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6ª Mentira - Entrando em Mictlan (Parte 3)

Lied (LD)

6ª Mentira - Entrando em Mictlan (Parte 3)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: HebiTantei

Naomi está perplexa. Dois mundos, Tellus e Aqua, além de um primeiro mundo que veio muito antes; dois povos diferentes, humanos e astecas; guerras e a Maçã de Adão, o motivo do grupo estar atrás de Lied, quem possui a maçã. E no fim tínhamos o execrável vilão desta história, Nachash, que matou incontáveis pessoas.

— Horrível... por que é que alguém faria tantas coisas horríveis...? — Naomi sussurra com a cabeça abaixada.

— Sim — Varius diz.

— Mas vocês são tão horríveis quanto ele! Fazendo de tudo para conseguir aquilo que querem... — Naomi ergue o queixo e encara-o, raivosa.

— Talvez.

Varius desce da janela para o chão e passa lentamente por Naomi, que olha inocentemente para ele.

— Entretanto, não pense que é menos culpada do que nós.

— Hã? O que é que quer dizer?! — Naomi retorce o pescoço, olhando-o agora de costas.

— Exatamente o que disse. Não existem coincidências. Todos vocês, não, todos nós estamos conectados, por diferentes ou pelos mesmos elos. O pecado... é compartilhado.

— Mais uma vez, O QUE É QUE QUER DIZER?!

O homem de cabelos enrolados deixa o silêncio consumir brevemente o lugar antes de responder.

— Vocês dois, você e Nachash, estão conectados.

— Hã?! Com “conectados”, quer dizer que somos conhecidos?! Não brinque comigo, eu nunca tinha antes ouvido falar dele! E uma pessoa tão má... EU NUNCA TERIA QUALQUER RELAÇÃO COM ALGUÉM ASSIM!

— A mente pode esquecer, mas o espírito não. E não apenas você… o Lied também, até mais do que nós... — Varius suspira.

— O Lied também?! JÁ CHEGA! Ele pode ser bastante insensível, demasiado sério e por vezes rude, mas no fundo é uma pessoa gentil! Só... tem azar na vida...

A moça recorda-se do sucedido com os pais de Lied... Varius volta a virar as costas para a jovem.

— É...? Dentro dele existe “escuridão” e “luz”. Uma delas irá banhá-lo antes da outra, e nenhuma deve ser necessariamente vista como uma bênção. O Lied que conhece, ou que acredita conhecer, vai inevitavelmente mudar. O tempo assim tratará de ajudar a mudá-lo.

Naomi, por um momento de queixo caído, levanta-o imediatamente. Uma inabalável determinação.

— Mesmo que ele mude, eu estarei ao lado dele!

Varius, que não costuma mostrar o seu sorriso, deixa escapá-lo.

— Pergunto-me sobre isso...

Varius, com o seu dever pelo visto cumprido, prepara-se agora para sair.

— Se quer tanto estar ao lado dele, por que é que não vai encontrá-lo?

— Você sabe onde o Lied está?!

— É um lugar impossível para meros mortais entrar, mas você, assim como ele, é perfeitamente capaz disso.

— E onde fica esse lugar?

— É distante, mas ao tempo perto. Vai para casa e deita. Deixa o espírito te guiar naturalmente na viagem. Se o teu desejo de o encontrar for suficientemente forte, irá chegar lá.

Só precisava seguir a sua intuição. Antes do homem sair, Naomi chama Varius de volta para a conversa.

— Por que é que está me dizendo isso? Faz parte dos teus planos?

Apesar de escondê-lo, Varius é cativado pela pergunta da moça.

— Não. Eu estar aqui contigo não tem nada a ver com a organização.

— Então... por quê?

Antes de desaparecer sem mais nem menos, Varius faz questão de encará-la por uma última vez.

— Eu mesmo também tenho um destino a seguir.

E assim sumiu, deixando Naomi sozinha.

A jovem reflete sobre as palavras proferidas por Varius. Todos, mesmo Lied, têm um destino a seguir. A esta altura o rapaz deve estar precisamente seguindo-o – o caminho destinado para a sua vida.

Será que este caminho inclui Naomi? Ela começou a andar para casa…

 

...

 

Naomi chegou em sua residência. Antes de se deitar na cama, veio-lhe subitamente à mente a criança de cabelos encarnados. Será que, por obra do acaso, poderia encontrá-lo também? Neste misterioso lugar onde todos parecem estar se reunindo…

Não se deixa enrolar pelos cobertores. Os olhos fecharam-se lentamente. A consciência desceu a uma nova realidade.

...

Uma dimensão sem claridade. Um chão escuro como as paredes infinitas do espaço tenebroso, que se estendem por caminhos medonhos.

Um sonho? Não, ela não se deitou para sonhar. Então este lugar só podia ser a localização atual de Lied. Mas o rapaz não podia ser visto em lado nenhum. Nada ou ninguém se escutava ou observava.

Naomi não conseguia evitar os arrepios na espinha. O próprio lugar parecia cheirar... a morte.

— Alguém aí...?

O eco percorreu milhares de metros, mas nenhuma resposta a ele chegou. Até que...

— H-Hã?!

Um estranho zumbido ouviu-se, o que assustou Naomi.

“Era impressão minha...?”

O mesmo som inconstante ouve-se novamente, desta vez mais alto.

“O-Outra vez?!”

— Q-Quem quer que esteja aí, apareça! E-Essas brincadeiras não têm graça!

Quase como obedecendo ao chamado, quatro figuras altas e magras com algum músculo saem todos ao mesmo tempo.

Com uma configuração humana bastante distante do normal, percebiam-se que eram criaturas em alguns aspectos físicos inspiradas na constituição do ser humano. Idênticos uns aos outros, estes seres tinham rostos deformados, uma pele nua descorada e um esqueleto pouco vivo.

— Q-Quem são vocês?!

As criaturas apenas encaravam Naomi.

“Sem resposta? Será que não podem falar? E-Então eles não podem ser mesmo humanos!”

A jovem nota algo. Os pés daquelas criaturas não estavam fixos no chão; flutuavam!

“Impossível... m-monstros... eu tenho de…”

Um dos vultos mexeu-se e abriu totalmente a boca para soltar um gigantesco rugido.

Naomi começa imediatamente a fugir, correndo para dentro da escuridão atrás de si. Para entender a que distância eles estavam dela, a moça rodou ligeiramente a cabeça.

Os monstros, que flutuavam a alta velocidade, tinham uma resistência muito maior em comparação a Naomi.

Perdendo o controle dos seus pés, ela se deixa cair no solo. Indefesa e sem tempo para se levantar, era agora um alvo fácil. Porém, antes que pudessem alvejá-la, as quatro criaturas foram atacadas simultaneamente por precisamente quatro cobras espirituais.

Num movimento brutal, estrangulados até ao último suspiro.

Naomi, boquiaberta e assustada, ergue o corpo e fica observando os cadáveres. Ela sente uma presença atrás de si: um encapuzado com os seus trajes desgastados, de manto e capuz cinzentos, aparentemente a pessoa que invocou as serpentes e a salvou.

Este sujeito, não muito mais alto do que Naomi, retira o capuz que ocultava o rosto. Tratava-se de um jovem moreno de cabelo e olhos serenos verde-escuros. A íris das orbes tinha uma arrepiante feição demoníaca que não passava despercebida.

Você está... viva, não está? — ele pergunta…

 

...

 

Em Ganeden, durante a conversa entre Lied e Zaccharias…

Susumu, após combinar o plano de tudo ou nada com o Homem das Correntes, o seu mais recente “parceiro”, muda de ideia e volta para a delegacia ao invés de se dirigir para casa.

Pelo visto não tinha sido o único a ter a mesma ideia. Junto à entrada, Nemo aguardava.

— Ó, Susumu-senpai! Então tivemos a mesma ideia! Assim como o Senpai, eu não suporto deixar o trabalho para outro dia, hahaha.

Aquilo era mentira e Susumu sabia. Nemo, assim como ele, pretendia acabar tudo hoje, nesta tarde. A questão era saber se a criança havia percebido que o rapaz tinha descoberto a sua verdadeira identidade.

O Homem das Correntes tinha prometido assistir do seu covil de residência até o momento esperado para intervir.

— Bem, o caso é... ah, ainda não nos deram um para investigar! Pois claro, só amanhã é que recebíamos instruções — Nemo dizia, sorridente.

O duelo seria mascarado por uma investigação orquestrada através de um jogo psicológico que decidiria o vitorioso.

— Não há problema. Na verdade, eu tenho uma investigação pendente que gostava de retomar. Já que está aqui, podemos retomá-la juntos — Susumu também sorri.

— Ah, essa é uma excelente ideia! E a qual caso é que pertenceria esta investigação?

O sorriso de Susumu abre-se gradualmente.

— É um caso que você deve conhecer bastante bem. Refiro-me ao recente incidente que resultou na morte de duas pessoas e o desaparecimento do seu filho, Lied — o sorriso de Susumu abre-se gradualmente enquanto fala.

Na sua consciência, Nemo formava uma expressão séria e aterradora. Por fora, o sorriso inocente e descontraído era permanente.

— Sim, sim, conheço perfeitamente. Uma pena, não é...? Mas, Susumu-senpai, esse caso não tinha sido encerrado?

— De fato, a polícia escreveu nos relatórios que as mortes foram naturais. Entretanto, eu tenho outra opinião… um homicídio. E no fim, o filho ainda continua desaparecido…

— Eeeeh, não podia esperar menos. Para ser franco, eu também não fiquei convencido com o desfecho. A julgar pelas circunstâncias, a possibilidade mais real é, precisamente, o homicídio.

— Então estamos decididos.

— Sim! Vamos resolver definitivamente este caso e surpreender o Tatsuo-san amanhã com um relatório incontestável! — o pequeno detetive acena com a cabeça.

Tudo está indo de acordo com o plano de Susumu…

...

 

Após discutirem os mais diversos pormenores relacionados à investigação, os dois detetives partiram em busca de indícios escondidos por Ganeden. A indagação levou-os ao beco em que Susumu confrontou Martyr juntamente com Lied e Naomi.

Susumu olhava de frente para a parede do beco, Nemo atrás dele.

— Aqui foi onde confrontei um dos supostos cúmplices do assassino.

Nemo não reagia, encarava fixamente o chão. Era o momento de revelar as garras que conteve todo este tempo.

— Até bateria palmas, mas não há tempo para isso. Para chegar tão longe… é realmente impressionante.

Susumu não se movia. Era agora. A vitória... iria se decidir nos próximos cinco segundos!

Nemo levantou a cabeça. O rosto da criança mostrava agora uma expressão psicopata repleta de confiança.

— É o fim, SENPAI!

...

 

— Hã? Isto é...?

Nemo não tinha entendido o que aconteceu. Há um segundo atrás estava prestes a alterar as memórias de Susumu, o que asseguraria certamente a sua vitória. Agora encontrava-se num espaço fechado e escuro, com Susumu na mesma posição.

— A alma dele? Mas eu não forcei a minha entrada.

— “Alma”… então é assim que chamam este lugar.

— Susumu! Você me trouxe para cá?!

Correntes começaram a irromper ao lado de Susumu. Naquele instante, Nemo sentiu uma outra presença.

Não, eu é que te trouxe.

— O-O quê?!

O Homem das Correntes mobiliza as suas correntes de modo a tentar a criança. Nemo compreendeu que estava em desvantagem ali e rapidamente procurou forçar a saída da alma.

...

 

Com sucesso, Nemo voltou à realidade, mas o Homem das Correntes prontamente reagiu, embrulhando o corpo do pequeno em correntes e erguendo-o no ar.

— Xeque-mate.

Dores agudas torturavam-no. O aperto das correntes de ferro era tanto que Nemo sentia o corpo partindo-se. Ele bem tentava escapar, mas…

— Não vale a pena. Estas correntes são... inquebráveis.

Nemo, elevado na atmosfera, contemplou-o. Os olhos azuis de Susumu brilhavam – um sinal de possessão. Observou também as correntes que o aprisionavam.

            — I-ISTO É... SPIRIT MODE...! M-MAS COMO?! O SUSUMU NÃO DEVIA SER CAPAZ DE USÁ-LO!!

Nemo recordou-se da segunda presença que detectou dentro da alma.

— E-ENTENDO...! O SPIRIT MODE NÃO É DELE! É TEU, VOCÊ É O USUÁRIO DESSAS CORRENTES!! QUEM É?!

— O meu nome é Zosimus. Sou um asteca como você.

Esta revelação surpreende tanto Nemo quanto Susumu, que assiste ao desfecho da batalha dentro da alma.

— U-UM ASTECA?! O QUE É QUE ESTARIA UM ASTECA FAZENDO DENTRO DE UM HUMANO?!

— É uma longa história. Agora, você fez um bom trabalho, mas parece que o teu Spirit Mode não é feito para lutar. Se soubessem o oponente que os esperava, talvez tivessem enviado alguém mais apropriado. Sim, se calhar... aquele Martyr. Mas agora é tarde. Hora de dormir, pequeno asteca.

O sangue deixou de coagular... e Nemo desmaiou.

— Vá, Susumu, a vitória é nossa.

Zosimus permite que o detetive volte a tomar controle do seu próprio corpo. Antes de retomar essa posse, Susumu relembra a conversa entre os dois que definiu esta estratégia vitoriosa.

 

...

 

— “Você já conhece o terreno. Agora entra pela porta da frente.” O que é que quer dizer?

Um jogo de palavras que significa a chave para a vitória.

Quero dizer que, a não ser que tome a iniciativa, não terá como vencer este duelo. Entretanto, mesmo que assim o faça, não poderá simplesmente derrotá-lo.

— Hã? Se eu não tomar a iniciativa, não terei como vencer. Mas mesmo que tome, não poderei derrotá-lo?

Em outras palavras, você precisa ser o primeiro a fazer a abordagem, mas aquilo que vier a seguir não está dentro das tuas capacidades. É algo que apenas eu sou capaz de fazer.

— Algo que apenas você é capaz de fazer?

Ele, Nemo, é um usuário de Spirit Mode.

— “Spirit Mode”?

Sim, a habilidade de manipular as memórias é um ganho de dominar esse modo espiritual, a forma que uma pessoa só desperta quando ambos corpo e espírito se tornam verdadeiramente um. A “Visibilidade”, que você utiliza, é por sinal uma das várias propriedades do espírito.

Susumu estava bastante confuso mas sabia que não havia tempo para longas explicações, pelo que só podia interiorizar o pouco que estava sendo dito.

Usuários de Spirit Mode só podem ser derrotados por outros usuários. E para sorte nossa, eu também sou capaz de usar.

— E o que é que precisa exatamente que eu faça?

Eu preciso que me empreste o teu corpo temporariamente. O tempo suficiente para derrotá-lo, que não será muito, com certeza...

Um pedido muito corajoso. Em condições normais, Susumu recusaria imediatamente, mas a realidade é que o jovem não pode vencer este duelo sozinho.

— Certo. Mas no momento em que a vitória for nossa, você irá me devolver o corpo em seguida.

Claro.

...

 

Os dois, Susumu e Zosimus, encontram-se rapidamente na alma.

— Nunca tinha me contado o teu nome – diz Susumu.

Nunca achei necessário – Zosimus sorri.

— “Zosimus”, hã...? Mais um nome exótico que ouço.

Obrigado – o Homem das Correntes reforça o seu sorriso.

 


Por Mitsuaki Seiji | 12/10/18 às 18:26 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério