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Capítulo 17 - Fantasmas do Passado

O Mestiço (OM)

Capítulo 17 - Fantasmas do Passado

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Arien respirou profundamente e após alguns segundo começou a contar o que para ela havia sido uma das piores experiências de sua vida.

—Foi pouco tempo depois de eu ser mandada para o exílio… Eu não sei se eu já te contei, mas existe uma ilha que é para onde os exilados são mandados, quando estavam selando meu fluxo de aura, quando estavam prestes a terminar minha dama me salvou, ela derrotou os homens que me levavam antes que eles concluíssem o selo do meu fluxo… Ela quebrou meus grilhões e me mandou pegar o barco e navegar para longe e assim eu fiz.

Depois de algum tempo no mar um homem saiu de dentro do barco, ele estava armado com uma espada e eu não conseguia usar magia, pois meu fluxo estava selado e eu ainda não havia me habituado, nós lutamos, eu me lembro como se fosse hoje, ele disse: “Se eu te matar o rei não sentirá falta alguma, talvez ele até me recompense, mas talvez a recompensa seja maior se você ainda estiver respirando.”

Ele queria me prejudicar ou até mesmo me matar por puro desejo de enriquecer, naquela hora eu confesso que eu fiquei cheia de raiva dentro de mim, eu juntei minhas forças e consegui derrubá-lo... Peguei sua espada e a atravessei pelo seu ombro e o piso do barco, ele implorou por misericórdia, falou que tinha uma filha, que não era um homem ganancioso, que apenas queria dar uma vida mais confortável para sua filha e esposa.

Eu fiquei com dó, cheguei achar que eu era um monstro por não pensar que ele poderia ser alguém bom, no momento em que eu baixei minha guarda ele me chutou para longe, retirou a espada de seu ombro e veio até mim. Seus olhos transbordavam maldade, ele me pegou pelo braço e me pôs de pé e me jogou em cima de alguns caixotes que tinham no barco e disse: “Você é mesmo muito inocente, eu? Uma filha? Haha! Nem esposa eu tenho, quanto mais uma desgraça de uma criança, olhe bem pra mim, eu vou gastar todo o dinheiro que ganhar te entregando, numa taverna e depois num bordel, quem sabe eu não arranjo uma filha por lá não é mesmo? Haha! Você perdeu uma ótima oportunidade e pra que? Só pra me deixar mais irritado, e agora te olhando assim acho que eu posso me divertir um pouco.”

Eu lembro cada maldita palavra que saia daquela boca imunda, ele passava sua espada pelo meu pescoço, meus olhos estavam cheios de lágrimas. Uma mistura de ódio e tristeza tinha tomado conta de mim, eu não conseguia usar minha magia direito, mas enquanto ele não parava de tagarelar eu estava tentando gerar um vento forte o suficiente para afastá-lo de mim e eu consegui, em poucos momentos ele estava caído no chão e antes que pudesse pedir misericórdia novamente eu tomei a estada das mãos dele e a cravei em seu peito. Após me aliviar por ter sobrevivido só havia me sobrado um fantasma que me aterrorizaria, que me acusaria todos os dias, que não permitiria que eu esquecesse que sou um monstro.

Eu cheguei a vomitar... Não dormia direito, na primeira noite eu joguei o corpo dele no mar, porque toda vez que eu fechava meus olhos aquela cena da vida dele sendo tomada por mim me vinha à cabeça, mas não adiantou, mesmo depois de ter jogado o corpo no mar eu ainda tinha esses pesadelos, foi quando eu consegui dormir e então eu tive um sonho, tinha um homem que eu conheci, ele ficava repetindo: “Você não é um monstro.”

Eu toquei em seu ombro e ele parou de repetir aquelas palavras. Ele me perguntou se era errado querer sobreviver, mas eu não tive resposta e então ele voltou a repetir que eu não era um monstro. Eu voltei a tocar em seu ombro e depois de um período de silêncio ele me disse o seguinte: “Você lutou contra você mesma para não o matar, você chegou a acreditar na história dele, tudo para não matá-lo, e após tirar a vida dele você não dormiu direito, nem comeu e o pouco que comeu vomitou. Acha mesmo que um monstro age assim? Um monstro não mata para viver ou salvar alguém, ele mata por si próprio, por ganância, por inveja, por vingança, até mesmo por prazer e quando ele mata, não há nada na sua mente que não seja satisfação. Você não abandonou sua bondade nem sua humanidade, você a afirmou!” então eu acordei e desde aquilo eu nunca mais tive esses pesadelos. —As lágrimas rolavam pelo rosto da garota, era triste para ela relembrar tais momentos, mas no fim um belo e simples sorriso tomou conta de seu rosto.

—Me desculpe... —Kotaru estava com a cabeça baixa, ele não conseguia olhar a garota nos olhos após tê-la feito relembrar tudo isso. —Acho que no fim eu sou só uma criança com uma visão boba do mundo. —Ele mantinha a cabeça baixa e Arien pôde ver uma lágrima pingando no piso.

—Talvez para você aquele não parecia um cenário de vida ou morte, porque nós éramos três e ele somente um, mas se ele saísse dali com vida ele com certeza voltaria e mataria nós seis. Talvez aos seus olhos o Shin pareceu um monstro, mas você viu também não viu? A dor nos olhos dele, as lágrimas que ele lutava para não derramar? Elas eram amargas, e você viu, foi isso o que te fez chorar não foi? Você o conhece Kotaru, não aja como se não o conhecesse, eu sei que você tem seus ideais, e eles são lindos, mas infelizmente você não poderá mantê-los, não se você quiser seguir esse caminho. —Arien estava sendo cuidadosa ao usar suas palavras, pois queria que ele visse que seu amigo não era um homem cruel, mas ela não queria dar a entender que os valores do rapaz eram inúteis e descartáveis.

—Acho que eu fui um completo idiota, não é mesmo? —Perguntou ele levantando a cabeça e a olhando com um pequeno sorriso.

—Foi. —Ela sorriu para ele também e pôde ver nos olhos dele que ele havia aceitado e entendido tudo da maneira correta.

Um estranho silêncio permaneceu entre os dois, mas após um tempo Kotaru decidiu falar.

—Arien, o que você fez com os outros soldados? E o que você acha que devemos fazer quanto a fuga daquele soldado? —Ele trouxe de volta um tom mais sério para a conversa.

—Eu retirei a armadura deles e os amarrei no porão. Quanto ao soldado que fugiu, acho que antes de mais nada você deveria conversar com senhor e a senhora Kimura, nós precisamos saber pelo o que estamos arriscando nossas vidas, se a resposta deles não for satisfatória, então teremos que ir embora e deixá-los por conta própria. Agora se for boa o suficiente para nos fazer ficar, então a única saída que eu vejo é convencê-los a fugir para outra cidade. —Ela vinha pensando nisso desde que o soldado conseguiu fugir.

—Boa ideia, acho que é a única saída mesmo... —Kotaru logo começou a pensar em um plano para conseguir levá-los para fora de Azami sem chamar a atenção antes que o exército atacasse novamente.

—Não se esqueça, eles tem que dar uma resposta muito, muito boa. —A garota saiu do quarto dele e foi para o quarto de Mari cuidadosamente para não acordar a criança, enquanto Kotaru ficou se revirando na cama pensando em como fazer dar certo essa fuga. O dia não demorou muito para amanhecer, afinal, quando Arien foi deitar já era cerca de três da manhã.

O rapaz mal dormiu pensando no dia seguinte, ele estava com muito sono, mas sua mente não parava de trabalhar. Ao ver a luz do sol entrar no quarto pela janela ele logo se levantou e foi ao lugar onde estavam os cavalos.

Era uma estrutura de madeira não muito alta, e não muito larga, mas comprida, tinha duas janelas na lateral esquerda e uma grande porta na frente. Ele bateu na porta e ficou esperando que Shin a abrisse ou o mandasse entrar, mas não aconteceu nada disso, então ele bateu novamente, e de novo, e mais uma vez até que a porta foi aberta pelo rapaz que estava completamente descabelado, com uma cara ranzinza e o corpo trêmulo.

—E-eu posso entrar? —Kotaru se assustou ao ver a situação de seu amigo, Shin saiu do caminho dando a entender que o rapaz podia entrar. —Aqui de dentro parece ser maior do que do lado de fora. —Antes mesmo de entrar ele já observava o interior daquele lugar que ele nunca havia entrado.

O chão não era carpido, tinha alguns caixotes de diferentes tamanhos, a carruagem estava encostada no fundo, e os cavalos ficavam soltos, também tinha um pouco de feno, ele reparou dois caixotes de altura mediana e compridos encostados um no outro e deduziu que foi ali onde Shin havia dormido, ali próximo ele pode ver vômito no chão e imediatamente lembrou de sua conversa com Arien e se entristeceu.

—E então? Já se decidiu? —Shin se espreguiçava enquanto ia para o lado de fora e Kotaru o seguiu.

—Sim, mas antes eu gostaria de me desculpar. —Kotaru estava triste e não sabia como poderia se desculpar, Shin pareceu não dar ouvidos e saiu andando na direção oposta de Azami, sem entender Kotaru o seguiu e após alguns minutos andando eles chegaram num lago.

—É aqui onde eu trago os cavalos para beber água, é incrível como nossa aura reflete na gente não acha? Eu me sinto tão bem próximo da água. —Ele se ajoelhou no gramado juntou as duas mãos e as encheu de água lavando seu rosto.

—Espero que não reflita tanto assim... —Murmurou Kotaru para si mesmo ao lembrar qual era sua aura. Copiar

—O que você decidiu? —Shin se pôs de pé e encarou seu amigo firmemente.

—Como eu tinha dito, antes de mais nada me desculpe... Eu fui um completo estúpido, uma criança incapaz de enxergar um palmo à sua frente. Fui egoísta e não fui capaz de reconhecer o quanto havia doído em você ter feito aquilo, e você o fez pelos meus motivos egoístas, por causa da minha inocência. Eu vou a Tavira e gostaria da sua companhia, mas se você não quiser ir eu entenderei. —O rapaz havia se curvado antes de começar a falar e assim ficou até que a última palavra saiu de sua boca. Shin retirou suas botas e mergulhou as pernas no lago se sentando à beira do mesmo.

—E você está disposto a tirar a vida de alguém se preciso for? —Perguntou ele sem medir suas palavras.

—Pelo meu objetivo? Não, mas para salvar a vida de alguém inocente, ou a dos meus amigos, e até mesmo a minha própria vida, estou disposto a sujar as minhas mãos, ao invés de me esconder atrás de você e deixar que suje as suas mãos por mim, porque se eu fizer isso eu serei somente um covarde, que manda matarem e se acha isento de qualquer culpa, a partir de hoje seus fantasmas serão meus fantasmas também. —Kotaru mantinha um olhar sério e seus olhos brilhavam cheios de vida.

—Haha! Você está sempre me surpreendendo! —Shin riu deixando Kotaru sem reação e curioso para saber o porquê dos risos.

—Qual é a graça? —Perguntou ele fazendo bico.

—Lembra-se quando nos conhecemos? Você foi mandado para o terceiro andar por tentar fugir e ficava me irritando, querendo conversar comigo, eu tentava te afastar ou te ignorar, mas não dava, você era chato demais para ser ignorado… Até os guardas se irritavam com o tanto que você falava. Com o tempo eu aprendi que não ia conseguir te afastar e então comecei a conversar contigo, eu lembro que ficava impressionado com tanta bondade, mesmo para uma criança aquilo não era normal, às vezes eu queria te bater de tão bom que você era. Sempre falando de como o mundo era lindo, não existia raiva dentro de você por estar naquele lugar maldito, nem queria se vingar das pessoas que colocaram você e sua família lá, tudo o que você queria era sair e ver o nascer do sol novamente, eu me sentia uma pessoa terrível perto de você, mas eu sempre te quis por perto, talvez eu tivesse esperança de que sua bondade pudesse me contagiar. —Shin falava com certa melancolia em sua voz, seus pés balançavam dentro da água fazendo barulho, enquanto ele falava Kotaru retirou sua bota e sentou-se ao seu lado.

—Você é um péssimo monstro... Onde já se viu um monstro vomitar porque matou alguém? —Ele sorriu para o seu amigo que ficou surpreso e um tanto envergonhado por ele ter notado.

—Você não é um monstro Shin, nem algo próximo a isso, você só viu de muito perto o quão cruel esse mundo pode ser, mas isso não significa que você seja ruim… Quando eu vi meu avô sendo morto, eu fiquei com tanto ódio, eu desejei a morte daquele homem com todas minhas forças, talvez se eu fosse mais forte que ele o teria matado, então não diga que eu sou tão bom, eu sou apenas uma criança, um sonhador, e também um hipócrita, que te julgou ao ver o que você fez e esqueceu que já passou pela minha mente fazer o mesmo. —Ele balançava os pés dentro da água igual o seu amigo e esse era um dos poucos sons que podia se ouvir, era um lugar calmo, o sol estava nascendo e por um momento os dois se calaram e ficaram admirando toda aquela beleza.

—Desculpe-me por ser tão duro com você Kotaru. —Disse Shin após um longo momento de silêncio.

—Não precisa se desculpar, você fez o que achou que era o melhor para mim, e foi, mas eu acabei de criar um novo objetivo próprio! Irei te mostrar o mundo com o qual eu sonho, um mundo mais justo, talvez eu tenha que sujar minhas mãos para isso, mas vai valer a pena saber que se eu conseguir mudar esse mundo, crianças como a Mari não terão que sujar suas mãos. —Ele retirou seus pés da água se pondo de pé e de repente soltou um alto grito.

—Você enlouqueceu? —Shin tinha noção que seu amigo não se encaixa nos padrões de normalidade, mas aquilo pareceu um pouco demais. Rir foi algo que o rapaz não conseguiu evitar.

—Faça também. —Kotaru estendeu sua mão ajudando o outro rapaz a ficar de pé, ele ficou um tanto relutante, mas cedeu, encheu o peito de ar e também deu um alto grito e logo em seguida os dois começaram rir.

—Agora nós temos muito que fazer. —Kotaru pegou suas botas e foi em direção a casa da família de Mari e Shin o seguiu. Chegando lá ele reuniu a família na cozinha que já estava organizada.

—Senhor Hitoshi nós precisamos conversar. —disse Kotaru num tom sério sentando do lado oposto da mesa em que se encontravam Kaya, seu marido e Mari.

—Concordo. —Ele encarou o rapaz seriamente, pois sabia exatamente do que se tratava, afinal se dependesse dele essa conversa teria acontecido na madrugada anterior.

Por LiamGt | 01/05/18 às 19:08 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama