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Capítulo 09 - O Livro da Ordem

O Livro da Ordem (LDO)

Capítulo 09 - O Livro da Ordem

Autor: Urano | Revisão: JenX

A luz difusa desceu, cobrindo o corpo caído de um rapaz de cabelos escarlates. Ele abriu os olhos, tomando vislumbre do eterno céu carmesim repleto de nuvens brancas, com duas luas que pareciam querer esmagar o mundo abaixo. Era um lugar horrivelmente belo.

“Então não foi um sonho...” Murmurou com uma voz fraca, seus lábios pálidos e secos. Sentia sede e fome, sentindo dores em diversas partes, suas roupas estavam manchadas de sangue e suor, imundas.

Ele tentou erguer-se. Os braços doeram quando apoiaram o torso levantado. Enfim, sem nem pensar em ficar de pé com a condição atual de seu corpo, o garoto se sentou da forma mais confortável que pôde sobre o infinito oceano de sangue. Sua mão direita tremeu, sentindo o toque gélido de algo. Quando Fang virou sua palma para cima, viu a causa do estado deplorável em que se encontrava.

Um anel de cristal branco.

‘ Não está emitindo energia? ‘ A primeira coisa que o rapaz notou foi que o item havia se acalmado. Ele não mais despejava uma forte corrente de Qi para fora, na verdade, não emanava sequer uma flutuação de Energia Espiritual. Olhando para o anel agora, parecia apenas muito comum.

“Essa não era a saída...?” Uma fúria enorme começou a crescer no peito de Fang. Ele olhou para aquele anel, parecendo encarar seu arqui-inimigo, alguém por quem nutria um ódio irreconciliável. Lembrando-se da dor que sentiu, do sofrimento, de ter beirado a loucura só para pegar esse anel, se sentiu cada vez mais enraivecido, a dor dilacerante que ainda pulsava em várias partes de seu físico potencializou a amarga memória. No final, que significado teve tudo isso?!

“Enfia no cu essa merda!” O jovem, em um impulso irado, segurou-o no alto e jogou no chão de sangue com toda a força que ainda lhe restava.

Todavia, quando atingiu o chão, o anel esboçou uma reação. Ele brilhou levemente, preludiando algo como uma explosão. Os olhos de Fang cintilaram em esperança. O anel de cristal havia reagido!

Jogou-se para pegar o item nas mãos novamente, segurando-o entre os dedos. Mais uma vez, usando de todo poder que conseguiu escavar de seu corpo, atirou o item contra o chão. O anel resplandeceu mais uma vez, mas a luz se foi tão rápido quanto veio. Fang suspirou fundo, tentando recuperar a energia perdida para efetuar uma terceira jogada em pleno potencial.

Mais uma vez, ele o agarrou e levou ao alto, lançando-o...

De repente, uma luz ofuscante foi emitida. Fang semicerrou seus olhos, colocando o braço na frente do rosto. ‘ Funcionou?! ’ Quando esse pensamento atravessou a cabeça do rapaz, um som de folhas balançando ao vento foi ouvido. O anel estava agora caído no chão, sem brilho algum, todavia, ao seu lado, havia um amontoado de papéis.

Fang arregalou os olhos, arrastando-se até essas páginas que surgiram do nada. ‘ Isso saiu de dentro daquele anel? ’ A imagem de Jian Linyu retirando itens de dentro de seu colar de armazenamento interespacial veio a sua mente.

Será que isso tinha a mesma função que o colar?

‘ Mas antes ele não estava liberando uma energia poderosa? Isso quer dizer que tem energia guardada dentro dessa coisa? Não, não pode ser, aquela quantidade massiva de Qi não poderia... ‘ Uma dúvida cruel atravessou seus pensamentos, fazendo-o se questionar inúmeras vezes sobre o mesmo assunto.

Fang, ansiosamente, pegou em suas mãos as folhas que haviam saído de dentro daquela coisa. Elas pareciam antigas, algumas tinham pontas amassadas, estavam rasgadas e até possuíam com manchas. Papéis amareladas, cheias de cicatrizes deixadas impiedosamente por Kronos. Era como observar um fragmento de uma enciclopédia ancestral, algo que exalava uma antiguidade superior a dos céus e da terra.

Só de olhar aquilo de perto, a alma de Fang sentiu-se restringida. Mesmo assim, as folhas pareciam chamá-lo, vozes vindas do além sussurravam em seus ouvidos, implorando para que ele tocasse, para que lesse o que estava nelas. O rapaz se aproximou, pegando-as em suas mãos. As folhas estavam ligadas, era como um livro sem capa.

No momento que as tocou, Fang sentiu-se flutuando no infinito vácuo do universo, mas não como um o belo vácuo rodeado de estrelas, auroras e planetas gigantes... Era apenas... Apenas o puro vazio, o void, a inexistência. Ele sentiu que sua forma havia desaparecido, sua consciência se tornou turva e, naquele instante, toda e qualquer coisa se tornou vazia de sentido.

Mas isso só durou por meio segundo.

Quando retornou a realidade, sua respiração estava ofegante e seu corpóreo, já calejado, sentia-se ainda mais fraco. O garoto respirou pesadamente, olhando com certa cautela para o “livro” em suas mãos. Logo na primeira página, estavam escritas algumas palavras. Ele leu cada uma delas, sentindo uma sensação indescritível atravessar seu corpo. Três sentenças estavam escritas, totalizando nove palavras...

 

O Livro da Ordem.

Capítulo Seis – Runas Existenciais.

Haise Urik, o Bibliotecário.

 

Essas palavras ecoaram na mente de Fang por um longo tempo, ele sentiu que em cada uma delas existia um poder profundo que se ligava com as leis da existência.

Fang virou a primeira página e começou a ler o conteúdo do livro, entendendo vagamente que estava falando sobre runas, escritas rúnicas, funcionalidade das runas, uso de runas em matrizes e coisas do gênero. Apesar de não compreender a maior parte e muito dos termos ainda serem estranhos para ele, estava imerso naquelas folhas.

O jovem não pôde parar de ler. Veias pulsaram em seus olhos e ele sequer piscou enquanto devorava página a página do capítulo...

Não se sabe quanto tempo passou, mas Fang virou a última página, fechando o amontoado de folhas. Sua mente estava nublada e informações sem fim das linhas que leu flutuavam nela, lentamente, sua visão foi escurecendo, o mundo ao seu redor perdendo a cor, até que, enfim, desmaiou.

...

A luz do sol agraciou a Cidade Flor de Cerejeira com sua presença. Apesar de ser um lugar quente e abafado o ano inteiro, as pessoas não odiavam esse clima.

Em um espaçoso, mas humilde quarto, numa biblioteca antiquada, que ficava em algum canto qualquer da cidade, estava um rapaz deitado em sua cama, desacordado.

Seus olhos se abriram.

‘ Meu quarto? ‘ Fang esfregou o rosto com a mão, tentando estabilizar sua consciência. Ele não sentia mais dores, mas estava exausto. Era uma sensação semelhante a ter sido espancado por três búfalos azuis. Seu corpo ergueu-se, sentando-se na beirada da cama.

Foi quando o rapaz ouviu o som do farfalhar de folhas. Ele olhou para seu colo, tomando vislumbre de um amontoado de páginas surradas e amareladas, que exalavam uma aura antiga.

Fang colocou a mão no rosto e suspirou fundo. “Ah... Que merda...”

‘ Apenas o que caralhos acabou de acontecer? ’ Pensou, enquanto revirava suas memórias. Nesse instante, sua mente estava repleta do conteúdo que conseguiu compreender em sua primeira leitura do capítulo seis desse tal “Livro da Ordem”.

Ele olhou estranhamente para as folhas. ‘ Afinal, o que é isso? Parece ser o capítulo de um livro, mas essas informações, o conteúdo nisso é absurdo, completamente ridículo, nunca vi nada parecido. Que porra é essa? ‘ É preciso saber que Fang era o que chamamos de “rato de biblioteca”, a quantidade de obras que já havia lido se não chegasse à casa dos milhares, pelo menos seriam várias centenas.

A maturidade que tinha também era fruto disso, mas, claro, o rapaz continuava sendo apenas um jovem com seus quatorze anos. As situações recentes foram tão esmagadoramente bizarras que sua mente havia caído em torpor. Ele não sabia o que devia fazer, como devia fazer, nem quando devia fazer. Era como estar em um espiral de incerteza infinita.

Fang suspirou, tentando recobrar sua estabilidade emocional. Além da experiência traumática, ainda tinha a onda de informações que recebeu lendo o Livro da Ordem. Mesmo que o que ele tenha compreendido equivalha a menos de um por cento do conteúdo total daquele capítulo, ainda era uma quantia massiva de informação.

Enquanto Fang tentava assimilar tudo isso, o som de batidas soou na porta de seu quarto. O garoto arregalou os olhos e abriu rapidamente a gaveta de sua mesa de cabeceira, escondendo o capítulo que estava em suas mãos.

“S-Sim?” Respondeu nervosamente.

A voz que soou foi grave. “Fang, um jovem chamado Bo Chang disse que tem algo a tratar com você, conhece ele?”

Aquele que falou era Fan Hao, também conhecido como Tio Hao. Na parte da manhã, esse homem vinha para cuidar da biblioteca, já que Fang costumava dormir até a tarde.

‘ Bo Chang? Então ele realmente veio. ’ Sua face se tornou solene. Decidiu deixar os pensamentos sobre o espaço avermelhado e o tal Livro da Ordem de lado, havia outras coisas nas quais tinha de se focar agora.

“Sim. Diga que já estou descendo e, por favor, prepare a sala de recepção para nós dois!” Fang falou, enquanto se dirigia ao banheiro que ficava ligado ao seu quarto por dentro, para lavar o rosto, aliviar o cansaço e trocar de roupas, já que as dele estavam encharcadas de suor.

Ouvindo Fang mencionar a sala de recepção, Fan Hao se encheu de estranhamento. ‘ Um convidado? Ele não parece ser alguém importante, me pergunto que tipo de coisas vão discutir... ’ No final, o homem acabou não pensando muito nisso, afinal, eram apenas adolescentes, não devia haver nada demais...

Como pedido, a sala de recepção estava pronta.

Ela era espaçosa e possuía uma grande mesa no centro, com assentos confortáveis para as pessoas que calhassem de vir para cá. As paredes adornadas com quadros e pinturas, o chão de madeira coberto por algum tipo de pano vermelho escuro. O lugar parecia menos surrado do que o resto da biblioteca.

Em uma das cadeiras, estava um jovem de olhos e cabelos castanhos, trajando roupas de seda branca, que o tornavam elegante. No extremo oposto da mesa, estava um garoto de cabelos escarlates vestindo uma camisa preta e um bermudão simples. Parecia que ele não se preocupava nem um pouco com seu visual nesse momento.

Ambos estavam tomando um chá doce, enquanto não se olhavam diretamente por algum tempo.

Depois de momentos de silêncio, Fang se pronunciou. “E então, sobre o que queria falar comigo?” O rapaz lançou um olhar interrogativo para o outro.

“Irmão Fang, você deve saber da localização geográfica da Cidade Flor de Cerejeira, não é?” Bo Chang não respondeu diretamente.

“Sim.” Ele respondeu, tomando outro gole de seu chá.

“Muito bem, ela fica próxima à fronteira entre a Região do Sol Ardente e o Deserto Cinza. A esse ponto, o Irmão Fang já deve saber que não sou uma pessoa da sua Cidade Flor de Cerejeira, certo?” Ele disse, lançando um olhar sugestivo para o jovem de cabelos escarlates.

O Deserto Cinza era uma grande extensão de terra desolada, caracterizado pela presença abundante de Areia Cinzenta, de clãs tribais, vilas remotas e um alto índice de Bestas Espirituais, fator esse que foi o principal contribuinte em tornar o tal oceano de areia um lugar temido por muitos e lar de inúmeros mistérios que talvez jamais sejam desvendados.

Bestas Espirituais eram criaturas assustadoras, inúmeras vezes mais poderosas e perigosas do que animais selvagens comuns. Mesmo Fang só havia visto uma em toda a sua vida, afinal, nunca chegou a sair dessa pequena cidade. Fora isso, o rapaz também tinha lido alguns livros que citavam estas existências, como bestiários, contos e até fábulas que as envolviam.

Existia uma famosa lenda que era caracterizada pela presença de monstros de altíssimo nível, cujo viveram na antiguidade, quando o mundo ainda era selvagem. Essa lenda contava sobre uma batalha feroz entre seis Bestas Santas que abalou todo o continente e mudou o rumo da vida de milhões de espécies.

“Então você vem do Deserto Cinza?” Fang estava um pouco curioso a esse respeito.

“Tenho uma proposta para fazer a você, Irmão Fang.” Bo Chang se desviou da pergunta.

Ele não respondeu, apenas esperando que o rapaz de cabelos castanhos continuasse.

“Já ouviu falar na Facção Tartaruga Cinza?”

Por Urano | 01/09/20 às 09:31 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Xuanhuan