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Capítulo 61 - Encarando a Si Mesmo

O Mestiço (OM)

Capítulo 61 - Encarando a Si Mesmo

Autor: Liam | Revisão: Kazuaki-kun

Há alguns poucos momentos atrás Eulália terminava de finalizar os sete guerreiros que acompanhavam Imam. Todos estavam mortos no chão, e seu chefe, a qual seguiam orgulhosos e crentes de que era um homem poderoso, sangrava, já morto, não muito distante dali.

Eulália desfez sua magia. A escuridão que criava aquela caixa foi aos poucos se desfazendo, como umas chama que apaga lentamente. Ela logo notou que no alcance de sua Find podia sentir apenas um fluxo de aura ativo.

No momento foi impossível para ela não ficar tensa. Embora tivesse simpatizado facilmente com Kotaru, o rapaz não havia se demonstrado ser um prodígio nem nada do tipo, então duvidar de sua vitória era o mais natural possível. Mas como o fluxo de aura estava ativo isso aumentava as chances daquele ser Kotaru, afinal, se fosse Jakes teria fugido, a menos que ele tivesse sido ferido gravemente. De qualquer jeito Eulália só descobriria ao chegar no local.

Após uma caminhada não muito longa, porém, mais demorada do que deveria, enfim ela pôde ver, o corpo de Jakes deitado sobre seu próprio sangue e sua cabeça não muito longe dali. Kotaru estava próximo ao corpo morto, junto de Arien.

Sem dificuldades Eulália conseguiu deduzir o que havia acontecido, mas ela não pôde imaginar o efeito que isso teria no rapaz, e o quanto o afetaria.

— Kotaru? — Ele estava deitado com os olhos abertos, mas não se mexia, e permaneceu imóvel, mesmo após ser chamado. — Caso esteja me ouvindo e entendendo pisque duas vezes para mim. — Assim como pedido o rapaz fez.

Durante as duas vezes que suas pálpebras se encontraram ele pôde ver em sua mente, aquela cena se repetindo, o sangue espirrando para todos os lados… Era possível inclusive sentir o cheiro de ferrugem daquele líquido vermelho que neste momento já manchavam suas roupas.

— Acredito que seu corpo entrou em colapso… Provavelmente você deve ter exigido demais do seu fluxo de aura. É apenas uma paralisia temporária, mas só poderemos resolver quando Clóris ou Vilian acordarem, e sinceramente não tenho ideia de quanto tempo isso levará. — Kotaru se desesperou ao ouvir aquelas palavras. Não pela paralisia, mas por ser obrigado a ficar ali, ao lado do homem que ele acabara de matar.

Seus olhos se moveram em direção ao corpo de Jakes e Eulália entendeu que ele não estaria confortável naquele lugar.

— Feche seus olhos e relaxe… Minha aura entrará em contato com a sua, tente não me impedir, tudo bem? — Kotaru não respondeu, pois não podia, mas havia entendido o que ela tinha dito. — Levitate. — O rapaz pode sentir seu corpo se erguendo aos poucos, e sem demora alguma ele estava longe daquele cadáver.

Kotaru sentia seu corpo pesado, como se houvessem-no coberto de concreto, seus olhos também começavam a pesar. Suas pálpebras se encontravam constantemente, mas ele acabava acordando ao rever aquela cena, mas após alguns minutos a fraqueza que sentia e a necessidade de descansar venceram-no e ele dormiu, ali mesmo.

Um dia e algumas horas depois.

Kotaru acorda assustado, podia sentir que estava em movimento e ao olhar ao redor percebeu que estava em uma carruagem. Seu corpo se movia normalmente para seu alívio, mas mesmo esforçando-se não conseguia lembrar direito do que tinha acontecido.

Seu corpo estava dolorido, como se tivesse apanhado de uma dezena de homens até estar a beira da morte. Seus olhos cansados e sentia-se cansado, além de uma sensação que para ele ainda era nova. Uma dor aguda na área do estômago, devido ao uso exacerbado de seu fluxo de aura.

Ele estava sozinho na carruagem, então resolveu ir até a parte frontal para ver quem a guiava, e ao fazer isso se deparou com Simão e a luz do luar.

— Oh, então você acordou garoto? Pensei que ia ficar dormindo para sempre. Haha! — Kotaru não entendeu muito bem, afinal ainda estava muito cansado, então deduziu que estava desacordado por algumas poucas horas.

— Faz quanto tempo que estou dormindo? — Perguntou ele apertando os olhos remelentos.

— Mais de um dia… Seus amigos estavam preocupados, e nós também, mesmo Eulália dizendo que estava tudo bem. — Kotaru arregalou os olhos sem acreditar que tinha dormido por tanto tempo.

Subitamente veio a sua mente a lembrança de Jakes segurando Arien colocando em seu pescoço uma faca e ele perguntou por ela de maneira desesperada.

— Acalme-se! — As mãos do rapaz estavam sobre Simão e o chacoalhava ansioso por uma resposta que o livrasse daquela aflição. — Ela está bem garoto, você cuidou dela, não se lembra? — Ao ouvir aquelas palavras todas suas memórias voltaram, e uma em especial ficou fixada em sua mente, como um porta-retratos em uma parede.

Kotaru deu alguns passos para trás deixando Simão preocupado. Ele se deitou, apertou os olhos e levou a mão até a cabeça. Toda e qualquer tentativa de tirar aquela imagem de sua cabeça naquele momento era válida para ele.

Seus olhos começaram a lacrimejar…

— Era o único jeito… — Ele murmurou para si mesmo. — Era o único jeito… — Ele repetiu enquanto apertava ainda mais os olhos.

Mesmo após ter dito que estava disposto a sujar as mãos caso fosse necessário, mesmo ciente de que aquele era o único jeito de salvar Arien, ainda assim aquilo doía muito dentro do rapaz, que por anos foi ensinado por seu avô a ser bom e gentil. Mesmo presos e injustiçados Morian nunca parou de lhe dizer que nada de bom poderia ser colhido da violência. Aquelas palavras ecoavam em sua mente, acusando-o vez após vez.

— Eu… E-eu o matei… — Kotaru retirou suas mãos trêmulas da cabeça e as encarou, para ele o sangue de Jakes ainda era algo visível.

Simão se viu obrigado a parar a carruagem, pois não sabia o que estava acontecendo com o garoto.

— Ei, rapaz, você está bem? — Ele entrou na carruagem às pressas e logo pôde ouvir um dos murmúrios de Kotaru que se acusava constantemente. — Ele foi o primeiro? — Sua resposta veio através de um acenar com cabeça de maneira afirmativa. — Entendo, naquela noite eu também matei um, eu já nem ao menos consigo me sentir mal com essas coisas, afinal, o que importa é que eu estou vivo e salvei Mercy que estava comigo. A vida de alguém que quer tirar a sua não deve ser poupada, muito menos lágrimas derramadas por isso. — O tom de Simão era firme, porém ele não falava de maneira grosseira.

Aquilo foi o suficiente para ajudar Kotaru a se recompor. Aos poucos as poucas lágrimas cessaram e a tremedeira também.

— Você está bem para mim continuar? — Kotaru acenou com a cabeça novamente de maneira afirmativa. — Tente descansar então, o caminho será longo, Clóris disse que seu corpo precisa descansar por dias para melhorar. E tente não pensar na vida que você tirou, mas sim na que você salvou. — Após dizer isso Simão voltou para frente da carruagem e logo a caravana que havia parado junto dele voltou a andar.

Os olhos de Kotaru pesaram novamente e após alguns instantes ele voltou a dormir, mas assim que suas pálpebras se encontraram, seus olhos abriram novamente, presenciando um ambiente já familiar para o rapaz. O Paralelo.

— Eu realmente não acredito que você está chorando… — Aquela voz, que Kotaru já sabia muito bem a quem pertencia, ecoou pelo céu escuro, mas não era possível vê-lo.

— É sua culpa… Você disse aquilo! — Ao dizer isso ele viu logo a sua frente uma escuridão que saia de si próprio dar forma ao lobo.

— Não seja estúpido! Você me culpar e assumir a culpa são as mesmas coisas! Somos um só Kotaru, você tinha o desejo, porém, não tinha forças, pois Morian permanecia em sua mente, te acusando e lhe dizendo para ser bom. Já eu? Eu tinha o desejo, mas também possuía a força necessária, após calar aquele velho, você não hesitou em permitir que minha vontade se unisse a sua. — Ele rodeava o rapaz que o encarava irritado, principalmente após ele se referir a Morian sem muito respeito.

— Não fale assim do meu avô!

— Tsc… Então você acha que ele está certo? Teria sido melhor não matá-lo e estar enterrando aquela elfa? Quantas pessoas terão que repetir isso até que você deixe de ser uma criancinha estúpida e chorona?!

Ao ouvir as palavras do lobo Kotaru se irritou ainda mais e avançou contra ele com o punho cerrado. A escuridão que dava a forma ao animal se dissipou, fazendo com que o rapaz não acertasse nada, mas ao virar o rosto para trás se deparou com um reflexo seu, porém completamente preto e com os olhos vermelhos.

Antes que ele pudesse reagir de qualquer maneira, seu reflexo sombrio o socou derrubando-o no chão.

— É melhor acordar Kotaru… Você ainda é uma criança… — Ele o encarava com um olhar superior e com certo desprezo, e como sempre, logo em seguida se desfez, tanto ele quanto a paisagem que cercava o rapaz.

De volta a realidade o sol nascia e a caravana parava, todos descendo de seus cavalos e carruagens e pegando os materiais para erguerem o acampamento. Tudo seguia normal de certa maneira, o ataque contra eles havia sido meio ignorado, restando apenas o alerta para serem mais cautelosos e o luto.

Assim que todos acordaram, Vilian e Clóris cuidou dos poucos que haviam se ferido. Ícaro deu um fim aos corpos dos invasores com suas chamas e em seguida, um pequeno e rápido velório foi feito para Jan. Para alguns, como Simão, aquela tinha sido uma grande perca. Ele era um rapaz tímido, embora fosse um usuário não praticava, nem buscava ser mais forte, pois seu maior interesse era aprender a fazer as bebidas tão bem quanto Simão.

O que mais deixava aquele homem irritado era a ausência do corpo de seu jovem amigo, e o fato dele não ter notado a diferença entre ele e o infiltrado fazia com que Simão sentisse um profundo ódio de si mesmo, gerando dentro de si um grande sentimento de culpa.

Ainda agora, após um dia e algumas horas onde ele esteve sozinho para pensar nas coisas aqueles sentimentos não haviam passado.

Essa viagem foi carregada por tristeza devido a perda de Jan, e para outros, cheia de preocupação, tanto pelo estado físico de Kotaru quanto pelo psicológico, afinal Arien e Shin sabiam muito bem o peso que aquilo teria sobre o rapaz.

E foi essa preocupação que fizeram com que eles descessem de seus cavalos correndo apressados em direção à carruagem em que Kotaru estava.

Kotaru estava se levantando, exausto de todas as maneiras. Ele saiu da carruagem e a luz solar o fez fechar seus olhos, deixando-os entreabertos até se acostumarem com a claridade que não era vista há quase dois dias.

Quando enfim conseguiu abrir os olhos ele se deparou com Arien e Shin correndo em sua direção e ao ver a elfa ele se encheu de alegria e enfim entendeu aquilo que já havia sido dito por Simão e por seu guardião. Ela estava bem, e isso era mais importante que qualquer outra coisa. Agindo de maneira espontânea o rapaz a abraçou antes que ela pudesse fazer qualquer outra coisa, deixando-a sem reação.

Arien queria dizer algo, na verdade desde que acordou com sua roupas ensanguentadas e Eulália lhe explicou o que tinha acontecido ela estava com esse desejo, porém, mesmo após toda a viagem, Arien ainda não sabia o que queria falar, mesmo após aquele abraço que ela nem sequer retribuiu, pois não conseguia parar de pensar nas palavras que estavam engasgadas em sua garganta, porém, ela não sabia o que eram.

— Como você está? — Isso foi tudo o que a elfa conseguiu dizer.

— Agora que eu estou te vendo viva e sem ferimentos graves estou muito melhor… — Ele se afastou dela e logo Shin passou o braço por seu pescoço, cerrando o punho e esfregando-o na cabeça do rapaz.

— Seu malandrinho!  — Shin ria enquanto maltratava seu amigo que tentava escapar, mas sem sucesso algum.

Durante a viagem ele também pensou o que deveria dizer e fazer, e chegou a conclusão que agir normalmente seria o melhor.

Por LiamGt | 11/09/18 às 18:22 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama