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Capítulo 51 - Batismo: Parte I

O Mestiço (OM)

Capítulo 51 - Batismo: Parte I

Autor: Liam

O sol já estava se pondo. Aquele lugar proporcionava para Kotaru uma bela vista, uma vista que o lembrava de seu avô e também de seu pai. Ao lembrar-se da morte de Morian as lágrimas logo vieram aos seus olhos, era algo inevitável. Ao mesmo tempo lembrava da situação de seu pai, sem saber se ele ainda continuava vivo, se todo esse esforço resultaria em algo. Quanto mais ele pensava sobre o assunto mais perdido se encontrava.

—Kotaru? —Arien se aproximou silenciosamente surpreendendo o rapaz que secou as lágrimas o mais rápido que pôde.

—Oh, Arien… O que foi? —Ele se manteve de costas para ela esfregava os olhos.

—Já te contaram que nós não vamos seguir viagem hoje a noite? —Segundo Azhar hoje eles apenas descansariam e fariam algo que era necessário.

—Não, não me contaram… Por quê? —Quanto mais ele secava as lágrimas, mais delas surgiam chegando a irritá-lo.

—Aparentemente vamos acender uma fogueira e descansar, Clóris também me disse que teremos algo para fazer nos arredores de Kepis… —Arien não era estúpida e logo notou que o rapaz estava chorando, ciente de que não era muito boa em coisas como consolar pessoas preferiu se afastar.

—Como eu queria que ele pudesse estar aqui comigo Arien… —Ao notar que ela se afastava decidiu dizer algo.

Havia no coração de Kotaru uma grande indecisão. Ao mesmo tempo que queria ficar sozinho e chorar até que não conseguisse mais, também queria ter alguém consigo naquele momento. Como ela ficou ao lado dela da última vez que a vontade de chorar desenfreadamente o acometeu, ele pensou que poderia acontecer novamente.

Arien ficou confusa, sem saber como reagir, Kotaru permanecia de costas para ela e em seu coração havia o desejo de seguir andando, mas Arien não seria capaz de fazer isso, após ter passado por tantas coisas junto do rapaz ela havia desenvolvido um certo carinho.

Ao chegar a decisão de que deveria ficar lhe veio a dúvida “o que fazer?”.

—Ér… Quer que eu te faça companhia? —Após um pequeno período de silêncio Arien se pronunciou. Kotaru balançou a cabeça ainda de costas e ela se aproximou sentando-se no gramado ao lado dele, e em seguida ele também se sentou.

Os dois ficaram admirando o pôr-do-sol juntos, em silêncio, até que a noite caiu e a lua passou a iluminar, junto das estrelas e da fogueira que foi acesa.

—Hey vocês dois, venham cá, o Azhar está chamando. —Gritava Shin de longe.

Os dois se levantaram e o seguiram, ao se aproximarem da caravana puderam ver todos os membros, ao menos a grande maioria. Pessoas de quatro diferente raças, todos bebendo e conversando, com exceção de Eulália que não bebia nada.

—Finalmente vocês chegaram… Onde estavam? —Perguntou Azhar com um tom malicioso que constrangeu Kotaru um pouco. —Lembram-se que eu disse que havia algo que nós precisávamos fazer?

—Sim… —Respondeu Kotaru estranhando, pois ele, Dana, Shin e Arien estavam em um fileira horizontal.

—Tragam a mesa! —Ao ouvirem o grito de Azhar dois drows trouxeram uma mesa de madeira não muito larga, nem muito comprida. Em seguida eles viram sair de uma tenda um homem, humano aparentemente. Negro, alto e forte, trazia em cada mão uma bandeja, e em cada uma duas canecas de madeira. Logo atrás dele vinham duas mulheres, ambas com bandejas com canecas nas mãos.

—O que é isso? —Shin espiou o conteúdo das canecas estranhando o que estava acontecendo.

—Isso é o batismo de vocês, apenas após realizar esse pequeno “desafio” poderemos chamá-los de companheiros de verdade. —Respondeu Azhar sem responder a pergunta de Shin.

—Tudo bem… Mas, o que é isso? —Shin enfatizou sua fala repetida.

—Isso é aguardente.

—Oras, como assim aguardente? Eu lhes responderei o que isso realmente é… —Disse Eulália se interferindo. —Isto é simplesmente a melhor aguardente, feita pelo Simão, o melhor em fazer bebidas alcoólicas. —Eulália falava de maneira frustrada, pois desejava do fundo de seu ser beber um pouco daquilo que ela considerava uma dádiva divina, mas não podia devido o acordo feito com Kotaru.

—É só beber? —Perguntou Shin que ficou aliviado pois não era nada nojento, nem algo do tipo.

—Isso ai, basta beber. —Azhar respondeu com um sorriso diabólico. —Dana, nós conversamos, e caso queira você não precisa participar, devido à sua gravidez. Se você for beber então ficará sendo três canecas para cada, senão os outros terão que beber quatro canecas.

Antes que qualquer outra pudesse vir e dizer-lhe que não seria prudente beber, Dana pegou uma das canecas e virou em sua boca, parando apenas após estar completamente vazia.

Os membros da caravana começaram a vibrar e gritar de maneira comemorativa, sem nem ao menos fazer uma pausa ela pegou a outra caneca e a levou até sua boca, desta vez ela não conseguiu beber tão rápido quanto da última vez. Shin e Arien se inspiraram na atitude dela e pegaram suas canecas, enquanto Kotaru assistia aquilo impressionado.

Após dois ou três goles Arien colocou a caneca de volta na mesa. A única bebida alcoólica que ela já havia bebido tinha sido o vinho, e foram poucas as vezes e a maioria delas durante a refeição. Apenas uma vez ela havia recorrido ao vinho na intenção de se embriagar.

Diferente da garota Shin seguiu o exemplo de Dana à risca, retirando a caneca da boca apenas após estar vazia e avançando na segunda impiedosamente. Desta vez ele superou sua antecessora que ainda bebia a segunda caneca vagarosamente, enquanto ele a bebeu da mesma maneira que a primeira.

—Vamos Kotaru, você está perdendo tempo. —A bebida já havia causado certo efeito em Shin que ria involuntariamente enquanto falava.

—E-eu nunca bebi antes… —O rapaz ainda não havia nem sequer tocado em uma das canecas.

—Oras, então essa será sua primeira vez… Vamos… —Ele pegou uma das canecas de Kotaru e a estendeu para ele. —Beba! —Kotaru ficou encarando aquele líquido receosamente. —Kotaru! Kotaru! Kotaru! —Shin começou a gritar o nome do rapaz e em seguida alguns membros da caravana o acompanharam pressionando-o.

Kotaru tomou aquela caneca da mão de Shin e assim como ele havia visto seu amigo fazer ele também tentou, virando aquele líquido em sua boca, mas antes de beber metade ele não resistiu. Colocou a caneca de volta à mesa, enquanto lutava para não vomitar.

Após vencer o desejo de vomitar Kotaru pegou a caneca decidido, não havia gostado do gosto, e o efeito tinha sido para ele pior ainda, mas ainda assim não queria voltar atrás, afinal aquilo era um batismo, não devia ser algo agradável de se fazer.

Eles virou o resto da aguardente que restava na primeira caneca, seu rosto se contorcia e ao terminar de beber respirava ofegante. Antes que pudesse pegar um ar Shin o estendeu outra caneca, e sem hesitar ele pegou e bebeu sem parar nem uma vez sequer.

Os membros da caravana continuavam a gritar seu nome, eles ignoraram Dana que já havia acabado, e até mesmo Arien que também estava em sua última caneca. Estava mais divertido para os telespectadores assistirem Kotaru bebendo praticamente a contragosto, porém, com todo aquele ímpeto.

Logo o barulho da terceira caneca batendo na mesa pôde ser ouvida por todos que gritaram juntos, o barulho foi enorme e nessa altura Kotaru já estava bêbado, pela primeira vez em sua vida.

O que veio a seguir levaria um bom tempo para que eles pudessem se lembrar.

Não muito tempo após concluir seu batismo ele encontrou com Eulália lhe perguntando se podia sentir o gosto da aguardente de Simão em seus lábios.

—Não estou bêbado o suficiente para lhe dizer um sim… —Ele respondeu tentando manter o equilíbrio.

—Não custava nada tentar, certo? —Ela sorriu para o rapaz que a encarava com uma expressão feliz. —Primeira vez que se embebeda criança?

—Sim… Quer dizer, não… Sim… —Ele parou de falar quando sentiu algo estranho dentro de si, sua mão foi até sua boca involuntariamente e antes que pudesse fazer qualquer coisa estava de joelhos, vomitando no chão. Demorou um pouco para que ele acabasse, mas ao terminar foi ajudado por Eulália para se pôr de pé novamente. —Nunca desista dos seus sonhos… Tente mesmo que falhar pareça algo inevitável. —Ele a abraçou, na verdade aquilo não pareceu muito bem um abraço, Kotaru despejava todo seu peso em cima de Eulália.

—Ok… Eu não estou tão desesperada… —Ela o empurrou fazendo-o cair sentado no chão. —Fique aí, vou pedir para que alguém te leve até uma cama.

—Cama? —Ele começou a rir sozinho. Após uma duas ou três tentativas finalmente conseguiu ficar de pé, e saiu cambaleando, após dar alguns passos avistou Dana beijando alguém, ele suspeitou que poderia ser Shin devido a cor do cabelo, mas já não confiava no que seus olhos viam.

—Kotaru? —Azhar se aproximou do rapaz com uma caneca na mão.

—Oh, olha só se não é o… —Nem ao menos lembrar do nome de Azhar ele foi capaz. —Bem, nem sempre nós conseguimos o que queremos não é mesmo… —Kotaru tomou a caneca da mão dele bebendo quase tudo antes de devolvê-la.

—Você fica engraçado bêbado, mas acho melhor parar por aqui. —Azhar provavelmente já tinha bebido mais que o rapaz, mas diferente dele mantinha a consciência.

—Parar? Por quê? Eu sou livre! —Kotaru tentou andar com os braços abertos, mas após alguns poucos passos tropeçou nos próprios pés e caius.

—Eu te levo para uma tenda. —Azhar o ajudou a se levantar e o apoiou em seus ombros levando-o consigo até uma tenda.

—Eu não quero ir pra tenda… Eu quero… O que eu quero? Deixa eu ver… Eu quero…

Azhar conseguiu deitar o rapaz em uma cama com muito esforço, foram muitas as vezes que ele o deitava e em seguida ele levantava, mas no fim Kotaru foi vencido pelo cansaço.

Alguns minutos antes, quando o batismo terminou.

—Isso é realmente forte… —Gritou Dana batendo a caneca na mesa.

—Dana acho melhor você ir descansar… Você já bebeu bastante não e… —Arien foi interrompida por Dana antes que pudesse terminar de falar.

—E eu estou grávida, eu não sei qual é o seu problema e o que te faz achar que você tem alguma responsabilidade com essa criança, porque você não tem! Caramba, me deixa em paz, toda hora você fica me regrando… —Sem nem sequer dar a oportunidade de Arien se defender ou argumentar a outra elfa deu de costas e se afastou.

Dana seguiu bebendo por algum tempo quando foi encontrada por Shin, enquanto beijava um drow da caravana.

—Dana!? O que você está fazendo? —Ele os separou se opondo contra o homem que ela beijava. —Ela está grávida sabia? 

—Mais um… Eu estou bem aqui, e adivinha? O bebê também… Na minha barriga, então pode ter certeza que eu não esqueci da minha condição… Por que vocês insistem em me tratar como se eu não soubesse me cuidar? Não pode beber, não pode cavalgar… Eu não queria nem estar viva para começar! —Shin se surpreendeu ao ouvir aquilo, e o drow que estava com ela se afastou sorrateiramente.

—Dana… Eu só… —Shin foi interrompido ao ter os lábios de Dana tocando os seus, sem muita demora o rapaz a afastou. —Ok, você está completamente bêbada, por isso vou relevar tudo isso, mas chega. —Ele segurava Dana pelos pulsos, lágrimas se formaram nos olhos da elfa que se desvencilhou dele e antes de dar as costas ergueu o dedo do meio.

Dana perdeu completamente a vontade de permanecer na festa, além de estar temerosa de encostar uma caneca de aguardente na boca e Kotaru aparecer lhe repreendendo. Ela decidiu ir para sua tenda, mesmo a contragosto, pois a chance de se deparar com Arien eram altas e isso era algo que ela não queria.

Ao entrar na cabana Dana só Elli, encolhida em sua cama com as mãos no ouvido e os olhos abertos.

—Pensei que estava dormindo…

—Não consigo, vocês fazem muito barulho…

—Bem, você não pode mais me incluir, por mim já deu por hoje. —Ela retirou as botas de seus pés e se deitou junto de Elli.

—Você está com um cheiro estranho. —Elli se referia ao cheiro da aguardente que estava impregnado no hálito de Dana. —Meu dono tinha esse cheiro às vezes… —As palavras de Elli causaram um breve período de silêncio.

—Eu também era escrava sabia… —Elli virou seu rosto para ela. —Eu consegui fugir e foi quando eu encontrei aqueles três, eles me ajudaram a tentar resgatar meu marido, nós conseguimos, mas quando saímos do lugar que éramos mantidos presos nos deparamos com uma invasão dos elfos, e a cidade foi tomada por chamas. Na tentativa de sairmos de lá meu marido morreu… —As lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Dana. Elli virou todo seu corpo para ela, e com seu indicador secou uma lágrima que escorria.

—Eu não sei o que dizer…

—Porque não há o que dizer, nada mudará o que aconteceu… Nada…

—Conte-me uma história.

—Uma história?

—Sim, era o que minha avó fazia quando eu não conseguia dormir. Quando eu tinha pesadelos com minha mãe, ela vinha e deitava comigo igual você está fazendo agora. Ela afagava minha cabeça e então me contava uma história, às vezes de amor, às vezes sobre uma brava guerreira ou uma pequena aventureira…

—Tudo bem. Deixe-me ver… Era uma vez uma garota, ela tinha um grande desejo de lutar junto dos guerreiros do exército de seu povo…

Dana seguiu contando a história, e antes mesmo de chegar na metade reparou os olhos fechados de Elli e sua respiração pesada, o sorriso que se formou em seu rosto foi inevitável. Ela ficou afagando a cabeça da garota até que ela também adormecesse.

Por LiamGt | 18/08/18 às 12:00 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama