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Capítulo 38 - Iniciação

O Mestiço (OM)

Capítulo 38 - Iniciação

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Jozef continuava a explicá-la sobre os ensinamentos de seu mestre.

—As trevas são parte da natureza assim como qualquer outra coisa, como eu já lhe tinha dito. Talvez você pense: por que tantos usuários das trevas acabam se corrompendo? Bem, a resposta que meu mestre encontrou foi que nós, diferente de pessoas que possuem outros elementos, temos acesso a essa parte obscura que existe dentro de cada ser, seja ele de qualquer raça, essa parte nossa que deseja fazer o mal, que deseja sangue. Em alguns ela se revela como uma justiça implacável, como ver alguém fazer o mal e desejá-lo morto. Em outros ela se revela como o mais puro mal, fazendo-a sentir prazer de coisas ruins que acontecem a qualquer um.

Eulália mordeu seu lábio inferior, ela sabia que explicação não acabava ali, mas essa parte apenas fazia-a lembrar do que seu povo dizia, e aparentemente Jozef concordava de certa maneira.

—Porém, esse mal não é algo exclusivo de usuários das trevas como eu já disse, todos possuímos isso, uns mais, outros menos, mas para essa regra não há exceção. Ninguém é totalmente bom, nem totalmente mal.

Ao ouvir isso a garota logo se acalmou, pois pôde entender melhor o que ele havia dito.

—Meu mestre dizia que nós, usuários das trevas éramos mais próximos desse nosso lado, não mais inclinados a nos corromper, mas mais sensíveis a voz. —Jozef fez uma breve pausa e checou se ela não tinha dúvidas sobre o que ele havia dito até agora e a garota lhe disse que não. —Bem, então vamos à Iniciação… Esse foi o nome dado por meu mestre ao ato de entrar em contato por vontade própria com esse lado negro que possuímos. Parece errado falando assim, eu sei, mas a forma que ele pensou para fazer isso é extremamente segura. Antes de qualquer coisa vamos a um outro termo criado por ele, o “Paralelo Sombrio”, esse foi o nome que ele deu ao lugar em nossa mente onde esse outro lado habita, e apenas nós, usuários das trevas podemos visitá-lo.

O interesse de Eulália apenas crescia, era como ouvir sobre uma história de terror, quanto mais ouvia, mais sentia medo do que viria a seguir, mas não conseguia evitar o desejo de saber toda a história.

—Bem, visitar o paralelo é uma missão complicada para alguém fazer sozinho, é extremamente real, e nós iremos encontrar nossa pior parte lá dentro, por isso a Iniciação deve ser feita por alguém já iniciado, dessa forma nós garantimos a segurança do novato. Com um toque na sua fonte... —Ele a tocou com seu polegar. —Eu convocaria meu guardião para o seu paralelo, e dessa forma te guiaria através dele.

—Guardião? —Ainda com o polegar de Jozef em sua testa ela franziu a sobrancelha sem entender o que aquele terceiro termo significava.

—Era assim que meu mestre chamava nosso pior lado… Com o tempo você entenderá, que na realidade essa parte sombria e má, é na verdade apenas mais uma faceta da Eulália, e então aprenderá a aceitá-la ao invés de reprimi-la, ela saberá respeitar seus desejos, mesmo que eles se opunham a ela e você saberá respeitá-la. Quando esse dia chegar, você será uma maga das trevas com um coração bom e mais poderosa do que já sonhou em ser… Agora me resta apenas uma pergunta para lhe fazer: você está pronta?

Eulália respirou fundo e parou por um instante para analisar tudo que havia ouvido, cada palavra de Jozef passava por sua mente como em um flash e com um pequeno sorriso no rosto ela lhe deu uma resposta. “Sim!”.

A visão da garota ficou turva e seu corpo lesado. Jozef pegou-a no colo levando-a para seu quarto e a deitando na cama. Ele desceu as escadas e subiu com uma cadeira e também um livro. De volta ao quarto ele se sentou próximo a cama e abriu seu livro na página que estava marcada, quase na exata metade.

Eulália despertou em um lugar completamente escuro, não havia árvores e a lua brilhava fortemente chamando sua atenção. Em frente aquele brilho que possuía um tom azulado um vulto negro passou rapidamente. Ela tentou se manter calma, mas não sabia o que viria acontecer.

Logo a garota pôde ver um ser grande com asas proporcionais ao seu tamanho, seu rabo era comprido, seus olhos escarlates, sua pele escamosa e suas presas intimidadoras. Ele posou em frente à Eulália batendo suas asas causando um vento capaz de derrubá-la caso ela vacilasse.

—Não se preocupe… Sou eu… Jozef… —Ele aproximou o rosto da garota, ela ficou receosa a princípio, mas não resistiu e tocou-lhe com suas mãos… Aquele dragão era tão grande… Assim que o primeiro contato foi estabelecido o medo que Eulália sentia se foi embora deixando espaço apenas para um enorme desejo de montá-lo.

—O que eu devo fazer?

—Ache seu guardião, estabeleça um contato, não tenha medo dele, mesmo que ele reaja com agressividade. Da primeira vez que conheci o Golyat ele tentou cuspir fogo em mim… Quer dizer, ele cuspiu, só que não me acertou… —Era estranho ouvir uma voz como a de Jozef sair de um ser tão imponente como aquele dragão negro.

—Tudo bem… —Mesmo receosa a garota estava pronta para encontrar seu guardião, e com passos firmes ela se afastou daquele grande ser que alçou voo logo em seguida. Saber que ele estaria observando-a de cima deu a Eulália ainda mais segurança.

Após alguns instantes andando por aquela colina ela encontrou uma figura estranha sentada no gramado. Ela era robusta, e lembrava uma garota de certa maneira, além de ter aparência humanóide.

—Como será que eu deveria me aproximar… Acho que não preciso me apresentar, afinal ela é eu… —Pensava a garota enquanto dava curtos passos.

Assim que chegou numa distância em que seu braço já a alcançaria sua guardiã se pôs de pé, era difícil discernir onde acabava o rosto e começava o pescoço e onde ele acabava e começava o tronco dela, tudo parecia uma coisa só. Em seu rosto, ou pelo menos onde Eulália achava que era, um único olho brilhava, era um vermelho tão intenso e tão cheio de vida, capaz de hipnotizar qualquer um.

O que aconteceu a seguir permanece na mente dela até os dias de hoje. Aquele ser estranho e amedrontador virou-se para ela e após encará-la por alguns instantes, embora para Eulália aqueles poucos segundos tinham parecido uma eternidade, sua guardiã estendeu a mão para ela, haviam apenas quatro dedos naquela mão negra, e seu tamanho era anormal. A garota entendeu após algum tempo que ela esperava um toque.

—Vamos lá Eulália… Não há o que temer… Acima das nuvens está Jozef, ele não permitiria que nenhum mal me aconteça…—Ela repetia essas três coisas para si mesma até criar coragem para erguer sua mão e tocar na de sua guardiã. Sua pele tinha uma textura diferente, se é que aquilo poderia ser chamado de pele.

A sensação que Eulália sentiu foi algo que ela jamais havia experimentado em toda sua vida, e nunca mais encontrou algo que lhe proporcionou o mesmo sentimento.

A garota fechou os olhos e começou a sentir algo percorrendo dentro de si. Memórias de seu passado começaram a vir à tona e então ela pôde ver, em alguns momentos, seu lado negro que sempre esteve ali. Como quando ela matou um coelho na primeira vez que seu pai lhe levou para caçar. Eulália não queria ferir o pobre animal, mas o fez, com a ajuda de sua guardiã. Ela lhe dava a coragem e a força necessária para fazer coisas que pareciam erradas ou incorretas, moralmente falando.

Ela também pôde se ver interferindo no agir de sua guardiã. Como quando um garoto que a perturbava constantemente a tirou do sério e então seu lado negro ajudou-a a surrar o rapaz, mas Eulália não permitiu que aquilo fosse longe demais.

Nesse momento ela entendeu melhor o que Jozef havia falado. Ela e sua guardiã eram dois lados da mesma moeda, duas partes de uma única personalidade e uma não age sem o consentimento da outra.

Ao abrir os olhos Eulália se espantou, mas procurou manter-se calma. Sua mão estava como a mão de sua guardiã, e a mão dela estava como a sua. Após conseguir se acalmar ela viu certa beleza naquilo, era como se agora elas estivessem ainda mais conectadas.

Aquele momento entre as duas foi interrompido pelo barulho que o bater das asas de Jozef fizeram. A guardiã de Eulália correu para longe com medo do imponente animal que descia dos céus.

—Parabéns criança… Sua iniciação ocorreu perfeitamente bem, agora você é uma verdadeira maga das trevas… —Eulália ficou extremamente feliz ao ouvir aquilo, talvez ela choraria se não fosse engraçado ouvir aquela voz dentro daquele corpo.

—Obrigado… Hey! O que está acontecendo? —O horizonte começou a se desmanchar como um pedaço de papel que encontra as chamas e a garota não conseguiu evitar o medo.

—Está tudo bem, você está acordando…

Aquelas foram as últimas palavras que Eulália ouviu e então aos poucos, como acontece após uma longa noite de sono, a garota abriu os olhos. Tudo parecia estranho e irreal de certa maneira. Jozef mantinha-se sentado e em seu livro restava apenas uma folha para ele ler.

—Vejo que acordou… —Ele encarou-a com um singelo sorriso no rosto enquanto ela buscava entender o que estava acontecendo.

—Era tudo tão… Tão real…

—Eu sei, mas o fato do Paralelo não existir fisicamente não o torna irreal, assim como seus sentimentos não podem ser apalpados e permanecem reais o Paralelo também é.

—Sim… Mas… Eu não sei explicar…

—Eu entendo, eu fiquei mais bobo que você. —Ao dizer isso ele deu uma risada e a garota o acompanhou.

—Bem… Essa é parte da minha história, agora você já deve entender o que era aquele lobo, e também quem era aquela figura estranha entre as árvores. —Eulália parou de caminhar e ergueu os olhos encarando o rapaz.

—Sim… Muita coisa agora faz sentido, apenas não consigo entender porque você fez isso comigo sem me avisar. Porque me levar para esse Paralelo sabendo do risco que eu corria… Por quê? —Dentro de Kotaru havia um grande misto de sentimentos. Ele estava comovido pela história dela, mas nada mudava ou justificava o que ela fez.

—Isso… Bem, eu sei que foi errado, eu estava bêbada e fiz algo que não devia… Seu guardião… Ele estava uivando para mim, ele queria que eu fizesse a iniciação, e por estar fora de mim no momento eu fiz isso de qualquer jeito. Perdoe-me… —Kotaru podia ver nos olhos dela a sinceridade e o arrependimento, mas sua experiência no Paralelo havia sido traumática demais para ele simplesmente esquecer.

—Não… Eu não consigo… Você não tem ideia do quão desesperador foi estar lá… Você tinha seu mestre cuidado e te guiando… Voando sobre sua cabeça pronto para interferir caso algo desse errado! Você sabia o que estava acontecendo, enquanto eu? Eu não sabia onde eu estava ou onde meus amigos estavam, aquilo tudo podia ser apenas dentro da minha cabeça, mas cada passo que eu dava naquela neve eu sentia a dor e ela foi real o suficiente para mim. —Kotaru não sabia o que fazer, ele não estava acostumado a sentir toda a raiva que ele estava sentindo no momento, por isso o rapaz achou mais sensato se afastar.

—Argh… Droga Eulália, sua estúpida… —Ela fechou o punho e bateu em sua testa descontente de como as coisas ocorreram.

Kotaru corria em direção a cabana, a cada passo que dava era como se pudesse sentir a neve debaixo de seus pés, às vezes um uivo ecoava em sua mente, sua experiência com o Paralelo havia sido traumática demais.

Após alguns instantes ele voltou para a cabana em que ele estava, mas já não tinha ninguém lá dentro. O rapaz sentou-se em sua cama e levou suas mãos até a cabeça.

Tudo estava confuso, as coisas haviam acontecido muito rapidamente. Os problemas em Tile e logo em seguida eles encontraram o grupo de Eulália…

—Acho que eu preciso descansar… —Essa era sem dúvida uma conclusão óbvia e após dizer isso para si mesmo o rapaz se deitou e rapidamente adormeceu.

Não muito tempo após fechar os olhos Kotaru se encontrou novamente naquele lugar nevado, porém, agora ele sabia onde estava e o que estava acontecendo.

—Por que eu voltei para cá? —Ele começou a caminhar completamente encolhido quando ouviu novamente o uivo do lobo.

O desespero logo se apoderou do rapaz, ele não queria encontrar aquele animal novamente tão cedo. Tudo que Kotaru queria no momento era alguns instante para poder descansar, apenas isso, mas aparentemente seu desejo não se tornaria realidade.

Antes que pudesse encontrar qualquer abrigo seu guardião apareceu em sua frente, rosnando e mostrando suas poderosas presas na tentativa de intimidá-lo.

—O que você quer? Fazer contato? Era isso que você queria ao dilacerar meu braço? Pois saiba que existem maneiras muito melhores de se fazer isso! —O rapaz gritava com aquele animal tentando não demonstrar seu medo, apoiando-se no fato de que os danos causados ao seu corpo ali não afetariam seu corpo físico.

—Você esquece… Que somos… Um só… —Ao ouvir isso Kotaru logo entendeu o recado. Não importava o quanto ele fingisse não temê-lo, o lobo saberia o quão temeroso ele estava.

—Um só… —Aquelas duas palavras ficaram na mente de Kotaru, mas ele não teve tempo para pensar nelas, pois o feroz animal avançou contra ele fazendo-o despertar afobadamente.

Sua respiração estava tão rápida quanto seus batimentos cardíacos e na entrada da tenda ele pôde ver uma figura que o acalmou aos poucos, era Arien. Ela andou em sua direção lentamente sentando-se na beirada da cama abraçando-o com um dos braços. Kotaru deitou sua cabeça no ombro dela esforçando-se para não derramar algumas lágrimas enquanto buscava entender se aquilo era a realidade ou apenas outra alucinação.

Por LiamGt | 07/07/18 às 19:05 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama