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[Opcional] Prólogo - Radicibus (Parte 2)

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[Opcional] Prólogo - Radicibus (Parte 2)

Autor: Mitsuaki Seiji | Revisão: Venâncio Matos

A rixa entre o rapaz e a cobra, a batalha resultante dela que levaria ambos Adão e Serpente Falante ao limite, e, finalmente, a conciliação dos dois e a aceitação de Nachash no grupo.

Esses eventos são páginas de um livro cuja história ainda vai na metade. E cabe a nós agora folheá-lo, folha a folha, página a página... até finalmente chegar ao seu inalterável fim.

Esta é a continuação do conto deles...

 10 dias depois dos precedentes acontecimentos

O trio composto por Adão, Eva e Nachash passa os dias seguintes na descontração (se Adão e Nachash estarem constantemente a lutar pode ser considerado descontrair).

Mas chega finalmente um dia em que ficam saturados de praticar regularmente a mesma rotina... e é quando Adão tem uma ideia.

— Ei... porque é que não tentamos outra vez?

O rapaz relaxava junto à “Árvore da Ciência”, inclinado sobre o tronco. Eva não se encontra presente. Nachash está instalado num dos ramos da árvore, ligeiramente acima de Adão.

— Tentar... o quê?

Adão retorce o pescoço para cima e encara Nachash de baixo.

— Ah, o Nachash ainda não estava conosco.

Eva, que tinha ido colher flores a um lugar relativamente distante, chega. Nas duas mãos trazia uma dúzia de gardênias que só brotavam naquele lugar em específico, meia dúzia em cada mão.

— Voltei — Eva anuncia com o normal sorriso amável.

A moça abaixa-se para pousar as recém-colhidas flores, deixando-as juntas aos anteriormente apanhados amarantos.

— Ei, Eva, vamos para lá novamente, agora mesmo!

— Para “lá”... aquele lugar?

“Tentar”, “lá”, “aquele”. Nachash, já irritado com a conversa subentendida que somente ele não compreendia, deixa-se cair num pulo no chão.

— Mais uma vez, a que é que vocês dois se referem?

Adão, num esgar brincalhão, deixa Nachash no ar.

— Você irá entender quando chegar lá.

...

Embrulhados em arbustos, pouco acomodados por estarem partilhando o mesmo espaço fechado, Nachash, no centro, era o que parecia mais inquieto.

— Então... do que é que estamos a nos esconder? — Nachash interroga num volume de voz ligeiramente alto.

— Shuu... chega mais perto — Adão diz.

A Serpente Falante rasteja adiante, a terra molhada pela chuva, até a parte de trás dos arbustos, de onde espreita.

Uma árvore colossal, denominada de “Árvore da Vida” e possivelmente do mesmo tamanho da Árvore da Ciência. Em volta dela estão doze singulares e imóveis encapuçados, todos de manto e capuz cinzentos.

Cada vulto aparentava ter a mesma estatura física; completamente iguais, como se fossem clones uns dos outros.




— Uma segunda árvore...? E... pessoas...?!

De fato, ele apenas tinha conhecimento de uma árvore, a Árvore da Ciência, e acreditava seriamente que não existia mais ninguém além de Adão, Eva e dele neste mundo.

— Pois é... eu realmente não tenho a certeza quanto a serem pessoas. Quando os vimos pela primeira vez, pensamos que eram estátuas. E desde então, nas poucas vezes que voltamos, nunca os vimos mexer sequer um dedo — Adão diz.

Eva acenava, ainda convicta de que fossem apenas figuras ali esculpidas por alguém, ou até mesmo obras da natureza, tamanho o desconhecimento que eles tinham a respeito do mundo que os rodeava.

— Mas não é para isso que viemos. Olha bem, na árvore.

Adão curva e aponta o dedo mindinho.

Nachash segue com os olhos a indicação dada por Adão. Repousando num dos galhos da Árvore da Vida, avistava-se uma maçã vermelha.

— Uma... maçã? E o que é que há de tão especial nela? Parece-me uma maçã como qualquer outra.

Adão e Eva, relativamente atrás, também eles rastejam de modo a se juntarem a Nachash.

— Para ser sincero, eu também não sei — Adão diz.

— Hã?

Eva liberta uma breve risada, o que capta a atenção da dupla de rapazes.

— Basicamente, o fato de a maçã estar sendo vigiada de maneira tão persistente por aqueles “guardas” é o que faz o Adão pensar que ela é especial. Estou certa?

— Sim, é isso mesmo.

Nachash suspira.

— Apenas intuição, hã...?

Não ia se desesperar porque sabia que era algo típico de Adão. Ainda assim, para não tirarem os olhos dela nem por um segundo, é porque não deve ser de fato uma fruta comum.

“As aparências iludem” — era o pensamento que afluía igualmente naquele minuto.

— E então? O que é que vamos fazer com ela?

Adão sorri, endiabrado.

— É simples. Nós vamos roubá-la.

...

Estavam todos a postos. Cada um na sua posição. Faltava só mesmo o primeiro ato, que era de Adão, para iniciar a operação “Roubo da Maçã”.

Cinco minutos antes, debate e definição do plano.

 Adão, de braços cruzados e já se colocando como o líder da operação, explica o seu plano.

— Bom, de maneira simples, o meu plano é o seguinte: o Nachash chama a atenção deles e enquanto isso eu roubo a maçã. Quanto a ti, Eva, é melhor ficar escondida nos arbustos, é mais seguro. O que acham?

Nachash, estupefato com a sua simplicidade, não acha o plano de todo plausível e a cara de insatisfação, nomeadamente com a sua função, é visível. Mas quem estava verdadeiramente insatisfeita com a sua tarefa era Eva, e esse sentimento acabaria por passar despercebido.

— Em outras palavras, eu sou a isca para você ficar com toda a glória. Inaceitável.

— Eh?! Que egoísta!

— VOCÊ É QUE É EGOÍSTA!

— Hum... o plano é bom, mas o que parece estar errado é o esquema dele. Vejamos: se é para ser discreto, então o Nachash na sua forma serpente é a melhor opção — analisa com destreza Eva — Desculpa, Adão, mas você é a isca mais apropriada — conclui, sorrindo de pena pelo rapaz.

— Eh? Não pode ser!

Nachash acredita ter vencido o argumento.

— Hehehe, penso o mesmo.

Adão fica sem o papel principal, mas rapidamente recompõe-se (no fundo ele de alguma maneira vê valor na sua nova posição).

— Antes de mais nada, vocês disseram que vieram várias vezes. Em todas essas vezes, tentaram roubar e falharam? — Nachash pergunta.

— Sim. Bem, não podemos dizer que realmente tentamos. Para falar a verdade, não chegamos sequer perto dela. No momento em que nos aproximávamos, eu sempre tinha uma estranha sensação... que era muito perigoso — Adão explicava, pondo a mão no peito à medida que relembrava essa esquisita impressão.

“O Adão... desistindo de algo?”, pensou Nachash após escutar o jovem.

— Mas desta vez é diferente. Desta vez nós temos você, Nachash!

Nachash sorri ante o companheiro, esquecendo naturalmente os seus pensamentos. Eva também deixa escapar um sorriso, os três entrando em harmonia total.

— Ah, eu acho que tenho um nome para a operação.

— Eh? Qual?

Nachash ficou curioso.

— Operação “Roubo da Maçã”.

Nachash e Eva riem-se alto, a cobra suspirando de seguida.

— Bem, que seja. Desde que seja concretizada com sucesso, o nome não interessa — era irrelevante para Nachash.

...

Estavam todos a postos. Cada um na sua determinada posição: Adão na frente dos encapuçados inanimados, a cerca de 20 metros deles; Nachash, já na sua forma réptil, oculto nos arbustos à esquerda de Adão; e Eva atrás, nos arbustos de onde eles saíram.

— Yo! Há quanto tempo, né? — Adão cumprimenta os indivíduos misteriosos.

Sem resposta da parte deles, que persistem em ficar calados.

— Eh, reservados como sempre...

Adão aproxima-se um pouco. Pega uma pedra do chão e atira sem escrúpulos ao sexto indivíduo alinhado na fila. Este pedregulho atravessou o corpo dele como se fosse intangível.

— Passou... por ele...?! 

Nachash, o único que não tinha testemunhado o fenômeno antes, não queria acreditar no que tinha acabado de ver. Adão não conseguia deixar de mostrar algum pasmo apesar de não ser a primeira vez que presencia aquilo.

Naquele momento, Eva começou a sentir um frio na espinha.

Aquilo era... medo? Mas do quê? E por quê assim do nada?

Sem reação aparente dos encapuçados, que teimam em ficar parados.

— Ah! Eu tinha as minhas dúvidas, mas parece que estava certo. Vocês são fantasmas, não é isso?! Todavia, estão com azar, porque eu não tenho medo de fantasmas! Não tenho medo de cobras... —, uma clara indireta a Nachash —, não tenho medo de fantasmas... Não tenho medo de nada!

Eva tinha um mau pressentimento.

Algo estava para acontecer. Perigo. Eles estavam... em perigo.

Adão deu mais um passo em frente.

A operação estava em risco.

“Para, Adão”, Eva pensava, mas sabia que ele não podia ouvir os seus pensamentos.

E se o avisasse em voz alta comprometeria todo o plano.

— Pelo contrário, vocês é que devem ter medo de mim!

Nachash. Eles já o tinham percebido. Ou estavam prestes a perceber...!

Ela tinha de fazer algo. A própria tinha de agir. Caso contrário...

— Então abram essa maldita boca e uivem perante Adão! 

…tudo iria acabar ali.

Eva segue o seu instinto e sai disparada dos arbustos onde se escondia, causando surpresa em Adão e Nachash.

— Eva?! O que é que está fazendo?! —  Adão questiona brandamente.

Repentinamente, a segunda figura a contar da esquerda move-se a uma velocidade fantasmagórica e alcança em poucos segundos Eva.

— Eva! — Adão berra e, sem pensar duas vezes, corre para socorrê-la.

Nachash, ainda que muito preocupado, resolveu continuar a sua missão e deixar tudo com Adão. É esta a altura em que devem acreditar um no outro.

— Shlishi Shlishi (terceiro), Shmini (oitavo) e Tishi (nono) são os números ordinais em hebraico — a figura que tinha sido apedrejada por Adão diz algo exótico.

O terceiro encapuçado na fila a contar da esquerda move-se seguidamente a uma velocidade similar à do seu companheiro naquilo que parecia o obedecer de uma ordem, provavelmente do encapuçado que acabara de falar. 

O “terceiro” para mesmo em frente de Adão numa tentativa de barrar o caminho do garoto. Adão encara-o ferozmente, não conseguindo fitar diretamente os olhos dele por causa do capuz.

Estranhamente, ao mesmo tempo que considerava os movimentos deles hostis, ele não conseguia sentir intenções malignas por detrás das suas ações. O que isso significava...?

De qualquer maneira, Eva estava em perigo. Não era hora de se perder em pensamentos!

A cruz no pescoço de Adão sobreluz num processo semelhante ao ocorrido durante a luta entre Adão e Nachash. O pingente ressoa ao ritmo da misteriosa e sútil energia que vai vestindo o corpo do rapaz com uma aura mística, os olhos escarlates a tomarem uma tonalidade branca.

Como se o seu “poder interior” estivesse respondendo às suas emoções, assim como respondeu na primeira vez.

— Sai da frente — Adão derruba o seu oponente num único golpe indescritível aos olhos humanos.

O que numa primeira impressão parecia ter acontecido era um empurrão com força o bastante para nocauteá-lo, mas o que aconteceu realmente foi que Adão socou o abdômen do adversário num flash, uma realidade distorcida pela rapidez do golpe. 

Entretanto, o fato de Adão ter conseguido golpeá-lo indica que o encapuçado não teve a proteção da intangibilidade. Seria esta uma qualidade exclusiva daquele encapuçado em especial? Ou teria alguma coisa impossibilitado a sua ativação?

A figura com a voz de comando não mostrou nenhum sinal de hesitação face à queda de um dos seus companheiros. Muito pelo contrário, permanecia frio e cauteloso; podemos até dizer que via aquela baixa irrelevante dada a ausência de qualquer demonstração de preocupação, o que levanta a dúvida de qual seria a relação, pelo visto não tão íntima e de companheirismo, entre eles.

— Shmini, Tishi — invocou sem demora os nomes de outros dois camaradas.

Em resposta ao chamamento, Tishi, quarto, e Shmini, quinto, a contar da direita, agem de imediato. Numa deslocação instantânea, como se tivessem teletransportando-se de um lugar para o outro, aterram impetuosamente em cima de Adão.

O “quarto” constrangia a nuca do rapaz agora caído na terra, o “quinto” aperta as coxas de Adão. Literalmente imobilizado, sem poder mover sequer um membro. Adão estava, assim, condenado à derrota. E a consequência de perder era...

— Eva! Corre! — Adão gritava desesperadamente para a jovem, estando ela paralisada diante do encapuçado que a mirava.

— Raios! Larguem-me! Porra, quando eu conseguir sair... huh?

Os protestos de Adão seriam cessados pelo Shlishi, o encapuçado que Adão tinha derrubado há pouco. O sujeito andou até parar ao lado de Adão, ficando à espera de uma nova ordem. O bem-estar físico com que se apresentava sobressaltou o rapaz, que não conseguia simplesmente acreditar na saúde daquele ser.

— Você... como...? E-Eu te acertei com toda a minha força... então... como...? 

A questão já não era ele conseguir estar de pé, mas sim o vigor que exibia mesmo após tamanha pancada. Em apenas um minuto a dor passou? Ou... será que...

— Você... não sente dor?

Os olhos incrédulos, que perdiam o vigor da claridade branca e lentamente retomavam ao vermelho padrão, limitavam-se a fitar lateralmente a figura.

A chama extinguia-se.

A boca estupefada, não conseguindo fechar por si mesma, permanecia aberta.

O fogo amortecia-se.

O coração palpitava e a mente ansiava. A poderosa aura que envolvia Adão se ofuscava.

A luz se apagava.

Aquela fração de segundo em que Adão fez a questão foi o momento em que o menino começou a perder a esperança. 

O seu espírito destemido, temeu. E assim, a sua alma quebrou por completo.

A cruz no pescoço para de oscilar.

O som de uma lágrima a derramar no chão ecoa por ali.

...

Nachash, discreto, circundava neste instante os oito encapuçados restantes devidamente alinhados. Ser apanhado em flagrante seria desperdiçar a oportunidade que Eva havia inesperadamente concedido em troca da segurança dela, que agora se encontrava em risco. 

Mas Adão estava ali e a serpente sabia que podia contar com ele para tirar a amiga do perigo. Por curiosidade resolveu parar, a meio caminho andado, para averiguar a situação atual.

E foi quando, ao perscrutar pelos arbustos, que se deparou com um cenário desesperante: Eva atemorizada diante de um encapuçado, Adão imobilizado por outros inimigos.

Mas a imagem que mais lhe custava, e que até ali Nachash nem imaginava um dia ver, era a de Adão num autêntico estado de aflição, ao ponto de...

— Adão está... chorando?

Aquele valente e indestrutível Adão levado a tamanho extremo...?  Pouco a pouco, o tempo esgotava-se para Adão, Eva... e Nachash.

...

Uma gota atrás de outra pingava, encharcando ainda mais a relva já umedecida devido a água da chuva.

Um monstro. Se Adão tivesse de fazer um retrato daquela figura, que clonava depois em massa com mais 11 idênticos, era a de um monstro. Algo com o qual eles não deviam ter se metido.

“Eles”? Eles quem? Adão, Eva e Nachash? Ou apenas ele...? Ou apenas Adão...?

Porque, em primeiro lugar, quem sugeriu tudo isto fora o rapaz de cabelo avermelhado. Sim, desde o princípio o jovem ignorou o perigo e acabou por trazer consigo os seus amigos para o abismo.

A culpa é de ninguém mais, ninguém menos, de Adão, aquele que numa brincadeira precipitada atirou-os do penhasco. A sua ingenuidade, a sua imprudência, a sua inabilidade de considerar os resultados das suas ações iria custar a vida não só dele, mas também daqueles que mais lhe importam.

— E-Eva... foge... depressa... 

O moço esticava a mão num ato desesperado como se estivesse tentando alcançá-la a metros de distância.

Aquilo era o desespero, uma consequência do medo, emoção que Adão sentia agora pela primeira vez. Medo... de perder as pessoas mais importantes para ele, bem na sua frente.

...

A árvore avistava-se finalmente a poucos metros de Nachash. Enquanto trepava, a cobra volta-se para o que está acontecendo e não gosta do que vê. Com Adão sem sinais de recuperação, o desenlace negativo parecia estar iminente. E agora...?

...

Um. Dois. Três passos.

A figura encapuçada aproximava-se cada vez mais da sua presa, completamente rendida ao terror da morte. Com Adão incapacitado e Eva em perigo, Nachash tem de tomar uma decisão.

A missão ou a amiga? Num impasse, ele escolhe a sua opção.

...

Numa segunda tentativa de reunir as energias perdidas, Adão esforça-se para evocar de novo aquela força misteriosa que lhe poderia conceder a derradeira oportunidade de salvar Eva a tempo. Contudo, ela não surgia. Não importa o quanto tentasse convocá-la.

A sua mente instável não permitia e assim esse poder o havia abandonado. Eventualmente, a hora do último suspiro chegaria. Já era... tarde demais.

A mão do vulto alcançava o rosto de Eva.

— EVAAAAAAAAAAAAAAAA! — um último grito de Adão.

...

No exato momento em que a jovem está prestes a ser atacada, Nachash aparece mesmo em frente dela, surgindo no segundo final. 

No calor do momento ele serve-se de escudo e ao mesmo tempo de lança: uma cobra consideravelmente comprida e grande em forma espiritual sai das costas de Nachash e imobiliza o encapuçado, estrangulando-o violentamente no ar. 

— Não toca.

Os seus olhos assumem uma íris demoníaca bem mais intensa do que o normal.

Adão não queria acreditar. Eva não queria acreditar. Até mesmo os outros encapuçados não deixaram de se espantar com a reação de Nachash. Julgando pela agitação sentida momentaneamente, aquilo não estava nos planos deles. 

Enquanto o encapuçado estava suspenso no ar, Nachash ainda foi capaz de olhar de relance ligeiramente por detrás do capuz.

— O que raios... é você...?

Os dois encapuçados que obstruíam Adão hesitaram e por fim recuaram, unindo-se aos nove que permaneciam, não obstante, dispostos em fila. 

Juntando-se a eles foi o encapuçado que se encontrava até há pouco tempo elevado na atmosfera; o indivíduo libertou-se da constrição que o sufocava, teletransportando-se para o pé dos seus companheiros alinhados.

Adão ergueu-se imediatamente após ver-se livre das “garras” que o aprisionavam e correu a todo o gás até Eva.

— Eva! Está bem?!

Adão está ofegante, lágrimas escorrendo pela face.

— Sim…

Adão vira agora as suas atenções para Nachash, que já não tinha a cobra ligada a ele, a qual sumiu depois do encapuçado recuar.

— Nachash, você...!

— Falamos depois! Agora não é uma boa hora.

Os três encaravam os indivíduos misteriosos, prontos para qualquer investida surpresa. Para espanto deles, tal não viria a acontecer com a batalha encerrando por aqui. 

Ao invés disso, o “encapuçado líder” somente apontou delicadamente o dedo mindinho para Nachash. Referia-se gestualmente a algo.

Um vento forte soprou e atirou poeira para cima dos olhos das crianças, que por esses breves segundos não viram nada. Durante esse curto período de tempo os encapuçados aproveitariam para se retirarem.

— A-Aonde é que eles foram?! — Adão perguntava-se, bastante tenso.

— Desapareceram... completamente... — Eva observava.

— Eles... o que e quem raios eram...? — Adão questionava-se.

Nachash, desconfiado, não conseguia se esquecer da imagem inacreditável que o capuz ocultava e que apenas ele foi capaz de enxergar.

— Eva, Nachash. 

Adão, de punhos cerrados e cabisbaixo, queria dizer alguma coisa. Eles já antecipavam o que o rapaz ia falar.

— Peço desculpa. É minha culpa. Se eu não tivesse pensado numa brincadeira tão estúpida, vocês não teriam passado pelo perigo que passaram. Eu sempre faço isto, mas desta vez foi diferente. Desta vez, eu realmente magoei vocês. Eu magoei... os meus preciosos amigos.

Adão não conseguia encarar os rostos deles. Nachash aproxima-se de Adão e dá-lhe uma tapa na cabeça.

— Au! — Adão coloca as mãos em cima da cabeça.

Nachash põe as mãos na cintura, preparando-se para ralhar com o amigo.

— Idiota. Nós escolhemos, por vontade própria, fazer isto. A culpa de tudo o que nos aconteceu, ou mesmo aquilo que podia nos ter acontecido, é nossa.

Adão, sentimentalista, pressentia as palavras de Nachash tocando gentilmente o coração dele, como se estivesse tomando um néctar que retira todo o peso de cima de si.

— Nachash...

— Vá lá, um cabeça oca como você forçar alguém? Nunca na vida.

— Isso foi desnecessário!

— Em outras palavras, não se culpe pelas decisões dos outros, mas sim pelas tuas próprias decisões. E se existe uma decisão pela qual ainda se culpa, pela qual se arrepende profundamente, então tenha certeza de não fazê-la novamente. Aprender com os erros e seguir em frente... isso é crescer!

— O que o Nachash quer dizer, Adão, é para não se culpar por nós. Continua sendo você mesmo, como sempre tem sido — livre e despreocupado! —  um sorriso formoso abria-se em Eva enquanto dizia isto — Ah, mas não tão despreocupado... sim, às vezes é melhor se preocupar um pouco mais com as coisas!

Nachash riu-se levemente do comentário.

— Eh?! O que é que quer dizer, Eva? — Mas...

Adão volta a inclinar a cabeça para baixo, pensativo.

O calor radiante das palavras acendia o seu coração.  A sua mente era preenchida por pensamentos positivos. E o seu espírito recuperava o vigor outrora perdido. 

Adão limpou o rosto das lágrimas e levantou a cabeça, revelando aquele que era, naquele instante, o sorriso mais bonito e confiante de todos.

— Sim! “Estou de volta”!

...

— E agora que está tudo resolvido, vamos ao mais importante.

Nachash anuncia e de dentro dos seus trajes retira uma maçã vermelha — aquela que se empoleirava na árvore e o motivo pela qual começaram esta operação!

Pelo visto, Nachash não escolheu uma coisa em detrimento de outra, e, ao invés disso, optou por ambas — a salvação de Eva e a missão! Adão abriu a boca de espanto.

— Isso é...!

— Nachash! Quando é que conseguiu?! — Eva interrogou.

— Antes de ir ajudar vocês.

A cobra recorda-se de tudo — Eva prestes a ser atacada e Nachash mesmo em baixo do galho em que a maçã residia. No tempo exato em que colocou as mãos no fruto, ele retornou à sua forma humana e com grande agilidade alcançou a amiga e o encapuçado.

— Bom trabalho, Nachash! Apenas desta vez, eu deixarei a glória para você!

— Tss, é o que dá continuar sendo ele mesmo... 

Eva atentava seriamente a maçã, curiosa.

— Então... 

A moça relembra o líder dos encapuçados apontando o dedo a Nachash.

— “Ele” estava se referindo à maçã?

— Ah, naquele momento? — Adão, que normalmente está com a cabeça na lua, também se recordou.

— Provavelmente — Nachash acenou com a cabeça.

A cobra fitava Eva, que ainda continuava com alguma suspeita.

— Mais alguma coisa?

Enquanto Nachash e Eva conversavam, Adão se entretinha procurando com os olhos alguma singularidade na maçã, pousada na mão da Serpente Falante. Este comportamento tolo irritaria a cobra, que se segurava para não o repreender.

— Não, é que é demasiado estranho. Pelo que deu para perceber, aquelas pessoas estavam protegendo a maçã de qualquer um que tentasse roubá-la, certo? Pela maneira como a guardavam, não há dúvida de que era algo bastante importante para eles. 

Nachash, ao contrário do distraído Adão (o último que se questionava se ela era assim tão deliciosa para não deixarem ninguém comê-la), seguia atentamente o raciocínio da jovem.

— E mesmo assim... por quê? Se eles realmente tinham percebido que a maçã já não estava com eles, então... por que é que não tentaram recuperá-la? Por que é que pararam ali?

A conclusão do raciocínio de Eva intrigou a cobra e despertou o interesse de Adão. As verdadeiras intenções daquele grupo eram indecifráveis. Apenas uma única sensação o trio tinha. Era como... se eles os tivessem testando.

O silêncio seria quebrado por Adão, que arrancou a maçã da mão de Nachash e saiu correndo com ela.

— Ei, seu idiota! Devolve!

— Não vou! — Adão deita a língua de fora.

Nachash perseguiu incontrolavelmente Adão. Cessariam mais tarde ou mais cedo este “pega-pega” desgastante.

— Pronto! Me decidi! — Adão tivera uma das suas ideias.

— O que é que você decidiu...?

— Eu não vou comê-la. Ficarei com ela!

— Hã?! Não decida essas coisas assim. Ainda nem sabemos o que isso realmente é,  e...

— E já tenho um nome!

— Um nome também...? Sério...?

Os olhos inocentes e radiantes de Adão fixavam-se na maçã, um entusiasmo enorme enquanto segurava a fruta como se fosse um bebê recém-nascido.

— A maçã é minha, então eu vou chamá-la de... “Maçã de Adão”!

— Que lógica é essa? Mesmo típico de você, Adão! — a delirante Eva sorria.

Nachash suspira e coloca uma das mãos na face em estilo facepalm.

— Não, esquece o nome... Querer nomear uma fruta já é, por si mesmo, suficientemente estúpido.

Extraordinariamente, a agora nomeada “Maçã de Adão” resplandece de súbito e assusta os três. Adão não deixa de segurar a maçã.

A Maçã de Adão muda de tonalidade, passando de vermelho para dourado. O brilho torna-se cada vez mais saliente e, por fim, engole todo o local.

...

O trio abre os olhos. O fulgor não os atingia mais e a maçã, que retornara para a cor original, tinha parado de reluzir.

O que os aguardava agora era um desenho sobrenatural, uma imagem irreal que acabara de ser criada. À frente, atrás, em ambos os lados, à volta deles, os mais diversos tipos de seres vivos: cabras, ovelhas, porcos, vacas e até mesmo pessoas como eles.

Um verdadeiro presente da natureza. Aquilo que Adão, Eva e Nachash mais queriam: uma visão descomunal de nova vida. Eva era a mais emocionada, não contendo mesmo as lágrimas de alegria.

— E-Eu não sei o que aconteceu, mas... parece que já não estamos mais sozinhos — dizia Eva, empunhando o mais grato dos sorrisos.

— Hm — Nachash sorria tranquilamente.

— Sim — Adão afirma, igualmente grato.

... 

Os três estão sentados num rochedo. As ondas do mar, sossegadas, não faziam estrondo ao baterem contra a pedra.  O sol se punha numa paisagem vasta e linda, o horizonte fotográfico, e era essa estrela que os três contemplavam. A abstenção de qualquer som para além do provocado pelas ondas adicionava um efeito sublime à experiência.

— Ei, Nachash — Adão chama pelo amigo, este que se encontrava sentado ao seu lado direito.

— O que foi? — Nachash não desvia o olhar da vista esplendorosa. 

— Quando apareceu para nos ajudar, por um momento parecia que tinha visto um fantasma. O que é que... exatamente você viu?

O que escondia o capuz do encapuçado, perguntava Adão.

A pergunta fez Nachash submergir nas suas lembranças, nadando até à memória do momento - uma visão aterradora que fazia mesmo agora a Serpente Falante estremecer. O que era... aquilo?

— Nachash?

— Huh? Ah... aquilo foi apenas impressão minha. Nada mais, nada menos do que isso.

A criança ocultava, ainda não acreditando naquilo que havia visto.

— Hum... — Adão revirou os olhos para o menino de olhos esverdeados — Mais uma coisa...

O que o jovem de olhos encarnados queria agora perguntar era a respeito daquele poder que a serpente manifestou provisoriamente; a cobra colossal que castigou o encapuçado num aperto violento no pescoço.

Uma cena brutal que Adão custou relembrar. Podia sentir ainda o pavor pelo qual passou interiormente. Por um segundo, um terror ainda maior do que aquele que os “monstros” (encapuçados) o fizeram atravessar.

— Nada... não era nada... — Adão desistiu, assim, de colocar a questão em cima da mesa.

— Ei, Nachash... — desceu os olhos e curvou a cabeça.

Sim, naquele momento Adão sentiu medo do atual Nachash... e agora não conseguia deixar de temer o “futuro ele”.

— Não mude.

Aquele era um receio que ninguém imaginava que fosse ser o prenúncio de uma grande desgraça que atingiria os três... e os deixaria novamente sozinhos.

Essa é uma história que remonta aos primórdios da humanidade, um tempo em que nada existia.

Nada, exceto três jovens e pequenos pintassilgos que abriram as asas e, aos poucos e poucos, enquanto crescem, continuam a descobrir-se a si mesmos.

O conto deles continuaria e, eventualmente... acabaria. 

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Esta já é uma história que remonta a um tempo que ainda estava para vir, mas que não viria se outros tempos não o tivessem antecedido e outras histórias passadas principiado o enredo desta nova história.

Este é um conto que, ao contrário do que aparenta, começou muito antes, quando ainda o seu protagonista não era nascido, e que só terá o seu final quando todas as peças do quebra-cabeça forem montadas corretamente.

Um jovem de cabelos dourados sonha: dois rapazes, um de cabelos vermelhos e outro de cabelos esverdeados, e uma moça que surgia no meio deles. Quem seriam eles...? 

O rapaz loiro de 16 anos, estatura média e de olhos de um tom verde escuro, desperta do seu sono. Ao lado dele encontra-se de pé um homem alto, possivelmente nos 30 anos. Este indivíduo envergava uma capa preta revestida a ouro.

O moço pergunta ao sujeito se “este” fora “mais um sonho”. O homem confirma. 

Os preparativos estavam prontos.

O jovem ergue-se da cama e também ele se veste no padrão do suposto companheiro, um capuz a esconder lágrimas invisíveis, suas e de outros.

No seu peito uma cruz preta vibrante surge, iluminando o escuro quarto com a sua vivacidade. Aquele também era um prelúdio... do que estava por vir.

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Um menino de oito anos está inconsciente no gramado de um parque. Tem olhos verdes claros e cabelo da cor do ébano, as roupas esfarrapadas e ensanguentadas, cicatrizes que demorariam a sarar na testa e nos braços. 

Julgando pelo seu aspecto desgastado e pelas feridas espalhadas pelo corpo, qualquer um acharia que ele era um sobrevivente de alguma guerra ou uma vítima de uma grande catástrofe. Esse podia, como não podia ser o caso. 

Mas independentemente do porquê e de como ele foi ali parar, que são questões que com o tempo serão naturalmente respondidas, devemos atentar que nada acontece por acaso.

O destino é reservado para aqueles que forem escolhidos.

E esse pequeno e inocente rapaz, assim como os que vieram antes dele e aqueles que neste exato momento giram a roda que move o mundo, terá o seu próprio e influente papel nesta história.

É o nosso protagonista e esse é o início de uma “mentira”, uma aventura em busca da verdade.

O seu nome é...



OBSERVAÇÃO: qualquer conceito ou moralidade religiosa utilizada nesta obra não reflete nem representa a ideologia ou os princípios morais do autor. Todas as referências têm como único intuito o proveito do potencial criativo e meramente ficcional. Qualquer semelhança com a realidade é absoluta coincidência.

 

Por ScryzZ | 01/09/18 às 20:04 | Ação, Aventura, Fantasia, Drama, Romance, Portuguesa, Mistério