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9ª Mentira - Inexistência de Heróis

Lied (LD)

9ª Mentira - Inexistência de Heróis

Revisão: Venâncio Matos

O espírito e o corpo físico se tornam um.

Esse é um milagroso fenómeno, uma manifestação da força interior de um indivíduo.

Tal sincronização concede um extraordinário poder, um modo que não conhece limites na sua evolução: o Spirit Mode (Modo Espírito).

 

De modo a despertar o Spirit Mode, Lied infiltra-se juntamente com Zaccharias no aglomerado de mortos que procuram a reencarnação através da passagem de provações.

Junto com seu grupo de espíritos, o rapaz é confrontado com a revelação da primeira provação: 10 000 facas!!

Num início de provação bastante intenso Lied vai conseguindo esquivar-se com sucesso das facas, mas vê-se inevitavelmente perante uma situação de tudo ou nada.

O jovem deve agora parar as restantes facas antes que a sua energia se esgote definitivamente. Conseguirá a tempo...?!

 

8994 é o número de facas que restam ser paradas. Só assim poderão passar a provação e seguir em frente na jornada pela reencarnação.

Lied, totalmente imerso no desejo veemente de superar o obstáculo, é fitado pelos espectadores preocupados.

— Ele está... ofegante — Hector, de braços cruzados, não vê com bons olhos o estado do desafiante.

Eduardus conservava um olhar sisudo, evitando perder a tranquilidade que o caracterizava, também fruto das expectativas que depositava em Lied. Liana, pelo contrário, parecia mergulhar cada vez mais nas águas do desespero. A pequena esperança que havia surgido... apagava-se.

— Não vai durar muito mais tempo — Luna, sem papas na língua, diz o que pensa.

— Sim, não vai durar muito mais tempo. Esta provação, quero dizer — a crença de Zaccharias em Lied continuava intacta.

Ela não conseguia entender. De todos ali, aquele corvo era o que mais acreditava em Lied. Mas como...? Como é que poderia acreditar tanto no impossível? Que relação tão profunda teriam os dois ao ponto de cegá-lo?

— Por quê? Por que tem tanta fé nele?

— Não tire os olhos dele... e eventualmente entenderá — Zaccharias sorri.

Lied dá três passos à frente e volta a entrar no alcance. Mil facas, duzentos e cinquenta em cada direção (lado esquerdo, lado direito, frente e costas), são ferozmente lançadas contra ele. Em mais uma aplicação eficaz da Sensibilidade, Lied é capaz de antecipar a reutilização do padrão anterior.

O jovem curva o corpo de modo a desviar das facas que vinham de frente. Depois, dá um pulo para se esquivar daquelas que o alvejam por trás, e seguidamente evita as quinhentas vindas dos lados, movendo a cabeça agilmente.

Todavia, era no segundo final que a perda de energia se evidenciaria, com Lied não conseguindo desviar completamente da última faca, que rasgaria superficialmente a manga esquerda da camisa.

Restavam, agora, 7994 facas.

Não se deixando abalar com o rasgo, o rapaz parte novamente. Mil facas, quinhentas de frente e quinhentas de costas. Lied percebeu novamente num impulso espontâneo que o seu corpo já não se movia com a mesma naturalidade de antes.

O tempo esgotava-se à medida que a energia chegava ao fim. Lied conseguiria desviar com sucesso das facas, ainda que sofrendo alguns danos ligeiros – a manga direita rasgada e um ferimento superficial na cara.

Por ter um corpo imaterial o rapaz não sangraria, somente uma marca era visível na face. Não obstante, o seu corpo físico em Ganeden sofreria pelo corpo espiritual, assim como Zaccharias havia explicado.

Faltam 6994 facas.

Lied recua para a zona segura e aí tenta recompor-se, alongando as pernas e estendendo os ombros. Porém, por muito que tentasse deslocá-los, eles não respondiam. Os seus membros... estavam paralisados. Era o seu corpo dizendo... que tinha chegado ao limite.

"M-Move. E-Eu... ainda não terminei!"

O corpo... não obedecia à sua vontade. Poderia ser o princípio do fim?

Luna, espectadora atenta, compreendeu que aquele era o primeiro sinal do concretizar da sua previsão. Quase que imitando a moça, Lied estala com a boca, frustrado com o seu estado atual.

Não iria terminar assim. Não poderia. Se o seu corpo não se movia por conta própria, então iria forçá-lo a mover-se usando pura força de vontade.

Luna não esperava que Lied fosse conseguir recuperar a compostura. Por que é que se esforçava tanto? Quando claramente não tem as probabilidades a seu favor...

— Não entendo.


...

 

Aqua, há 10 anos atrás.

Estamos naquilo que aparenta ser uma sala de aula relativamente diferente das salas da escola de Ganeden, particularmente na mobília e na decoração. As mesas e as cadeiras eram revestidas com diamante, o quadro tinha uma forma espiritual assim como a caneta que a professora manobrava.

Os alunos não dividiam mesas, tendo cada aluno a sua própria mesa. Luna, a mais afastada da sala, ficava ao pé da janela.

— Como vocês já devem ter ouvido antes através dos nossos familiares, a cor do nosso céu é azul-turquesa em simbolização de Eva, e a madrugada traz um vermelho forte em representação do “Herói” Adão. Natureza, geografia e até mesmo a fundação da nossa cultura; existem muitas coisas que ainda não sabemos a respeito do mundo em que vivemos, artes e ciências antigas por descobrir que remontam ao “primeiro mundo”.

Enquanto a professora lecionava, Luna, sem qualquer interesse, perdia-se propositadamente nos seus pensamentos.

“Não entendo. Por que é que estou a perder o meu tempo aqui...?”, estala com a boca.

A última aula do dia termina e todos os alunos abandonam a sala, alguns agrupados nos seus círculos de amizade. Luna era a antissocial da turma e, portanto, sairia como entrou – sozinha.

“Ah... por causa deles.”

Por causa dos seus pais. A única razão que lhe leva todos os dias àquele edifício enfadonho, àquele ambiente maçante. Sem mochila às costas (não eram pedidos aos alunos que trouxessem materiais de casa, já que tinham tudo aquilo que precisavam nas salas de aula), ela deixa a escola.

Encontramo-nos na capital de Aqua, Aztecorum, a cidade que mais turistas atrai pela sua enorme diversidade de ricas infraestruturas e bens que só se podem encontrar nos estabelecimentos comerciais desta urbanização.

Enquanto se dirige para a sua habitação, que fica nos subúrbios de Aztecorum, Luna depara-se com uma grande estátua prateada estacionada no centro da cidade. Era um símbolo de Aqua, uma imagem de esperança e fé para todo o povo asteca.

A figura representada é um homem nos seus 20 anos de cabelo curto e olhos vistosos. Trata-se da maior celebridade de Aqua, a figura mais popular da história asteca: "O Herói, Adão", como é geralmente mencionado.

Se soubessem a desconsideração que Luna sente na verdade por Adão, a moça provavelmente seria condenada por heresia e afastada da sociedade, assim como aqueles que optaram por adorar a “Serpente Falante”, Nachash e acabaram caçados, executados pelo crime hediondo que escolheram cometer.

Desde crianças que nós, astecas, somos ensinados a reverenciar Adão e os outros heróis que lutaram contra o vilão Nachash e fundaram Aqua.

Eles são a nossa religião, os nossos eternos ídolos. Para mim toda esta veneração é uma chatice, até por causa da participação que os meus pais têm nisto tudo...

Enquanto caminhava a passos largos junto à estátua, duas crianças do sexo masculino e da mesma idade de Luna passam correndo por ela.

— Rápido, Klaus! Estão todos à nossa espera!!

— S-Sim!

Um dos rapazes, o mais apressado de cabelo preto, fala brevemente com aquele que está atrás, de cabelo loiro, o qual acena afirmativamente. A pressa leva inclusive o primeiro rapaz a trombar com Luna, que se indigna por um breve instante, mas não ao ponto de reclamar.

— D-Desculpa! — o loiro de nome Klaus pediria desculpa por ele enquanto corre.

Luna, deixada para trás, tenta identificar aqueles dois rostos dentro do grupo de crianças que conhece.

“Eu nunca os vi por aqui. Será que se mudaram recentemente? Bem, não importa”, concluía.

Após este curto encontro, a jovem de cabelo roxo deixa-se permanecer em frente da estátua.

“Heróis, hã...? Talvez... eu tenha dois...”

 

...

 

Voltamos ao presente em que Lied está aflito e Luna cada vez mais desacreditada.

— Não entendo. Por que é que se esforça tanto quando isto não lhe diz respeito nenhum? Quer dizer, sejamos honestos: ele não está morto, né?

A pergunta quase retórica captura a atenção de todos e surpreende principalmente Hector e Liana. Eduardus não escondia a surpresa, mas tinha as suas suspeitas.

— Então já tinha percebido. Sim, o Lied está vivo. Ele não pertence a este mundo, a Mictlan — Zaccharias, com o segredo descoberto, admite.

— Um momento! Se ele não está vivo, então o que é que está fazendo aqui?! — Hector está muito confuso.

— O Lied... tem algo para proteger. Para isso ele precisa ficar forte o suficiente para que nada ou ninguém leve esse “algo”. Neste momento, está tentando despertar o Spirit Mode.

Ninguém ali questionou o corvo falante sobre o termo referido, isto porque utilizadores de Spirit Mode são bastante comuns em Aqua, onde os astecas convivem desde muito cedo com a noção de espírito.

— Entendo, então foi isso que ele quis dizer com “superar a si mesmo” — Luna conclui.

— O Spirit Mode, hã? Um utilizador deveria ser facilmente capaz de passar estas provações... — Eduardus diz.

Infelizmente nenhum dos quatro mortos havia aprendido o Spirit Mode em vida, já que o poder do espírito era mais empregado pelos militares.

— Algo para proteger... — Luna, de cabeça para baixo, sussurra.

— Sim, uma razão para lutar. Quanto temos um motivo, a nossa força de vontade é dez mil vezes mais forte. Essa é uma das fontes de energia do Lied.

Mesmo que não acredite, é verdade que aquela antissocial adolescente já teve, enquanto viva, uma razão. Mas razões são apenas argumentos morais sem qualquer força física. Ter um motivo para lutar não te garantirá o sucesso. E prova disso...

— Mesmo que assim seja, essa força de vontade por si só não te levará a lugar nenhum. Basta olhar para ele...

Lied dava neste momento o seu máximo só para ficar em pé. A respiração mais pesada do que nunca era um sinal da sua fadiga. Julgando pelo seu estado decadente, é natural que todos comecem a perder a esperança nele.

“Ainda não acabou. Pelo contrário, mal começou, não é, Lied?”, Zaccharias pensa.

O jovem fixa a sola firmemente no chão para criar balanço. Não podia desistir. Com o corpo inerte, a sua mente tinha de comandar daqui em diante.

Lá vai ele para mais uma rodada de mil facas. Naquelas condições, será que conseguiria resistir a mais uma investida?

As trajetórias eram as mesmas do último ataque e por isso apenas cabia a Lied usar a Visibilidade para esquivar das facas. Um minuto passou-se e a investida cessou com o lançamento de todas as facas. O desfecho... era o pior possível.

Liana fechava os olhos de terror, Hector tinha uma expressão sobressaltada e Eduardus nunca havia sido visto tão preocupado. Quanto aos outros dois, Luna e Zaccharias, a moça não estava surpresa com o desenrolar, olhando de lado, e o corvo tentava ao máximo não se inquietar.

Das mil facas lançadas, Lied só conseguiu escapar completamente ileso de novecentas. As outras cem ou atingiram-no superficialmente, ou fizeram feridas que causaram impressão. No fim tinha as roupas desgastadas, nomeadamente a camisa que vestia.

Restam 5994 facas.

Com a pouca força que lhe sobrava, o rapaz recuou de imediato para a zona segura. Ele tenta erguer a cabeça, elevar os joelhos e levantar as mãos... mas era inútil.

Estendido no chão, de barriga para cima, olhos esbugalhados. O corpo... não podia mais mover-se.

“É o fim”, Luna pensa.

— Ei... o Lied está vivo. Foi isso que disse. Aqueles ferimentos todos... vão desaparecer, correto? Quando ele voltar ao seu corpo real… — Eduardus perguntava ao corvo falante.

Não era somente a sua própria reencarnação que estava em jogo; como um policial, Eduardus também se preocupava naturalmente com as outras vidas, o que incluía a vida de Lied.

— O dano que acumular agora será transmitido para o corpo real.

— E se o dano for imenso…?

Um suspense desnecessário. Todos ali sabiam o que ia acontecer nesse caso, mas Zaccharias fez questão de confirmar.

Ele vai morrer.

Aquela resposta fez Eduardus, Hector e Liana fixarem novamente o olhar no abatido rapaz.

Lied sentia cada um dos seus sentidos humanos entorpecidos. Julgando pelos sintomas decorrentes, ia desmaiar novamente.

Novamente? Sim, aquela ia ser a segunda vez que ia ficar profundamente inconsciente. A primeira foi naquele amaldiçoado dia, no cruel fim de tarde em que os seus pais foram assassinados por Zechariah, pela Illuminatus.

O coração palpitava, a cabeça ia esmorecendo à medida que perdia a consciência. Não... ia haver milagre.

Lied caía na imensidão do seu espírito, o túmulo em que a mente ia ser enterrada e do qual nunca mais iria sair. Foi curta, muito curta, esta jornada em busca de um significado para a sua existência, de um motivo para viver.

“O que é que vê?”

Lied recordou-se da questão que Xanthus lhe deixara para responder mais tarde. Parece que não iria conseguir encontrar a resposta...

Dentro de todas as memórias recentes que vinham para ele, a que realmente mais ressoava era, precisamente, o encontro com Zechariah.

“Nada... mudou desde então, hã?”

 “Mudou, sim. E continuará mudando... enquanto olhar sempre para a frente!”, é quando, subitamente, uma voz masculina e poderosa surge de lugar nenhum...!

“Esta voz…”

Uma presença desconhecida e ao mesmo tempo familiar, estranhamente acolhedora.

Quando deu por si, Lied encontrava-se na sua alma. A dimensão desta vez tinha uma especial vivacidade.

A cesta com a Maçã de Adão dentro dela estava no lugar do costume. Não importa quantas vezes veja, é um objeto fascinante. E... ao lado da cesta, de pé, uma figura humana residia.

Um rapaz um pouco mais velho do que Lied, entre os 18 e 19 anos. Não demorou muito para a sua identidade ser relembrada pelo moço de olhos esverdeados.

Ele também é uma lembrança exótica, o personagem mais intrigante de todos, que se mostrara até hoje em diferentes formas: o encapuzado vermelho e a aparência normal com a qual surgira agora.

— V-Você é...!

Cabelo avermelhado como o tomate, olhos escarlates que emanavam poderosas ondas positivas. Toda a sua aura era, verdadeiramente, divina.

— Olá, Lied.

 

“Os dois... FINALMENTE...!”

 

NSE atual de Lied: 12%

Número de facas restantes: 5994

 

[FIM DO CAPÍTULO]
Por Mitsuaki Seiji | 16/11/18 às 17:44 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério