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5ª Mentira - Homo faber suae ipsae fortunae est (Parte 2)

Lied (LD)

5ª Mentira - Homo faber suae ipsae fortunae est (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Lied e Xanthus se encaram por uns longos segundos. Durante esse período de tempo nenhum deles abre a boca para falar, adiando prolongadamente a conversa. Eram apenas eles e o vento naquele terreno gramado.

O silêncio morre quando Lied resolve fazer uma primeira abordagem.

— Desde aquele dia, à medida que ia vivendo extraordinárias coisas, experiências pelas quais nunca imaginara passar na minha vida, eu pensei e pensei sobre as suas palavras.

Lied relembrava todos esses recentes acontecimentos nos quais participou, desde o assassinato dos seus pais ao encapuzado vermelho e à Maçã de Adão.

— Esse... era o meu próprio destino, correto? — Lied cita as exatas palavras de Xanthus ditas no primeiro confronto entre eles.

— Sim.

Lied revira os olhos e fita o seu sapato sobre o gramado.

— Entendo... Então esta é a minha “resposta”.

Lied dá um único passo em frente.

À pergunta que não respondera antes, iria dar a sua resposta.

— Eu não vou fugir. O meu destino... eu irei encará-lo!

Xanthus esboça um fragmentado sorriso. Parece que o homem ouviu a resposta que queria ouvir da parte de Lied.

— Correto. Encarar as adversidades de frente e abraçar aquilo que o destino nos reserva... esse é a única maneira de continuar vivendo. Àqueles que se aprisionam no infortúnio do tempo, apenas um enorme sofrimento restará. Eles nunca poderão avançar. Do vácuo preenchido de dor nunca mais sairão.

Lied retribuiu a atenção, escutando com zelo o discurso de Xanthus. O jovem voltaria a tomar as rédeas de uma conversa que se aproximava da sua fase final.

— Honestamente, eu não sei o que devo fazer a partir de agora. Apenas posso ser sincero e exprimir aquilo que verdadeiramente sinto. Entretanto, eu tenho uma pergunta para te fazer, e dependendo da tua resposta, eu acho que tenho uma ideia...

O silêncio retorna para gerar um suspense de breves segundos.

— Eu te conheço, não é?

— Ó?

Então ele finalmente compreendeu... Lied balança a cabeça.

— Não, não apenas você, mas todas estas pessoas que subitamente apareceram e misteriosamente mudaram o rumo da minha vida. Mesmo esse tal de Martyr...

Xanthus é apanhado superficialmente de surpresa pelo indivíduo mencionado, que não conhecia de lado nenhum.

— Martyr?

— Responde! Eu conheço todos, certo?!

Xanthus ergue o olhar para o céu azul.

— Sim.

Lied abaixa a cabeça. Então era verdade...

— Entendo... Os meus pais não me contaram detalhes, mas eu soube pela conversa que tiveram na época com o orfanato no qual me adotaram. Eu não conheço... os meus verdadeiros pais. Nem os rostos, nem os nomes... Não somente eles... eu não tenho qualquer memória dos meus primeiros oito anos de vida. Por quê? Por que é que eu não me lembro de nada? É óbvio... Porque esqueci. Disseram que tinha amnésia, e fiquei sabendo depois que tinha sido encontrado inconsciente no parque. O que aconteceu? Quem sou eu? Quem é aquela mulher misteriosa, e qual a sua relação comigo? O que é a “Maçã de Adão”? E...

O indivíduo de cabelos vermelhos vem, por último, à mente.

— Quem é “ele”?

Lied dá mais um passo para a frente.

— Eu já entendi o que tenho de fazer a fim de ter todas as questões respondidas. Recuperar as minhas memórias perdidas e compreender o meu passado esquecido, a fim de entender quem sou realmente... O quê, e quem é “Lied”!

A amabilidade no rosto de Xanthus some com as declarações de Lied.

— Tem certeza? Restaurar essas memórias e desvendar o passado poderá te levar a uma enorme dor, a uma angústia inesgotável, a um arrependimento interminável. Sim, podemos dizer que no fim da tua caminhada, apenas uma inevitável tragédia te aguarda. Pretende abrir a porta de tempos que estavam melhor esquecidos? Mesmo sabendo que irá encontrar somente um grande desgosto?

Lied cerra o punho direito. Ele fita brevemente o gramado antes de encarar Xanthus de novo.

— Mesmo assim, esse ainda é o meu destino.

A afirmação do rapaz faz uma saudade adormecida despertar no encapuzado. A certeza e frontalidade nas suas palavras...  lembrava Xanthus “dele”.

— Vocês realmente são... parecidos — Xanthus sorri diante da nostalgia.

— Hã?

— Não, não é nada...

A brisa nostálgica brandou. Por um momento, uma grande familiaridade existiu entre os dois. Xanthus aproveitou o momento para fechar uma conversa que já se estendia por muito tempo.

— No nosso primeiro encontro eu te deixei uma pergunta para responder, à qual você respondeu corretamente. Desta vez também irei colocar uma questão, porém, esta não tem uma resposta predefinida ou certa. Varia de pessoa para pessoa, de vida para vida, de perspectiva para perspectiva. Contudo, e como se encontra agora, não está em condições de respondê-la. Da próxima vez que nos encontrarmos, ou talvez mesmo no final da tua jornada, eu irei querer ouvi-la.

Naquele intervalo momentâneo para a pergunta, as engrenagens se moveram. O destino... estava sendo traçado.

Lied abre a boca de espanto diante da ação do homem - Xanthus estende os braços num abraço que procurava envolver o mundo.

— O que é que vê?

— O que é que vej...?

O moço sentiu repentinamente um sono hipnótico unindo o corpo e a mente.

O encapuzado branco lhe apontava o dedo indicador esquerdo. A mesma coisa estava acontecendo com ele... Parece que ia dormir outra vez.

— O meu nome é Xanthus... “Boa viagem”.

“Xanthus... e ‘boa viagem’?”

Sem pestanejar, ele caiu no universo da sua inconsciência...

...

O homem, agora o único consciente no parque, levanta o corpo de Lied e coloca-o no seu ombro esquerdo. Com a mão direita (já que a esquerda está ocupada equilibrando o corpo no ombro), retira o capuz que o ocultava. Um rosto esbelto, de olhos azuis-ciano e cabelo loiro.

“Demorou oito anos, mas eu finalmente cumpri a nossa promessa. Agora é contigo... Zaccharias.”

Das costas de Xanthus, uma silhueta espreita. Os olhos dourados e o comprido cabelo denunciavam por si só a sua identidade, a característica mais destacável era mesmo a tatuagem no olho esquerdo. Zechariah.

Xanthus retorce o corpo para trás de modo a encarar o recém-chegado. Mais um confronto do destino. Os dois encaram-se, aprontando um desenvolvimento que ficaria para ser mais tarde relatado...

...

Lied acorda.

“Já acordei...?”

Pelo visto, o sono desta vez não foi tão demorado.

— Hã?

Lied depara-se flutuando em algo que parece ser um canal. Um curso do qual parecia fazer parte.

— Estou... sonhando...?

À sua frente, atrás e em ambos os lados, “bolinhas azuis” surgem para rodeá-lo.

— Outra vez...

Lied deixa soltar umas risadas. É irônico - nos momentos mais extravagantes, estes excêntricos seres aparecem para saudá-lo.

Ah, claro... eles também fazem parte do destino dele. Talvez estes “bolas de gude vivas” sejam mesmo os guias que o levarão até onde deve ir.

— Vocês vão me guiar, não é? Para onde quer que deva ir — Lied pergunta, sorrindo.

Lembrou-se da despedida do proclamado Xanthus... “Boa viagem.”

“Entendo... então vou viajar...”

— Vamos começar então... esta minha viagem!

Partiu...

...

 

Lied aterriza em solo firme. Chegou na sua “parada”. Diante do rapaz, um cenário “morto” se ergue.

No momento em que ele chegou, as bolinhas azuis se dispersaram e se transformaram em seres humanos, permanecendo numa peculiar fila que se estendia à frente do jovem. Esta fileira única abrigava dezenas de pessoas, todas elas pálidas e sem vida, numa forma imaterial.

Dirigindo a fila estavam dois guardas, nos 30 anos, acompanhados por uma terceira pessoa sentada atrás de um balcão que escrevia apressadamente na mesa. Uma espécie de recepção com vigilância consideravelmente apertada.

— Onde... é que estou?

Lied desvia o olhar para si mesmo. Assim como aquelas pessoas, o seu corpo também adotou um contorno transparente.

— O meu corpo...! O que é que...?

Antes que pudesse captar mais anormalidades, Lied é alvejado pelo olhar observador de um dos guardas.

— Ei, você! O que é que está fazendo? Junte-se à fila!

O outro guarda, após a instrução dada ao rapaz pelo seu colega, coloca igualmente os olhos nele. Lied vacila e recua ligeiramente, o que obriga o guarda que ainda não se pronunciou a levantar a voz.

— Não ouviu?! Vem imediatamente para aqui!

Só havia uma única possível reação natural para o moço: diante do desconhecido, virou totalmente as costas e desatou a correr para fora dali.

Deixados para trás, os guardas não demoraram muito a responder à repentina fuga dele, iniciando uma perseguição intensiva.

— Raios...! Isto não pode ser um sonho! Que lugar é este?! Quem são aquelas pessoas?! E mais importante... o que é que aconteceu ao meu corpo?!

Enquanto corria, contemplava com um olhar de pânico as suas mãos e pernas, todos os membros do seu corpo tênues. Mas não era apenas a sua atual aparência. Os seus movimentos também estavam… diferentes. Esquisitos.

Atrás de si, Lied podia ouvir os gritos dos seus perseguidores. A sua presença havia criado um clima de tensão que o alvejava profundamente.

Olhou para a frente. Estruturas urbanas erguiam-se. Julgando pelo estado decadente das construções, não devem ser utilizadas há um bom tempo. Quiçá há centenas de anos...

Rodou a cabeça para olhar para trás. Num abrir e fechar de olhos, os guardas haviam reduzido a distância para metros.

O rapaz não conseguia acreditar neste fato, já que não tinha em nenhum momento diminuído a velocidade. Eles eram mesmo humanos...?

Confrontou novamente os edifícios decadentes que se levantavam a cada passo que dava. Não havia tempo para pensar duas vezes. Entrou por ali mesmo.

Uma sequência simétrica de velas iluminava o lugar. Uma descoberta curiosa tendo em conta que parece estar abandonado desde os dias em que fora construído.

Lied driblava incansavelmente o local, não sendo felizmente confrontado com becos sem saída. Os homens pareciam estar mesmo dispostos a capturá-lo, tamanha a urgência com que o perseguiam.

A perseguição já se havia estendido por muito tempo e os guardas ainda estavam no seu encalço. Para piorar, Lied não conhecia o labirinto por onde vagueava. Era, assim, uma questão de tempo até ser apanhado.

Contornou ainda uma última rua. A rotação daria possivelmente a Lied mais uns segundos, mas somente um milagre manteria a sua liberdade por mais um tempo.

Só o destino poderia realmente ajudá-lo no momento.

Por aqui!

Uma voz volumosa fez-se ouvir do nada. O tão irreal milagre acontecia.

Lied procurava a origem do grito adulto. Naquele beco...?

Sim, aqui! Rápido, antes que te alcancem!

Num impasse, Lied saiu correndo para o refúgio que lhe havia sido milagrosamente dado. Cansado, instalou-se de qualquer maneira. Estaria salvo pelos próximos minutos.

— Essa foi por pouco, hã?

O seu salvador situava-se à esquerda dele.

—  Sim, obrigado.

Não podia deixar de confrontar visualmente a pessoa a quem devia a sua salvação. E foi o que fez.

— Hum...? Um...

Para surpresa de Lied, a identidade do sujeito que lhe salvou, usando um excêntrico chapéu e de olhos dourados, é...

— …corvo falante?

Mais uma vez, salvo pelo destino.

A sua jornada... começa concretamente aqui. Com este encontro predestinado.

 

A vida. O espírito. A alma.

 

Estas três peças tiveram, ao longo da história, as suas definições discutidas e desfiguradas, assim como colocadas à prova.

 

Vidas se encontraram. Espíritos batalharam. Almas expiraram.

 

Neste espaço morto, onde vidas, espíritos e as suas almas repousam, uma derradeira era se dispõe, e com ela, uma nova batalha irá começar.

 

...

 

Um jovem adulto de 18 anos sentava-se numa secretária amontoada de papéis, com uma vela num canto e uma caneca no outro. A papelada na mesa era tanta que o homem preferia simplesmente jogá-la fora, tirando da vista dele.

Contudo, ele não podia, pois aquele era o seu trabalho. Sobre este homem, apresentava-se relativamente despenteado. Não, pensando bem, aquele é o seu estilo.

O cabelo e os olhos contrastavam de verde floresta, uma tonalidade sóbria. A roupa que vestia era a observação mais extravagante que se podia fazer - trajes algo formais num padrão gótico, em preto e branco.

Sobre a sua personalidade...

“Estranho... e suspeito. Não sei porquê, mas a atmosfera está... muito suspeita! Algo... algo está para acontecer...!”

…podemos dizer que é um pouco inseguro.

“E EU NÃO ESTOU CERTAMENTE PREPARADO!”

 

[FIM DO CAPÍTULO]

[INÍCIO DA SAGA “MICTLAN”]

Por Mitsuaki Seiji | 28/09/18 às 15:53 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa