CAPÍTULOS
OPÇÕES
Cor de Fundo
CONTROLE DE FONTE
HOME INDEX
Capítulo 52 - Batismo: Parte II

O Mestiço (OM)

Capítulo 52 - Batismo: Parte II

Autor: Liam

Alguns momentos antes, logo após Arien discutir com Dana.

Arien gostaria de não ter se entristecido com o que acabara de ouvir, mas não conseguiu evitar. Ela pensava como teria reagido há alguns tempos atrás, quando ainda sentava-se entre os elfos sendo aclamada por ser a princesa. Não era como se ela fosse má nem nada do tipo, mas havia aprendido a se pôr em primeiro lugar e também a dar a mínima importância possível para os sentimentos dos outros. Ela era capaz de contar nos dedos das mãos as pessoas com quem verdadeiramente se importava naquela época.

Arien pegou outra caneca e saiu andando pelo acampamento, talvez fosse o efeito do álcool, mas não conseguia parar de pensar em tudo o que havia acontecido em sua vida. O exílio decretado pelo seu próprio pai, o acontecimento do barco quando fugia, seu encontro com Kotaru… Desde que conheceu o rapaz sua vida deixou de ser tão monótona. Parando para analisar o decreto de seu exílio agora soava como um prelúdio do que estava para acontecer.

Enquanto caminhava por dentre as tendas ela notou uns barulhos estranhos. Ao se aproximar da fonte desses barulhos ela ficou extremamente corada. Eram gemidos, e antes que ela pudesse se afastar o suficiente para não ouvi-los mais, um nome foi pronunciado, ao escutar aquilo Arien teve certeza de que Guiscard era um dos envolvidos no que acontecia ali.

Já longe daquela tenda, que se ela não estivesse bêbada seria capaz de saber de quem era, Arien havia se afastado do acampamento, sem rumo, apenas caminhava, perdida em seus pensamentos. Nem ao menos a raiva e a pequena tristeza que havia sentido devido às palavras de Dana não a incomodavam mais.

—Se aquilo não for uma pessoa eu acho que será melhor parar com as bebidas por hoje. —Disse ela para si mesma ao avistar um corpo no chão com a cabeça encostada em uma árvore.

Ela andou devagar, com cuidado para não fazer barulho, quem quer que fosse iria receber um susto dela. Aparentemente a bebida acabava com a prudência da garota, que não pensou em nenhum momento que aquela pessoa podia não ser da caravana, ou pior, não ser amigável.

—Bu! —Ela saltou causando barulho com os pés e gritando. Diferente do resultado que esperava, tudo o que conseguiu foi acordar aquela pessoa. —Kotaru? O que está fazendo aqui? —Ao se aproximar o suficiente ela reconheceu o rapaz.

—Ein? Onde eu to?

—Perto do acampamento… —Ela riu ao ver a reação dele. —Acho que você bebeu demais.

—Demais? Até você com isso? Eu só estou começan… —Ele mesmo se interrompeu ao lembrar de algo que julgava importante. —Lembrei!

—Do quê?

—Depois do Shin me por pra deitar eu sai da minha tenda, ao lembrar o que eu queria fazer… Aí eu esqueci de novo e fique andando por aí… O resto eu não lembro…

—Tudo bem, mas o que você queria fazer? Foi isso que você lembrou? Ou você apenas lembrou como veio parar aqui?

—Eu queria… —Ele se levantou e bateu as mãos na traseira da calça para retirar o excesso de terra. —Dançar… Isso… Dance comigo Arien. —Antes que a garota pudesse responder ele a tomou pela mão e começou a se mover pelo gramado levando-a com ele.

—Nada mau para um bêbado… —Ela ria do rapaz que tropeçava em seus próprios pés de tempos em tempos.

—Eu já lhe disse o quão bonito seus olhos são? —Kotaru passou a encará-la, sem cessar seus passos sem nexo que inacreditavelmente eram seguidos por Arien.

—Não… —Ela corou levemente, além da prudência, a bebida também havia levado um pouco de seu pudor e seriedade.

—Bem… Seus olhos são tão lindos que me fazem sentir vontade de olhá-los o dia todo… Assim ó. —Ele arregalou os olhos e os aproximou dos dela.

—Você fica engraçado bêbado. —Ela gargalhou e afastou seu rosto do dele, mas sem parar a dança desengonçada que praticavam.

Kotaru aproximou os lábios do ouvido dela que estava em dúvida sobre recuar ou não. —Está pronta? —Sussurrou ele no ouvido dela.

—Pra quê? —Ela franziu a sobrancelha sem entender.

—Para o meu movimento especial. —As sobrancelhas dela franziram mais ainda, e antes que Arien pudesse lhe dar qualquer resposta ele fez um movimento com um braço que a levou a girar, e girar, de novo, e de novo.

Não era algo muito esperto para se fazer após beber tudo o que beberam, tão menos algo fácil para se fazer nas condições deles. Após quatro giros ela tropeçou em seus pés, mas quando estava prestes a cair Kotaru a segurou pela cintura.

—O que achou? —Ele sorria para ela que fez uma cara de enjoada.

—E-eu vou vomitar. —Tudo o que Arien conseguiu fazer para evitar que se vômito fosse em direção a Kotaru foi virar seu rosto e vomitar naquela posição mesmo.

—UH… —Ele virou o rosto para não ter que assistir aquela cena e acabar acompanhando-a.

—Acho melhor irmos deitar… —Ela saiu daquela posição nada agradável e logo começou a andar em direção do acampamento.

—Eu acho que vou ficar mais um pouco… O céu está tão bonito que seria um pecado não continuar o admirando.

—Bem, então acho que sou uma pecadora… Não vá dormir aí… —Ela seguiu andando e Kotaru voltou para a árvore onde encostou suas costas.

Alguns momentos antes, quando Shin assistia o dedo do meio de Dana ser erguido para ele.

—Isso não foi nada legal… —Falou ele consigo mesmo. Seu desejo era retribuir o ato nada agradável dela, porém decidiu que seria melhor relevar para não gerar mais atritos.

Após beber outras duas canecas cheias de aguardente Shin começou a conversar com Simão que o servia. Depois de lhe perguntar coisas como idade, se era casado e se possuía filhos, o rapaz o indagou sobre sua aura.

—Eu não possuo… —Ele notou na expressão de Shin que sua resposta não havia esclarecido nada. —É tido como uma doença rara, um problema no meu fluxo me impede de usar minha aura para qualquer coisa. A única coisa que consigo quando tento é um belo sangramento nasal que pode se agravar caso eu insista.

—Me desculpe… Eu não… —O rapaz se sentiu mal por perguntar aquilo, e antes que pudesse terminar de falar foi interrompido por Simão.

—Oras! Você não tem culpa então não se desculpe! Tome, pegue mais uma caneca e vá se sentar na fogueira, as histórias do Azhar são sempre boas.

Shin pegou a caneca que lhe fora oferecida e com um sorriso grato se afastou de Simão, dirigindo-se para a fogueira. O protagonista da história de Azhar era um garoto, que se perdeu certo dia, sem saber voltar para sua casa ele permaneceu caminhando até que do céu começou a cair alguns flocos de neve. Uma nevasca logo se formou, o pobre garoto já havia aceitado que morreria ali mesmo, mas prosseguia andando, até que ao dar mais um passo seu pé não encontrou chão para se apoiar, foi quando ele notou que em sua frente estava um precipício. Certo de que iria morrer sua única opção era desejar que isso acontecesse da maneira mais indolor. Ele estava a beira da morte quando ouviu um barulho e abriu os olhos com dificuldades, em sua frente estava um dragão, majestoso com suas asas enormes, branco como a neve que caia…

Levou um longo tempo até que Azhar terminasse de contar aquela história, mas a verdade é que ninguém foi capaz de reparar que tinha demorado o tanto que demorou. Ele era capaz de envolver a todos e Shin não foi exceção. Ele só se levantou ao ouvir o final daquela história, pronto para deitar-se e sonhar com tudo que acabara de ouvir.

Em frente sua tenda estava Kotaru, o rapaz estava com as pernas para o alto, sustentando-se sobre seus braços, prestes a cair.

—Kotaru! —Shin correu para impedir a queda. —O que você está fazendo?

—Oras… Azhar disse que sou magro… Muito magro segundo ele, então estou resolvendo isso. —Com a ajuda de seu amigo ele se pôs de pé.

—Plantar bananeira bêbado não vai mudar em nada o seu corpo… —Shin ria da cara dele. —Vamos, eu te ajudo a se deitar.

Assim como foi dito Shin levou seu amigo até sua cama, que na verdade não passava de uma espécie de cobertor extremamente volumoso que era usado como colchão.

—Shin… Você é um óti-mo amigo… —Kotaru tocou o rosto do rapaz com sua mão. —Você merece um beijo por ser tão bom… —Ele avançou com seu rosto mirando a testa de Shin com seus lábios esticado.

—Não precisa ficar tão grato assim. —Shin a manteve afastado empurrando seu rosto com sua mão, porém, o que veio a seguir o fez se arrepender do método usado para manter a distância de Kotaru, pois ele vomitou em sua mão, respingando em sua camiseta e calça. —Argh… Que nojo Kotaru… —Ele se levantou sacudindo a mão para retirar o excesso do vômito.

—Desculpe por isso… Mas pensa pelo lado bom, se eu tivesse te beijado isso estaria na sua cara… —Ela riu de maneira cansada e seus olhos se fecharam em seguida.

—Droga!

Shin pegou uma toalha e uma muda de roupas, a primeira que viu, e saiu da tenda irritado. Kotaru acabara de arruinar seus planos de deitar e dormir por horas, para compensar as poucas horas de sono que vinha tendo diariamente.

Ele se dirigia para o lago onde havia treinado com Vilian. Shin estava tão irritado e perdido nos xingamentos que fazia a Kotaru em sua mente, que nem sequer reparou na beleza do lago que refletia a imagem da lua e era iluminada pela mesma. Conforme chegou mais perto ele pôde ouvir a água se mover bruscamente, o que era estranho, pois estava longe para ouvir algo assim.

—Deve ser o efeito da bebida… —Ao pensar isso ele prosseguiu andando e ao se aproximar ainda mais avistou alguém no lago. Aquela pessoa parecia se divertir, ela jogava constantemente água para cima, cada vez tentando alcançar uma altura maior.

Shin adoraria dar a privacidade que aquela pessoa, seja lá quem fosse, buscava, mas não suportaria mais o cheiro do vômito sobre si por mais tempo. Ele seguiu caminhando de maneira natural, buscando não evitar fazer barulhos para não parecer que estava espionando.

Quanto mais se aproximava, mais era atraído pela curiosidade. Após alguns passos ele reparou os longos cabelos cobrindo as costas daquela pessoa. Ao olhar para a forma do corpo, que estava da cintura para baixo mergulhado na água, Shin concluiu que era uma garota. Aquilo apenas o atiçou ainda mais.

Ele foi capaz de ouvir uma suave risada quando ela jogou para o alto a água que juntou em suas mãos, deixando cair sobre sua cabeça.

Após alguns instantes observando aquela figura que despertava nele grande curiosidade, ele decidiu pigarrear para chamar a atenção dela. A garota se virou afoita cobrindo seus seios com os antebraços e mergulhando na água para esconder ao máximo sua nudez.

Era Aludra quem estava lá, e sua expressão não era capaz de transmitir toda a raiva que sentia, pois supôs que ele a espionava.

—Não acredito… Até na hora de me banhar vou ter que ficar com minha Find ativa? —Falou ela num tom estressado.

—Ér… —Shin não sabia direito o que dizer, tentava manter os olhos fixados no horizonte, embora não fosse isso que desejava. —E-eu só vim me lavar também… Quer dizer… M-meu amigo vomitou em mim então… —Embora ele gaguejasse sua cor permanecia a mesma, sem ficar nem sequer um pouco avermelhado.

Aludra notou a camiseta e a calça suja dele e ao prestar atenção e se concentrar pôde sentir um cheiro um pouco desagradável. Ainda assim ela estava irritada.

—Me jogue esse vestido branco. —Ela apontou com a mão onde estavam suas roupas no chão, na borda do lago. Aquilo que ela pedia não era exatamente um vestido, se assemelhava mais com uma camisola, era o que ela usava por debaixo de suas roupas.

Shin pegou o que ela pediu e jogou para ela rapidamente, para evitar que ela pensasse coisas ainda piores dele. Aludra mergulho na água vestindo seu vestido.

—Pronto… Pode entrar… —Mesmo tendo a pele arroxeada era possível ver que ela havia corado um pouco. Aludra bateu com os pés na água para se afastar do rapaz.

—T-tem certeza? —Ela acenou com a cabeça mantendo o olhar desviado. —É que eu precisava lavar essas roupas…

—Tire-as, oras… Eu posso ficar apenas de roupa íntima na sua frente e você não?

—Justo… Muito justo… —Shin tirou sua camiseta sem muitos problemas, mas ficou um tanto constrangido ao colocar as mãos na braguilha. Após um breve momento de hesitação ele desceu a calça ficando apenas de cueca, que mais se assemelhava com uma um short de tecido leve.

Shin sentou na borda do lago entrando na água logo em seguida. Por um breve momento seus olhos se dirigiram até Aludra, neste curto espaço de tempo em que seus olhos se cruzaram foi como se ele acabasse de ser hipnotizado. Seu sono e seu constrangimento deram vazão ao puro desejo de permanecer olhando sua pele arroxeada cheia de gotas de água espalhada, seus cabelos cacheados molhados pela água dando a eles uma outra aparência e seus olhos amarelados. Rapidamente ele chegou a conclusão de que aqueles eram os mais belos olhos que havia visto em sua vida.

Mas como a chuva de verão que é imprevisível e chega mesmo em meio ao dia ensolarado, ela desviou o olhar sem aviso prévio nem nada do tipo, acabando com o encanto.

Logo ele lembrou para que estava ali, e começou a limpar suas roupas. Fez o que tinha que fazer o mais rápido que pôde e saiu do lago. Após se secar e se vestir ele se afastou sem nem ao menos olhar para trás, mesmo que este não fosse seu desejo.

Chegando em sua tenda ele apenas se deitou ignorando completamente a ausência de Kotaru, seus olhos se fecharam e em sua mente ele era capaz de ver Aludra.

Alguns momentos mais tarde, pouco antes da festa realizada pela caravana acabar.

Ícaro estava exausto e estava indo deitar em sua tenda, que ele dividia com Guiscard. Não muito distante de sua tenda estava a de Mercy, uma humana com pouco mais de vinte anos, cabelos louros e usualmente trançados. Olhos verdes e um dom capaz de atrair muitas pessoas, o dom de ver o futuro.

Mercy dividia sua cabana com uma drow, ajudante de Simão, e como ajudante dele, ela só viria deitar quando a última pessoa estivesse satisfeita e não quisesse mais nenhuma caneca de aguardente.

Ao passar de frente para a tenda dela, Ícaro ouvir alguns gemidos de dor e em seguida um barulho familiar, o som que fazer após sofrermos uma crise de falta de ar e finalmente conseguimos respirar.

—Mercy! —Ele entrou na tenda bruscamente e se deparou com a garota sentada em sua cama respirando ofegantemente. —O que foi? —Ícaro se aproximou dela preocupado.

—Eu… Eu… —Ela buscava retomar o fôlego para falar. —Eu vi algo… Uma mulher… Ela falava com alguém, eu não vi o rosto dele, mas com certeza era um homem… Ela era elfa… Cabelos negros e olhos cor de topázio... Ouvi apenas algumas coisas… Ela o perguntava onde estava a Cursed Seed, como ele sabia onde estava a contou… —Mercy fixou seus olhos preocupados em Ícaro que segurava sua mão e arregalou os olhos ao ouvir o que ela disse.

—Devemos contar isso a Eulália… Imediatamente. —Seu tom transmitia toda sua preocupação, ela acenou afirmativamente com a cabeça. Porém, suas pálpebras começaram a pesar e Mercy não resistiu e perdeu a consciência. Ícaro decidiu deixar para contar apenas na próxima manhã, pois agora ficaria cuidando de Mercy.

Por LiamGt | 18/08/18 às 12:00 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama