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Capítulo 08 - Oceano de Sangue

O Livro da Ordem (LDO)

Capítulo 08 - Oceano de Sangue

Autor: Urano | Revisão: JenX

Atravessando um espaço distorcido, tudo a sua volta parecia girar e expandir, contrair e estacionar, destruindo-se e se reconstruindo de maneira infindável. Era como atravessar um vórtice espaço tempo.

A visão de Fang escureceu...

Os olhos do rapaz abriram, com uma luz ofuscante atravessando-os. Ele piscou repetidas vezes, seus glóbulos ficaram úmidos, tentando hidratar-se para suportar a luminosidade. O que viu em sua frente o causou uma mistura densa de emoções, ao contrário do que esperava, não mais estava vislumbrando seu espaçoso quarto de madeira, humilde e bem organizado.

Seus olhos passeavam na paisagem, um imenso céu carmesim selando o horizonte. Nuvens brancas, de todos os tamanhos e formas vagueavam no alto, como manchas desbotadas numa pintura cinabre. Duas luas em um tom de vermelho acinzentado pálido estavam altas no céu, julgando o mundo abaixo, como estátuas divinas de deuses antigos que governavam toda a existência.

Ele ergueu o tronco, apoiando-se em suas mãos, ainda perplexo. Uma brisa fria passou, levando seus cabelos escarlates a dançar nos ares.

Ao seu redor, tudo que via era um infinito “chão” cor de sangue. Na verdade, o “solo” parecia líquido. Leves ondulações surgiam na superfície quando Fang se movia, mas por algum motivo, podia manter-se de pé acima desse “mar”.

Demorou um tempo até a expressão de choque na face do garoto se acalmar. Ficou de pé, olhando ao redor. O vento gélido e a paisagem tenebrosa faziam seus cabelos arrepiarem. ‘ Onde...? ‘ Tudo em seu campo de visão era um infinito oceano que parecia ser feito de sangue, subjugado por um céu carmesim e esmagado por duas enormes luas.

Fang começou a andar, enquanto o líquido abaixo de seus pés ondulava com cada passo. Estava admirado, chocado, sem saber como responder. Toda a sua mente parecia confusa.

Todavia, o jovem ainda foi capaz de sentir uma única sensação claramente.

Conforto.

Nessa “dimensão” estranha, ele se sentia confortável, parecia ter retomado algo que há muito tempo se perdeu, como se houvesse voltado para seu lugar de origem. Não se sabe quanto tempo passou, mas Fang continuou caminhando pelo eterno oceano de sangue.

Enquanto andava, a Energia Espiritual – também chamada de Qi – que existia nesse lugar começou a calcorrear até seu corpo. Assim que entrou nesse local, o rapaz sentiu que o ar era várias vezes mais pesado do que na Cidade Flor de Cerejeira, tanto que se tornava difícil de respirar.

‘ Esse ar... Sim, li sobre isso, o ar pesado é sinal de uma grande concentração de Qi. Apenas... aonde eu vim parar...? ‘ Fang aos poucos retomava a plena racionalidade, enquanto se acostumava com essa paisagem horrendamente bela. Era possível sentir a energia em seu interior ser alimentada e reforçada, uma sensação tão clara que deixava Fang espantado. 

Sob a influência desse espaço estranho, seu cultivo havia se consolidado no terceiro estágio do Reino Terrestre, agora, a quantidade de Qi em seu corpo era um tanto mais abundante e pura do que a de um praticante normal no mesmo nível.

Enquanto vagueava pela dimensão peculiar, o rapaz notou uma mudança nesse espaço.  Uma luz ofuscante brilhava ao longe, tal qual uma estrela em miniatura acima do oceano de sangue. Fang, que não tinha ideia de como sair desse lugar, tampouco sabia o que estava acontecendo, tomou a única decisão que lhe restou.

Seus passos se tornaram mais rápidos, enquanto avançava até o ponto brilhante no horizonte. Chegando perto, pôde ver o que dava origem ao brilho estonteante.

Era algo como um... Anel.

Um anel branco que parecia ser feito de cristal.

Enquanto se aproximava, Fang conseguiu sentir de maneira mais nítida a aura exalada por esse item curioso. E, quando notou algo, seus olhos cresceram na forma de duas luas cheias. ‘ Esse anel tá liberando energia? ‘

Era possível ver o Qi Espiritual fluindo a olho nu. Ela descia aos montes em cascata, como uma cachoeira. A Energia Espiritual era tão densa e profunda que o garoto não pôde nem chegar perto de estimar seus limites. Apenas olhando de longe, ele se sentia pressionado. Todo Qi naquela dimensão vermelha aparentava ser provido de forma exclusiva pelo anel cristalino.

Fang não queria avançar e ser atingido pelo rebote de estar rodeado por uma energia tão poderosa, mas que outra opção tinha?

Vindo parar em uma dimensão estranha, sem sequer saber como isso aconteceu... ‘ Espera, a maneira como eu vim pra cá foi... ‘ De repente, em um flash de memória, a imagem da lua em sua testa surgindo e brilhando ainda mais forte do que nunca flutuou por sua cabeça. Na verdade, o garoto se sentiu um pouco burro por não ter notado isso antes.

“É claro, Fang, do nada você é transportado para um espaço bizarro e nem cogita que isso tenha a ver com a porra da marca estranha na sua testa? Genial. Palmas pra você.” Ele começou a zombar de si mesmo em voz alta, batendo palmas. Talvez passar tanto tempo nesse lugar estranho tenha afetado um pouco sua sanidade mental, já que por algum motivo ele havia achado isso muito engraçado e não conseguia parar de rir de si mesmo.

“Ai, ai...” Murmurou, segurando sua barriga enquanto tentava recuperar a compostura.

‘ Esse espaço é um lugar conectado com aquela lua estranha? Ela teletransportou meu corpo ou algo do tipo? Não sei se é realmente meu corpo, talvez só minha consciência... De qualquer forma, não tem por que pensar nisso agora, não vou descobrir nada desse jeito. ‘

Seus olhos se voltaram para o anel de cristal, enquanto hesitação transpareceu em sua face. A pressão que sentia quando observava naquela direção era algo surreal, cobria desde seu corpo físico até sua mente, afetando o estado de espírito. O anel esmagava o espaço ao redor, espremendo toda a existência para o vazio.

“Bem, é minha única opção, então...” Ele começou a caminhar em direção àquela coisa. A cada passo que dava, a pressão que sentia aumentava em diversas vezes.

Dez passos, seu corpo fraquejou e suas costas arquearam.

Vinte passos, sua respiração se tornou ofegante.

Trinta passos, cada movimento exigiria uma enorme quantidade de força, a Energia Espiritual ao redor dele foi absorvida por seu corpo, Fang sentiu que podia explodir a qualquer momento.

Quarenta passos, ele mal mantinha seus olhos abertos, mas ainda que pensasse em dar meia volta e rastejar para segurança, não via outra opção a não ser esta. Havia andado por minutos, horas, talvez dias por esse oceano de sangue, não sabia quanto tempo se passou ou se estava chegando em algum lugar.

Esse anel de cristal talvez fosse sua única saída. Além disso, ainda havia coisas que ele queria fazer na Cidade Flor de Cerejeira. A imagem do rosto severo de um velho baixinho piscou em sua mente. Depois, lembrou-se da biblioteca e dos momentos que tinha passado lá, recordou-se de como seu avô amava aquele local e não queria deixá-lo de forma alguma. Fang rangeu os dentes.

Ele não podia deixar aquela biblioteca velha sem um dono.

Cinquenta passos, se mover por centímetros demorava dezenas de minutos, se mover por um metro levava horas. Mesmo assim, ele persistia. A energia em seu corpo não enfraqueceu, pois estava sendo absorvida e drenada pelo esforço contínuo que exercia.

Sessenta passos... Fang cuspiu sangue. O sangue pareceu ser absorvido pelo oceano abaixo dele. Sua camisa azul foi manchada, ficou com a boca repleta de um gosto metálico. Naquele momento, a motivação que a imagem de seu avô o dera parecia estar se extinguindo aos poucos. No final, ele também era um humano. As pessoas possuíam força de vontade limitada e quando sob uma infinita pressão como a que Fang sofria, seus corações iriam bambear.

Questionamentos sobre seus próprios valores pairavam na mente do rapaz. Ele ainda era novo, não havia sequer amadurecido ao todo.

Suas inseguranças e medos, a falta enorme que sentia de seu avô, o peso da possibilidade de jamais retornar para Cidade Flor de Cerejeira. Tudo isso se intensificou, o jovem quase não conseguia aguentar, apenas movendo o corpo para frente por instinto. Ele se lembrou dos momentos ruins de sua vida, das piores coisas que já viveu, de quando descobriu que seu avô havia morrido.

Uma sensação tão horrenda quanto afundar em um oceano, afogando-se sem poder morrer, sem conseguir sequer um resquício de oxigênio. O coração dele tremeu, uma dor profunda, que não fora causada pela pressão ou perda de sangue, era algo que vinha de sua alma, do âmago de seu ser.

Aquela dor... Foi a pior coisa que já sentiu. Pior que dor física, que dor emocional, pior do que quando quebrou o mindinho batendo-o numa quina, pior do que quando foi obrigado a treinar artes marciais, pior do que quando perdeu seu avô. Isso porque o que sentia nesse momento era um compilado de todo o seu sofrimento anterior. Algo inimaginável, que nenhuma pessoa no mundo iria querer sentir.

No final... Fang era apenas um garoto, não era? Como um jovenzinho comum como ele poderia passar por essa provação infernal...? Melhor dizendo, por que tinha de passar por isso? Ele não pediu para vir a este espaço estranho. Fang não queria isso.

Então por quê? Por que, nesse momento, estava passando por algo tão horrendo que faria qualquer ser vivente agonizar em desespero?

‘ Eu... Eu... ‘ Seu corpo cedeu, dando de cara no “chão”. A pressão esmagou sobre suas costas, ele achava impossível dar um passo à frente, enquanto a vontade de deixar-se perecer brotou em sua cabeça.

Todavia.

A vida poderia ser injusta, maléfica, cruel e aterrorizante, ainda assim, ela sempre deixava uma saída.  Se a porta estivesse trancada, a janela estaria aberta, mesmo que fosse a janela do segundo andar e você tivesse que dar um salto de fé para escapar, ainda estaria aberta.

Os momentos ruins de sua vida, que antes vinham como um furacão, começaram a dar lugar para os bons. Depois de tanto se perguntar o que de bom havia em existir e chegar a considerar a morte, Fang finalmente se recordou. Suas lembranças divertidas com seu avô, os bons momentos que tinha passado com Jian Linyu, os bons livros que leu, as comidas deliciosas que provou, suas brincadeiras com o Tio Hao e os treinamentos sempre maçantes do Instrutor Su.

O sorriso brilhante de Jian Linyu pareceu iluminar sua cabeça, o abraço caloroso de seu avô aqueceu sua mente, as lembranças das aulas particulares de lança que o Tio Hao havia dado encheram-no de empolgação, enquanto os treinos do Instrutor Su lembravam-no da boa sensação de zombar da cara do velho careca.

Assim, algo surgiu em suas veias, uma força poderosa que corria pelo seu corpo como dragões ancestrais voando nos céus.

Claro, isso não era nenhum tipo de “poder da amizade”.

A lua minguante vermelha brilhou em sua face. Ela brilhava de forma tão poderosa que a luz emitida pelo anel de cristal pareceu ser ofuscada. Subjugando a energia violenta nos arredores, a pressão que caia em Fang foi diminuída. Ele pode respirar um pouco melhor e seus olhos, que antes quase estouravam com veias rubras, relaxaram. Ainda estava em choque pelo estado de profundo desespero que havia adentrado.

Levantando-se, ele respirou ofegante. Suas costas estavam perigosamente arqueadas e a coluna parecia prestes partir ao meio. Um passo para frente, a força tirânica que descia nele potencializou-se.

Mesmo assim, seu ímpeto não diminuiu. O desespero que havia sentido antes agora era expresso em uma plena insanidade que o forçava a continuar. Se você pedisse para descrever o que ele estava sentindo nesse exato momento, eu diria que...

Fang apenas não queria perder!

Apesar de não simpatizar com as artes marciais por alguns motivos, ele ainda era alguém competitivo, assim como qualquer outra pessoa, a competitividade e sede de vitória o impulsionavam para frente. O sangue em suas veias alavancou essa emoção insana, forçando-o a continuar.

O rapaz alcançou a marca de setenta passos. Seu ritmo não suavizou, um sorriso rasgado pintava seu rosto em loucura.

Oitenta passos... Seu corpo despencou para o chão. Ele não podia se manter de pé. O Qi Espiritual começou a batizá-lo em tirania, corroendo sua pele e dilacerando suas fibras musculares. Contudo, isso não acabou com sua força de vontade, rastejando pelo chão, ele ainda se aproximava do anel de cristal.

Noventa passos, sangue escorreu de seus olhos, orelhas e nariz. Ele cuspiu mais uma boca cheia de um líquido de gosto metálico, cada um de seus movimentos custando enormes quantidades de força, que sequer sabia de onde retirou...

Noventa e nove passos. Sua mente flutuava em um único pensamento... Alcançar aquele maldito anel! O sorriso louco foi de orelha a orelha, seus olhos brilhavam em desvairo.

Utilizando das últimas forças em seu corpo, a mão esquerda de Fang ergueu-se. A luminosidade daquela coisa parecia queimá-lo, ordenando para que se afastasse, mas o jovem nem sequer pensou em hesitar, não depois de tudo que tinha passado.

E então...

Fang pegou o anel.

Por Urano | 28/08/20 às 17:30 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Xuanhuan