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Capítulo 10 - O Mestiço

O Mestiço (OM)

Capítulo 10 - O Mestiço

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

—Arien! —Gritou Kotaru.

Ao ver sua espada se desfazendo em fragmentos de aura ele logo pediu ajuda à garota que estava em combate de igual para igual com Nana. Ela recuou rapidamente e fez outra espada nas mãos dele.

—Você não matou? É isso que você dirá a si próprio quando for dormir à noite? Que o sangue dessas pessoas não estão em suas mãos? Dar a ordem de matar não é o mesmo que matar? São essas as mentiras que você conta para si mesmo para aliviar seus pesadelos? Você é muito pior do que aqueles que matam, porque nem ao menos a coragem para arcar com o peso de tirar uma vida você tem. —A prudência de Kotaru ao atacar era nula, a qualquer momento que Akira quisesse ele poderia dar um fim ao rapaz. O porquê ele não o fazia é um mistério, talvez por culpa, ou talvez sentisse dó do pobre garoto que não parou de derramar suas lágrimas nem por um momento sequer.

—Isso não é verdade! Se eu não desse a ordem, outro daria, nada iria mudar, além do mais, eles eram traidores. —As palavras de Kotaru haviam afetado Akira.

—Como? Como você consegue acreditar em tamanha mentira? Ele era apenas um velho, o que ele poderia fazer? E mesmo que tenha traído o reino, por que não deixá-lo preso como estava?

A mente do jovem capitão começou a acusá-lo junto do rapaz que o atacava. Aos poucos Kotaru invadia os pensamentos dele que ficava cada mais desconcentrado.

Com um golpe mais forte do que o último Kotaru fez algo que Akira não esperava. Ele o desarmou. Seu semblante mudou completamente, uma mistura de surpresa e receio se apoderaram de sua face. A espada que o rapaz empunhava se desfragmentou como resultado do poderoso golpe.

Kotaru sem se importar com a ausência de uma arma avançou com seu punho direito em direção a Akira, mas foi bloqueado com a destra do adversário e com a canhota foi atingido caindo no chão.

—Ande mate-me! Mostre que você não é somente um covarde, carregue consigo o peso que você faz seus homens carregarem. —De certa maneira o pobre rapaz parecia desejar aquilo, mas Akira não, seu semblante ao encará-lo no chão era de certa tristeza.

—Não irei te matar, se deseja tanto a morte, faça algo a respeito por conta própria. Soldados, estamos indo. —Disse ele dando de costas.

—Sim senhor! —Nana empurrou sua espada contra a de Arien fazendo-a recuar e acompanhou seu capitão.

—Se eu fosse você eu me preocuparia em cuidar do seu parente, ele ainda está respirando, mas não vai durar muito. —Akira pegou sua cimitarra no chão e a embainhou.

—Senhor, esse garoto te desarmou? Não seria melhor darmos um fim nele? —Nana se surpreendeu com o feito do rapaz e ficou temerosa pela vida de seu capitão.

—Não diga tamanha besteira, me desarmar não é crime algum, além do mais, eu estava distraído. —Sua expressão já não era mais aquela serena como de costume, sua face denunciava os vários pensamentos que pairavam sobre sua cabeça, e o peso que as palavras daquele garoto haviam tido.

—E a ordem para limpar tudo? O que faremos capitão?

—Nós daremos um tempo para que ele se despeça de seu avô e voltaremos mais tarde, ponha os homens que ficaram conosco apostos para impedir que algum civil passe por aqui. —Diferente de Eiji o jovem capitão parecia ser extremamente piedoso.

—Kotaru! —Arien ficou aliviada ao ver Akira e Nana se distanciando e correu de encontro ao rapaz que estava no chão. —Você está bem?

—Sim... —Fisicamente ele podia até estar bem, mas emocionalmente encontrava-se perdido. As lágrimas não paravam de rolar pelo seu rosto.

—Venha, vamos ver seu avô. —Ela o ajudou a se pôr em pé e ir até Morian.

—Vovô? Você ainda está vivo… —Kotaru se ajoelhou ao lado de seu avô que abriu um dos olhos com dificuldades, pois sangrava muito.

—R-receio que n-não por mui… Muito t-tempo… —O sangue enchia a boca de Morian, somando isso a dor, falar era uma missão complicada para o velho senhor.

—O Shin! O Shin ainda está preso não é mesmo? Eu irei buscá-lo e ele te curará. —Kotaru parecia conhecer alguém que estava preso e que poderia ajudar Morian, mas quando o rapaz estava prestes a se dirigir à prisão o homem que estava deitado no chão segurou em seu braço o impedindo.

—Há algo q-ue eu quero te dizer… A-acho que foi p-por isso que e-eu ainda não morri… —Disse ele cuspindo um pouco de sangue.

—Espere, eu vou buscar o Shin, ele pode te curar, aguente só mais um pouco. —A firme, porém fraca, voz de Morian o impossibilitou.

—Não! Permita-me des-descansar… Em p-paz… Apen-as me ouça… Eu pr-preciso te falar so-bre suas o-origens…

—Minhas origens? —Perguntou o garoto sem entender, seu semblante permanecia triste e sua mente entrava em conflito entre obedecer seu avô e ajudá-lo.

—S-sim, você sabe por que nós ajudamos tanto os el-elfos? —Enquanto falava ele parou por um momento e fitou Arien. —Essa jov-jovenzinha é uma elfa n-ão é mesmo? —Morian logo reconheceu os traços de Arien.

—Sou. —Ela olhava para aquele velho homem com tristeza, pois assistia sua vida se esvair aos poucos.  

—Não f-fique triste minha princesa… I-isso f-faz parte da vida… To-todo ser vivo, nasce, vive e morre-e...

—O senhor me conhece? —Arien estranhou o fato dele usar o termo princesa.

—Como eu n-não conheceria a p-princesa? Mas e-e-eu não tenho tempo para falar di-disso... Kotaru, debaixo da c-cama do seu pai há um liv... —Morian não pôde terminar suas palavras, aos poucos sua respiração e seu coração foram parando. Ao notar que ele já não falava mais nada o rapaz logo se desesperou e começou a chamar por seu avô.

—Vovô! Vovô! —Após alguns minutos chorando e chamando por seu querido avô ele entendeu que ele havia morrido. Kotaru ficou parado por mais alguns instantes fitando o velho homem que se encontrava em seus braços.

Ele o beijou na testa, enxugou as lágrimas e se pôs de pé, caminhando em direção a caverna. Arien estranhou a atitude do rapaz de deixar Morian ali mesmo, mas o seguiu. Dentro do primeiro andar da prisão não tinha nem um soldado sequer. Todas as celas estavam abertas e dentro delas vários corpos estavam estendidos no chão banhado pelo sangue deles.

—Kotaru? Aonde você vai? Você não pode deixar seu avô ali daquele jeito, mais soldados podem vir. —Dizia Arien que seguia o rapaz preocupadamente.

Ele adentrou a cela de seu pai, uma das poucas sem corpos, e procurou algum buraco na cama que era de concreto, por isso não teria como ter algo em baixo, pois não tinha pernas.

Kotaru achou uma parte da cama que parecia oca. Com alguns socos ele quebrou aquela fina parede de concreto revelando um livro velho com a capa na cor vinho, era pequeno, porém, com muitas folhas. Ao abrir, uma folha solta voou e caiu no chão, ele a pegou e começou a ler em pensamento, enquanto Arien que estava parada na entrada da cela, observava se vinha soldado algum.

A carta dizia o seguinte:

“Kotaru, ao ouvir que a guerra havia sido declarada eu logo pensei que você viria tentar nos resgatar, por isso estou escrevendo isso, mas espero de coração que eu esteja errado e você não venha, mas ao mesmo tempo queria que você lesse isso. Foi muito difícil conseguir tinta e uma pena nova, mas não é sobre isso que quero falar. Kotaru, se você estiver lendo essa carta, eu gostaria de lhe contar sobre suas origens, coisa que eu nunca tive a oportunidade, sempre com receio de como você reagiria, eu sei que isso foi uma atitude egoísta, mas também sei que você irá entender.

Há muito tempo atrás um homem cujo sobrenome era Tomura se relacionou com uma elfa, ele a amava demais e era um amor recíproco. Eles queriam ter um filho, mas como você sabe um filho entre duas raças diferentes está condenado a morte antes mesmo de conhecer a vida. Os dois tentaram várias e várias vezes e todos morreram, sua esposa já não aguentava mais a dor de perder seus filhos, ela já havia desistido quando engravidou novamente.

Desacreditada, crente de que seu filho morreria antes mesmo de nascer, teve uma grande surpresa ao passar dos meses da gestação, pois a criança nasceu e com saúde, sua incredulidade era tanta que não quis nem sequer segurá-lo nos primeiros dias, pois imaginava que a qualquer momento morreria. Os anos passaram e seu filho cresceu sem doença alguma, o impossível havia se tornado realidade, o primeiro mestiço havia nascido, foi um milagre! Por não ser nem humano e nem elfo dar continuidade a sua linhagem foi mais fácil, sua esposa que foi humana perdeu apenas uma criança e teve mais de um filho.

Os anos passaram e nossa família se dedicou a proteger os elfos aqui, e outra parte dela se dedicou a proteger os humanos no reino elfo, eu, seu pai e você, somos todos mestiços. Leia o livro e você saberá melhor sobre nossas histórias, nós a escrevemos nele. Adeus meu neto, que você possa viver uma vida cheia de felicidades...”

—Eu... Sou um mestiço? —Perguntou Kotaru a si mesmo em baixo tom de voz.

—O quê? —Ela não ouviu direito o que ele disse.

—Eu sou um mestiço. —Afirmou ele desnorteado.

—O que você quer dizer?

—Eu não sou humano nem elfo, eu sou uma mistura dos dois...

—Isso é impossível, todo bebê mestiço morre antes mesmo de nascer ou uma semana após o nascimento. —Arien conhecia o tabú do nascimento de uma criança mestiça, por isso desacreditava dele. Kotaru estendeu a carta para ela ler, enquanto a elfa lia o rapaz pensava no que isso significava para ele, o que significava ser um mestiço.

—Isso é inacreditável, eu nunca ouvi falar sobre nada assim. —Ela o encarava com certo espanto.

—Ele diz que tem outros no reino elfo… Então... Eu ainda tenho alguma família? —Kotaru viu nessa informação um pequeno fio de esperança.

—Claro que tem. E seu pai também está vivo. Lembra o que aquele homem disse? Por algum motivo o rei o quer vivo. —As palavras da elfa levaram uma pequena alegria aos olhos, até então sem vida, do rapaz.

—Agora vamos sair daqui antes que apareça algum soldado.

Arien estendeu a mão para Kotaru ajudando-o a se levantar. Ela olhou pelo corredor para se certificar de que não vinha ninguém, e ao confirmar dirigiu-se para a entrada da prisão. Após alguns passos a garota notou que não estava sendo seguida e voltou a cela onde estava o rapaz.

—Kotaru, olhe para mim, eu sei que isso tudo é muita coisa para sua cabeça, você deve estar confuso, e também sei que deve estar sendo uma dor insuportável, mas nós temos que sair daqui.

—Antes eu preciso buscar alguém. —Disse ele secando as lágrimas que restavam em seus olhos.

—Alguém? Como assim? Nós temos que sair daqui, você não me escutou?

—Eu tenho um amigo aqui… Não vou deixá-lo e esperar que o rei decida que o quer morto como fez com toda a minha família. —O rapaz estava decidido a ajudar seu amigo.

—Talvez tenha um motivo para ele estar preso. —O tom de Arien era de reprovação.

—Não, eu o conheço e sei que ele está aqui por uma injustiça.

—E qual o prisioneiro diz que foi preso por algum crime? Todos sempre alegam ser inocentes. —Ela permanecia desconfiada como sempre.

—Arien, você confia em mim? —Ele olhou diretamente nos olhos da garota.

—Confiar é uma palavra muito forte, mas eu sei que você não me faria mal algum...

—Isso já basta, afinal se ele fosse um criminoso eu estaria te fazendo mal certo?

—Quando foi que você ficou esperto assim? Vá logo, mas se você for preso nem ouse ficar gritando meu nome porque eu não vou te salvar. —Após muita insistência de Kotaru, finalmente ela cedeu.

—Obrigado. Antes me faça um favor. Vá na frente e esconda o corpo do meu avô atrás das árvores e retire aquele selo de magia ali em cima. —Sem nem ao menos esperar a garota dizer se faria ou não o favor que lhe fora pedido Kotaru deu as costas e correu em direção ao andar mais abaixo.

Arien balançou a cabeça em desaprovação, mas fez o que ele lhe pediu. Poucos segundos após perdê-lo de vista ela retirou o selo que inibia a magia naquele lugar.

Ao sentir que não havia mais nada impedindo-o de usar magia ele ficou invisível e desceu as escadas para o andar inferior. Todas a cela estavam fechadas e o piso era protegido por dois guardas vestidos com armaduras de bronze e com espadas nas cinturas.

Um deles estava próximo à escada que ligava o primeiro e o segundo andar, enquanto o outro estava próximo à escadaria que ligava o segundo e o terceiro. Kotaru, ainda invisível se aproximou do que estava mais perto dele e o derrubou com uma rasteira pegando sua espada para si.

Imediatamente o outro soldado veio ajudar seu colega, mas se espantou ao ver a espada dele flutuando. Kotaru conseguia fazer com que suas roupas ficassem invisíveis devido a proximidade com sua pele, entretanto ele ainda não possuía controle o suficiente para fazer com que a espada também ficasse invisível.

O guarda desembainhou sua arma e a chocou contra a do rapaz. As duas espadas permaneceram se chocando por mais alguns instantes até que o homem que havia sido derrubado se jogou contra Kotaru, que mesmo não sendo possível vê-lo, era fácil de se imaginar onde estaria por causa da espada.

O rapaz foi segurado na cintura pelo soldado, com sua destra ele impedia os ataques furiosos da lâmina de seu oponente, enquanto com o cotovelo esquerdo ele atingia o rosto daquele que o freava. Os golpes foram tantos que ele cedeu e o soltou.

Kotaru arremessou longe a espada que portava para que o soldado que ainda estava em pé não pudesse prever seu próximo ataque. Ele correu em direção de seu oponente, que embora pudesse ouvir os passos, não foi capaz de prever de onde vinha a investida devido ao medo de lutar contra o que não podia ver.

Kotaru e o soldado foram ao chão e a espada que o soldado empunhava já não estava mais em suas mãos. Kotaru a pegou no chão e após sussurrar um pedido de desculpas a atravessou na perna direita do homem por um brecha na armadura. O grito de dor ecoou por toda a prisão, mas o rapaz sabia que corria contra o tempo e desceu para o andar mais baixo da prisão.

O lugar era amplo e sem muitos detalhes, apenas duas celas e um corredor entre elas que levava à um lugar escuro, não haviam guardas, o que era estranho, mas o rapaz agradeceu por não encontrar oponentes. A cela da esquerda se encontrava vazia, e na direita se encontrava um rapaz deitado, ele era alto, estava sem camisa, sua pele era parda e seus cabelos azuis. Em seu queixo alguns fios formavam uma rala barbicha e o seu lóbulo esquerdo era perfurado por dois brincos. Seus olhos também eram azuis e seu corpo era um tanto forte.   

Vendo aquele rapaz os olhos de Kotaru se iluminaram.

—Ele está bem…

Por LiamGt | 14/04/18 às 16:48 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama