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Capítulo 18 - Um bebê, Uma Carta e Uma Bolsa

O Mestiço (OM)

Capítulo 18 - Um bebê, Uma Carta e Uma Bolsa

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Todos estavam em torno da mesa, alguns em pé e outros sentados. O clima na cozinha era tenso.

—Permita que eu me adiante e te conte o porquê aqueles homens estavam aqui e o que eles queriam, imagino que é sobre isso que vocês querem conversar não é mesmo? —Perguntou Hitoshi olhando para os três.

—Exatamente. —Respondeu a elfa que estava sentada à direita de Kotaru, enquanto Shin sentava à esquerda.

—Mari, o que você acha de ir brincar com suas bonecas? —Hitoshi trocou olhares com Kaya e ela logo entendeu que ele não queria ter sua filha ouvindo essa conversa. A pequena acenou com a cabeça e subiu para seu quarto.

—Agora eu posso falar mais abertamente. Aqueles soldados que estavam aqui… Eles vieram para pegar minha filha. —O olhar de Hitoshi ao dizer isso era um tanto abatido.

—A Mari? Qual o interesse da coroa numa criança de família humilde? —Ao ouvir as palavras dele Shin começou a desconfiar imediatamente daquela história.

—Há pouco menos de cinco anos ela foi deixada na minha porta, eu e minha esposa estávamos tentando ter um filho e então ela apareceu... Como se fosse um sinal divino. Junto dela nós encontramos um bilhete e uma bolsa, como não sabemos ler muito bem pedimos para um amigo meu ler para mim, espere… Pensando bem eu acho que eu ainda o tenho guardado, espere só um minuto que eu vou procurá-lo. —Hitoshi subiu as escadas deixando apenas os três jovens e Kaya cercados por um silêncio constrangedor.

—Isso parece uma eternidade, talvez eu deva falar algo para quebrar o gelo —Pensou Kotaru que olhou para a esquerda e viu Shin batendo os dedos na perna e procurando algum lugar para olhar, à sua direita Arien estava com a cabeça baixa e balançando suas perna, então ele decidiu se pronunciar, quando estava prestes a falar algo a garota o chutou por debaixo da mesa fazendo-o entender que seria melhor ficar quieto.

Logo ouviram o barulho do homem descendo a escada e todos respiraram aliviados.

—Aqui está. —Hitoshi estendeu o papel para a elfa. —Você sabe ler não é mesmo?

—Sim. —Arien pegou o papel que tinha uma aparência um tanto velha e amassado. Ela o desdobrou, era um bilhete relativamente grande para quem estava tentando se livrar de uma criança.

—“Me desculpe por estar agindo dessa maneira, mas é necessário. Essa garota é minha filha, acredito que irão pensar que eu sou um pai desnaturado, mas não é esse o caso, meu maior sonho seria poder cuidar dela e vê-la crescer, mas não será possível. Minha família está enfrentando problemas internos, ela se dividiu em duas por causa de uma desavença entre duas famílias, temo que essa desavença está prestes a ser resolvida da pior maneira, caso eu sobreviva eu voltarei para buscá-la, caso contrário imploro que cuidem da minha filha, seu nome é Mari, ela tem oito meses, e eu a amo muito.” É isso o que diz. —Arien havia lido a carta em voz alta deixando todos com o semblante abatido, inclusive ela.

—Mas por que a coroa a quer? —Kotaru não conseguiu associar a coroa com os acontecimentos relatados na carta.

—Nós não sabemos. Há um ano homens do exército começaram a andar por toda cidade indo de casa em casa, nessa época nós morávamos no centro de Ina, uma cidadezinha próxima daqui. Certo dia dois soldados bateram na minha porta, nós ficamos apreensivos, mas achamos que seria melhor atender e assim fizemos, ao ver Mari um dos soldados agiu como se tivesse gostado dela, pegou-a no colo e começou a brincar com ela, minha esposa foi para cozinha preparar algo para servir aos homens. Ele deu uma pedra completamente colorida, muito bonita, para ela e todas cores começaram brilhar intensamente, minha filha havia ficado encantada com todas aquelas cores… Foi quando eu olhei nos olhos daquele homem e vi toda a maldade que estava contida neles, eu tirei minha filha dos braços dele o mais rápido que pude tentando não levantar suspeitas. Não muito tempo depois eles foram embora e no outro dia nós pegamos nossas coisas e fomos para outra cidade, e há alguns meses viemos para Azami, mais tarde fiquei sabendo que foram procurar por mim dois dias depois que eu saí de lá, chegaram a matar meu amigo que havia lido o bilhete para mim. —Hitoshi falava com uma voz tão triste quanto seu semblante, Kotaru notou as poucas lágrimas que rolaram dos olhos de Kaya enquanto ouvia tudo o que era dito.

—Então valeu a pena, certo? —Kotaru olhou para seus amigos com seu sorriso corriqueiro, não era um sorriso de “eu te disse”, mas sim um sorriso aliviado por tudo aquilo não ter acontecido por algo que não valesse a pena.

—Desculpem-me por isso, eu não tinha o direito de deixá-los aqui correndo risco sem avisá-los. —Hitoshi estava com a cabeça baixa, parecia estar envergonhado.

—No fim deu tudo certo, então não precisa se desculpar. —Disse Arien que também estava aliviada, pois a história daquele homem era algo pelo qual ela achava valer a pena lutar.

—Eu sei que eu não tenho direito algum, mas eu gostaria de pedir algo aos três jovens. Por favor, fiquem mais alguns dias para nos proteger! —Hitoshi se ajoelhou e encostou a testa no chão em sinal de humilhação.

—Você quer que arrisquemos nossas vidas pelas suas? —Perguntou Shin se pondo de pé.

—Nós iremos arriscar nossas vidas por nós mesmos, pois essa luta também é nossa. —O rapaz havia se abaixado próximo ao pai de Mari e ele pôde ver algumas lágrimas pingarem no chão.

—Vamos, levante-se! —Ele estendeu a mão aquele homem ajudando-o a se colocar em pé.

—Muito obrigado jovens… Vocês não fazem ideia do quanto esse velho está contente em conhecer pessoas como vocês. —Ele estava com um enorme sentimento de gratidão dentro de si, mal sabia como expressá-lo.

—Mas eu tenho uma condição para ajudá-los e eu não estou brincando. —Kotaru também se pôs de pé.

—Pode dizer meu jovem, seja o que for eu farei. —Hitoshi estava determinado a fazer qualquer coisa pela segurança de sua filha.

—Eu quero que você conte sobre essa carta para Mari quando estiverem em segurança.

—Tudo bem, eu farei isso. —Ele sorriu para o rapaz, pois esperava que ele pedisse, algo material ou de alguma dificuldade.

—Arien, você tem um plano não é mesmo? —Kotaru voltou a se sentar.

—Sim, o plano é tirar vocês de Azami, se vocês permanecerem aqui vão continuar sendo atacados, mesmo que nós consigamos protegê-los do próximo, não podemos ficar aqui para sempre, então a única coisa que podemos fazer é tirá-los daqui. —O plano era algo simples, mas era sem sombra de dúvidas a melhor das opções deles.

—Já teríamos feito isso, mas têm guardas cercando a cidade por causa da guerra, no momento em que eles verem nossa filha não nos deixarão ir embora. —Hitoshi sabia que o rosto de sua filha era conhecida por todos os guardas.

—Por que vocês não fugiram antes, quando não tinha tantos guardas? —Shin imediatamente perguntou algo que passou pela cabeça dos três.

—Aquele ataque de ontem a noite foi o primeiro que sofremos aqui em Azami, embora fossem capaz de nos reconhecer, eles ainda não tinham descoberto nossa localização.

—Entendo, mas os guardas estavam inclusos no meu plano, então dará certo, estou certa disso. —Arien parecia confiante em seu plano.

—E qual seria esse grandioso plano? —Mesmo em momento de certa tensão, Shin não deixou passar a oportunidade de perturbá-la com seus comentários irônicos.

—Eu irei fazer poções do metamorfo para vocês e assim todos poderão sair da cidade sem levantar suspeitas. —Arien se controlou para não responder Shin da maneira que queria, e com todas suas forças reunidas o ignorou.

—Poção do metamorfo? —Hitoshi, que tinha pouquíssimo conhecimento sobre magia, perguntou sem entender.

—É uma poção capaz de mudar sua aparência. —Respondeu Kotaru que já tinha presenciado o efeito da poção outras vezes.

—Entendo, desse jeito os guardas não nos notaria, é uma excelente ideia! —Ao saber do que se tratava a tal poção ele logo creu que o plano da garota poderia dar certo e que em breve ele e sua família poderiam deixar Azami.

—O único problema é o tempo, com sorte eu levarei dois dias para finalizá-las. —Um certo tom de preocupação podia ser notado na voz da garota.

—Mas da última vez levou poucas horas, por que dessa levaria dois dias? —perguntou Kotaru.

—Da última vez eu fiz um poção com duração de uma estação, por isso o tempo para se fazer foi mais curto, mas eu pretendo fazer uma poção com o tempo de duração de um ano e também um estoque com mais duas doses para cada um, dando um total de nove doses, um caldeirão dará três doses e levará cerca de doze horas para ser feito. —Ela explicou o porquê da diferença de tempo das poções.

—Não poderíamos fazer apenas uma para levarmos eles para fora e quando sairmos de Azami fazer mais? —Shin não gostava muita da ideia de esperar mais oponentes.

—Nós teríamos que desviar nosso caminho para isso, e não mudaria muito, afinal ao fazê-las longe daqui levantaria muita fumaça, e quando os soldados chegassem aqui eles iriam nos procurar… —Arien logo tornou a ideia do rapaz inviável e todos chegaram ao consenso de que ficar na casa seria o melhor.

—Entendo, então teremos que torcer para que soldado nenhum chegue aqui nos próximos dois dias. —Disse Shin seriamente.

—Eu vou escrever o que eu vou precisar para fazer a poção e vocês dois irão comprar para irmos o mais rápido possível, entendido? —Ela estava séria e os dois rapazes logo consentiram.

—O senhor tem alguma pena ou pincel e tinta por aqui? —Perguntou ela a Hitoshi.

—Sim. Também precisará de papel, certo? Venha comigo. —Ele foi em direção à escada e Arien o seguiu.

Kotaru também se retirou da cozinha e Shin ia atrás dele quando uma mão o segurou, era Kaya que estava sentada, ela segurava sua saia com força e mordia seu lábio inferior, sua cabeça estava baixa.

—O-Obrigado… —disse Kaya sem erguer a cabeça, mas pela voz da mulher o rapaz pôde notar que ela chorava.

—Não precisa agradecer e também não precisa se preocupar, nós iremos manter vocês todos seguros. —Ele tocou delicadamente na mão dela e em seguida se retirou da cozinha e a mulher aproveitou o momento que estava sozinha para chorar.

Em um lugar longe dali e próximo do mesmo horário um homem chegava num lugar rodeado de soldados, ele entrou acompanhado de um soldado armado e foi levado para dentro do edifício.

Era um lugar bonito e organizado, os móveis e a iluminação pareciam caros, haviam alguns poucos homens com roupas de gala, mas a maioria das pessoas dentro do edifício usavam armaduras simples, todos armados.

Aquele homem foi levado à uma sala onde se encontravam dois homens, a sala era ampla e com vista para o centro de Azami, ao chegar lá o soldado que o acompanhava se retirou.

Um dos homens estava sentado, ele usava uma blusa branca com uma gola aberta. Um tecido na cor bordô que cobria seu braço direito, seus cabelos cobriam sua nuca, um brinco perfurava sua orelha esquerda, seu cabelo era jogado para o lado direito e eram escuros, também possuía bigode e cavanhaque que não se ligavam, vestia uma calça marrom e calçava botas pretas.

O homem que estava em pé mantinha seu elmo apoiado no braço direito e trajava uma armadura somente nas pernas, braços e ombro direito, uma blusa branca ia até a metade das coxas, também usava um cinto de couro, devido a gola decotada era possível ver uma cota de malha que ele vestia por debaixo da blusa, seus cabelos eram curtos e acinzentados e tinha uma expressão ambígua.

—Então finalmente vocês voltaram de sua missão, onde está Dain? —Perguntou o homem sentado.

—Dain foi abatido senhor. —Respondeu o homem que havia sido escoltado até a sala em baixo tom de voz.

—Você terá que falar mais alto se quiser que eu te ouça. —Ele possuía um tom ameaçador.

—Perdoe-me senhor Isao... O chefe Dain foi abatido. —Ele se curvou e dessa vez falou num tom de voz mais alto. Sua voz estava trêmula e seu corpo tremia da mesma maneira.

—Agora eu pude ouvir o que você disse, mas não tenho certeza se isso me agradou, se me permite eu gostaria de saber como Dain foi abatido por humanos desarmados e incapazes de usar magia. —Isao que se encontrava sentado atrás de uma bela mesa apoiou seus cotovelos nela e entrelaçou seus dedos encostando seu queixo neles encarando o soldado que havia fugido da casa dos Kimura com um olhar ameaçador.

—Todos foram abatidos senhor, inclusive eu, após algum tempo desacordado eu despertei e vi o senhor Dain caído no chão... Morto... A-Aquela casa é… —Ele estava receoso de completar sua fala, mas ao olhar para o rosto daquele homem que estava sentado à sua frente achou melhor terminar o que estava dizendo. —Aquela casa é amaldiçoada senhor. —No momento que aquelas palavras saíram de sua boca um grande arrependimento se apoderou dele que fechou os olhos com medo do que viria em seguida.

—Amaldiçoada? Haha! Você ouviu isso? Mais de uma dúzia de homens foram derrotados por uma casa amaldiçoada! Haha! Agora tudo faz sentido! —Ele começou a gargalhar e se balançar em sua cadeira e após um breve momento se recompôs.

—E o que você faz aqui? —Perguntou ele retomando seu olhar sério e ameaçador.

—Desculpe senhor, eu não entendi a pergunta. —Ele tinha medo de entender o que aquela pergunta significava, mas tinha ainda mais medo de deixar Isao sem uma resposta.

—Você não... Entendeu? —Ele se pôs de pé.

—Deixe-me explicar, eu enviei vocês todos para completar uma missão, se seus companheiros morreram nela, o máximo que você podia fazer era reunir sua pouca dignidade e morrer junto deles. —Ele caminhou em direção ao soldado que estava à sua frente e se agachou, fazendo-o tremer.

—Mas você preferiu fugir como um rato, não é mesmo? —Isao ergueu o queixo do soldado com seu indicador e em sua boca um grande sorriso se abriu.

—E-eu achei que seria cor-correto avisar o s-senhor. —O pobre soldado tremia como se estivesse prestes a ter uma convulsão.

—Oh, que soldado dedicado você não concorda Mitsuaki? —Perguntou Isao ao homem que estava parado somente assistindo o que acontecia, ele não disse nem uma palavra sequer, apenas sorria e assistia. —Eu diria para você ter cuidado para não se mijar, mas parece que é tarde demais não é mesmo? Se tivessem me dito que um homem do meu exército se mijou perante outro homem eu acho que não teria acreditado. —Isao parecia de certa forma decepcionado com aquele homem.

Isao se levantou enquanto continuava rindo altamente, e parou de frente para uma grande alabarda, seu cabo era longo e de uma madeira escura beirando o preto que estava apoiado num móvel feito para isso, suas lâminas eram douradas com detalhes em preto e uma ponta afiada que apontava para cima no meio das duas lâminas.

—Você disse que fugiu para me avisar do acontecido, certo?

O outro homem imediatamente chacoalhou a cabeça em resposta afirmativa.

—Então você já cumpriu seu propósito, certo? —Isao encarou o homem com um semblante aterrorizante, porém sereno.

Ele passava sua mão em sua alabarda e cuidadosamente a retirou do lugar e ficou a admirando por um breve momento, lentamente ele caminhava em direção ao homem que estava apoiado com um dos joelhos no chão.

—Irei te devolver um pouco de sua dignidade… Adeus. —Isao ergueu sua alabarda e brutalmente decapitou o homem que estava em sua frente.

—Isso foi algo completamente desnecessário Isao. —Mitsuaki não esboçou nenhuma reação, mesmo perante o que acabara de acontecer.

—Estranho você dizer isso, eu não vi você fazendo nada para impedir. —Ele mantinha em seu rosto um sorriso, como se o fato de sua sala estar banhada pelo sangue de um de seus soldados não o incomodasse.

—Se você matar cada sobrevivente de missões mal sucedidas seus homens irão desertar. —Mitsuaki também não parecia se incomodar com o brutal cenário onde se encontrava.

—Prefiro trabalhar sozinho do que com covardes sem honra. —Ele pôs sua alabarda de volta no lugar alisando seu cabelo em seguida.

—Bom, irei reportar ao meu superior que a missão falhou, foi bom te ver Isao. —Mitsuaki pulou o cadáver, com cuidado para não sujar seus pés no sangue do homem e se direcionou à porta da sala.

—Ainda não, me dê mais alguns dias… Eu mesmo irei pegar aquela maldita garotinha. —Respondeu ele sorrindo e Mitsuaki acenou com a cabeça e então se retirou.

Por LiamGt | 01/05/18 às 19:09 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama