Esse mesmo sorriso denunciou diversas feridas, físicas e psicológicas. A reformulação da feição permitiu ainda que mais sangue jorrasse, pintando o seu rosto de vermelho.

Aquilo que pareciam lágrimas eram gotas de sangue, e aquilo que pareciam gotas de sangue eram lágrimas. Uma última mudança de realidade ocorreria.

 

...

 

Tomando o lugar do encapuzado vermelho estava um loiro da mesma idade de Core, 8 anos, de olhos esverdeados escuros e com uma cruz preta envergada. Assim como o primeiro, este menino também sorria perante a sua “donzela”.

As duas realidades se tornavam uma. No momento em que ambas as figuras masculinas se incorporaram, uma súbita mudança ocorreu. Na metade predominante, o loiro, umas orbes demoníacas surgiram...

 Tudo bem?

Ele era o “líder”. O seu salvador.

 

...

 

10:35. A manhã do dia “X".

Core terminou de relembrar o sonho que tivera. Já fazia algum tempo desde que tivera este tipo de sonhos, complexos e aterradores.

Sonhos que remontam há oito atrás...

A esta altura, Nemo já deve ter começado a causar “os seus estragos” na polícia local, assim como planeado entre o grupo. Como ele, também Core tinha ordens para seguir.

Já se tinham passado alguns dias desde o encontro com a menina misteriosa, Naomi, e o “moço palhaço”, Iduma, dono de uma energia muito exótica e ao mesmo tempo familiar, que coincidência ou não, coincidia com a do encapuzado vermelho do sonho.

Nunca mais conseguira tirá-los da cabeça. Ainda sentia, algumas vezes, o efeito do contato físico com Naomi, um sintoma de tontura que a perseguia.

Mas no fim eram as imagens que vislumbrara que não paravam de invadir a mente.

Por quê...? Eva… Por que é que ela a viu? Depois de tanto tempo...

Balançou a cabeça. Desde então, aquilo que mais tem feito é balançar a cabeça para afastar pensamentos que só iriam lhe tirar a concentração na missão.

Ergueu o olhar sobre o horizonte e caminhou em sua direção.

 

...

 

Nemo convidava Susumu para apertar as mãos. Um clima de tensão que parecia ter potencial de crescimento instaurou-se por alguns segundos entre eles. Susumu nunca o vira antes na vida, e era esse fato que estava dando a ele o que pensar.

O silêncio já estava pesando demais e o detetive entendeu isso. Para não deixar Tatsuo também inquieto, o jovem aceita reverentemente o cumprimento. No momento em que as duas mãos se apertam, Susumu é capaz de sentir uma aura suspeita a emanar do miúdo.

“Quem é ele...?”

— Amanhã começam a trabalhar. Hoje é dia de celebrar!

O animado Tatsuo junta-se lá fora aos igualmente eufóricos agentes, deixando por um momento Susumu e Nemo sozinhos.

Bem, eu também vou andando! Até amanhã... Senpai.

Dito isto, Nemo abandonou o escritório. No corredor, o rapaz depara-se com Tatsuo, que conversava euforicamente com colegas.

— Ó, Nemo! Nós pretendemos sair um pouco, que tal vir conosco? Aproveita e convida o Susumu para se juntar a nós!

— Eu adoraria, mas peço desculpa, Tatsuo-san. Acontece que tenho coisas para fazer.

— Percebo, é uma pena — Tatsuo, com um olhar desapontado, consente — Amanhã é para estar aqui às 11:30 em ponto. Não se esqueça!

— Sim! — Nemo responde.

Depois do rapaz seria agora Susumu, de expressão pouco confortável, a abandonar o escritório.

— Susumu, nós estávamos pensando em ir...

— Desculpa, Pai, mas agora não — Susumu interrompe o seu pai.

O veterano detetive voltara a ser rejeitado. É quando um dos colegas intervém:

— Não se preocupe, eles também têm muito em que pensar. E também não faltarão oportunidades para sairmos todos.

Tatsuo, ainda com uma expressão ambígua, acena com a cabeça.

— Sim, tem razão.

 

 

Susumu tinha a cabeça na lua no caminho até casa. Não conseguia ignorar a sensação de desconforto desde que conheceu Nemo, o seu novo parceiro.

O detetive é transportado para a sua alma, o espaço escuro e sem iluminação, invocado pelo Homem das Correntes, que o aguarda.

— Ele é um “deles”.

— Um “deles”?! Como é que sabe?

— Usa a sua intuição. Aposto que ela te leva a pensar precisamente nessa possibilidade.

A sombra tem razão. É a única dedução plausível que lhe vem à cabeça.

— Isso significa que esteve este tempo todo infiltrado na polícia? Desde a sua formação? Se é esse o caso, então por que é que nunca me cruzei com ele? Por que é que o nome não me diz nada, apesar de ter tão boa reputação entre os agentes?

A confusão instala-se na cabeça de Susumu.

— Por que é que eu sou o único que não se lembra dele...?

O Homem das Correntes desliza pelo espaço e as correntes, parte de seu corpo, seguindo o seu movimento.

— Eu tenho uma teoria.

Os olhos de Susumu seguem atentamente a silhueta. Para iniciar a explicação, a sombra manipula habilmente as intermináveis correntes de modo a formar uma única palavra.

"Memoriam"

— “Memória”. Se você pensar bem, essa capacidade está no centro da conjuntura. Os outros se lembram, você não se lembra... sim, ela é, por si só, a chave para desvendar este pequeno caso.

— O que é que... quer dizer...?

— A resposta é... manipulação. Manipulação de memórias.

— Manipulação de memórias?!

— Correto. Essa criança, Nemo, manipulou a memória de cada um dos agentes da polícia, incluindo o teu pai, fazendo-os pensar que ele é alguém que não é.

— Impossível...

O Homem das Correntes deixa escapar umas leves risadas.

— Uma a uma ele retirou lembranças e as substituiu por recordações falsas que o próprio inventou. No fim criou uma identidade, e com ela toda uma vida.

Susumu sentia-se parcialmente derrotado. Quantas mais atrocidades estão sendo feitas enquanto investiga?

— Como... como é que algo assim pode ser possível?

A sombra sorri ironicamente.

— Como...? Da mesma maneira que você pode ver reminiscências do passado ao tocar num objeto. As possibilidades do espírito são... infinitas.

— O espírito...

Susumu recorda-se de um dos inimigos, Martyr, ter referido uma habilidade que ele supostamente teria.

— “Visibilidade”... É o mesmo truque?

O Homem das Correntes balança a cabeça.

— Não, não exatamente... Neste caso, trata-se de algo consideravelmente mais complexo...

...

 

            Susumu retoma à realidade. Recorda a continuação da conversa enquanto se dirige até casa.

 

...

 

O Homem das Correntes apresenta uma face mais séria.

— Susumu, ele definitivamente tentará te colocar sob seu controle. Afinal, você é o único na delegacia que mantém a sua memória intocada. Pensa nisto como uma partida de xadrez: no tabuleiro deles, a queda do último agente é provavelmente o sinal verde para agirem de maneira mais livre e sem necessidade de tanta discrição. Você é a única peça em pé, e como tal deve procurar não deixar que eles levem a vitória.

O jovem não se deixa convencer muito com o discurso moral.

— Isso é tudo muito bonito, mas no fim a realidade é que estou em desvantagem numérica e sem informações sobre o inimigo.

— Está desistindo?

— Não, mas acho estranho você estar colaborando quando a minha derrota só te beneficiaria.

A silhueta sorri.

— É difícil explicar, mas a derrota nesta situação seria tanto sua quanto minha. Afinal, depois de tudo, o nosso “duelo” não terá valido de nada, já que sairíamos ambos derrotados.

— Hm...

Susumu não se deixa convencer totalmente, mas não consegue achar que aquele indivíduo, sempre tão sincero, esteja mentindo.

— Que tal? Dadas as circunstâncias, porque não desconsiderar, temporariamente, o acordo?

O rapaz fica uns segundos ponderando a proposta. Ao erguer o queixo, Susumu o encara.

— Tudo bem, vamos cooperar. Entretanto, numa posição totalmente desvantajosa, como devo pensar em revidar?

A sombra esboça um sorriso de completa confiança.

 

...


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N.T: o título do capítulo, em latim, significa "homem é o arquiteto de sua própria fortuna".

Por Mitsuaki Seiji | 28/09/18 às 15:45 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa