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[Opcional] Prólogo - Radicibus (Parte 1)

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[Opcional] Prólogo - Radicibus (Parte 1)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

Essa é uma história que remonta aos primórdios da humanidade, um tempo em que nada existia.

Nada, exceto três jovens pintassilgos que aguardavam ansiosamente pelo momento de abrirem as asas e de se descobrirem a si mesmos.

Esse é o conto de como o destino os juntou e mudou incrivelmente cada uma das suas vidas.

 

 

Ilustração: Yaya

 

Uma leve e suave brisa fazia esvoaçar as folhas vermelhas da "Árvore da Ciência", uma das duas árvores especiais criadas por Deus existentes no "Jardim do Éden" - um lugar localizado no centro do mundo.

Debaixo dessa árvore gigantesca (com cerca de 115 metros de altura), encostado ao seu tronco, tirava uma soneca um menino de nome Adão, 12 anos, cercado por uma vasta e belíssima paisagem que fazia daquele jardim a mais bela criação da natureza. 

— Cuidado, Adão! 

Ao seu lado, acordada, mas também num momento de sossego, repousava uma menina chamada Eva, da mesma idade, que se entretinha a aglomerar amarantos que cresciam naquela zona.

A moça sente subitamente a presença de uma intenção maligna. Qualquer coisa fitava Adão dos arbustos. 

Adão estava numa posição vulnerável. O predador lança-se para cima da presa, tentando terminar a vida da sua vítima com apenas uma mordida venenosa dos seus dentes.

— Te peguei, “serpente falante”!

— Ssss, dependendo sempre dos outros!

Referia-se à dependência de Adão aos instintos de Eva. Pelo visto o rapaz já estava preparado para o ataque da “serpente falante”, tendo aguardado pelo momento certo para contra-atacar.

A cobra escapa e desliza pelo braço de Adão.




No instante em que ia atacá-lo, a serpente elevou quase um terço do seu corpo e formou uma grande abertura em círculo de modo a passar inteiramente pela cabeça de Adão.

A cobra não tinha, afinal de contas, a intenção de tentar uma segunda vez.

Aterrisou no solo, encarava o rapaz frente-a-frente, dois olhares separados por escassos metros. 

— Eh, estou preparado. Vem logo!

Adão fincou o pé direito na terra e posicionou as mãos, entrando em “modo de combate”. Eva apenas assistia preocupada.

A cobra virou as costas a Adão; recusava o desafio. A atitude surpreendeu o menino de cabelos encarnados, que não estava muito a fim de deixá-la “fugir”. 

— O que se passa? Vai fugir...? Que covarde, hã!

Adão provocava ainda mais a cobra, colocando as mãos na cintura. A “Serpente Falante” contorceu o pescoço para trás e, com a língua de fora, reagiu às provocações de Adão: 

— Hm, aproveita enquanto pode. Não baixe a guarda, pois quando menos esperar eu estarei por perto para tirar a tua vida patética… seu idiota!

— O-O QUÊ?! SUA MALDITA, AGORA CONSEGUIU MESMO!

Adão ruge para sair dos braços de Eva, que o abraçava, não permitindo que o rapaz eufórico fosse atrás da cobra. 

— VOLTA AQUI! VAMOS AO NOSSO SEGUNDO ROUND!

— Se acalma, ela já foi embora.

A jovem suspirou enquanto fazia o possível para impedir que uma nova disputa viesse a acontecer. Eva levantou a cabeça e olhou ao longe, não vendo mais nenhum sinal da serpente, que já devia ter-se posto a milhas. 

— Há cinco dias que estamos nisto... pergunto-me o que ela quer...? — Eva interrogava-se em voz alta, fazendo-se luz depois na sua cabeça — Não podia ser...?

Desde então, a Serpente Falante nunca deixou de aparecer diante deles, atentando diariamente a vida de Adão e, assim, mais cinco dias se passaram.

Sem que nem presa nem predador cedessem, a hora de decidir definitivamente qual iria manter-se de pé, no fim, chegaria.

E lá estavam eles novamente. O décimo dia de disputas. 

— Eh, você é realmente persistente.

Adão esboçava um sorriso. Uma porção de sangue jorrava dos lábios inferiores, o seu rosto estava cheio de cicatrizes, o que por si só mostrava o quão acirradas eram as lutas entre eles. 

— Hm, que ridículo!

— O quê?!

A Serpente Falante calou-se por breves segundos. Os seus olhos fechados e a respiração calma… estava a pensar muito a fundo sobre aquilo que ia dizer a seguir.

— Vamos resolver as coisas. Amanhã à tarde, a nossa última disputa.

A declaração espantou os dois jovens. Notava-se que Adão não estaria já à espera desta resolução, pelo menos tão cedo.

«Não, se calhar é precisamente esta a altura certa para acabar com a questão.»

Adão deixou escapar um leve sorriso, não conseguindo conter a excitação.

— Tudo bem. Vamos acabar com isto.

Logo depois da Serpente Falante abandonar o local, Eva, seriamente incomodada, aproximou-se de Adão.

— O que foi, Eva?

A expressão de Adão até estava bastante normal tendo em conta que o rapaz acabara de aceitar uma batalha até à morte. 

— Eu sei... qual é a verdadeira razão dela estar fazendo tudo isso.

Adão é pego desprevenido. O rapaz esboçou um sorriso irônico, não levando a sério a moça. 

— O que é que está dizendo, Eva...? É apenas uma maldi…

— Pensa um pouco! O que ela realmente quer não é discutir contigo e começar lutas. Provavelmente faz isso porque não sabe entrar em contato de outra maneira. Sim... todo este tempo, ela tentou se aproximar de nós; tentou se aproximar de ti!

Esta última revelação abalou Adão, que sentiu o corpo estremecer com as palavras de Eva.  

— Eu posso entender. Eu tive sorte de te conhecer, Adão, mas caso contrário, eu provavelmente me sentiria assim também... completamente sozinha. Quer dizer, afinal de contas… NÓS ESTAMOS COMPLETAMENTE SOZINHOS... NESTE MUNDO! 

Eva não conseguia conter as emoções que vinham.

Adão, chocado, não sabia como reagir. Ou não conseguia. Durante este tempo todo, ele nunca tinha percebido. Mesmo sendo tão óbvio. Mesmo estando à sua frente.

Naquele momento, Adão culpou-se verdadeiramente pela sua falta de noção.

Estava decidido. Ele não queria cometer mais nenhum erro daqui para a frente. Os sentimentos de Eva tinham tocado seu coração.

— Obrigado, Eva. E desculpa. Eu definitivamente irei “acabar com isto”. É uma

promessa!

Adão exibiu uma expressão determinada ao passar por Eva. 

O dia da disputa final... é hoje.

O sol ainda batia forte, o clima ameno da tarde era perfeito para a ocasião. 

Adão e Eva foram os primeiros a chegar ao local, onde sempre decorreram os confrontos deles, e agora seria o último embate. 

Adão mantinha a mesma expressão convicta que mostrara a Eva no dia anterior. 

Poucos minutos depois, uma terceira pessoa faria a sua aparição. Porém, para surpresa das crianças, não era a Serpente Falante, mas sim uma cara nova que nunca tinham visto por ali: um menino, mais ou menos da idade deles, ligeiramente mais alto que Adão. 

Ainda assim, o olhar frio do recém-chegado não era estranho a Eva, assim como os seus olhos verde-escuros e a íris peculiar, que acreditava já tê-los visto antes. 

— Hum... será que... está perdido...? — Adão inquiriu com um sorriso gentil algo confuso. 

Eva não conseguia deixar de fitar o desconhecido, tendo quase a certeza de que não era a primeira vez que eles se viam.

«Sim... Aquele olhar, aqueles olhos... poderia ele ser...?!»

— Poderia ser...?

— Esta é a minha forma humana — a minha verdadeira forma. Algum problema?

Aquilo foi o suficiente para Eva confirmar a sua teoria e para Adão perceber de quem é que se tratava. 

— UM RAPAZ?! 

— É COM ISSO QUE ESTÁ SURPRESO?! — Eva reage a Adão.

— Vá... vamos acabar com isto — diz a Serpente Falante.

— Sim — Adão acena com firmeza.

O rapaz-serpente começou avançando até ao pé da “Árvore da Ciência”. Apoiou com força os pés na terra, cravando-os completamente até ficarem abaixo do solo.  E usando esse apoio como impulso deu um enorme pulo para cima, mirando o topo da árvore.

A uma velocidade inacreditável ele subiu, em poucos segundos, ao topo. 

“Incrível... que salto...!”, pensava Eva.

Ao contrário de Eva Adão não se espanta, limitando-se a segui-lo. Foi a vez do rapaz de cabelo vermelho de impressionar, ao subir sem perder em velocidade para a Serpente Falante. 

Os dois alcançaram o topo da árvore cuja copa era a perfeita arena para realizar a luta. O silêncio imperou até ao céu. 

— Antes de mais nada... eu preciso de perguntar. Por quê eu?

A serpente-humana mordeu ligeiramente os lábios. 

— Por causa dessa tua atitude irritante. Você é... demasiado conformado. E eu não consigo suportar isso!

A iniciativa era sempre da Serpente Falante, que enchia Adão de uma grande variedade de golpes. O jovem conseguia ao início aguentar os constantes ataques, bloqueando-os ou fazendo uso dos seus reflexos para evitá-los. Entretanto, uma certa diferença em habilidade e força entre eles começava a ser lentamente visível, tornando-se uma disputa desigual. 

Adão era completamente superado pelo oponente, que estava num nível totalmente diferente da sua forma réptil. 

— Apesar de não saber quem realmente é...

Um soco na face de Adão.

— Apesar de não saber onde realmente está... 

Outro murro no rosto. 

— Apesar de não saber porque existe... 

Um terceiro soco na barriga. 

— APESAR de não saber de NADA...! 

Uma joelhada novamente no abdómen. A cobra desesperada desistiu de reprimir as suas emoções, deitando cá para fora todo o fardo da sua vida.

Fez-se um pequeno intervalo. A Serpente Falante ofegava; já Adão, com algum sangue a sair de alguns pontos do corpo em que fora acertado, nomeadamente a cara, apenas contemplava a figura do seu adversário com o mesmo olhar determinado. 

Ele estava disposto a receber fisicamente toda a raiva, tristeza, dor e até mesmo inveja.

«Inveja?»

Sim, a inveja da serpente por aquela ingênua criança, que conseguia manter-se sempre naquele estado de espírito – alegre - apesar das circunstâncias que o envolvem. 

— Ainda assim... ainda assim... COMO...? COMO É QUE PODE VIVER TÃO DESPREOCUPADAMENTE?! ESTA VIDA SEM PROPÓSITO OU RAZÃO?! 

A serpente voltou a investir, enchendo-se de vontade principalmente neste golpe. Mas ou eram os movimentos da Serpente Falante que estavam ficando lentos, ou eram os movimentos de Adão que estavam melhorando consideravelmente. 

Adão desviou-se desta vez do soco, tomando de surpresa a serpente que começava a perceber que algo estava mudando nele. 

Só que naquele inconfiável espaço, onde a única maneira de se locomover era saltando de galho em galho, um passo em falso poderia significar o “ponto final”. Foi o que aconteceu. 

O movimento que permitiu a Adão desviar-se com sucesso do ataque da cobra foi o descuido não só do rapaz, que não notou a brecha num dos ramos, como também da Serpente Falante, que acabou por ser induzida ao erro no momento em que falhou o golpe. 

Uma queda de 115 metros era o que os esperava agora. Eva, que assistia lá de baixo à luta, tapou a boca com as mãos.

A queda não foi o suficiente para cessar a batalha. As massas de ar na atmosfera comprimiam-se, levando ao aumento da pressão atmosférica. À medida que desabavam em direção ao solo, a dificuldade em respirar ficava maior. 

80 metros.

A troca de golpes sucessivos prolongava-se, com o fluxo da luta melhorando cada vez mais para Adão, que já lutava de igual para igual com ele.

60 metros. 

A “Serpente Falante” perdia o domínio do duelo conquistado por Adão. 

50 metros. 

Para recuperar a maré da disputa, a cobra apanha Adão desprevenido com um movimento de submissão, a constrição - um método de algumas cobras de matar as suas presas.

Adão tentava a todo custo escapar das garras da serpente. 

— Eu posso não saber quem sou... eu posso não saber onde estou... eu posso não saber porque existo... Porém... eu acredito... que um propósito de viver não é algo que é dado... VOCÊ MESMO É QUE DEVE PROCURAR COM AS SUAS PRÓPRIAS FORÇAS... ENQUANTO VIVE A TUA VIDA AO MÁXIMO! 

A “Serpente Falante” estremeceu, sentindo o seu coração a ressoar com as palavras de Adão.

40 metros. 

— Isso é... APENAS CONVERSA FIADA!

— ERRADO!

30 metros. 

— QUER DIZER, OLHA EM VOLTA. ESTE SOL VÍVIDO... 

O Sol punha-se ao longe, a matiz vermelha e laranja espelhava-se nos olhos dos dois jovens, causando uma refração.

— ESTE MAR GRANDE... 

As águas límpidas sofriam também a refração da luz. 

— TODO ESTE MUNDO... 

O Sol, o mar e a vegetação formavam a mais linda paisagem. 

— EU FUI ABENÇOADO… COM ESTA VIDA! E POR ISSO É QUE FIZ UM JURAMENTO A MIM MESMO. EU JUREI QUE IRIA APROVEITAR CADA DIA COMO SE FOSSE O ÚLTIMO E PROCURAR O MEU PROPÓSITO DURANTE ISSO… PARA NÃO ME ARREPENDER DEPOIS!

20 metros. 

Naquele momento, a Serpente Falante sentiu o seu coração a ser profundamente perfurado pelo “golpe” de Adão. A derrota invadiu-a.

— Acaba com isto...




— Sim... — Adão puxa-o pelos colarinhos — Eu vou acabar... COM ESSA SOLIDÃO DENTRO DE TI!

Um novo “golpe” fora dado na serpente. No entanto, a sensação de recebê-lo desta vez foi diferente: como se o vazio no seu peito tivesse sido, por instantes, preenchido pela energia positiva que irradiava de Adão e das suas palavras. 

A cobra olhou mais uma vez para ele. A cruz que o jovem carregava no pescoço vibrava, respondendo aos sentimentos do seu dono. Uma aura mística e branca rodeava Adão. Os olhos dele estavam igualmente transparentes. 

Foi quando a Serpente Falante percebeu. O poder que aquele rapaz tinha e que a ele lhe faltava. O poder... de acreditar. 

Talvez tenha sido obra do destino, ou se calhar apenas uma coincidência que acabou por desempenhar um papel importante. Mas obra do destino ou coincidência, o que é certo é que as ramificações inferiores da árvore acabariam por salvar a vida de ambos, atrasando a queda e diminuindo o seu impacto. 

Os dois garotos caíram, o que ainda foi razão de queixa de algumas dores.  Adão, então, não parava de rosnar, queixando-se de como a sua bunda doía. 

Eva foi correndo até eles, alarmada com tudo o que acontecia lá em cima. Aproximou-se primeiro do menino de cabelos esverdeados, abaixando-se para olhá-lo nos olhos com um sorriso gentil. 

— Tudo bem?

O rapaz, destroçado, negou o cruzamento de olhares, não sabendo como reagir depois de tudo. 

— Ei... você tem um nome próprio?

— Não...

Eva esboça um sorriso ainda maior.

— Então... eu acho que tenho o nome perfeito para ti.

— Eh...?

O jovem revira os olhos e finalmente olha para ela.

— Nachash. Nachash, hebraico, significa tanto “serpente falante” como “o brilhante”; “aquele que brilha”.

— “Nachash”...?

— “O brilhante”.

Nachash cora.

Adão ergueu-se, limpando as calças cheias de galhos. O rosto, o cabelo e as roupas ainda estavam sujas com ramos das árvores. Virou-se para o agora chamado de Nachash, esticando a mão num gesto de amizade. 

— A vitória é minha. Então vem logo com a gente, seu idiota!

Nachash aceitou o gesto, deixando-se ser levantado por Adão. Não resistiu à tentação que era a felicidade. Esboçou um sútil sorriso enquanto se colocava de pé. 

— “Nachash”... — repetia o nome para si mesmo.

Lágrimas misteriosas derramavam dos seus olhos, mas o jovem rapidamente as sacudiu. 

O pintassilgo bateu as asas, voando até onde ele pertence. E assim Nachash partiu... com o seu novo eu e com os seus novos amigos.

O conto deles não acabaria aqui…

Por ScryzZ | 01/09/18 às 19:55 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério