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Capítulo 27 - Tile

O Mestiço (OM)

Capítulo 27 - Tile

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Eles mal saíram da floresta e Arien já voltou a insistir para Kotaru ficar no lugar dela.

—Kotaru, troque comigo.

—Por quê? É seu turno, e já tá próximo do meio-dia, o sol fica muito forte. —O rapaz se mantinha firme e negava o pedido dela.

—Eu preciso fazer algo, e com minhas mãos ocupadas não vai dar. —Arien chegou a conclusão de que apenas pedir não daria mais certo, por isso ela pensou numa desculpa para dobrar o rapaz.

—Eu não sei porque você pede, no fim independente do que eu escolho tenho que fazer do seu jeito. —Murmurou ele pegando seu escandaloso chapéu e indo para frente tomando as rédeas das mãos da elfa.

—E o que é que você tem que fazer? —Kotaru não estava nada feliz, o turno do meio-dia era o mais cansativo devido a potência do sol no horário.

—Eu vou costurar um fundo falso na tua bolsa, se em todas as cidades tiverem guardas revistando tudo, imagine como eles reagiriam ao enfiar a mão na bolsa e ela atravessar o fundo? —Arien já havia pensado em fazer isso, e ao lembrar disso teve a solução para escapar da obrigação de guiar a carruagem.

—Não sabia que você sabia costurar. —Kotaru não disse nada para demonstrar, mas ficou impressionado com a ideia da garota.

—Não costuro tão bem quanto minha dama, mas ela me ensinou bastantes coisas. —Arien pegou os materiais de costura em sua própria bolsa e começou a fazer o fundo falso.

O tempo passou rapidamente, já estava escurecendo, agora quem guiava a carruagem era Shin que já estava acordado, se não ocorresse nenhum imprevisto eles iriam chegar à próxima cidade a noite.

—Nós vamos parar na cidade para dormir? —Perguntou Shin que estava sentado na frente com Kotaru.

—Mesmo se não pararmos para dormir precisamos parar para comprar mantimentos, nós já estamos quase sem nada. —Arien terminava de costurar enrolada numa coberta devido a noite fria.

—Eu já vim aqui uma vez, antes de ser preso, é uma cidade enorme, caberiam duas Azamis dentro dela e ainda sobraria espaço. —Essa era a primeira vez que Arien ouvia Shin comentando sobre seu passado.

—Agora que você falou, o que você fazia antes de ser preso? —Ela não perdeu a oportunidade de tentar descobrir mais coisas sobre o rapaz.

—Não sei, talvez o mesmo que você, mas você nunca fala sobre. —Ele estava decidido a não revelar seu passado para ela enquanto não soubesse do dela.

—Então acho que ficaremos ambos sem saber nada um sobre o outro. —Arien se mantinha teimosa sobre o assunto, não é como se ela ainda achasse que Shin não fosse confiável, afinal ele quase morreu lutando ao lado dela. O atual motivo era apenas teimosia, apenas não queria dar o braço a torcer.

—Eu posso falar sobre o meu passado já que vocês querem tanto saber sobre o passado de alguém. —Kotaru tentava impedir uma possível discussão entre os dois.

—Nós já sabemos. —Responderam os dois.

Mais algumas horas se passaram e eles já podiam ver a cidade, era Tile, cercada por um alto muro e com um grande portão, tão grande quanto Shin havia comentado. Alguns minutos depois eles estavam de frente para aquele grande portão que parecia ainda maior quando se estava perto, ele estava fechado e em sua frente estavam dois soldados, um sentado numa cadeira e o outro parado em pé, ambos trajavam uma armadura completa e prateada.

—Com licença. —Arien se aproximou deles.

—Pois não? —Perguntou o que estava em pé.

—Vocês poderiam abrir o portão para entrarmos? —A garota se esforçou para transparecer ser o mais simpática possível.

—Sinto muito, mas não podemos. —O soldado permanecia com o rosto erguido, olhando para o horizonte, respondendo firmemente e ignorando qualquer tentativa da garota em manipulá-lo.

—Por que não? —Ela se surpreendeu com a atitude do homem.

—O portão só fica aberto do nascer do sol até o pôr do sol, após isso não podemos abrir os portões seja para quem for.

—Então teremos que dormir aqui fora? —Ela continuava tentando fazê-lo sentir pena dela, mas não estava tendo sucesso algum.

—Receio que sim. —Após ouvir a fria resposta do soldado a garota voltou até a carruagem.

—Teremos que dormir na carruagem hoje… —Ela falou decepcionada por não ter conseguido o que queria.

—Por quê? —Perguntou Shin.

—Aparentemente o portão tem horário para abrir e fechar, só poderemos entrar quando o sol nascer...

—Que droga! —Shin esperava dormir num lugar mais confortável que a carruagem nessa noite, mas como não tinha escolha logo pegou seu cobertor e foi se deitar, Kotaru e Arien também fizeram o mesmo.

A noite passou rapidamente, como já era de costume foi uma noite fria. Em meio a madrugada Kotaru se levantou para urinar e pôde ver uma dupla de soldados em frente ao portão.

—Seja lá qual for o porquê, é fato que estão reforçando a segurança. —Pensou o rapaz que logo voltou para se deitar.

O sol nasceu e junto dele o portão foi aberto, um grande barulho foi ocasionado devido a abertura do portão fazendo com que os três jovens acordassem rapidamente e sem nem ao menos lavar os rostos se direcionaram para a cidade, mas logo na entrada enquanto passavam pelo portão foram parados pelos guardas que queriam revistar o que eles traziam, e também checar as orelhas de cada um para ver se não eram elfos, cada vez mais era possível ver as consequências da declaração de guerra.

—Parece que eles não trazem nada além de roupas e comida senhor. —Disse um jovem soldado saindo de dentro da carruagem dos jovens.

—Bom, sejam bem-vindos à Tile, durante o pôr do sol vocês poderão ouvir um barulho de sino na rua, isso é o toque de recolher, qualquer um que estiver na rua após esse horário será considerado criminoso e será levado preso, então tomem cuidado. —Um dos soldados os informou, devolvendo a bolsa de Kotaru após verificá-la, o rapaz estava tenso enquanto ele fazia a vistoria, mas ele não achou o fundo falso, liberando-os.

—Tudo bem, obrigada. —Eles subiram na carruagem e puderam adentrar a cidade.

—Teodor, venha cá. —Um dos soldados, que aparentava ser mais velho dentre os que estavam alí, chamou o jovem soldado que havia revistado a carruagem.

—Sim senhor. —se apresentou rapidamente o jovem.

—Fique de olho nesses três para mim, meu instinto me diz para não confiar neles… —O homem parecia ter autoridade para mandar no rapaz que juntou os pés rapidamente e se retirou seguindo os três sigilosamente para não ser descoberto.

Mais a frente Shin guiava a carruagem por dentro da grande cidade, a maior que Kotaru havia visto até então, por isso ele fez questão de ir na frente, para poder admirar a beleza de Tile.

—Nossa! Imagino como deve ser a capital já que Tile é considerada uma cidade pequena. —Kotaru observava a cidade maravilhado.

Era uma cidade muito grande, vários dos prédios eram muito mais altos do que ele já havia visto, mas não tinha muitas árvores, sendo uma cidade extremamente urbanizada.

—Que prédios enormes! —Quanto mais olhava, mais encantado Kotaru ficava. Shin guiava a carruagem lentamente para que seu amigo pudesse apreciar a cidade que parecia tão bela aos seus olhos.

—É a primeira vez que vê um desse tamanho? —Diferente de Kotaru, Shin aparentava estar acostumado com aquela paisagem.

—Sim, eu não me lembro de já ter saído dos arredores de Komama… —O rapaz respondia sem desgrudar os olhos da paisagem.

—Os da capital são ainda maiores. —Ao dizer isso Shin conseguiu a atenção do outro rapaz.

—Mesmo? E por que você nunca me contou sobre eles? —Kotaru ficou bravo por Shin saber de coisas sobre as construções com mais de dois andares e nunca ter lhe contado nada.

—Nossas conversas sempre foram você falando e eu escutando. —Respondeu ele rindo.

—Então você já foi para Tavira? —Arien tentava descobrir o que podia sobre o rapaz usando as pontas soltas nas coisas que ele falava.

—Eu nasci lá. —Ele surpreendeu a garota que pensou que ele não responderia.

—E como você foi acabar preso em Komama? —Ela continuava tentando extrair toda informação que podia dele.

—Isso eu te conto outro dia, talvez quando você quiser falar mais sobre o seu passado, nós podemos sentar ao redor de uma fogueira e todos falamos sobre nossas história, o que acha? —A ironia se apoderou do tom de Shin, Arien cruzou seus braços fazendo bico.

Eles continuaram andando pela cidade até que se depararam com uma grande multidão que atrapalhava a passagem. Não era possível ouvir com precisão o que acontecia no meio daquela gente, mas podia-se ouvir alguém gritando, e pelo pouco que dava para entender, estavam vendendo algo.

Os três decidiram deixar a carruagem sob os cuidados de um homem que estava próximo dali cuidando de outras carruagens e cavalos, ele cobrou vinte réis para cuidar dela e assim eles com um pouco de dificuldade conseguiram encontrar um lugar em meio a multidão que desse para ver o que acontecia.

—Venham! Venham! Vejam este aqui, tem todos os dentes, tem os músculos fortes, ainda é jovem, aposto que pode carregar muito peso! Apenas tomem cuidado para que suas esposas não se interessem mais por ele do que por vocês. Hahaha! —Gritava um homem que estava em cima de uma espécie de palco no meio daquela multidão.

O homem tinha a pele clara e estatura média, magro e com uma roupa elegante, seus cabelos eram loiros e penteados de forma que uma franja caía sobre o lado esquerdo de sua face. Ao seu lado o que estava sendo vendido era um homem alto, pele clara e marcada com diversas cicatrizes e cortes recentes ainda em processo de cicatrização, sua cabeça estava raspada, ele vestia apenas uma calça larga e escura, com os pés descalços e sujos e as mãos acorrentadas, suas orelhas eram pontudas, denunciando sua raça.

Ao redor da multidão tinham aproximadamente vinte guardas que impediam que pessoas interferissem e ao lado do vendedor mais dois guardas e outros seis escravos, todos elfos.

—A-aquilo é… —Arien levou sua mão à boca, seus olhos arregalaram, chocada ao ver o que acontecia.

—Calma Arien. —Kotaru que estava tão chocado quanto ela, mas sabia o peso que aquela cena tinha para a garota, por isso segurou em seus ombros.

—Eu vou acabar com esse homem! —A elfa estava com os olhos cheios de raiva.

—Arien, pense bem no que você vai fazer, analise a situação, além dos guardas que estão do lado dele tem mais vinte controlando a aproximação das pessoas, e enquanto procurávamos um lugar para ver melhor o que acontecia eu vi outros cinco guardas misturados à multidão. —Shin não achava prudente agir naquelas circunstâncias, discordando da garota.

—Praticamente o dobro da quantidade que tinha na casa de Mari, e nós os derrotamos sem dificuldades, acho que conseguimos fazer isso. —Arien sempre agiu como a razão do grupo, mas no momento ela não conseguia medir as consequências que teria em atacar aquele homem.

—A diferença é que nós estamos numa cidade que permite esse tipo de coisa, e que o reforço chegaria muito antes de nós conseguirmos derrotar metade deles, isso assumindo que eles sejam tão fracos quanto aqueles eram. —Shin também não gostava do que via, mas se esforçava para se manter racional e não agir por impulso.

—Eles estão vendendo pessoas, e você quer que nós não façamos nada? —Kotaru estava tão nervoso quanto Arien e como sempre a razão ficava em segundo plano.

—-Nós podemos tentar algo, mas não aqui, muito menos agora. —Shin tentava acalmá-los, enquanto isso pessoas dentre a multidão gritava valores como em um leilão, até que todos ouviram um grito do vendedor.

—VENDIDO! Vendido para o senhor que ofereceu oito mil réis! —O homem loiro que parecia se sentir em um show entregou o escravo a um dos guardas que o levou até o comprador que lhe entregou um saco com o dinheiro para ele em troca.

—Eu não aguento mais ficar aqui. —A mente de Arien estava em um grande conflito, ela sabia que Shin estava certo e buscava ouvir o rapaz. A garota mordeu seu lábio inferior na tentativa de manter a calma e saiu daquele lugar com dificuldade para se desvencilhar da multidão que a oprimia.

—Vamos. —Shin segurou Kotaru pelo braço arrastando-o consigo.

Eles pegaram a carruagem e saíram daquele lugar o mais rápido que puderam, um grande silêncio se apoderou da carruagem até eles chegarem em uma pensão numa área um pouco mais humilde na cidade.

—No que posso ajudar? —Perguntou uma senhora que abriu a porta, podia-se notar sua idade avançada, ela tinha os cabelos grisalhos e se apoiava numa bengala.

—A senhora tem algum quarto vago? —Shin sorriu na tentativa de conquistar a simpatia daquela senhora.

—Para quantas pessoas?

—Três.

—Todos homenzinhos?

—Não... Dois rapazes e uma garota. —Ele sabia que aquilo poderia soar estranho, mas achou que mentir não seria uma boa opção.

—Então, acho que serão dois quartos não é mesmo?

—Não... Apenas um quarto basta. —O rapaz queria poder alugar dois quartos, mas Arien deixou claro que ele deveria pedir por apenas um, como sempre a garota agia de maneira avarenta.

—Esses jovens de hoje em dia são mesmo modernos. —A senhora sorria com certa malícia em seu rosto enrugado.

—Não é na-da d-disso senhora, nós somos… —Shin pensou muito bem no que iria dizer.

—Apenas companheiros de viagem...

—Não se preocupe meu jovem, você não me deve satisfação, o que vocês farão no quarto, ficará no quarto, eu já fui jovem e sei o que é querer aproveitar a juventude. —Ela continuava com aquele sorriso malicioso em seu rosto e suas palavras conseguiram deixar Shin extremamente corado.

—Então a senhora tem um quarto? —O rapaz tentou mudar de assunto rapidamente.

—Sim, sim, eu tenho, e também há lugar para por sua carruagem, o estabelecimento vizinho é do meu sobrinho, ele cuida de cavalos e guarda carruagens. —Ela logo observou a carruagem e aproveitou para fazer a propaganda do estabelecimento de seu sobrinho.

—Tudo bem eu irei lá, meus amigos vão acertar os custos com a senhora tudo bem? —Perguntou ele.

—Sim, claro, vá lá. —Mesmo após mudarem o assunto aquele sorriso permanecia no rosto da senhora que havia levado-os até aquele que seria seu quarto.


Por LiamGt | 31/05/18 às 22:02 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama