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7ª Mentira - Entrando em Mictlan 2 (Parte 2)

Lied (LD)

7ª Mentira - Entrando em Mictlan 2 (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Lied e Zaccharias abandonam apressadamente o beco em que se escondiam. O rapaz corria com o corvo pousado no ombro direito dele.

— Ei, Zaccharias. Há algo que não te contei. Eu... não tenho memórias da minha infância.

Zaccharias não se deixa surpreender pela revelação.

— O desejo de descobrir o meu passado esquecido é um dos motivos que me levou a abandonar a minha vida trivial... e a procurar o destino que me está reservado. Então...

— …Você quer saber se despertar o Spirit Mode irá te ajudar a recuperar as memórias.

Lied acena com a cabeça.

— A mente pode esquecer, mas o espírito não. É apenas uma hipótese, mas o despertar do Spirit Mode poderá de fato ”acordar” as memórias adormecidas, ou parte delas, que estão provavelmente enterradas no inconsciente do teu espírito.

Mesmo que fosse hipotética, aquela possibilidade alegrava Lied.

— Ainda bem.

— Isto não é bom — Zaccharias é logo incomodado com uma estranha sensação.

— O que foi?

— Lied, eu percebi durante a minha explicação sobre as propriedades que era familiar com algumas delas.

— Sim... Durante um dos meus encontros com a Illuminatus, eu utilizei a Sensibilidade.

— Então tem experiência com ela. Sendo assim, aqui vai a minha primeira tarefa: usa a Sensibilidade para sentir o nosso redor. Acima de tudo não pare de correr e não vire as costas.

— Certo.

Lied fecha os olhos. Como um radar procura localizar energia na órbita e através dela determinar a localização. Atrás deles, três corpos investigavam os arredores.

— Podiam ser...?!

Sim, eram provavelmente guardas em busca de Lied, do fugitivo. Ao pressentir a presença dos seus perseguidores, o adolescente abrandou inconscientemente.

— Não abrande, Lied!

— S-Sim, mas não há problema. Quer dizer, eles ainda estão bastante longe de nós...

Poucos segundos depois, Lied volta a utilizar a Sensibilidade para localizar os guardas...

— O-O quê?!

Os três guardas tinham se dividido de modo a procurar ao mesmo tempo em todo o perímetro. E a uma velocidade atípica, já presenciada pelo rapaz, fechavam as rotas da dupla.

Zaccharias já imaginava este desfecho. À direita deles, um novo beco é avistado.

— Ali!

Os dois resguardam-se no beco. Um tempo de reflexão da situação atual.

— Isto não é mesmo nada bom. Como é que eles podem ser tão rápidos? — Lied temia a perseguição, deixando-se engolir pela pressão.

— Hm? Eles não são rápidos, você é que ainda não se adaptou completamente ao teu corpo espiritual.

— Hã? O que é que isso significa?

— Ora bem... parece que já se passou tempo suficiente.

— Já se passou tempo suficiente?

— Quero dizer que já está totalmente adaptado aos teus movimentos. Pode não ter percebido, mas você está mais rápido em relação a quando chegou. Mais rápido que eles, na verdade.

— Sério...? Eu estou...?

— Lied, este é o teu primeiro grande desafio: vai lá e derrota aqueles guardas.

— H-Hã? Como é que acha que vou fazer isso?! Ainda nem sequer aprendi o Spirit Mode!

— Você não precisa do Spirit Mode para derrotar aqueles “figurantes” — Zaccharias deixa escapar umas risadas.

— Como... é que tem tanta certeza? Se estiver errado e eu acabar sendo capturado...

— Sim, será o teu fim.

— Então...?!

— Lied. Acredita... no potencial do teu espírito.

Tal apelo não enchia Lied de motivação, mas de alguma maneira fez acreditar mais nas suas possibilidades. Sim, isso o levou a pensar no porquê de acreditar tanto em alguém que mal conheceu.

“Agora que penso, por que é que será que confiei tão rapidamente nele? Apesar de não o conhecer de maneira nenhuma, levei as suas palavras como a verdade...”

No momento em que se encontrou com o corvo falante, Lied não sentiu qualquer estranheza ou desconfiança em relação ao corvo. Tendo em conta a sua personalidade, é por si só um fenômeno que o rapaz esteja conseguindo interagir normalmente com um estranho.

Por quê? Por que é que consegue confiar tão facilmente nele? Olhou para o pássaro. Aqueles olhos dourados... acreditava que já os tinha visto antes, transpiravam uma certa sensação de segurança, de que está tudo bem.

“Sim, eu me lembro. Era uma estranha sensação... eu apenas sabia... que podia confiar naquela pessoa.”

Lied suspira. Um sorriso parece querer formar-se, mas o jovem não deixa.

— Caramba... mas quem é realmente você...?

Lied agita a cabeça de um lado para o outro. Estava decidido.

— Tudo bem. Não tire os olhos de mim.

Ele começa a se afastar de Zaccharias, que acena com a cabeça.

— Este desafio... eu o aceito.

Lied sai do beco e dá uns passos até ao centro daquele corredor, deixando-se ficar por uns segundos. Ele fita as suas mãos em estado espiritual e em seguida levanta a cabeça. Observa uma das construções à sua volta.

“Segundo o Zaccharias, o meu corpo já está completamente adaptado a Mictlan.”

— Vamos testar então...

É sem cerimônias que Lied balança o corpo e dá um impressionante salto para cima da estrutura.

— É verdade... incrível.

O adolescente vislumbra o horizonte.

— Não dá para vê-los assim. Parece que só resta mesmo... senti-los.

Hora da Sensibilidade. Fazendo uso da propriedade com a qual já tinha maior experiência, Lied vê além de centenas de metros.

— Não é suficiente...

Para realmente cobrir todo o espaço teve de se esforçar mais um bocado, ultrapassando um limite natural.

— Agora sim, posso ver tudo.

Lied avista os três guardas, separados e cada vez mais próximos dele.

“Normalmente, a melhor estratégia seria dividi-los e lutar contra um de cada vez.”

Lied sorri como nunca antes visto sorrindo. Um sorriso fervoroso, de pura excitação. É a primeira vez que se sente assim, tão empolgado.

Apesar de ser uma situação que colocava em risco a sua segurança, o rapaz não conseguia deixar de querer vivê-la. Era impossível conter, aquele apaixonante desejo pelo embate que lhe esperava.

— Mas... aí não seria um desafio, não é verdade, Zaccharias?!

O sábio corvo assistia atentamente do telhado de uma das construções.

— Será essa a tua verdadeira personalidade, Lied? Ou... apenas influência “dele”?

Tendo agora a noção de onde estavam localizados, Lied desligou a Sensibilidade e partiu à ação. Começou velozmente pulando de telhado em telhado, sujeito a ser visto.

Não é como se Lied não tivesse delineado um plano. Ao se exibir aos seus perseguidores o rapaz procurava ter a atenção deles.

A estratégia? Simples. Derrotar os três ao mesmo tempo. Só nesses termos podia ser considerado um verdadeiro desafio, ou pelo menos assim pensava Lied.

— ALI ESTÁ ELE! — o guarda menos distante o nota.

Os outros dois guardas, chamados pelo colega, correm para junto dele. Ao longe, Lied deixa escapar um sorriso, provocando eles. Em seguida corre em direção ao centro.

—Atrás dele! — um dos guardas grita.

Lied chega ao local onde planejava que a luta decorresse. O trio de guardas finalmente alcança o fugitivo.

— Não vai fugir novamente! Desta vez nós iremos te capturar e te entregar a Mictlan-sama!

— “Mictlan-sama”?

Ao mesmo tempo cada um dos guardas invoca uma lança espiritual. Lied faz uma reflexão mental antes da batalha. O adolescente suspira, esboçando um leve sorriso.

Há não muito tempo atrás estava deitado num parque filosofando sobre a sua existência. Agora, neste momento, preparava-se para lutar contra guardas do mundo dos mortos. O destino é realmente... uma coisa irônica.

O sorriso que esboçava deu lugar a uma expressão mais séria.

“Eu ainda não percebi muito bem naquilo que me meti. E não sei porquê, mas Nachash... Cada vez que ouvia apenas o nome, sentia um arrepio nas espinhas. É como... se o conhecesse. Não apenas ele. Eva... e Adão...”

Ele se recorda da conversa com Xanthus e do fato de Lied conhecer “todos”.

“Percebo… então eles também são conhecidos meus esquecidos. Personagens do meu passado...”

Lied levanta a cabeça para encarar derradeiramente os oponentes.

— E esta luta... é uma luta para relembrar! Eles… e eu!

Um desafio para despertar o Spirit Mode!

Zaccharias, que, entretanto, havia voado para um dos telhados perto do campo de batalha, ansiava igualmente o início da disputa. O corvo não parece também conseguir conter o desejo de ver o seu aluno em ação.

— Vá, Lied. É... hora da evolução.

Os primeiros movimentos seriam dos impacientes guardas. De posições distintas, os três atiram-se impetuosamente contra Lied. Tentam imobilizar o jovem manuseando as lanças que igualmente empunhavam, mas Lied ia sucessivamente conseguindo esquivar-se.

Sabendo que iria eventualmente perder a disputa caso os deixasse livremente atacar, Lied dá um pulo para trás, distanciando-se dos adversários.

Lied recorda-se dos ensinamentos de Zaccharias:

“A Visibilidade é o que nos permite acompanhar os movimentos do adversário (...)”

Nestes primeiros instantes da luta, Lied limitou-se a evitar naturalmente os ataques, balançando o corpo de um lado para o outro, algo que só é possível devido à adaptação protagonizada pelo espírito ao Submundo.

Perguntava-se agora sobre o quão grande seria a diferença... entre esquivar meramente com o corpo e utilizar a propriedade Visibilidade para acompanhá-los. Era a hora de experimentar.

Fecha os olhos e os abre de seguida. Hora da Visibilidade.

Pela primeira vez, Lied toma a iniciativa de abordá-los ofensivamente. Aos olhos dos guardas aquela era uma investida descuidada, já que se atirava para cima dos três. Entre o trio, cercado por lanças, o rapaz começa a se esquivar das hastes pontiagudas.

Entretanto, ao contrário do que se sucedia anteriormente, o rapaz já se preparava para evitar os ataques dos adversários antes destes acontecerem. Zaccharias começaria a notar sinais naturais de evolução na Visibilidade, que era à partida a propriedade menos desenvolvida por Lied em experiências passadas.

Com a batalha se prolongando e não querendo arriscar perdendo energia que poderia não ter, Lied arranja uma maneira de descobrir um momento em que possa nocautear um dos três guardas.

Com relativa facilidade, no emaranhado de lanças e corpos, ele dá um soco letal no rosto de um dos pobres coitados. O guarda golpeado é lançado numa rajada para trás.

Os outros dois guardas, espantados com o sucedido, fitam o corpo caído do colega.

— Eu sei dar socos, sabem? — Lied diz.

Lied pode não ter experiência com “lutas espirituais”, mas enquanto frequentava a escola era diversas vezes obrigado a ensinar uma lição àqueles que o incomodavam.

Os guardas não conseguiam acreditar no que estava acontecendo. Um deles, inclusive, deixa-se tomar pelo nervosismo, o que facilitaria no fim a vitória final de Lied.

— O-O que é que está acontecendo?! Por que é que um espírito é assim tão rápido?!

Julgando pela reação, não tinham conhecimento das propriedades do espírito. O guarda em questão dá um passo trêmulo para frente.

— O-O QUE É REALMENTE ELE?! PORUE É QUE NÃO CONSIGO ACERTÁ-LO?!

— Não, para ser sincero, eu não me considero neste momento “rápido”. Vocês é que são lentos. Tipo, muito lentos — Lied faz questão de dar-lhes uma resposta.

Naquele que era um movimento considerado precipitado, provocado pela última fala de Lied, o guarda atira-se para cima dele, que sorri perante a precipitação do adversário.

— E-Espera! —o outro guarda que restava ainda tentou alertá-lo.

Tarde demais. Sem precisar sequer da Sensibilidade ou da Visibilidade, Lied esquiva-se e desfere um soco que atira o guarda para o lado.

O último guarda desiste psicologicamente daquela batalha que já não podia ganhar. Apesar dessa desistência, ele sentiu-se ordenado pelo seu corpo a lutar até ao fim.

— Q-QUE SE DANE !

Lied não facilitou e igualmente o derrubou, dando um pontapé na barriga e terminando com a força do seu punho.

Uma visão vitoriosa se erguia, com os três guardas caídos no chão e Lied heroicamente de pé.

Mesmo não tendo sofrido quaisquer ferimentos, ainda se sentia absurdamente cansado, como se a luta tivesse consumido quase metade da sua energia. Seria um preço inevitável a se pagar por lutar com o espírito?

O guarda agora mesmo derrotado mexe-se ligeiramente, o que capta a atenção de Lied. Eram os momentos finais antes de desmaiar.

— A-Acha mesmo que pode escapar de Mictlan? N-Nenhuma alma, não importa qual, consegue sair do Submundo a partir do momento em que entra. É inútil. A t-tua resistência... será em v-vão...

Proferidas as últimas palavras, o homem perde os sentidos.

“Nenhuma alma, não importa qual, consegue sair do Submundo a partir do momento em que entra”?

— Mentiroso. Teve uma que saiu, não foi? Nachash...

Quando tiver despertado o seu Spirit Mode e quiser sair, é talvez nesse momento que os maiores obstáculos irão obstruir o seu caminho, a sua saída, neste caso. E aí teria de estar verdadeiramente preparado...

Para parabenizar o aluno, aí vem o professor. O corvo falante, Zaccharias, voa velozmente em direção a Lied e pousa precisamente no corpo de um dos guardas, caminhando por cima dele.

— Então? Passei no desafio? — Lied o questiona prontamente.

Zaccharias causa propositadamente um sério suspense. Cansado da brincadeira, o moço aproxima-se do corvo.

— Então?!

— Sim, passaste. Parabéns! Mas ainda tem um longo caminho a percorrer.

— POR QUE É QUE DEMOROU TANTO TEMPO PARA DIZER APENAS ISSO?!

Era misterioso. Aquele corvo... era a existência mais misteriosa que conhecia. A única pessoa capaz de fazê-lo perder a paciência. Será... que... ele também...?

Não, não podia ser. Seria demasiada coincidência, mesmo para o destino.

Quer dizer, Zaccharias, o corvo falante, igualmente um dos participantes do seu passado esquecido? É verdade que o corvo acertou com sucesso na idade de Lied, mas mesmo assim...

— Ei, Zaccharias. Quero que me prometa algo.

— Ó, uma promessa?

— Quando eu despertar, não, quando eu dominar o Spirit Mode, me mostra a sua forma humana.

Este pedido surpreendeu Zaccharias.

— Só quando dominar? Por que é que não me pede para mostrar agora?

Lied sorri. Ele não é tolo.

— Por que você não iria me mostrar no momento. Se não tivesse um problema em revelar o seu rosto, já teria, a esta altura, desativado a Plasticidade.

Zaccharias deixa escapar umas quantas gargalhadas. Se a força do seu espírito acompanhar a sua inteligência, então ele será um dia imbatível.

— É verdade. Tudo bem, quando a hora chegar, eu cumprirei essa promessa.

Lied acena com firmeza. Os dois olham agora atentamente para os corpos abatidos. É quando o humano se recorda de algo que um dos guardas disse.

— “Mictlan-sama”... quem é?

— Hm, basicamente o senhor do Submundo, o “Deus da Morte”.

Para Lied fazia sentido. O mundo dos mortos só pode ser comandado por um Deus da Morte, ou “Shinigami”, como chamavam na sua terra.

— E agora? — Lied pergunta.

Zaccharias levanta as pequenas asas e voa de volta para o ombro direito de Lied.

— Agora começamos o teu treinamento… para despertar o Spirit Mode.

Com a Illuminatus atrás dele e o Shinigami à sua procura, era urgente ficar forte de modo a se proteger das futuras investidas.

— Estou preparado. O que é que vamos fazer?

— Antes de te explicar, há algo que preciso ver.

O corvo abandona o ombro masculino e desloca-se para o solo, junto dos pés de Lied.

— O que eu vou enxergar agora, e em ti mesmo, é o teu NSE, o “Nível de Sincronização Espiritual”.

— O meu “Nível de Sincronização Espiritual”?

— O NSE é um medidor que mede a porcentagem de sincronização entre o corpo físico e o espírito – quanto mais sincronizados os dois estiverem, mais evoluída é a pessoa espiritualmente. Como deve supor, o espírito se desenvolve com a ocorrência de diversos eventos, tais como a morte de uma pessoa chegada ou a necessidade de ficar mais forte para superar o obstáculo que no seu estado atual não consegue vencer.

Lied acena com a cabeça.

— Tem uma divisão por estágios: começamos do “Estágio 0”, ou “ponto de iniciação”, que é quando se dá o despertar do espírito; segue-se o “1º Estágio”, em que o espírito está em reconhecimento de si mesmo, a primeira fase do seu desenvolvimento. É numerado de 0% a 20%; o “2º Estágio”, o primeiro estágio do Spirit Mode, aquele em que se inicia um novo ciclo de evolução. Entre 20% e 40%. Há mais quatro estágios depois deste, mas por ora não vale a pena explorarmos eles.

Bastante curioso, Lied não conseguia esperar a hora de saber em que estágio se encontra.

— Para visualizar o NSE de uma pessoa, é necessária a utilização da propriedade Densidade.

Sem mais delongas, Zaccharias sobe até à zona do peito de Lied. Mantendo-se no ar, ele concentra-se. Um pouco depois desce para o solo. Tinha finalizado a medição.

— Quanto? — Lied pergunta.

— 10%. 1º Estágio.

Apesar de naturalmente decepcionado com o mísero valor, o rapaz, realista, aceita-o. Sabia que ainda tinha um longo caminho a percorrer. No entanto, não deixava de ser um número bastante questionável.

— Não está em 0%. Seria porque evoluí com esta luta? Mas mesmo que fosse isso, não é um valor muito elevado para apenas uma experiência...?

— Não está levando em conta todas as “experiências”. Afinal, você vivenciou recentemente situações que impulsionaram o crescimento do teu espírito.

— A minha perseguição com a Sensibilidade...

O corvo falante acenava.

— Sim, e não só. No teu passado esquecido deve ter evoluído o NSE em algum momento, pois esta batalha e essa primeira experiência com a Sensibilidade não chegam por si só para alcançar tal valor.

Não havia outra explicação possível. Qualquer que seja o seu passado, a criança de Lied cresceu espiritualmente nele. Aquele fato o fez ficar ainda mais interessado em recuperar as suas memórias. Era a sua vida que residia nelas.

Lied lembra-se de repente que havia mais uma pessoa cujo espírito teria certamente um respectivo NSE.

— E tu, Zaccharias? Quanto é que tem de NSE?

— Vê por ti mesmo — respondendo à curiosidade do rapaz, o corvo foca-se novamente.

Zaccharias faz sinal a Lied para se aproximar. O rapaz fecha os olhos e tenta conectar-se espiritualmente ao corvo falante.

— Não... aparece nada? Não era suposto aparecer um número?

— Quando não aparece nada, significa que o espírito já foi além do limite imposto — Zaccharias desenha um sorriso na cara.

— Espera, então...?

— Sim, a minha sincronização espiritual vai além dos 100%.

Inclassificável. Naquele exato instante Lied percebeu o quão longe ainda estava do topo, o ponto culminante em que Zaccharias se situava. Ficou grato por ser inimigo da Illuminatus e não dele, embora ainda desconhecesse a verdadeira força da organização.

Um outro pensamento invadiu a sua  mente. Se Zaccharias era tão forte... como é que morreu? Doença? Ou... foi morto? Por alguém ainda mais poderoso do que ele?

— Não percamos mais tempo. Queriassaber como treinaremos daqui para a frente, certo? — Zaccharias questiona.

O corvo levanta voo e senta-se novamente no ombro de Lied. Os dois prosseguem viagem, caminhando até aos primeiros corredores de onde vieram.

— É uma política em Mictlan que todos os espíritos antes de reencarnarem devem passar por “provações”, desafios que procuram tocar nos arrependimentos deixados pelos mortos enquanto vivos. Apenas um espírito conciliado consigo mesmo, com a sua existência, é que pode reencarnar num novo corpo e começar uma nova vida, e por isso é que tais etapas existem.

Lied lembrou-se dos seus pais adotivos. Estariam eles passando, neste exato momento, por uma dessas provações? Ou se duvidar já teriam passado...

— São por norma bastante violentas ao ponto de testar ao máximo, fisicamente e psicologicamente, aqueles que tentam passar por elas. Como disse anteriormente, é nas horas de maior pressão que o espírito tende a evoluir, e por esse motivo é que vejo nestas provações os estágios ideais para despertar o Spirit Mode. Antes de dar uma resposta definitiva, há algo que preciso te dizer, Lied.

O modo de falar cauteloso dava a entender que vinha aí um aviso importantíssimo.

— Ao contrário do grupo de espíritos que acompanhará, você está vivo. Qualquer dano que sofra, será infligido no teu corpo físico, que se separou do corpo espiritual para vir até aqui. Sabendo disto, tem certeza que pretende prosseguir? A tua vida está em jogo.

Por muito corajoso que seja, Lied não conseguiu deixar de temer pela sua vida. Engoliu inteiramente a saliva que umedecia a boca. Não obstante, a sua determinação permaneceu intacta. A decisão propriamente dita... já tinha sido há muito tomada.

Lied cerrou os punhos e levantou o olhar.

— Sim. Não importa os desafios que me coloquem à frente, eu irei definitivamente passá-los. Essas provações… eu irei superá-las!

— Bem dito!

De volta ao ombro de Lied, Zaccharias dá um retoque estiloso no chapéu que usava.

— Vá, agora iremos regressar à recepção de Mictlan e a partir daí iniciar a nossa infiltração nos pisos das provações. Não haverá volta; este é o genuíno primeiro passo, o inviolável início da tua jornada!

Lied arregaça as mangas e prepara-se para partir.

— NÃO ABRANDE, LIED!

...

 

 

 

Por Mitsuaki Seiji | 26/10/18 às 23:23 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa