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Capítulo 34 - Caravana Sombria

O Mestiço (OM)

Capítulo 34 - Caravana Sombria

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Todos ficaram em estado de choque ao ter em suas gargantas facas ameaçando acabar com a vida deles naquele instante. Era impossível não se perguntar como eles haviam se aproximado sem que ninguém notasse.

—O que vocês querem de nós? —Shin não conseguiu manter a cabeça fria e o medo o levou a agir dessa maneira.

—Nós que perguntamos, o que vocês querem de nós? —Perguntou o homem que segurava Arien, sua voz era grave e essa era toda a informação que eles tinham daqueles que os mantinham presos.

—Nós? Nós não queremos nada, nem sabemos quem vocês são… —Arien respondeu antes que Shin tomasse a frente e falasse algo que não devia.

—Vocês dizem não querer nada de nós, mas estavam observando nosso acampamento. —O mesmo homem respondeu, ele parecia ser o líder daquele pequeno grupo.

—Oh, isso? Nós não estamos armando nada, apenas nos surpreendemos ao ver alguém por aqui e ficamos pensando sobre o quão bom seria ter uma fogueira para aquecer a nós e ao bebê. —Arien tentava fazê-lo sentir pena deles usando a criança como artífice.

—O que faremos? —Perguntou o homem que segurava Kotaru, esse tinha a voz uma voz mais suave, parecendo ser mais jovem.

—Talvez seria melhor levá-los à Eulalia. —Quem sugeriu isso segurava Dana e possuía uma voz feminina, porém, forte e imponente.

—Ou nós poderíamos acabar com eles aqui mesmo. —A voz desta também era feminina, suave, e ela segurava Calime. —Com exceção do bebê é claro, eu não mato bebês…

—Acho que ver Eulália seria uma boa… —Kotaru estava trêmulo, o rapaz temia aquele grupo que chegou sem que Arien notasse, mesmo com sua magia Find ativa, seja lá quem eles fossem, eram fortes.

—Não iremos derramar sangue a toa, vamos levá-los a Eulália, mas fiquem avisados, qualquer gracinha no meio do caminho e nós cortamos a garganta do engraçado antes que esse tenha a oportunidade de se desculpar, e se alguém chorar a morte dele morrerá junto. —Falou o homem que segurava Arien.

Eles desceram a colina, foi uma caminhada tomada pela tensão, era inevitável para o grupo que foi emboscado pensar em um rota de fuga, mas nenhum conseguia pensar em algo que fosse teoricamente capaz de livrá-los.

Após a longa caminhada sob a luz do luar eles chegaram até as fogueiras onde se encontrava um grande grupo de pessoas e diversas tendas, e eles provavelmente encontrariam Eulália.

Ao reparar nas pessoas que rodeavam o fogo eles puderam notar pessoas com as peles pálidas, um pouco arroxeadas, com orelhas pontudas, alguns outros pareciam humano. Kotaru viu ao chegar duas pequenas garotas, não pequeno como uma criança, ou um bebê, mas do tamanho da mão de um homem adulto.

As duas os espiava em meio às pessoas, uma tinha a pele arroxeada um pouco brilhosa, suas orelhas eram pontudas e um par de asas lilás, elas lembravam asas de borboletas. A outra tinha a pele esverdeada e suas asas eram da mesma cor da pele, porém, mais escuro e com alguns detalhes pretos.

O garoto ficou encantado ao ver aquelas pequenas criaturas. Todos se perguntavam aonde estavam, seriam esses homens escravos de seres de outras raças? Mas ao olhar aquelas pessoas podia-se notar que elas se divertiam.

Eles foram levados até uma tenda bem iluminada, dentro dela havia uma senhora de estatura baixa, sua pele era branca e enrugada, fumava um grande cachimbo e portava em sua cabeça um chapéu extravagante como o que Kotaru usava no caminho de Azami.

—Senhora Eulália, nós encontramos estes cinco nos espionando do topo da colina. —Quem disse isso foi aquele que segurava Arien, ele era alto, aparentava ter algo próximo de dois metros, tinha a pele negra e as orelhas pontudas, vestia roupas pesadas, mas seus braços fortes ficavam nus, seus dread eram compridos e amarrados.

Após se pronunciar, todos do grupo de Kotaru foram forçados a ficar de joelhos perante Eulália que se levantou com o auxílio de sua bengala, ela caminhou lentamente em direção aos cinco parando de frente para Kotaru que ficou intimidado com a presença daquela senhora. Ela assoprou a fumaça do seu fumo na cara do rapaz que não ficou muito contente, mas lutou para não transparecer sua raiva.

—Oh… —Eulália ergueu a aba de seu chapéu aproximado seus olhos envoltos de rugas do rapaz.

—Que belo colírio para os meus olhos você me trouxe Azhar. —A velha sorriu maliciosamente e Kotaru corou imediatamente.

—Senhora Eulália… —Azhar também ficou constrangido com a reação dela, embora já esperasse por aquilo.

—Bem, nós não podemos degolar um jovem tão formoso, ainda mais se ele tiver um corpo forte assim como o seu… —Ela encarou Azhar com os olhos brilhando e o grande homem desviou o olhar ficando ainda mais envergonhado.

Eulalia gargalhou ao ver como era fácil zombar dos dois e logo levou o cachimbo até a boca fumando.

—Então… É verdade que estavam nos espionando? —Ela ficou séria repentinamente e os encarou com um olhar diferente.

—Não mintam, ou eu saberei.

—Nós estávamos sim olhando para o acampamento de vocês, mas não estávamos espiando, apenas ficamos imaginando o quão bom seria comer algo ou ficar próximo à uma fogueira em meio a esse frio. —Antes que Arien ou Shin pudessem falar alguma coisa Kotaru tomou a frente agindo com sinceridade e sem tentar manipular os sentimentos de Eulália.

Ela se aproximou novamente de Kotaru, chegando bem perto dessa vez, o rapaz manteve uma postura séria, pois pensava que ela estava analisando se ele havia mentido ou não, quando ela sussurrou.

—Se você me der um beijo eu posso te dar muita comida. —Ela sorriu cheia de malícia e o rapaz enrubesceu de imediato.

—Ora… Vocês homens são muito tímidos e lerdos, por isso que meu amado Dionísio jamais será superado, quando éramos jovens e começamos a nos conhecer, se é que me entende, nós levamos isso muito a sério, a todo instante Dionísio e eu… —Eulália foi interrompida por Azhar.

—Chega! Está cedo demais para suas histórias pervertidas! Diga logo o que faremos com eles. —Embora a pele de Azhar fosse escura era possível ver o quão vermelho ele estava.

—Ora! Eu ia dizer que nós conversávamos a todo instante… Humpf! —Eulalia cruzou os braços fazendo birra, mas logo voltou a falar.

—Deixe-os comer e dê algum leite para essa criança.—Ela voltou a se sentar em meio às várias almofadas que se encontravam no chão.

—Tem certeza Eulália? E se eles tiverem más intenções? —Azhar parecia não confiar no pequeno grupo de Kotaru.

—Ora! Você me diz para decidir e agora vai ficar dando pitaco na minha decisão? Leve-os para fora e os alimente, amanhã cedo nós partiremos e eles ficam, agora me deixem sozinha… —Eulália ficou vermelha enquanto gritava com Azhar e quando eles estavam prestes a sair ela se recompôs e voltou a falar.

—Você não rapaz, você irá me fazer companhia. —Ela encarava Kotaru com um olhar que era sua mais singela tentativa de seduzir alguém, obviamente aquilo só amedrontou o rapaz que arregalou os olhos, mas não teve escolha a não ser ficar na tenda dela.

Kotaru estava tenso, pois não sabia o que Eulália queria com ele, o rapaz temia que as piadas pervertidas dela fossem sérias. A velha senhora mantinha-se calada, com os olhos focados nele enquanto fumava seu cachimbo.

—Ér.. A senhora disse q- —O rapaz foi interrompido imediatamente.

—SENHORA!? —Eulália falou com o tom de voz extremamente elevado e o olhar safado deu lugar a uma expressão cheia de raiva.

—Se-senhorita? —O rapaz ficou temeroso com a aura que sentiu quando Eulália gritou com ele e tentou se corrigir imediatamente.

—Apenas você, ou Eulália, ou docinho. —O olhar devasso retornou ao rosto dela.

—Desculpe-me, é que eu pensei que seria a melhor forma de me referir a se… Ér, a você, e eu também vi aquele outro homem te chamando assim. —Kotaru se curvou em sinal de arrependimento e respeito.

—Ele me chama de senhora como forma de respeito, você me chamou assim por causa da minha idade e isso é inadmissível. —Ela se levantou do amontoado de almofadas estendendo as mãos para a fogueira.

—Eu pedi para que ficasse porque queria lhe perguntar uma coisa. —Ela o encarou com um olhar sério desta vez.

—Eu ficarei contente em responder. —Kotaru respondia Eulália como quem tenta caminhar sobre cascas de ovos, tendo cuidado em cada palavra que dizia, afinal, se ela quisesse nem ele nem seus amigos veriam o sol nascer.

—Você já ouviu falar sobre clarividentes? —Em todos os cenários que Kotaru pensou, essa pergunta jamais lhe passou pela mente.

—Acho que não… São pessoas que vêem no escuro? —O rapaz tentou associar o nome para dar uma resposta para Eulália, mas tudo o que ele conseguiu foi tirar uma bela gargalhada dela.

—Realmente beleza e inteligência são duas coisas que dificilmente andam de mãos dadas. —Kotaru não sabia se deveria se ofender ou ficar contente com as palavras dela.

—Bem… A clarividência é uma capacidade extremamente rara. O que a torna tão rara é o fato de que não há como aprender a ser um clarividente, ou você nasce sendo, ou morrerá sem nunca ser. —O rapaz começou a desenvolver interesse pelo o que ouvia.

—Mas o que um clarividente faz? —Kotaru havia ficado curioso, e se perguntava porque Eulália estava lhe contando isso.

—Um clarividente é capaz de ver o futuro, existem diversos tipos, mas a grande maioria não é capaz de controlar, o que significa que eles não veem o futuro quando querem, nem a parte que querem. Bem, já fazem dezesseis estações, ou seriam vinte? Bom, já faz algum tempo que eu encontrei uma garota, largada na sarjeta, quando eu a encontrei ela me olhou e disse que já tinha me visto… Eu sei que não estou mais na flor da idade, mas acho que seria capaz de me lembrar se eu já a tivesse visto. Eu a abriguei e a alimentei. Alguns dias mais tarde ela me disse que era clarividente e então eu entendi o por quê dela dizer que me conhecia. —O rapaz se sentou no chão e começou a encarar Eulália com um olhar extremamente interessante, como uma criança que ouve um conto de fadas na hora de dormir.

—Ela havia tido uma visão do futuro com a se… Você? —Eulália voltou a se sentar em seu amontoado de almofadas enquanto se divertia com todo o interesse que Kotaru havia demonstrado.  

—Sim, ela disse que já tinha me visto duas vezes, na primeira eu a tirava daquela vida miserável que ela tinha e na segunda ela me via falando com um garoto, e então ela me falou como era esse rapaz, sobre seus cabelos negros, sobre seus olhos escuros e o cachecol que envolvia seu pescoço… Você conhece alguém assim Kotaru? É assim que você se chama não é mesmo? —Kotaru ficou espantado ao ouvir aquilo, ele não tinha falado seu nome até aquele momento…

—Sim… Esse é meu nome… Ela me viu falando com a… Com você? —Havia um misto de espanto com alegria dentro do rapaz, por ter sido parte de uma visão o fez feliz.

—Exato, a única diferença no futuro que ela viu para o que está acontecendo é que vocês se apresentavam, com essa única exceção eu sabia tudo o que você iria falar. —Ela o encarou com um sorriso no rosto e o rapaz ficou ainda mais surpreso e excitado com aquilo.

—Mais tarde, cerca de doze estações, ou talvez um zehn –conjunto de dez estações– ela veio até mim novamente. Pela terceira vez ela teve uma visão comigo, e novamente você estava nela, e nesta visão eu fazia a sua iniciação.

—Minha iniciação? O que é isso? —O rapaz estranhou, pois não sabia o que aquilo significava. Quanto mais Eulália contava mais ele se intrigava e se envolvia.

—Bem, é algo que em breve saberá, isso se você ficar conosco. —Eulália estava convidando Kotaru, mas o rapaz teve suas dúvidas sobre aquilo, ele achou repentino demais e começou a suspeitar dentro de si.

—Você está me convidado para fazer parte da sua… Comunidade?

—Exato.

—Mas eu não sei nada sobre vocês… —O olhar tomado pelo interesse se apartou da face de Kotaru que se levantou dando pronto para sair.

—Pergunte o que quiser e eu lhe responderei. —Eulália o encarou com um sorriso em seu rosto, o rapaz se perguntava se deveria confiar nela ou não.

Sem que notasse, Kotaru deixou de confiar cegamente nas pessoas como quando conheceu Arien.

Kotaru fez uma série de perguntas à Eulália que lhe respondeu tudo deixando para que ele julgasse se ela falava a verdade ou não.

Eulália lhe contou que eles eram uma espécie de comunidade nômade. Contando com ela havia cinquenta e três pessoas, sendo a grande maioria drows, uma raça que se recusou a seguir as leis impostas pelo Conselho dos Seis e por isso passou a ser perseguida. Todas as terras dos drows foram tomadas e seu povo foi capturado, muitos foram mortos e alguns poucos conseguiram fugir.

Eulália lhe disse que ela era humana, mas havia se comovido com a história dos drows e não concordava com várias das leis criadas pelo Conselho por isso decidiu lutar pela causa da raça. No início eles eram apenas cinco viajando pelo Reino do Sul, após algum tempo eles vieram para o Reino Central onde os números do pequeno grupo foram crescendo junto com o risco de se caminhar pelas ruas.

Foi então que Eulália criou uma espécie de sistema para garantir a segurança de sua comunidade. Eles faziam missões, como as que Kotaru fez quando conheceu Arien paga ganhar dinheiro, mas apenas os poucos humanos da comunidade que poderiam fazer a grande maioria dessas missões. Com o dinheiro adquirido eles compraram diversas carruagens e tendas, dessa maneira eles viajavam, porém, existia algo que garantia a segurança deles. Os drows são muito conhecidos por nascerem tendo a base de suas auras nas trevas, não é uma regra, existem drows com auras de outros elementos, mas a grande maioria nasce sobre esse princípio.

Com o auxílio das sombras eles viajam durante a noite em segurança e passam despercebidos na maior parte do tempo, durante o dia um grupo de cinco pessoas capazes de usar a magia da invisibilidade com maestria escondem todas as carruagens. Algumas poucas pessoas em lugares isolados começaram a criar histórias sobre uma caravana, apelidando-a de caravana sombria, e algumas lendas se formaram ao redor desse pequeno grupo nômade.

—E então? Agora que você já sabe sobre nós já tem uma resposta para me dar? Irá nos acompanhar ou não? —Era inegável o interesse de Kotaru na comunidade de Eulália, afinal eles tem tudo que ele precisa para ficar mais forte, fora que a quantidade de pessoas tornaria a viagem mais segura.

Por LiamGt | 23/06/18 às 17:38 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama