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6ª Mentira - Entrando em Mictlan (Parte 2)

Lied (LD)

6ª Mentira - Entrando em Mictlan (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Lied estava abismado, agachado naquele pequeno refúgio que encontrou.

— Um... corvo falante?

O corvo de chapéu não aparenta estranhar a presença de Lied naquelas ruínas, muito menos questiona o porquê de estar sendo perseguido.

— Esse “corvo falante” tem nome, e é Zaccharias!

O jovem, apesar de obviamente admirado, não tira nunca a típica expressão sem graça do rosto.

— Um nome, claro. Corvos têm nomes. Já agora, o meu nome é Lied. E então, como é que um corvo pode falar? A não ser que me diga que estou mesmo sonhando.

O intitulado Zaccharias reage de uma maneira bastante excêntrica... Com a pata esquerda dá uma bofetada na bochecha direita de Lied. O último coloca imediatamente a mão direita na bochecha acertada.

— EI! Para que diabos foi isso?!

— Vê? Se fosse um sonho, tinha acordado. Sobre o porquê de eu poder falar, bom, é porque eu também sou um ser humano como você, apesar de estar no momento nesta forma animal. ENTRETANTO, isso não interessa agora. Jovem Lied, teria 16 anos no momento?

— Sim.

— QUE TOM MAIS SEM VIDA! Ei, o morto aqui sou eu!

Movido pela ansiedade crescente, Lied rapidamente entra no clima da conversa.

— EU RESPONDI, NÃO RESPONDI?!

— Já está melhor.

“Hã? Ele adivinhou a minha idade...?”

Lied percebe depois outra coisa estranha que o corvo tinha dito sobre ele mesmo.

— “Morto”?

Zaccharias suspira, entende que está na hora de trazer alguma objetividade à conversa.

— Ah, sim... Lied, você não tem a mínima ideia de onde está, presumo. E provavelmente nem de como veio para aqui.

O rapaz balança a cabeça.

— Então sente-se e ouve atentamente porque a explicação vai demorar um pouco.

Lied obedece, sentando-se no chão.

— Mesmo que não tenha entendido o que exatamente aconteceu, deve com certeza se lembrar dos diversos fenômenos que testemunhou nesta tua “viagem”.

Lied acena.

— Eu acordei numa espécie de canal e do nada me vi rodeado pelas “bolinhas azuis”, que me guiaram até aqui.

— Essas “bolinhas azuis” são a forma material que os espectros, os espíritos dos mortos, assumem.

— Espíritos dos mortos?

— Sim. Você pode ter interpretado eles como guias, mas a verdade é que também estavam seguindo o seu caminho traçado. Percebeu que se movem seguindo sempre a mesma trajetória, certo?

O jovem volta a acenar. De fato, Lied via-as se dirigirem sempre para o mesmo lugar, o Parque Municipal.

— É a “rota dos mortos” - a estrada para Mictlan, o Submundo, onde se encontra, em que aqueles que pereceram aguardam pela reencarnação, o processo que permite ao espírito habitar um novo corpo e consequentemente viver novamente.

Lied lembrou-se do fenômeno que havia testemunhado relacionado às esferas azuis - a “transformação” em formas humanas. Agora tudo fazia sentido. Eles eram humanos.

Recorda-se igualmente de questionar quando era mais pequeno para onde iam as pessoas depois da morte.

— Mictlan, o Submundo... E pensar que um lugar assim existia.

A cabeça do rapaz ilumina-se.

“Será que eles ainda estão aqui...?”, Lied referia-se aos seus falecidos pais, isto se ainda não tiverem reencarnado…

O jovem olha atentamente para os olhos dourados do corvo.

— Então... você também é um espírito de Mictlan?

É a vez de Zaccharias acenar com a cabeça.

— Sim. Fugitivo, ainda para reencarnar.

— Fugitivo? Você também...?

Estavam no mesmo barco, pelo visto. O corvo vira a cabeça levemente para a esquerda, de onde Lied entrou.

— Desde de que morri e vim para Mictlan, ou seja, faz 8 anos.

Zaccharias gira o crânio de volta para o rapaz.

— E então? Agora que sabe como, por que é que acha que veio parar aqui?

Xanthus e toda a longa conversa que teve com o encapuzado vinham à cabeça de Lied. O motivo propriamente dito de ter vindo para Mictlan? Nem mesmo ele sabe. No entanto...

— Eu... perdi faz pouco tempo os meus pais. Eram apenas os meus pais adotivos, mas eram os únicos pais que alguma vez conheci.

Zaccharias ouve serenamente. Lied, que tinha entretanto abaixado a cabeça, ergue-a, continuando o discurso.

— Foram mortos por alguém chamado Zechariah que pertence a um grupo que desde então me tem perseguido. Eu digo que me perseguem, mas não parece ser a mim que querem.

O corvo parece ter uma ideia do que se trata, não se deixando impressionar.

— Um homem desse grupo que confrontei, Martyr, apelidou-a de “Maçã de Adão”. Uma estranha maçã que reside dentro de mim, mais especificamente dentro da minha alma.

Lied abaixa ligeiramente o queixo.

— Eu quero entender. Não apenas os outros, mas eu mesmo também. E o meu coração, ou algo ainda mais profundo, diz que esta maçã é a chave para chegar a esse entendimento. Por esse motivo... é que não posso deixar que a levem. A todo o custo.

Zaccharias sente a forte determinação que emana do rapaz.

— Alguém que não sabe, não pode compreender. Alguém que não compreende, não pode saber. Em outras palavras, antes de entender algo, precisa saber o que é exatamente isso que está querendo entender. No caso da Maçã de Adão, trata-se de um conhecimento material.

Lied, inteligente, levanta as sobrancelhas.

— Você sabe o que é a Maçã de Adão?

Com a pata esquerda o corvo retira o chapéu da cabeça, deixando-o de lado.

— Eu te contei sobre Mictlan e você já conhece o mundo em que reside, usualmente denominado de Tellus. Entretanto, existe na verdade mais um mundo além desses dois.

— Um terceiro mundo?

Aqua, a minha terra natal, e também de onde esse grupo, conhecido como “Illuminatus”, vem.

— Illuminatus...

— Eles são “astecas”, como são chamados os residentes de Aqua. Mesmo no nosso mundo são temidos como uma organização misteriosa e cujos propósitos mantêm-se, por vários anos, desconhecidos.

— Espera. Se vocês são “astecas”, nós, de Ganeden, de Tellus, somos o quê?

— Bom, “humanos”. É assim que nos referimos à raça de vocês.

Esclarecido, Lied regressa ao silêncio de modo a deixar Zaccharias prosseguir.

— Os dois mundos, Tellus e Aqua, costumavam ser apenas um mundo que depois se dividiu em duas metades. O Mundo Original, também chamado de “primeiro mundo”.

— Um único mundo...?

— Esta é uma história que remonta aos primórdios da humanidade propriamente dita, um tempo em que nada existia. Um conto tradicionalmente passado de astecas para astecas, de geração em geração. O conto de Adão, Eva... e Nachash.

— Adão, Eva e Nachash...?

— Os residentes desse mundo são, na história asteca, referidos como habitantes do primeiro mundo. Adão, Eva e Nachash foram os primeiros habitantes - os três primeiros seres humanos. De fato, no princípio eram apenas os três. Entretanto, com o tempo foram aparecendo mais pessoas como eles. Eu digo “com o tempo”, mas as várias teorias científicas existentes apontam que tenham sido criados pelo poder da Maçã de Adão. Não apenas os cientistas, mas todo o povo asteca acredita piamente nessa hipótese, que já tomam como verídica.

Lied não conseguia acreditar. Por muito mística que aparentasse ser, tinha mesmo esta maçã todo esse poder? O poder de criar...

— Não mais sós, o trio com a ajuda dos recém-criados humanos edifica a sociedade, construindo um espaço próprio para residência, uma vila próxima do mítico “Jardim de Éden”. Instalada, a pequena povoação viveria continuamente em paz. Contudo, essa paz não foi eterna e tal realidade seria comprovada pela intervenção dos “portadores da destruição e da criação” - os Guardiões de Deus. A aparição destes misteriosos indivíduos, representados nas sagradas ilustrações com capuz e manto cinzentos, ditaria o futuro do mundo, assim como o presente de cada um dos mundos divididos.

O rapaz podia respirar a tensão no ar. A história sendo contada estava para ficar mais sinistra.

— Pouco ou nada realmente se sabe sobre estes “guardiões”. Mesmo depois de todo este tempo, as suas intenções permanecem um dilema. A única coisa que sabemos são fatos, tais como a guerra que conduziram com o objetivo não justificado de destruir o mundo, o evento que causaria eventualmente a sua separação. Esta violenta batalha, que gerou incontáveis vítimas, viria a ser conhecida como a “1ª Guerra Espiritual”. Uma guerra disputada entre os Guardiões de Deus e o bando de Adão.

Lied engoliu a própria saliva.

— Naturalmente que Adão e os seus companheiros venceram. Caso não tivessem vencido, não teria sequer existido uma divisão nos dois mundos que conhecemos, pois aquele primeiro mundo teria sido destruído antes. Nós existimos neste momento por causa de Adão, “O Herói”, e do seu heróico feito. Porém...

— Porém?

— A guerra contra os Guardiões de Deus terminou, mas uma nova luta viria a começar logo de seguida. Dentro do bando deles, um sujeito se revoltaria contra Adão. Os dois consideravam-se até esse momento melhores amigos. O nome dele é Nachash, “A Serpente Falante”!

Nachash, um dos elementos do trio que Zaccharias começou por referir. O melhor amigo de Adão...

— Por quê? Eles tinham derrotado os inimigos. Por que é que os trairia?

O corvo falante ficou silencioso por uns breves segundos.

— O motivo da traição está dentro de ti - a Maçã de Adão!

— A maçã?! Espera, se eu estou agora com ela...

— Sim. Para a felicidade de todos nós, Nachash falhou em colocar as mãos nela ao ser derrotado por Adão.

Lied abaixa a cabeça.

— Traiu o próprio amigo e as suas pessoas... e tudo em nome do ganho pessoal. No fim, Nachash foi vítima da sua própria ganância…

— …Será que foi só mesmo isso?

— O que é que quer dizer?

— As pessoas, astecas ou humanos, são os maiores dilemas existenciais. Motivos e causas são evidenciados pelas circunstâncias individuais, e em grande parte dos casos, pela perspectiva que a pessoa tem de tudo à sua volta. Não me entenda mal, sua análise está correta e a interpretação que tirou é aquela que todos nós, de Aqua, tiramos. Nachash é o maior vilão da nossa história, mas à semelhança dos Guardiões de Deus, um indivíduo enigmático, impossível de entender na sua essência. O que eu quero realmente dizer, é que há muito que ainda não sabemos sobre nós e o passado.

Zaccharias daria continuidade.

— Nachash fora derrotado, mas as suas aspirações não. Por entender que a serpente definitivamente regressaria para realizar as suas ambições, Adão arranjou um meio de impedir tal regresso, ou pelo menos de adiar o inevitável. É aí que entra Mictlan e o motivo original da sua criação: Adão usou a Maçã de Adão para criar um mundo onde pudesse aprisioná-lo para todo o sempre: o mundo em que estamos agora.

Lied, um pouco assustado, tira rapidamente uma conclusão. Ele gira a cabeça várias vezes.

— Então... Nachash ainda está aqui?!

— Não... ele escapou. Há 18 anos atrás.

Dois anos antes do nascimento de Lied...

— Escapou...? E onde estaria agora...?

O silêncio pesou novamente ali.

— No presente ninguém sabe do seu paradeiro, isto depois do evento de 8 anos atrás, que marcou o regresso assim como o desaparecimento dele.

— Um evento de 8 anos atrás? Então tem mais?

— Logo depois de escapar de Mictlan, Nachash instalou-se em Aqua. E 10 anos depois, para desespero de todos os que temem a Serpente Falante, ele oficializou o seu retorno ao começar uma nova guerra, a 2ª Guerra Espiritual, que decorreu em território asteca, contra o Reino Asteca e o seu exército.

E pensar que, enquanto Lied e as outras pessoas de Ganeden viviam pacificamente, tal batalha havia sido travada.

— Se perguntar ao asteca comum quem venceu esta guerra, ele certamente dirá o exército asteca, que com sucesso restabeleceu a paz. De fato, Nachash “desapareceu”. As pessoas acreditam veementemente que morreu. Ainda assim nem todos pensam o mesmo, incluindo eu. Na minha perspectiva, esta 2ª Guerra Espiritual, ao contrário da primeira, não teve um vencedor nem necessariamente um perdedor. Nachash está mais vivo do que nunca e encontra-se neste momento estudando os seus planos, para os quais a guerra que iniciou serviu, que visam apoderar-se do objeto que o cativa imensuravelmente.

— A Maçã de Adão... — Lied conclui.

— Lied, você disse que não iria deixar que a Illuminatus levasse a maçã, não importa os sacrifícios que tenha de fazer. No entanto, eu preciso perguntar: a própria Illuminatus foi responsável pela morte dos teus pais. Certeza que a vingança não é algo que também te move?

A questão foi bem feita e Lied sentiu o impacto dela.

Vingança...? Admito que posso ter pensado nisso. Não, no fundo talvez ainda pondere. Se tivesse feito essa pergunta pouco depois de tudo acontecer, possivelmente teria uma resposta. Mas agora... não sei exatamente como responder. O que é que você pensa, Zaccharias?

— O rancor é uma fonte de poder. Muitas pessoas, até mesmo o próprio Nachash, fizeram uso do ódio. Mas você não tem de ser igual, cada um é como é. Bem, eu costumo dizer: “quando em dúvida, pergunta ao teu espírito. Ele irá te guiar o caminho para a resposta”. Este é um princípio que gosto sempre de usar.

“Quando em dúvida, pergunta ao teu espírito. Ele irá te guiar o caminho para a resposta.”

Lied fecha os olhos e concentra-se, refletindo sobre o que acabou de ouvir.  Esta concentração era para que o jovem pudesse entrar por conta própria na sua alma, algo que nunca havia antes conseguido.

Por algum motivo, era agora capaz de fazê-lo. Dentro do espaço que só a si pertencia, encarou a maçã na cesta. Os olhos verdes claros transpareciam uma sossegada determinação. Fechou-os, retornando à realidade que deixara por uns breves segundos.

— Eu… ainda não tenho a certeza. Traçar o meu próprio caminho e encontrar a resposta que espera no fim dele... Acho que essa foi uma das razões pelas quais “ele” me enviou até aqui. Mas...

— Mas?

— Há algo que eu definitivamente sei.

Lied olha atentamente para as suas mãos invisíveis.

— Como estou agora, eu não tenho a mínima chance contra “eles”. A Maçã de Adão ou eu mesmo... não conseguirei proteger nada. Nem posso contar com outras pessoas para protegerem, pois não sei quando elas desaparecerão... — o “encapuzado vermelho” vem-lhe à cabeça — Eu preciso ficar forte. Esse é o único jeito de seguir em frente.

Zaccharias pega no chapéu que deixou de lado e o coloca novamente na cabeça.

— Deixa-me adivinhar: você quer ficar forte, mas não sabe como.

Lied acena.

— Existe apenas um método. O único método. Isso é... aprender a lutar com o espírito.

— “Aprender a lutar com o espírito”?

— O Spirit Mode! — Zaccharias sorri.

 

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Por Mitsuaki Seiji | 12/10/18 às 18:22 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa