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Capítulo 00 - Prelúdio

O Livro da Ordem (LDO)

Capítulo 00 - Prelúdio

Autor: Urano | Revisão: JenX

O céu estava negro. Era um dia de chuva torrencial, nuvens escuras se estendiam por inúmeros quilômetros, atravessando toda a extensão do continente. As águas dos rios, diante da tormenta, corriam ao contrário, árvores eram arrancadas do chão e a gravidade se tornava inconstante, como se as próprias leis do universo estivessem em desordem.

Todos os animais em um raio de milhares de quilômetros fugiam por suas vidas.

Parecia que aquela tempestade iria durar para sempre. Raios desciam dos céus e atingiram as inúmeras construções que haviam acima de uma enorme e extensa cordilheira. Aquelas torres, mansões e palácios pareciam formar uma cidade onde seres celestiais viviam, cobrindo toda a extensão da cadeia de montanhas.

Enquanto torres tão grandes que cortavam os céus caiam diante do poder tirânico de trovões divinos, a terra tremia, o chão se abria e magma fluía para fora. A implacável tempestade estava determinada a destruir aquele lugar.

Em meio aquela cena de destruição em massa, uma única figura solitária olhava para a gigantesca e majestosa cadeia de montanhas, que agora caía aos pedaços. Era um homem com a indiferença estampada em seu rosto. Ele vestia uma longa batina totalmente branca e havia aura santa rodeando seu corpo. Uma auréola dourada flutuava acima de sua cabeça, enquanto seis asas de cor perolada saiam de suas costas e mantinham-no voando no ar.

Aquela pessoa era como um enviado dos céus.

Seu cabelo grisalho e aparência de meia idade carregavam um ar de sabedoria ancestral e seus olhos pareciam conter os segredos do universo.

Neste momento.

Várias silhuetas voaram para fora da cordilheira que estava sendo assolada pela tempestade. Suas auras eram aterrorizantes, cada uma dessas pessoas possuía cabelos escarlates profundos, da mais pura cor de sangue. Todos usavam mantos negros com um único ornamento branco no peito, representando a imagem de uma lança.

"Santo Papa Grish." O homem que liderava o grupo falou friamente, uma intenção assassina que poderia rachar os céus sendo exalada de seu corpo. O ar pareceu reagir a essa poderosa sede de sangue e tremeu violentamente, causando ventanias nas proximidades.

 

Sua aparência era terrível, estava ferido e seu corpo sangrava em algumas partes. Seus cabelos escarlates curtos e bem aparados estavam bagunçados. Ele possuía olhos negros tão profundos quanto os nove abismos infernais.

A situação das pessoas que o acompanhavam não estava muito melhor. Todos haviam sido feridos pela tribulação celestial.

A figura que detinha o cargo de Papa não pode deixar de sorrir. "Lorde Leorio."

Suas palavras varreram as furiosas ventanias que haviam se formado nas proximidades e pareciam conter uma poderosa vontade santa. Seu corpo brilhava com uma luz dourada, que contrastava com o cenário escuro e caótico.

"Onde está a Líder do Clã Belfegor? Onde está Elise?" A frase que saiu de sua boca soou muito mais como um mandato divino do que uma pergunta.

"Entendo, então você alcançou tal nível de poder..." Um frio sem precedentes percorreu a espinha do Lorde Leorio, ele sentiu uma sensação de crise incomensurável. Foi como se estivesse de frente para um deus que desceu ao mundo mortal.

"Eu fiz uma pergunta." As palavras do homem de batina ecoaram com uma pressão enorme. O Lorde foi atingido pela aura soberana e vomitou uma boca cheia de sangue, segurando seu estômago e ofegando. Sua expressão, que antes mantinha certa compostura, agora era de puro desespero.

"Mesmo que eu morra--"

As palavras do Lorde Leorio foram interrompidas.

Seu corpo voou quilômetros para trás, ele cuspiu outra boca cheia de sangue e um enorme buraco surgiu onde antes estava seu estômago. Suas tripas escorriam e era possível ver os ossos se encravando na carne, quebrados e dilacerados, enquanto os órgãos ruíam e o sangue jorrava sem fim.

"Ha! Digno de ser o Vice Líder do Clã Belfegor, a vitalidade de seu corpo é notável. Olhe só, aguentar um ataque com 60% de minha força sem morrer, o caminho do demônio certamente trás benefícios perversos." O Santo Papa Grish sorriu indiferentemente.

As várias pessoas do Clã Belfegor que estavam seguindo Lorde Leorio se tornaram como estátuas de gelo, suas faces estavam pálidas ao ponto de não parecer haver qualquer sangue nelas, o medo havia dominado seus corpos.

"GRISH!" Uma onda de fúria sem fim tomou conta do homem de cabelos escarlate, que se mantinha vivo e consciente mesmo com um rombo no meio do estômago; só por este ponto, podia-se notar que a força vital dele era muito poderosa. Seu corpo pareceu explodir em um estado de ira sem fim, sua aura se multiplicou por várias vezes e pareceu adquirir poderes infinitos quando avançou ferozmente contra o sujeito de batina.

Grish, novamente, apenas sorriu. Seu rosto não exalava qualquer desdém ou arrogância enquanto olhava para aquele homem, como se ele não fosse nada além de um grão de poeira, cujo poderia ser varrido com o menor movimento de suas palmas.

Ele não se moveu, apenas lançou um olhar para Leorio. Seus olhos tingidos de prata cintilaram em uma luz pálida e fria.

Sem que o dito Papa movesse sequer um dedo, o corpo do homem de cabelos escarlate de repente estremeceu no meio de seu voo. No instante seguinte, o poderoso Lorde Leorio se dividiu em inúmeros pedaços de carne sangrenta.

No momento que foi atingido, seus olhos pareciam repletos de um grande arrependimento, mas ainda brilhavam com uma luz inextinguível. Naquele instante, uma única pessoa estava em sua mente e, apesar de ser apenas a imagem dela, ainda assim confortou sua alma, mesmo na morte. "Elise, obrigado." Ele murmurou para si mesmo, antes que até seu rosto fosse dividido em micro pedaços, como grãos de poeira.

O olhar que o Santo Papa Grish havia dado ao Lorde Leorio foi direcionado a todos os outros que estavam nos arredores.

Eles sequer tiveram chance de protestar antes de serem cortados em micro frações, virando partículas irreconhecíveis, que foram levadas ao vento pela poderosa tempestade.

O Santo Papa Grish varreu suas íris pela cordilheira, até trancar em um lugar específico. Seu corpo piscou em uma luz esbranquiçada e desapareceu, como se ele nunca estivesse ali em primeiro lugar.

...

Nas profundezas escuras daquela interminável cadeia de montanhas que desabava, havia um enorme e majestoso salão negro, iluminado pela luz de incontáveis velas que brilhavam em um tom vermelho magnificamente belo.

Existia uma única figura nessa sala, uma mulher linda que parecia divina.

"Meu querido, logo você estará a salvo." A voz dela soou como se sinos de prata tocassem, a própria natureza foi influenciada por suas palavras, cada movimento de seu corpo parecia conter uma infindável conexão com os céus e a terra. Todavia, sua voz parecia conter uma tristeza e desamparo incomparáveis.

Seu rosto era belo, usava o mesmo manto negro que as pessoas mortas pelo Santo Papa Grish utilizavam, seu cabelo possuía uma cor negra e descia até a metade de suas pernas, como se fosse uma cachoeira de nanquim. Em sua testa, uma única marca com formato de uma lua minguante vermelha estava estampada.

Em seus braços, ela segurava um bebê. Um pequeno garoto recém-nascido, que tinha curtos cabelos escarlates e uma solitária marca de uma lua minguante vermelha em sua testa.

Ela olhou com um infinito carinho para aquela criança, era seu próprio filho e, nesse momento, sua única esperança.

No meio do salão havia um enorme círculo gravado com inúmeras runas estranhas de cor branca, parecia uma matriz gigante.

"Eu queria poder cuidar de você. A mãe queria te ver crescer, meu filho, por favor... Por favor... Me perdoe, eu fui fraca. Foi tudo culpa minha, Leorio, seu pai, m-mo..." Quando ela falou até aqui, lágrimas escorreram de seus olhos. A mulher não foi capaz de pronunciar sequer mais uma palavra.

As lágrimas pingaram sobre a barriga do garoto que estava enrolado em uma manta vermelha, ele sentiu algo gelado e lentamente abriu seus olhos. As íris dele eram como grandes pérolas negras que continham um brilho místico.

Parecendo entender que ela estava sofrendo, o bebê estendeu suas mãos rechonchudas, tentando tocar seu rosto.

A mulher não conseguiu se segurar e abraçou com grande ternura seu pequeno filho. Ela sabia que seu tempo estava acabando, mas se sentiu relutante em deixar a criança ir.

Sua voz soou pelo salão, enquanto ela murmurava algumas palavras irreconhecíveis. As runas que formavam a matriz começaram a brilhar em um tom esbranquiçado que deixou a sala, antes escura, totalmente iluminada.

Gentilmente, a mulher de cabelos negros tocou a testa de seu filho, algo como um anel de cristal branco surgiu da palma de sua mão, parecia ter atravessado o espaço. O anel foi sugado pela peculiar marca vermelha que havia na testa do bebê. Logo, aquela pequena lua minguante se desvaneceu, parecendo afundar na pele do garoto.

Ela levou seu filho até o centro da matriz, colocando ele no chão. Seus olhos pareciam desolados e, ao mesmo tempo, com um único e vívido traço de esperança.

Neste momento, a sala em que ela estava tremeu como se um terremoto assolasse a terra.

"Parece que ele está chegando..." A mulher não pode deixar de suspirar pesadamente.

"Adeus, minha criança. Peço que perdoe sua estúpida mãe. Por favor, viva da melhor forma que puder e, um dia, você talvez seja capaz de vingar nosso Clã Belfegor. Quando esse dia chegar, meu filho, estaremos todos torcendo por você." Seu pranto se intensifica a cada segundo que passava, ela tremia e possuía um semblante repleto de falta de vontade.

Uma forte luz prateada brilhou.

No instante seguinte, o bebê já havia sumido.

"Elise!" Uma voz pesada e imponente soou como trovão por toda serrania, abalando as estruturas das construções sobre ela.

Uma única figura, com seis imensas asas brancas nas costas apareceu no salão, como se tivesse se teletransportando para lá.

Vendo este homem, a mulher sentiu um denso temor nas profundezas de sua alma. Ela não enrolou e, acenando com sua palma, a matriz que havia acabado de utilizar foi destruída em uma onda de poder tirânico. Quando finalmente conseguiu enviar seu filho em segurança e desmantelar a formação, sua expressão suavizou-se.

Olhando para esta ação, o Papa se sentiu furioso. "Você...!"

"Enquanto meu filho viver, nosso Clã Belfegor nunca perecerá." Um sorriso que carregava infinita convicção apareceu na face de Elise, seus cabelos negros ondularam ao vento.

O Santo Papa Grish sentiu um pesar com essas palavras, mas ele não podia aceitar algo assim. Estava determinado a exterminar esse clã de hereges. Mesmo que tivesse de atravessar o tártaro para matar essa criança, ainda o faria.

"Cria do demônio, morra!" A fúria incontrolável do Papa explodiu em uma onda de energia. A inundação de poder atravessou o vazio e perfurou Elise, permeando cada célula de seu corpo.

Nesse momento, seu destino estava traçado...

...

Em um canto distante, num país qualquer, em uma cidade remota...

Um velho trajando vestes marrons e usando um óculos surrado, estava varrendo a neve na frente de um edifício, cujo parecia antigo e desgastado. Apesar da aparência miserável, três grandes palavras ainda eram visíveis no letreiro acima da porta desse lugar.

"Biblioteca Flor de Cerejeira".

O velho estava falando consigo mesmo e tinha uma expressão mal humorada. "Aquele vagabundo deixou este velho pra limpar a neve, ainda mais agora que o clima enlouqueceu e começou a nevar em pleno verão, que tipo de punição dos céus é essa? Minhas costas, ah! Minhas costas! Um homem culto e de idade como eu tendo que fazer trabalho manual, onde foi meu prestígio como bibliotecário? Céus! Onde?!"

Ele estava prestes a esbravejar mais algumas maldições e xingamentos, quando de repente ouviu um som estranho.

Era... Algo como o choro de uma criança.

O velho esboçou uma expressão de estranhamento, encostou a vassoura na parede externa da biblioteca e tentou seguir a direção do som. Apesar de seus ouvidos não funcionarem tão bem quanto deveriam, ele ainda conseguiu encontrar a fonte do som, pois o choro era bem alto.

Em meio a neve branca, na escuridão da noite e iluminado apenas pelo luar, um bebê envolto em uma manta vermelha estava deitado, chorando como se houvesse perdido seu brinquedo favorito.

Os cabelos daquela criança eram de cor escarlate.

Olhando aquilo, o velho sentiu seu coração palpitar e pegou-o no colo.  Ele balançou o bebê de um lado para o outro, tentando acalmá-lo. O recém-nascido foi relaxando e abrindo os olhos. Suas íris negras eram como duas grandes pérolas escuras.

Naquele momento, de alguma forma, o velho bibliotecário sentiu um estranho sentimento de familiaridade e afeição. Segurando o pequeno garotinho recém-nascido, que parecia tão frágil que poderia quebrar a qualquer momento, o velho, normalmente ranzinza, teve uma rara expressão complacente em seu rosto e sentiu uma estranha sensação.

A sensação de que deveria cuidar desse garoto.

A sensação de que não poderia deixá-lo sozinho.

Por Urano | 17/08/20 às 12:27 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Xuanhuan