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Capítulo 36 - Desorientado

O Mestiço (OM)

Capítulo 36 - Desorientado

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Um alto grito carregado de muita dor ecoou dentro da caverna. O sangue de Kotaru escorria por seu braço e as presas do lobo fincadas em sua pele. O animal o encarava como se não estivesse satisfeito com o braço, mas ele agia de maneira estranha, ficava ali, parado, encarando o rapaz. Após mordê-lo o lobo não se mexeu nem um centímetro sequer, nem começou a mastigar o braço que estava em sua boca.

Kotaru o encarava desesperado e sem poder se mover, afinal, caso ele se afastasse suas chances de ficar sem seu braço eram extremamente altas. Tudo o que ele podia fazer era assistir seu sangue escorrendo pouco a pouco e pingando no chão da caverna enquanto encarava os rubros olhos daquele animal que parecia pronto para devorá-lo.

—Se eu acertá-lo com meu Mystical Impact talvez ele largue meu braço por vontade própria… Bem… Ou é isso ou sangrar até a morte… —Kotaru buscava desesperadamente um jeito de sair daquela situação que parecia insolúvel.

Assim que o primeiro músculo de seu braço se moveu o lobo pressionou suas presas contra a pele do rapaz com ainda mais força… Era como se ele soubesse o que Kotaru planejava.

—O que você quer? Hein? Por que não me mata logo? —Perdido em meio ao medo e o desespero o rapaz começou a gritar com o animal que teve uma atitude completamente inesperada. Ele largou o pedaço de carne que estava em sua boca, se afastou um pouco e começou a rodear Kotaru vagarosamente.

Kotaru estava aliviado por ter seu braço livre daquelas poderosas presas, mas aquele lento movimento do animal o deixava tenso, era como se a própria morte o encurralasse, pronta para dar o bote e acabar com sua vida a qualquer momento.

Além de tudo, sobreviver ao lobo agora já não significava mais sair daquela situação com vida. Fora o poderoso predador que parecia demonstrar misericórdia, ou apenas prazer em vê-lo sendo consumido pelo desespero, Kotaru agora tinha um braço em pedaços que não iria parar de sangrar apenas com porque ele queria que isso acontecesse, para somar ainda tinha o frio impiedoso que o forçava a ficar naquele lugar escuro e gelado.

Ele precisava parar aquele sangramento com algo e novamente seu cachecol pareceu ser a melhor solução, ele poderia inclusive fazer pressão amarrando firmemente ao redor de seu braço. Ao estender sua mão para pegar o cachecol que enrolava seus pés o lobo pareceu ficar mais agressivo, ficando em posição de ataque e rosnando ameaçadoramente.

Imediatamente Kotaru afastou sua mão do cachecol e o lobo voltou a ficar mais calmo rodeando-o novamente.

Além de desesperadora aquela situação era completamente estranha. O animal parecia brincar com Kotaru, tendo um caráter sádico e apreciando a tortura psicológica que exercia sobre o rapaz.

—O que é isso? —Kotaru encarava seu braço ensanguentado buscando pensar em uma solução quando viu sair de uma das feridas algo semelhante a um floco de neve, porém, ele era negro, mais daquelas coisas começaram a sair. Como se já não fosse estranho o suficiente esses “flocos” flutuavam ao sair do ferimento do rapaz.

Aqueles pontos pretos passavam pelos olhos do rapaz e continuavam a subir lentamente, foi nesse instante que ele chegou a uma conclusão.

—Isto é um sonho… Só pode ser… Não tem outra explicação… —Kotaru se agarrou a esse pensamento com todas suas forças, afinal, se ele estivesse errado, sair daquela situação com vida seria impossível.

Após rodeá-lo por um longo tempo o lobo pareceu satisfeito com o tempo que passou torturando o garoto e então deu as costas a ele dirigindo-se a saída da caverna.

—Ele está… Indo embora? —Kotaru não conseguia acreditar no que estava vendo.

—Nos… V-ve-remos… —O rapaz pôde ouvir uma voz um tanto distorcida e completamente sombria, na saída da caverna ele pôde ver aqueles olhos vermelhos encarando-o enquanto sumia em meio a nevasca.

Ele sentiu algo estranho dentro dele ao ouvir aquelas palavras que foram difíceis de se entender, seu corpo congelou completamente. Kotaru tentava respirar, mas não conseguia, ele nunca havia se afogado, mas imaginou que aquela seria uma sensação parecida. O pânico havia se apoderado dele e de repente ele começou a ouvir seu nome ser chamado, mas parecia que quem o chamava estava muito distante.

Kotaru respirava desesperadamente, mas o ar parecia não entrar por suas narinas ou boca. Ele começou a sentir em seu rosto algo como tapas e a voz que lhe chamava parecia estar ficando mais perto a cada instante que passava, não demorou muito para que ele reconhecesse a dona daquela voz, era Arien.

—KOTARU!!! KOTARU!!! —A garota batia desesperadamente no rosto do rapaz que estava deitado numa cama.

Azhar e um outro homem seguravam-no com força, pois ele se debatia, de sua testa o suor escorria sem parar. O cachecol que enrolava seu pescoço foi retirado e sua camiseta que estava completamente encharcada foi rasgada e jogada em qualquer lugar. Ele parecia ter um convulsão quando de repente se levantou ficando sentado respirando profundamente como se o ar fosse acabar a qualquer momento.

Arien sentiu um forte impulso dentro de si para abraçar o rapaz ao vê-lo bem. Já era de noite e ela estava ao seu lado desde pouco antes do meio-dia. A elfa reprimiu aquele desejo, mas ficou muito aliviada.

Shin também estava na tenda junto deles e diferente de Arien correu para abraçar seu amigo.

—Que susto que você me deu… —Sem nem ao menos notar todo o suor de Kotaru, Shin o abraçou fortemente enquanto o outro rapaz buscava entender o que estava acontecendo.

—Onde nós estamos? —Ele começou a olhar ao redor, sua mente estava completamente confusa, ele olhou para seu braço logo que lembrou de tudo que havia acontecido, mas não encontrou ferida alguma.

—Shin… Você me curou? —Uma grande discussão acontecia dentro da cabeça de Kotaru, parte dele dizia que o lobo tinha sido um sonho, mas outra parte, por algum motivo, dizia que ele havia desmaiado e estava sonhando agora.

—Eu tentei, mas eu não sabia o que você tinha ou o que estava acontecendo você só… —Antes que Shin pudesse concluir sua frase ele foi interrompido.

—Não… Eu quis dizer se você curou meu braço… Ele estava bem feio, não?

Shin olhou para Arien estranhando a pergunta de Kotaru e notou no rosto da elfa que ela também não tinha entendido.

—Você estava bem mal, mas seu braço sempre esteve normal Kotaru…

—O que está acontecendo… —Murmurou Kotaru levando a sua mão até a cabeça. Suas vistas estavam um pouco embaçadas e ele sentia as coisas girando ao seu redor.

—Vejo que você acordou… —Kotaru reconheceu imediatamente aquela voz e ao erguer seus olhos pôde confirmar que era Eulália quem falava.

As lembranças de Kotaru começaram a voltar e aos poucos ele entendia melhor o que tinha acontecido. Algumas poucas palavras se estabeleceu em sua mente: “acho que é melhor você ir dormir”. Essa frase ecoava na cabeça dele.

—Você! Foi você que fez isso comigo! —Kotaru se levantou da cama furioso apontando o dedo para Eulália que permaneceu serena.

—Ele está delirando? —A velha senhora parecia zombar do rapaz, transparecendo não saber do que ele falava.

—Kotaru, acalme-se, Eulália tentou de tudo para ajudar, ela não fez nada. —Shin tentava acalmar seu amigo.

—Não Shin, foi ela… Ela me tocou na testa com o polegar e falou que era melhor eu ir dormir, depois disso eu comecei a perder meus sentidos, ai eu acordei naquela floresta… —Ele estava completamente alterado e após terminar de falar notou no rosto de Shin e Arien a falta de crença deles em suas palavras.

—Agora eu entendi… Você já estava delirando desde ontem a noite… O que você contou aconteceu, mas não da mesma maneira que você disse. Você parecia estar se sentindo mal, por isso toquei sua testa, para ver se estava febril, e lhe mandei dormir simplesmente porque você não me parecia estar bem. Quando se levantou para ir deitar você começou a andar como um bêbado, por isso pedi para te levarem para uma cama. —Todos acreditaram imediatamente nas palavras de Eulália, até mesmo Kotaru começou a questionar o que realmente tinha acontecido.

—Venha, é melhor você se deitar novamente, você deve estar desorientado, mas logo tudo ficará claro em sua mente e você poderá separá a realidade de um sonho ruim. —Arien ajudou Kotaru a voltar para cama onde ele se sentou ainda perdido em seus pensamentos buscando entender o que acontecia.

—Bem, deixarei vocês a sós, como ele já parece melhor nós voltaremos a nos mover, eu irei avisá-los quando formos partir. —Após dizer isso Eulália se retirou e Azhar e o outro homem que ajudava a segurar Kotaru saíram junto dela.

A pequena festa da comunidade de Eulália acabou após o nascer do sol e eles logo voltaram a andar até o fim da tarde. Pouco antes do pôr do sol a situação de Kotaru piorou e eles decidiram parar, ergueram algumas tendas e cuidaram do rapaz.

Longe da tenda Eulália fumava seu cachimbo enquanto apreciava a bela vista da lua refletindo no lago, aquela noite estava especialmente agradável.

—Eulália… Por que está fazendo isso? —Azhar se aproximou dela ficando ao seu lado encarando o lago.

—Você terá que ser mais claro meu caro. —Ela soprou aos céus três anéis de fumaça, o segundo menor que o primeiro e o terceiro menor que o segundo, e ficou encarando-os até se dissiparem.

—Você forçou a iniciação daquele garoto… Você nunca fez isso antes Eulália e sempre nos alertou o quão perigoso é fazer isso sem explicar a situação para a pessoa que seria iniciada. —O tom Azhar era de reprovação, mesmo falando com ela que parecia ser sua superior.

—Eu sei, eu sei… Você quer mesmo uma resposta? Porque a que eu tenho não é muito boa… —Eulália estava pronta para rir do que ela mesma havia dito quando viu a seriedade no rosto do rapaz.

—Ok… Eu estava um pouco bêbada então isso já deve contar a meu favor, afinal, eu não estava em meu juízo perfeito… O rapaz, Kotaru, veio até mim e enquanto conversávamos eu sentia algo diferente…

Ela fazia algumas pausas enquanto falava para fumar, Azhar parecia estar acostumado com o jeito lento de falar e com as longas pausas, qualquer outro provavelmente estaria estressado e tentaria apressá-la, mas ele não.

—Era como se o guardião dele me chamasse, eu podia ouvir os uivos, talvez eu tenha entendido errado, mas ele parecia querer poder entrar em contato com o rapaz por isso eu o iniciei… Eu sei que foi precoce, mas ele também era o jovem das visões da Mercy, então eu sabia que daria tudo certo.

—Eulália, eu já lhe disse para não se apoiar assim nas premonições dela, o futuro não é algo certo e saber sobre ele apenas o torna mais incerto… Você poderia ter matado aquele garoto! —Azhar continuava repreendendo-a como se fosse seu pai ou alguém a quem ela devesse obediência.

—Eu sei… Mas foi difícil demais para mim resistir ao pedido do guardião dele… —Após falar isso com um tom mais sério Azhar pareceu relevar o ocorrido e um breve silêncio se estabeleceu entre eles dois.

—Explique tudo para ele… Você foi cruel demais ao dizer aquelas coisas para mexer com a cabeça dele, apenas ter ido ao Paralelo sem informação nenhuma do que estava acontecendo já deve ser o suficiente para confundir qualquer um. —Após essa última advertência Azhar se dirigiu para a área das tendas para ajudar a desmontar as poucas que foram armadas.

—Odeio quando ele está certo…

Longe dali, há algumas horas atrás, pouco depois do nascer do sol. Nesse exato momento um homem estava em pé sobre uma pilha de corpos, banhado pelo sangue de seus inimigos. Ele admirava o esplendor do sol que se erguia ao alto céu onipotentemente, em seu rosto havia um sorriso de satisfação.

Os soldados de Tile gritavam comemorando a vitória, todos chamavam pelo nome de Mitsuaki. O ego do matador de elfos se inflava a cada vez que ouvia seu nome, mas aquela glória não era o que ele buscava. Sua verdadeira recompensa estava a caminho, assim como ele tinha planejado.

Durante todo o ataque dos elfos Henrich dormiu, e mesmo agora que os invasores foram derrotados ele permanecia adormecido.

Após aquele breve momento de comemoração pela vitória, Mitsuaki ordenou que cada soldado que fosse capaz de andar começasse a procurar nos escombros das casas, que foram queimadas e derrubadas, por pessoas que poderiam ter sobrevivido. Logo após terminar seu pequeno discurso um grupo de soldados se aproximaram dele avisando-o que Henrich ainda dormia. Os soldados falavam com um tom de preocupação, afinal aquele sono não era normal. Tapas no rosto e água não foram o suficiente para acordá-lo.

—Eu irei falar com um conhecido, ele deverá ser capaz de acordá-lo… Aposto que aqueles elfos malditos são responsáveis por isso! —A capacidade de Mitsuaki de atuar era realmente louvável, todos os soldados que vieram notificá-lo puderam ver no rosto dele a raiva em sua expressão facial e seu tom de voz, mas na realidade ele queria poder saltar de tão alegre que estava.

Estava próximo do meio dia quando Mitsuaki entrou no estabelecimento de Fahim.

—E então? Parece que ocorreu tudo conforme o planejado, não é mesmo? —Fahim falava com um sorriso vitorioso em seu rosto.

—A principal parte virá agora… —Ele se pôs sobre seu joelho direito em frente ao grande espelho, novamente Fahim proclamou um canto mágico e o rosto de Gregor apareceu.

—O que foi desta vez? —Gregor não parecia muito feliz em ser incomodado.

—Senhor, eu vim relatar-lhe uma invasão élfica que aconteceu nesta madrugada. Os danos foram extremos, boa parte da cidade foi incendiada e muitos foram mortos.

—E onde você e Henrich estavam? —Ao ouvir as palavras de Mitsuaki Gregor se encheu de uma profunda ira.

—Eu estava na linha de frente como o senhor havia ordenado, no instante em que vi a fumaça eu corri em direção a cidade, cheguei a tempo de impedir o avanço dos elfos, porém, eles já tinham causado muitos danos. —Mitsuaki escolhia suas palavras com cuidado, pois sabia que Gregor era sagaz e difícil de se manipular.

—E Henrich? —Sua voz grave e imponente era capaz de fazer até mesmo o homem que estava de joelhos em sua frente temer.

—Ele…

—Sem enrolações Mitsuaki!

—Ele estava dormindo… Está pra ser mais correto…

—O QUÊ!? DORMINDO!? —Gregor bateu com suas mãos nos braços da poltrona que estava sentado elevando seu tom de voz.     

—Eu acredito que os elfos tenham feito isso com alguma poção, ou algo do ti… —Como já era de costume Gregor o interrompeu.

—Poção? Você mesmo veio relatar há alguns dias que ele poderia estar mancomunado com os elfos e agora vai defendê-lo? Até mesmo no relatório do escudeiro tinha algumas coisas que poderia se suspeitar! —Gregor respirou por um instante, afinal, Henrich também era amigo seu, e a ordem que ele estava prestes a dar não o agradava nem um pouco.

—Estarei enviando alguém para trazê-lo até a mim para ser julgado aqui em Távira, neste meio tempo cuide de Tile, reconstrua o que foi destruído e recupere a honra desta cidade.

Após essa última palavra que ele disse seu rosto desapareceu do espelho e um largo sorriso se apoderou do rosto de Mitsuaki.                      

Por LiamGt | 30/06/18 às 16:04 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama