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Capítulo 14 - Mestre Rúnico

O Livro da Ordem (LDO)

Capítulo 14 - Mestre Rúnico

Autor: Urano | Revisão: JenX

Enquanto isso, dentro do andar principal do Pavilhão de Jade, Jian Linyu embainhava sua wakizashi, guardando-a no colar de armazenamento interespacial. A lua na testa de Fang desvaneceu, mas ele mantinha-se firme.

“Quero os dois fora daqui em 10 segundos, caso contrário... Jade será manchada de sangue.” Jian Linyu falou, devolvendo as palavras deles direto em suas faces. Sua voz cheia de desdém.

“Voltem para o bueiro de onde vieram, ratinhos. Não ousem pisar em minha cidade outra vez.” A voz de Fang era tão fria quanto um lago congelado.

A expressão do homem de orbes azuis que tinha seu nariz sangrando pareceu aliviar-se. Ele era o que estava em melhor condição dentre os dois. ‘ Crianças ingênuas, eu ainda vou matar ambos da forma mais brutal que puder encontrar, aproveitem suas vidinhas patéticas enquanto ainda tem tempo pra isso... ‘ É claro, não ousou dizer isso em voz alta, porque não tinha dúvidas que seria espancado de novo se o fizesse.

A ira em seu coração parecia corroer até mesmo a alma, o Irmão Hun sabia que hoje não teria como resolver esse assunto, mas assim que retornasse para Facção Rocha Vulcânica... Esses dois pirralhos ingênuos experimentariam o inferno.

O Irmão Gu ainda estava com problemas para ficar de pé. Além do grande choque de ser espancado, se sentia humilhado por perder para alguns camponeses desconhecidos. Sua única vontade era retornar e reportar isso a um comandante o mais rápido possível. A hesitação em matá-los que a outra parte tinha era uma carta branca para isso.

O homem de íris azuis pegou o de olhos castanhos, fugindo com uma expressão amarga impressa em seu semblante.

Depois que os dois saíram, Fang e Jian Linyu enfim puderam suspirar aliviados.

O corpo de Fang cambaleou, sua face perdeu a cor e sua mente se tornou exausta. Tentou ao máximo manter-se de pé, mas o cansaço pesava.

Linyu, que já previa isso, não demorou ao avançar, cobrindo a distância entre ambos em poucos instantes. Ela agarrou-o, deitando o rapaz no chão, enquanto se sentava ao seu lado.

“Ah... Essa merda sempre exige demais de mim.” Fang falou, com uma voz fraca.

“Bem, pelo menos você não desmaiou como das últimas vezes.” Linyu deu uma curta risada enquanto olhava para o rosto do garoto.

“Poderia parar de rir do meu sofrimento? É sério, cara, por isso que eu odeio lutar...”

A jovem sorriu com ternura, levando sua delicada mão até o rosto de Fang, acariciando-o de forma suave. “Relaxa vai, vou cuidar de você. Obrigada pelo trabalho duro.”

Fang não se esquivou do toque dela, relaxando sob sua influência. “Ai, ai... Desculpa pelo jantar de hoje, no fim nós nem pudemos conversar direito.”

“Tá tudo bem, ainda vamos ter outras chances. Da próxima vez, que tal um lugar mais simples? Confusões assim são comuns em lugares grandes como o Pavilhão de Jade.”

“Um lugar mais simples, é?” Um sorriso travesso apareceu no rosto dele, enquanto considerava. “O que acha de almoçar na minha casa amanhã? Provar a comida do grande Fang aqui é um privilégio para poucos...” Enquanto dizia isso, tentou se erguer, apoiando-se sobre seus braços. A fraqueza em seu corpo estava se dissipando aos poucos.

Ouvindo isso, Jian Linyu se tornou um pouco tímida, a ponto de gaguejar sem notar. “N-Na sua casa?” Ela não sabia muito bem como responder. Em sua cabeça, diferentes respostas para isso flutuavam, travando uma batalha sangrenta para ver qual iria sair de seus lábios.

“Sim, vou fazer compras amanhã e teremos algumas iguarias, já que meu salário esse mês foi um pouco mais alto do que o comum. Eu ficaria triste se tivesse que almoçar sozinho com aquele velho Tio Hao.”

O salário que mencionara que ganhava vinha de seu trabalho na biblioteca. Apesar de Fan Hao sempre vir para cuidar da biblioteca pela manhã, na verdade trabalhava na forja e apenas fazia o primeiro porque tinha grande simpatia por Fang e respeitava seu falecido avô.

Tirando isso, Fang costumava trabalhar na biblioteca de tarde e tirava um tempo livre de noite. Na Cidade Flor de Cerejeira, a única biblioteca era essa e a maioria dos livros havia de ser comprado ou alugado, então para quem queria ler, ir até lá foi a única opção. A Biblioteca Flor de Cerejeira poderia ser dita como tendo um enorme acervo de conteúdo, que Fang conhecia de cabo a rabo, pois leu e releu cada um dos livros presentes naquele lugar através dos anos.

Mesmo se você fosse comparar com a biblioteca particular do Lorde da Cidade, ela não teria um acúmulo de livros tão grande quanto a outra, portanto, até mesmo os membros da Família Li faziam suas compras na Biblioteca Flor de Cerejeira.

Jian Linyu não via motivos para recusar e, mais do que isso, ela queria provar a comida preparada por Fang, queria tanto que sua cabeça estava preenchida com o questionamento: ‘ Como será que ele fica quando está cozinhando? ’

“Mm... Amanhã de tarde na sua casa?”

“Amanhã de tarde na minha casa.” Fang sorriu.

...

Mais tarde naquela mesma noite, em um quarto espaçoso feito de madeira, numa antiquada biblioteca.

O rapaz se jogou de costas na cama, exausto. “Ah... Que merda, eu só queria aproveitar aquele encontro, mas no fim tive que usar aquela coisa de novo.” Toda vez que ativava a lua minguante, o garoto sentia que tinha algo aos poucos despertando dentro dele. Ele não sabia o que, não tinha certeza se era bom ou ruim, mas mesmo assim parecia problemático.

A noite que devia aproveitar com Jian Linyu se tornou uma batalha sem sentido contra dois estranhos que vieram para estragar a felicidade dos outros, isso o deixou estressado.

Depois de tudo, o gerente do Pavilhão de Jade ainda havia vindo agradecê-los pela ajuda, falando que teria de fechar o restaurante por enquanto, mas que os dois possuiriam passe livre para vir comer aqui de graça outras vezes, tanto pelo transtorno que foi causado, tanto pelo serviço que eles prestaram ao estabelecimento. Contudo, nem Fang nem Jian Linyu planejavam voltar àquele lugar tão cedo assim.

Os recentes acontecimentos abalaram a paz interior de Fang, tudo aconteceu muito rápido e o rapaz não teve tempo nenhum para se acostumar. Na verdade, quando pensava sobre o espaço vermelho e tudo aquilo, ele se sentia assustado.

Virou sua cabeça, observando a gaveta fechada onde estava o capítulo que havia conseguido do Livro da Ordem, o rapaz suspirou, levantando-se e abrindo a gaveta.  Lá estava ele, aquele mesmo amontoado de páginas amareladas que passava uma sensação estranha. ‘ Essa coisa fala sobre runas, não é...? ’ Ele pegou o livro em sua mão, revirando as memórias que tinha sobre lê-lo.

Fang começou a folhear, lendo página por página. A introdução do capítulo parecia confusa, ela era profunda e utilizava algumas palavras complicadas, explicando conceitos que o jovem não entendia. A única coisa que foi capaz de discernir era que esse capítulo ensinava sobre o manuseio e utilização de runas, desde o mais básico até o que foi descrito como “Runas Existenciais”.

O rapaz continuou lendo, com certo interesse sendo despertado em seu coração. Como um rato de biblioteca, ler e adquirir conhecimento eram uns dos principais prazeres na vida de Fang.

Quando virou a página, ele conseguiu compreender melhor. Era algo explicativo, os conceitos mais simples, as aplicações deles, os diferentes tipos de runas e até um glossário com as palavras utilizadas para descrever certas coisas dentro do capítulo, parecia ter sido escrito com muita atenção.

Quando havia lido pela última vez, pareceu ter sido hipnotizado, não conseguindo tirar os olhos do capítulo, as memórias disso impressas em sua mente eram desorganizadas e vagas, mas agora que tinha parado para reler, tudo se encaixou.

Ele se interessou de forma genuína.

“Runas são ideogramas ancestrais. Uma linguagem criada em conjunto ao universo, algo que compõe tudo e todos neste plano existencial e nos milhares de outros presentes. Chaos e Calígena utilizaram a escrita rúnica para reger as leis existenciais, os nove conceitos, seus nove filhos, utilizaram-nas para criar mundos e galáxias, universos e realidades distintas. Runas estão ligadas a verdade absoluta por detrás do véu primordial, carregando um poder e mistério que preludiam o próprio Archibald, nos infinitos aeons que passaram-se em um único instante.”

Fang leu em voz alta, tornando-se cada vez mais perplexo. Ele não entendia nada disso, tampouco conhecia a origem destes nomes e dessa história, mas aquilo parecia ser muito mais profundo do que ele imaginava, algo que estava a parte de sua compreensão.

“Para os leigos, runas seriam apenas uma escrita capaz de se conectar com a Energia Chaos da existência, desencadeando capacidades e poderes diversos, desde uma simples chama até explosões capazes de dizimar universos inteiros, contudo, apesar de não estarem errados, isto é apenas uma fraca compreensão destas como um todo. Este será um capítulo explicativo, tal qual o terceiro, então me dedicarei a esclarecer de forma compreensível a funcionalidade e expressão das runas em todas suas áreas de influência.”

A todo o momento, seus olhos se arregalavam. Não era a primeira vez, mas parecia que era. Cada palavra penetrando-o e tornando ainda mais ávido o aprendizado.

“Contudo, é necessário saber que, se por algum motivo desconhecido por minha pessoa, uma existência inferior vier a tentar praticar as técnicas aqui descritas, as consequências seriam desastrosas não apenas para tal, como para seu meio de convivência. Portanto, se algum dia, este livro cair nas mãos de um impuro, sugiro que pare pelos conceitos básicos e não se aprofunde, pois pode acabar indo além de seu controle. O conhecimento da Família Urik não foi desenvolvido para se tornar posse de terceiros, então esteja ciente das consequências de sua imprudência em portar este livro.” As palavras aqui descritas pareciam cada vez mais arrogantes, elas exalavam um tom de soberba infinita que parecia zombar e desdenhar de todos aqueles chamados de ‘impuros’.

Contudo, a leitura de Fang não abrandou, continuou lendo e meditando sobre cada uma das frases. Diversos ensinamentos básicos sobre runas entraram em sua mente, concedendo-o o êxtase do conhecimento.

Ele leu sobre os diferentes tipos de formações rúnicas.

Existiam ‘runas únicas’, que eram ideogramas solitários que poderiam exercer as mais simples funções e serviam de base para os demais. Do que foi descrito no capítulo, o total de runas únicas excedia as dezenas de milhares e cada uma delas deveria ser estudada de maneira cuidadosa, mesmo que fossem a parte mais simples de tudo.

Além destas, existiam os ‘conjuntos rúnicos’, que, em uma linguagem ignorante, poderia-se dizer que eram como frases. Junções de runas únicas que compreendiam funções mais complexas. Para dizer a verdade, seu uso se estendia a diferentes finalidades e haviam muito poucos conjuntos rúnicos já criados, pois desenvolvê-los dependia da capacidade do Runicista em questão. Também foi preciso saber que dentro dos conjuntos rúnicos, existiam certas qualificações de qualidade e potencial destes, o que dependeria da proficiência daquele que visasse criá-los.

O terceiro tipo de formação era chamada ‘escritura rúnica’, que eram textos escritos nesta linguagem. Suas funções alcançavam níveis várias vezes mais complexos e abrangentes.  Havia uma citação rápida sobre o primeiro mestre rúnico, que foi quem utilizou das escrituras rúnicas de alto nível para desenvolver os universos.

Já sobre os Mestres Rúnicos, ou como descritos no capítulo, os Runicistas, eles eram capazes de manusear as infinitas runas ao seu bel prazer e criar fenômenos inimagináveis para pessoas comuns e, até mesmo, para algumas entidades de força transcendental. Mas todos eles começavam por baixo. O nível de esforço que um Runicista deveria colocar para aprender e desenvolver suas capacidades estava fora do escopo de qualquer existência medíocre, mesmo aqueles com vontades inabaláveis e consciências poderosas talvez não tivessem paciência para isso.

Contudo, ainda que lesse sobre todas as dificuldades e obstáculos que um Mestre Rúnico poderia vir a esbarrar em seu caminho, Fang se tornou cada vez mais interessado. Tudo aquilo que o desmotivava entrava por um ouvido e saia pelo outro, com apenas a parte que o transmitia conhecimento sobre esse mundo místico das runas fazendo seu caminho pelo cérebro dele.

Sem que percebesse, várias horas haviam se passado. Já era tarde da noite, olheiras estavam encravadas abaixo de seus olhos e ele se sentia um pouco exausto. As páginas do Livro da Ordem se fecharam em suas mãos e, em sua expressão, empolgação estava estampada, com um sorriso indo de orelha a orelha, tingindo sua face com a animação impulsiva que um adolescente tinha ao descobrir um novo hobby divertido, ele exclamou...

“Eu quero me tornar um Runicista!” 

Por Urano | 18/09/20 às 22:46 | Aventura, Fantasia, Artes Marciais, Romance, Xuanhuan