CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 37 - Aura das Trevas

O Mestiço (OM)

Capítulo 37 - Aura das Trevas

Autor: Liam

Após as constantes broncas que recebeu, Eulália chamou Kotaru para acompanhá-la numa caminhada ao redor do mesmo lago que ela observava com Azhar, a princípio ele ficou receoso, mas pôde ver na expressão dela a seriedade e então aceitou.

—Bem… Eu irei lhe falar algo que irá te deixar irritado, então eu queria pedir para você me ouvir cuidadosamente tudo o que tenho a falar... —Kotaru se manteve em silêncio e então ela começou a contar uma história.

Eulália chegou a conclusão de que começar a conversa dizendo “eu fiz isso com você”, não seria interessante, então ela optou por contar-lhe um pouco de sua história.

—Isso aconteceu há sessenta anos.

...

Em um pequeno vilarejo no Reino Leste, em meio a algumas poucas árvores haviam diversas casas, todas de madeira e completamente simples. Os moradores daquele pequeno vilarejo vestiam-se de maneira condizente ao ambiente.

—Papai! Mamãe! —Uma garotinha de baixa estatura corria em direção a uma das várias casas de madeira. Ela usava um vestido azul e seus cabelos castanhos estavam amarrados em duas tranças que saltitavam enquanto ela corria.

A garota abriu a porta eufórica, parecia estar ansiosa para algo, assim que pisou na sala de sua casa ela se deparou com seu pai parado com um sorriso no rosto e as mãos nas costas e sua mãe com uma barriga enorme e tão alegre quanto seu pai.

—Você só vai ganhar se acertar em qual mão está. —Em sua destra havia uma pedra toda colorida.

—Isso não é justo, eu já esperei até hoje. —Ela bateu o pé na esperança que seu pai lhe estendesse a mão e entregasse a pedra, mas a garota logo percebeu na cara dele que teria que entrar no jogo. —Ta bom… Já que é assim vou querer a esquerda. —Após desmanchar o bico que havia se formado em seu rosto ela apontou para a mão que achava que estaria seu presente.

O homem trocou a pedra de mão o mais rápido que pôde e a estendeu para a garota que ficou extremamente feliz e logo pegou a fluorita em suas mãos empolgada.

As cores que preenchiam aquela pedra logo foram sumindo sendo engolidas por um profundo preto. A ausência de cor dentro da fluorita trouxe aos olhos dos pais da garota grande tristeza e desespero, enquanto ela permaneceu estática, encarando a pedra com os olhos arregalados na esperança do surgimento repentino de alguma cor.

—Isso… Isso significa… —A mãe da garota levou sua mão até a boca, seu peito estava apertado e tudo o que ela desejava no momento era que aquele preto se convertesse em qualquer outra cor. Seus olhos rapidamente encheram de lágrimas. Ela foi buscar no braço de seu marido um refúgio, mas encontrou algo completamente diferente. No instante em que o tocou ele se afastou.

—Nós… —O que ele estava prestes a dizer não seria algo fácil, a angústia que aquele homem sentia era tão profunda quanto a de sua esposa. —Nós teremos que contar ao líder…

No momento em que sua mulher escutou essas palavras saírem de sua boca ela se afastou dele enquanto o encarava com extrema indignação.

—Você… Você só pode estar brincando… Eu não vou entregar minha filha por causa de lei ou regra nenhuma! Ela é minha filha e pedra nenhuma vai decidir seu destino! —Ela falava de maneira exaltada e com o tom de voz elevado.

No pequeno vilarejo em que eles moravam o uso da magia era algo muito comum. Todos usavam no intuito de facilitar seu dia a dia. Coisas como acender fogueiras, caçar, pescar, plantar, tudo era mais fácil com o auxílio da magia. Por isso todas as crianças começavam a aprender sobre ela aos quatorze anos.

As crianças recebiam a fluorita que indicaria a base de sua aura e logo no dia seguinte começava a aprender sobre magia, porém, havia uma regra, toda criança, independente se fosse herdeiro do líder do vilarejo, deveria ser banida caso sua base fosse as trevas.

—Nós vivemos aqui sabendo que isso poderia acontecer, todos concordamos com as regras… Não podemos agir como hipócritas. Acredite isso dói em mim tanto quanto dói em você. —Seus olhos se enchiam de lágrimas enquanto caminhava em direção a sua mulher e a via se afastando encarando-o com desprezo.

—Não! Não ouse dizer que dói em você enquanto pretende entregar nossa filha para ser banida… BANIDA!!! Você entende o que essa palavra significa? Nós nunca mais a veremos… Nunca mais… —Seus passos cessaram quando suas costas chocaram-se com a parede. As lágrimas escorriam por seu delicado rosto e suas sobrancelhas franziam dando forma a uma expressão desesperada.

Ele percebeu que não haveria conversa e também que ela não o queria próximo, mas infelizmente ele estava decidido, por mais que doesse iria fazer o que achava certo, e isso significava entregar a garota.

O som da porta batendo soou para a pequena garota como uma sentença, e uma única lágrima escorreu por seu rosto que permanecia estático olhando aquela pedra. Neste exato momento seu próprio pai estava indo entregá-la, ele acabara de escolher nunca mais vê-la em sua vida. Um profundo choro e o mais alto e desesperado grito estava parado em sua garganta, mas ela não conseguia pô-lo para fora, a descoberta de sua aura havia sido traumático demais para a pobre a garota.

Após ver que não teria como manter-se junto de sua amada filha a mulher correu e juntou algumas frutas e um casaco colocando tudo em uma bolsa.

—Eulália, olhe para mim! —Ainda de maneira estática a garota ergueu a cabeça. —Eu adoraria te ver crescer mais, ver você se apaixonar, te aconselhar sobre coisas que você ainda não sabe, te consolar quando você chorar, mas eu não posso… Infelizmente eu não posso… Seu irmão pode nascer a qualquer momento… Pegue essas coisas e vá embora, talvez algum dia o destino nos ponha no mesmo caminho novamente… —Ela acariciava o rosto da garota que começou a chorar desesperadamente se jogando nos braços de sua mãe que chorava tanto quanto ela.

—Eu não quero ir embora mamãe… —A delicada mão de sua mãe afagando sua cabeça não tornava aquela situação nem um pouco mais fácil. Aquele gesto apenas a lembrava o que ela nunca mais o teria pelo resto de sua vida.

—Vá! Eles logo estarão aqui, leve a fluorita com você também, ela é a única prova de que realmente tem essa aura. —Ela tomou a pedra da mão da garota e a pôs na bolsa acompanhando sua filha até a porta em seguida.

—Mamãe… —Já do lado de fora Eulália recebeu o último beijo de sua mãe. Ainda hoje ela seria capaz de lembrar daqueles lábios molhados pelas lágrimas que caíam de seus olhos tocando sua testa.

Eulália correu na direção oposta da casa do líder do vilarejo. Ela correu, e correu até não conseguir mais. Cada passo que a garota dava uma lágrima escorria de seus olhos. O sol estava se pondo quando e já não fôlego para continuar sua trajetória.

Havia um lago por perto onde ela bebeu água e pôs a mão dentro de sua bolsa a procura de uma maçã. Enquanto procurava pela fruta Eulália pôde sentir a pedra. O grito que outrora estava enroscado em sua garganta agora clamava para sair.

Ela puxou a fluorita e arremessou com toda sua força no lago e logo após gritou com toda sua força até seu fôlego acabar, sua fome foi embora de imediato, tudo o que lhe restou foram lágrimas para serem derramadas enquanto abraçava seus joelhos.

Por duas longas estações a pequena garota viveu sozinha, vagando por diversas florestas, parando em algumas pequenas cidades de vez em quando. Foram dias sofridos e difíceis principalmente para se alimentar.

Poucos dias para o fim do verão Eulália se encontrava numa floresta, muito distante de seu vilarejo. Ela estava há dias sem comer e isso a fez desmaiar. Quando acordou estava cercada pelas paredes de um quarto escuro. Seria impossível não ficar assustada com aquela situação, afinal era muito mais fácil desconfiar que quem a levou para lá tinha más intenções do que boas.

Eulália desceu as escadas cuidadosamente, mas era impossível evitar o barulho que os degraus faziam ao ter algum peso sobre si. No andar de baixo ela encontrou um homem que bebia uma xícara de café, sentado em uma poltrona sozinho.

—Vejo que acordou. —Sem sequer se virar para a garota ele começou a falar com ela, sua voz era suave, porém, grave. Seu cabelos eram longos, na altura das escápulas, ao virar-se para ela a garota pôde observá-lo melhor. Seu rosto aparentava ser um pouco mais velho do que ela esperava, provavelmente algo em torno dos quarenta. Um cavanhaque cheio ocupava seu queixo e em seus cabelos muitos fios grisalhos se sobrepunham aos negros.  

Após uma longa conversa ela perdeu o medo que sentiu ao acordar em um lugar estranho. Ele parecia ser um homem realmente bom, a deu de comer e disse que poderia partir se quisesse, ou ficar até se recuperar. Eulália não estava doente, porém, se encontrava extremamente magra devido a má alimentação que vinha tendo.

Ela decidiu ficar pelo menos mais um dia, e ele consentiu.

O dia logo amanheceu e aquele homem a acordou pouco depois do nascer do sol.

—Só vou dormir mais um pouquinho… —Falava Eulália sonolenta virando-se na cama.

—Ande, venha, preciso de sua ajuda para carregar algumas compras. —Ele continuava a chacoalhá-la incessantemente até que ela se levantou.

Os dois já estavam nas ruas daquela pequena cidade caminhando em meio ao silêncio.

—Ér… Eu não me lembro de ter-me apresentado. Meu nome é Jozef.

—O meu é Eulália… —A garota falou de maneira seca, ela não estava sendo rebelde, pelo contrário, mantinha-se extremamente grata aquele homem, mas era impossível não ficar de mal humor após ser acordada de tal maneira.

—Aqui, este é o local. —Eles pararam de frente para uma loja cujas paredes eram de pedras completamente negras e em acima da porta um frasco de poção estava talhado em uma tábua de madeira.

—Isso é uma loja de poções? —Finalmente Eulália despertou de seu sono ficando interessada e começando a pensar o que aquele homem pretendia fazer ali.

—Isso mesmo, venha, acredito que irá gostar de vê-la por dentro. —Ele sorriu para a garota abrindo a porta para que ela entrasse e assim Eulália o fez.

Ela ficou encantada ao entrar, aquele lugar parecia ser muito maior por dentro. Várias estantes com livros e ingredientes, pessoas com aparências diferentes e interessantes andavam por aquele lugar, e um senhorzinho engraçado estava sentado no balcão.

Jozef comprou alguns ingredientes, pagou ao vendedor e voltou para sua casa. Foi então que ela descobriu que ele era um mago, afinal se não fosse ele compraria uma poção feita e não ingredientes para fazê-la ele mesmo.

Ao chegar na casa de Jozef a garota não se aguentava mais com tamanha curiosidade, ela tinha sua teoria que era bem plausível, mas gostava de ter certeza das coisas.

—Você é um mago? —Ela se pronunciou assim que a porta fechou atrás de si.

—Sim… —Respondeu ele sorrindo.

—E… E qual sua base? —Ela ficou um pouco receosa pensando estar se metendo demais na vida dele, mas sua curiosidade era muito maior do que seu pudor no momento.

—Minha base?

—Sim, você sabe… O elemento que você usa… A cor que aparece na sua fluorita. —Seus olhos brilhavam enquanto esperava por uma resposta, mesmo tendo nascido em um lugar onde o uso de magia era comum, eles a usavam apenas para facilitar seu cotidiano, nada como criar muralhas de gelo ou pilares de fogo.

—Oh, isso, nós chamamos de Pillar, e bem… Não se assuste, mas meu Pillar é das trevas… —Eulália arregalou os olhos surpresa com o que acabara de ouvir.

Ela via a boca de Jozef mexer, mas já não ouvia mais o que ele dizia, estava perdida em seus pensamentos, lembrando do que as pessoas em seu vilarejo falavam sobre as pessoa com aura das trevas.

“Eles estão destinados a serem maus.”

“Seus corações foram sentenciados a se corromperem no caminho”

Caso essas coisas que ela costumava ouvir fossem verdades isso significaria que talvez Jozef não fosse bom, mas se Eulália acreditasse nisso significaria que ela também seria má.

Após isso Jozef lhe deu um copo de água e a ajudou a se sentar. Eles conversaram por um longo tempo e Eulália lhe explicou tudo o que lhe tinha acontecido e também sobre o que seu povo costumava falar sobre gente com a aura igual a deles.

O que veio a seguir a surpreendeu como poucas coisas em sua vida. Jozef gargalhou altamente ao ponto de lágrimas escorrerem de seus olhos.

—Veja bem pequena… É verdade que muitos usuários dessa “base” como você diz foram pessoas malvadas, assim como muito usuários do fogo também foram, e usuários da luz, e de qualquer outra aura. O que leva uma pessoa a ser má é o que há em seu coração, não sua aura. O fogo consome o que toca e a água engole quem ousa desafiá-la, da mesma maneira são as trevas… Apenas mais uma bela parte da natureza.

Jozef falava com uma expressão tão honesta que Eulália se achou a pessoa mais estúpida por nunca ter pensado nas coisas dessa maneira. Ele encheu duas xícaras com café, entregando uma à Eulália.

—Já que você não tem pra onde ir o que acha de se tornar minha aprendiz? —Ao ouvir isso a garota cuspiu todo o café que estava em sua boca.

Tudo havia sido tão repentino, ela não sabia o que dizer, embora quisesse dizer sim quantas vezes conseguisse não podia deixar de lado o fato de que acabara de conhecê-lo. Além de tudo isso seu pai acabara de lhe trair, confiar em alguém tão facilmente não deveria ser uma missão fácil.

Eulália pediu para lhe dar a resposta no dia seguinte e rapidamente Jozef concordou. A pequena não conseguiu dormir de tão empolgada que estava, apenas conseguia pensar nas coisas que poderia aprender e foi então que ela se deu conta de que não seria capaz de dizer outra coisa que não fosse um “sim”.

Ela se levantou de sua cama e foi ao quarto dele animada, já estava tarde, mas ela não conseguiria dormir enquanto não tivesse dado a resposta a ele. Seu punho chocava-se contra a porta freneticamente e Jozef abriu após um breve instante.

—SIM! —Assim que avistou o rosto de seu futuro tutor ela lhe deu a resposta o mais alto que pôde.

—Sim? —Ele estava com a mesma cara que a garota estava mais cedo, sua boca abria involuntariamente e seus olhos buscavam fechar a cada segundo que passava.

—Eu serei sua aprendiz!

—Tudo bem… —Murmurou ele que logo em seguida fechou a porta enquanto bocejava altamente.

Haviam se passado duas estações, eles se mudaram para uma cidade maior e a relação dos dois melhorava a cada dia. Eulália confiava naquele homem cegamente, e a recíproca era verdadeira.

Ele já tinha lhe ensinado tantas coisas. Sobre poções, ingredientes, seres mágicos, sobre as raças, as magia básicas, que eram chamadas de magias neutras por ele. Claro que ele começou a treiná-la na arte das trevas e ela aprendia rapidamente.

—Acho que você está pronta para a iniciação… —Ao dizer isso os olhos de Eulália brilharam. Parecia ser algo importante e um grande passo, mesmo que ela não soubesse o que era.

—E o que é isso? —Como em um reflexo ela imediatamente questionou sobre essa tal iniciação.

—Ainda não lhe falei sobre ela?

—Bem… Você chegou a mencioná-la, mas quando perguntei o que era você disse que no tempo certo eu saberia.

—Ótimo, porque agora é o tempo certo. A iniciação me foi ensinada por meu mestre, diferente de mim ele não foi ensinado por ninguém, pelo contrário, ele criou todos esses termos que lhe ensinarei. —Eulália o encarava com interesse guardado em sua mente cada palavra que saia de sua boca. —Você não encontrará livros em lugar algum falando sobre isso, pois meu mestre e eu optamos por não espalhar esse conhecimento dessa maneira.

—Por que não?

—Você entenderá, mas falando de maneira superficial, é um tanto perigoso se feito de qualquer maneira… —Nesse momento a garota se assustou um pouco, mas logo manteve a calma, afinal Jozef não faria isso de qualquer maneira. —Antes de tudo preciso lhe explicar como eu e meu mestre entendemos as trevas…

Por LiamGt | 03/07/18 às 20:50 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama