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7ª Mentira - Entrando em Mictlan 2 (Parte 5)

Lied (LD)

7ª Mentira - Entrando em Mictlan 2 (Parte 5)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: HebiTantei

Susumu sentia-se abatido por causa da pressão que havia sido submetido. A urgência da situação, com Zosimus gritando por ajuda, pedia por capacidade de reação, algo que o detetive não foi capaz de demonstrar.

Sabendo desta inaptidão ao vê-la com os seus próprios olhos, o Homem das Correntes não visiona outra opção.

— Susumu, você vai... aprender o Spirit Mode!

— E-Eu vou?! — Susumu olha perplexamente para a sua sombra.

— E-Ele vai?! — Nemo também fica surpreso.

— O porquê é muito simples. Apesar de ser um utilizador de Spirit Mode, o Nemo não é um lutador, e tenho a certeza de que iremos eventualmente enfrentar obstáculos muito superiores aos que enfrentámos há pouco. Quanto a mim... infelizmente eu só consigo usar consideravelmente a minha força no controle principal do corpo em que habito, ou seja, enquanto te possuo, Susumu. Neste estado, o meu Spirit Mode é muito limitado ao ponto de não conseguir fazer muito mais do que aquilo que fiz agora mesmo.

Basicamente, Susumu era a única esperança deles de sobreviverem. A única maneira de seguirem em frente... é o rapaz despertar o Spirit Mode.

À cabeça do jovem vieram situações passadas, nomeadamente o confronto com Varius na casa de Lied, em que Susumu havia sido incapaz de ajudar.

O detetive entende que para sobreviver no Submundo e fazer frente à Illuminatus, ele tinha de ficar forte. Forte o suficiente... para proteger aquilo que é mais importante – a justiça.

— Tudo bem. Eu vou aprender. De modo a proteger a justiça, eu vou despertar... o Spirit Mode!

Aquela resposta sem hesitação na voz de Susumu deixou Nemo ainda mais admirado. Zosimus estava naturalmente satisfeito com a resposta que recebeu.

— Ótimo. Agora só falta um lugar discreto onde possamos treinar livremente, um lugar longe dos radares dos guardas.

Obra do destino ou mera coincidência, não levaria muito tempo até eles encontrarem o espaço ideal. Nemo acaba por desbloquear de sem querer o acesso a uma sala secreta que residia dentro da parede central. Como, nem mesmo o próprio percebeu.

Os três observam com atenção a entrada que vai lentamente abrindo diante deles. O Homem das Correntes tinha poucas dúvidas.

— Perfeito.

 

...

 

Foram obrigados a andar um pouco, mas a carismática dupla composta por Lied e Zaccharias finalmente regressou ao 1º Nível do Submundo. Para sorte deles, um novo grupo de espíritos acabara de chegar ao Submundo. Uma infiltração mais facilitada, bastando se meter discretamente no meio da multidão.

Perfeitamente integrados (Zaccharias escondeu-se dentro do casaco de um idoso, que nem notou a presença do corvo), os dois são levados num elevador juntamente com as outras dezenas de espíritos até ao 2º Nível do Submundo.

Neste piso os espíritos são recebidos por um psicopompo, o guia das almas que chegam até ali em busca da reencarnação.

Os espíritos são divididos em grupos e selecionados para diferentes níveis (de acordo com as vidas que cada um viveu) onde serão sujeitos a provações. Cada espírito tem uma certa dose de arrependimento. Quanto maior for o arrependimento do espírito, mais provações ele terá de passar, e esse fator será levado em conta na divisão. Alguns espíritos são obrigados a passar por todos os testes, como seria o caso do grupo no qual Lied se infiltraria.

A extraordinária aparência física do guia, que se fazia acompanhar de dois guardas, deixou Lied bastante curioso. É um cão de postura ilustre, vestindo trajes ornamentados num padrão preto e branco.

Aquilo também é... Plasticidade?”, Lied pensa.

“Não, é mesmo a sua verdadeira forma.”

Uma voz emerge dentro da mente dele! Era de Zaccharias...

“Hã? Como...?”

“A propriedade Penetrabilidade, além de permitir que entre nas almas das pessoas, também tem este uso.”

Telepatia, a transmissão do pensamento de uma pessoa a outra. Com a Penetrabilidade é possível que também o som penetre as barreiras mentais.

Agora que se lembra, não é a primeira vez que Lied testemunha tal fenômeno. Sim, o Martyr se comunicou com ele deste mesmo modo, através do mero pensamento.

— Eu sou Xolotl, o psicopompo do Submundo. Como seu guia o meu dever é orientá-los em direção à reencarnação espiritual de cada um de vocês, os mortos. Já foi minimamente explicado o que terão de fazer de modo a poderem reencarnar, então avançarei imediatamente para a divisão em grupos.

Um dos guardas coloca um papel à frente da cara de Xolotl. Como é só patas, alguém com mãos tem de segurar as coisas por ele...

— Cada grupo terá cinco espíritos e entrará um de cada vez. Antes de serem divididos há algo que preciso dizer: a condição para passar por essas provações reside na demonstração da vontade de viver. Aqueles sem uma verdadeira vontade ficam para sempre presos nesses pisos e eventualmente desaparecem, já que o espírito não consegue viver por muito tempo sem um corpo físico onde possa habitar. Em outras palavras, vocês têm de reencarnar antes que o tempo se esgote. É tudo.

Aquela informação assustou uma boa parte dos espíritos, que já perdiam a motivação antes de começarem as provações. Por estar vivo, Lied sabia que aquela regra não se aplicava a ele, mas o rapaz também tinha o seu próprio risco mortal: o dano que o corpo espiritual sofrer será infligido no corpo físico. Obviamente, muito dano significará.. a morte.

Lied seria selecionado para o Grupo 1, o primeiro a entrar nos pisos das provações. Zaccharias (o idoso no qual se escondia tinha sido escolhido para um grupo a seguir) esconde-se agora entre o corpo de Lied.

 

...

 

Um dos dois guardas que acompanhava Xolotl é encarregado de levar o grupo de Lied aos pisos das provações. Eles entram num elevador e são instantaneamente transportados até ao 3º Nível do Submundo, o primeiro piso de provações, também chamado de “Vento Cortante”!

À frente deles ergue-se um gigantesco portão – a entrada para a sala propriamente dita. Esta grande porta vai-se abrindo como se por magia.

— É aqui onde os deixo — dito isto, o guarda apanha o elevador e vai embora.

Um ar agitado flui da espaçosa sala, esvoaçando os longos cabelos de uma jovem que compunha o grupo.

“Vento?” pensou Lied.

— Lied, não diga a ninguém que está vivo. Por agora, deixe-os pensar que é um espírito como eles — Zaccharias (que se sentou no ombro de Lied logo após o guarda se retirar) sussurra.

— Certo.

O grupo entra na sala. Atrás deles, o portão fecha-se naturalmente.

 

...

 

A sala era o maior compartimento que Lied havia visto na sua vida. Não só o maior, mas também o mais aterrador. O ambiente lá dentro era, literalmente, de vida ou morte; vida para quem conseguir reencarnar, e morte eterna para aqueles cujos espíritos não durarem.

Lied observa fisicamente cada um dos espíritos com quem iria passar os próximos momentos.

Primeiro, um homem nos seus 50 anos, de cabelo castanho curto, olhos igualmente castanhos, um pouco de barba e vestindo roupas casuais.

Segundo, uma mulher nos 40 anos, de cabelos cinzentos e olhos azuis claros, vestido modesto e uma tira cinzenta à volta do pescoço.

Terceiro, um homem nos 30 e poucos anos, de cabelo e olhos azulados escuros, que vestia uma camisa azul escura por debaixo de um casaco branco que combinava com as calças também elas brancas.

E por último, uma moça da mesma idade de Lied, cabelo longo e roxo, olhos violeta deselegantes, usando uma camisola quente às riscas que caía no ombro esquerdo de tão malvestida que estava. Olhar insípido e cabeça para baixo, era o espírito mais morto de todos ali.

— Parece que estamos todos no mesmo barco, haha. O meu nome é Eduardus. Em vida, eu servia à polícia de Aqua na função de detetive, ajudando na investigação de diversos crimes — o homem de camisa azul apresenta-se.

— O meu nome é Hector. Antes de bater as botas, o meu trabalho era passar a vida fora de casa, sempre em assuntos laborais. Ainda bem que morri — o outro espírito de sexo masculino suspira, claramente sem muita paciência para apresentações.

— O-O meu nome é Liana. E-Em vida, eu tinha um único grande desejo que era o de ter filhos e constituir uma família. Infelizmente os médicos me diagnosticaram com infertilidade, e por isso nunca consegui realizar o meu sonho... — a mulher adulta, a introvertida do grupo, fala.

Todos os mortos já haviam feito a sua apresentação... exceto um. A moça fazia estalidos com a boca, um tique dela. Pessoa de poucas palavras, só não queria que lhe chateassem.

— Eu me chamo Luna. O que eu era e fazia em vida não é realmente da p*rra da conta de vocês.

— EI, mocinha, tenha cuidado com a língua! Os teus pais não te deram educação?! — Hector não gostou do tom da moça e rapidamente a reprimiu.

Luna, com uma expressão indignada no rosto, ignora a repressão do homem.

Numa primeira análise imediata eles faziam lembrar pessoas que Lied conhecia: Eduardus lembrava Susumu pela profissão que tinha, Hector era bastante parecido com o seu pai adotivo em termos emocionais, Liana partilhava do mesmo problema da sua mãe adotiva, e Luna… bem, Luna lembrava-lhe dele próprio. E o mais curioso é que eram todos astecas, naturais de Aqua.

Lied é alvejado pela adolescente asteca com o seu olhar mortífero. Luna rapidamente desvia a atenção para a criatura que se sentava no ombro do rapaz.

— Ei, que animal de estimação é esse? Não sei como é que os guardas deixaram-no entrar.

— Ele não é o meu “animal de estimação”. O nome dele é Zaccharias.

— Eu sou apenas um corvo. Um corvo que gosta de usar chapéus — Zaccharias diz.

Luna, Eduardus, Hector e Liana foram apanhados de surpresa com a capacidade de falar do corvo.

— Ah, o pássaro falou — Luna reage desinteressadamente.

Eduardus dá um passo em frente para confrontar Lied, um sorriso simpático no rosto.

— E você?

— O meu nome é Lied. Eu...

“Lied, não diga a ninguém que está vivo. Por agora, deixe-os pensar que é um espírito como eles.”

Com um semblante convicto, Lied dobra o corpo e contempla o gigantesco vazio que os rodeava.

— Eu tenho um objetivo. Ultrapassar estas provações... e superar a mim mesmo!

— Ultrapassar as provações? Você? Ouve... Lied, certo? Eu compreendo que queira reencarnar porque a tua vida deve ter sido uma treta e pronto, a reencarnação é a única chance que nós mortos temos de viver novamente, blá, blá, blá. Isto dito, há uma coisa que eu percebi desde de que cheguei e que ficou muito óbvio nas palavras daquele cão falante. Nós… não temos chance nenhuma. Não é só a questão do tempo limite até desaparecermos. Eu ouvi uma conversa entre outros espíritos e estas “provações” não são meros testes escritos ou qualquer coisa do gênero. No caso desta primeira provação, e pelo que diziam... são 10 000 facas!!

Aquela estrondosa revelação inquietou todos ali exceto Zaccharias e o próprio Lied, que já tinham consciência da dificuldade destes desafios.

— Dez mil...? — Eduardus murmura.

— E isto é só a primeira provação... temos de passar por mais duas! Compreende agora? É impossível. Nós… estamos condenados a desaparecer!

Um opressivo silêncio engole a atmosfera de seguida.

— Já acabou? — Lied pergunta retoricamente.

— Hã?

— Você disse que eram 10 000 facas? Certo. Eu irei... parar cada uma delas.

— HÃ?! Enlouqueceu de vez?!

— Por que não? Vamos apostar... no potencial dele. Não é como se também tivéssemos outra opção. Certo, menina Luna? — Eduardus chega-se à frente, juntando-se a Luna e a Lied.

— Não me chame de “menina”. E você realmente acredita que ele tem alguma chance?!

Zaccharias sai do ombro de Lied para voar até ao ombro de Eduardus, onde encontra um novo assento.

— Parece que percebeu, detetive.

— Sim. Posso sentir... boas vibrações — o agente asteca, que ainda se surpreendeu ligeiramente com a iniciativa do corvo, esboça um sorriso contemplativo.

Eduardus vira-se seguidamente para Luna.

— Se acredito? Não consigo não acreditar. Não sei o porquê, mas eu tenho essa certeza... de que ele vai abrir a porta para um novo futuro. Um milagre... eu realmente sinto que estamos prestes a testemunhar um.

Luna não conseguia crer no positivismo surreal dele. Liana havia sido envolvida pelas palavras de Eduardus e também ela se enchia de esperança. Hector partilhava da mesma visão realista de Luna, mas não deixava de ver uma pequena possibilidade.

Independentemente da confiança que cada um depositava, todos os astecas olhavam naquele momento somente para Lied, o único humano entre eles. A luz no fim do túnel.

 

"Conseguirá Lied superar os seus limites e criar um milagre? As cortinas da evolução... abrem-se definitivamente!"

"O 'Arco do Despertar' se inicia!"

 

[FIM DO CAPÍTULO]

[INÍCIO DO ARCO "DESPERTAR"]

 

Por Mitsuaki Seiji | 26/10/18 às 23:29 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério