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Capítulo 77 - Vilian

O Mestiço (OM)

Capítulo 77 - Vilian

Autor: Liam

Todos estavam reunidos, quietos e temerosos, imaginando o pior, porém desejando o melhor. Não fazia muito tempo que Clóris tinha vido até eles dizer que Shin e Aludra estavam fora de perigo, principalmente a drow, que não deveria demorar muito para acordar e não possuía ferimentos tão graves. Mas Vilian ainda estava em situação de risco, e era essa a preocupação de todos.

Já estava escuro, o tempo continuava a passar violentamente, mas Clóris não trazia mais informações sobre a situação daquele homem. Os membros mais antigos da caravana que já tiveram seus ferimentos curados por ele, todos de cabeça baixa, alguns até mesmo rogavam aos seus deuses que fizessem algo.  

Ícaro estava sentado em um tronco, suas pernas não paravam de chacoalhar. Sua mente estava uma bagunça. Estressado com tudo aquilo não foi capaz de evitar que sua boca abrisse para falar algo que não deveria.

— Engraçado que tudo isso começou depois que esses quatro entraram na caravana… — Ele se levantou lançando sobre Kotaru um olhar acusador. — Teve o ocorrido com a Mercy, a invasão, e aquela bagunça em Acatia que por pouco um de nós não morre… e agora isso, tudo isso nesses poucos dias que vocês estão aqui.

— O quê? Você está nos culpando por isso? Acho que você se esqueceu quem estava ao seu lado quando salvamos sua amiguinha, ou então quem permaneceu acordado durante o ataque e ajudou a controlar a situação, e você estava onde Ícaro? — Todos estavam estressados com a situação e Kotaru não era diferente, mesmo tendo seu melhor amigo livre de risco ele também se preocupava com Vilian.

— Você realmente acha que pode algo comigo? — Ícaro se aproximou de Kotaru encarando-o com um olhar altivo, mas o outro rapaz não recuou em nenhum momento.

— Chega Ícaro! Já vimos que você se importa o suficiente com Vilian para causar um atrito interno, agora basta! Aquele homem já estava infiltrado em nosso meio há muito tempo e você sabe disso, assim como você também sabe que não foi culpa deles que uma aberração atacou Mercy. — Eulália falou com uma voz calma, porém com certa autoridade.

— Exato… E eu sou a maior culpada do ocorrido em Acatia, foi minha decisão enfrentar aqueles dois para ajudar Elli, e sinceramente, eu faria de novo, afinal é nisso que creio que é nossa causa. Se não for para fazer por alguém o que Eulália fez por mim não faz sentido estar aqui. — Disse Calliope sentada encarando o céu estrelado.

Assim como os outros ela desejavam que o melhor acontecesse a Vilian. Mas diferente de alguns Calliope não possuía crença em nenhum deus, porém se perguntava: “se existe algum deus em algum lugar, porque permite tais coisas?”

— Acho que não tenho ninguém do meu lado… — Ele se levantou irritado e se afastou, sendo seguido por Guiscard.

— Hey! Não ouse continuar andando. — Guiscard falou com autoridade com ele.

— Tsc… me poupe da lição de moral, não me importo se estou errado ou não, tudo bem? Por isso estou me afastando, se estiver errado não quero causar mais conflitos, então apenas me deixe sozinho. — Dentre todos os membros da caravana Ícaro era um dos que possuía maior respeito por Eulália, por isso ao ouvir o que ela disse logo perdeu a certeza do que dizia.

Era óbvio que a introdução dos quatro não era a causa das tragédias que vinham acontecendo. Mas há algo em comum entre humanos, elfos, drows e todas as outras raças, em um momento de dificuldade a coisa mais simples e prática a se fazer é buscar o causador ou culpado e eliminá-lo. Caso Ícaro parasse para analisar o que tinha dito veria que tinha sido injusto, mas seus instintos eram claros, e eles apontavam os quatro como culpados de perturbar a paz que a caravana vivia.

— Não me importo com o que você quer. Aquelas pessoas que fizeram aquilo a Vilian não estão mortas, e por isso você vai voltar e se sentar onde meus olhos podem te ver.

A relação dos dois era algo engraçado, havia momentos em que vê-los conversando era semelhante a ver dois inimigos trocando farpas, em algumas outras ocasiões pareciam dois irmãos e às vezes melhores amigos, mas tinha alguns raros momentos onde se assemelhavam a pai e filho, e quando isso acontecia Guiscard sempre estava no papel de pai.

A contragosto Ícaro deu meia volta e se dirigiu para o círculo onde a maioria estava reunida, mantendo-se afastado e focando seu olhar no céu.

Dentre todos eles Eulália era talvez a mais preocupada, pois era quem conhecia ele a mais tempo, junto de alguns poucos. Desde que entrou na caravana Vilian sempre se manteve muito fechado, o que era de se esperar dado tudo o que ele passou.

Diferente da grande maioria da caravana Vilian era apenas um humano, o que aumentava a estima deles por ele, afinal, era alguém de outra raça se doando completamente por suas causas. Talvez neste momento ele realmente era esse homem altruísta que luta por algo que não lhe traga benefício algum, mas no começo, quando ele se juntou à esse pequeno grupo, ele não passava de um jovem amargurado, cheio de raiva sem direção alguma.

Já fazia alguns bons anos. Ele tinha apenas dezessete anos, estava saindo do orfanato, em que viveu toda sua vida, pois um homem havia o contratado para trabalhar pra ele em sua fazenda. Vilian agora tinha uma casa, mesmo não tendo uma família. Aos poucos sua relação com as pessoas que moravam ali foi se tornando melhor, logo ele descobriu suas capacidades mágicas e começou a treinar, esforçando-se pois cria que controlando a água seria capaz de ajudar ainda mais na fazenda daquele homem.

Tudo ia muito bem, mas quando ele estava com dezenove anos veio uma praga sobre aquela cidade e devastou muitos campos e o do seu empregador não foi exceção. Sem sua plantação ele não seria capaz de lucrar de maneira alguma, passaram-se alguns meses e ele não teria outra opção a não ser demitir Vilian, que na verdade já estava pronto para isso e dentro de si não culpava aquele homem de maneira alguma.

Porém, o que aconteceu foi muito diferente. Alguns homens passaram pela cidade pagando muito bem por pessoas. Aquele homem não hesitou em vender Vilian, alegando que ele era um escravo dele e desta maneira o jovem de cabelos esverdeados foi levado em meio a lágrimas carregadas de ira.

Seus próximos dois anos foram terríveis, durante a primeira estação seguiu viagem com aqueles homens, comendo e bebendo o mínimo possível, além de ter sido maltratado. Mas na estação seguinte alguém o comprou e durante a venda ele ouviu que contaram para seu comprador que ele era capaz de usar magia, usando aquela informação para lucrarem mais.

Vilian ainda não sabia controlar a água direito, estava estudando isso para ser o mais útil possível para se empregador, mas agora seu comprador o forçava a fazer aquilo que os vendedores disseram que ele era capaz. Sempre que falhava ao controlar a água sentia em suas costas o ardor do impacto do chicote.

Era frustrante, mas aquilo o ensinou a melhorar. Cada vez que começava a manipular a água mantinha em mente a dor que sentiria caso errasse, lembrava que suas costas já havia sido marcada no dia anterior por isso ser chicoteado naquele momento doeria ainda mais.

No dia em que Vilian notou que poderia fazer mais do que apenas retirar água do poço ou regar terras ele começou a se dedicar. Suas noites de sono, o único momento em que estava sozinho foi dedicado para treinar. Durante esse um ano e nove meses ele treinou duramente, se auto-disciplinou, seu corpo mudou drasticamente e seu controle sobre a água também.

Foi numa noite de lua cheia que ele decidiu que fugiria. Todos os cinco membros daquela família dormiam. Vilian esperou duas horas após o momento em que foram dormir, e assim que esse prazo se cumpriu ele usou a pouca água que havia armazenado em seu quarto para quebrar as enferrujadas correntes que o prendiam, não foi nada fácil por tal pressão na água. Seu  fluxo de aura se esgotou completamente. Vilian se levantou, levando absolutamente nada consigo. Tudo parecia que daria certo, mas infelizmente a vida não era assim tão simples.

Assim que cruzou um corredor que havia entre seu quarto e a janela mais próxima ele se deparou com o filho mais jovem da família. O rapaz tinha dezesseis anos e uma vez ou outra tomava o chicote da mão do carrasco para maltratá-lo. Seus olhos se encheram de temor e num ato desesperado ele se jogou sobre o garoto indo os dois ao chão. Vilian fazia força com sua mão contra a boca e o nariz dele impedindo não só que ele gritasse, mas que respirasse também.

A princípio aquilo era apenas uma medida desesperada, mas um prazer foi tomando conta de Vilian conforme ele via aquele garoto tão magro e frágil debaixo dele, se debatendo como um peixe fora da água, buscando por ar para manter-se vivo. Como não se sentir bem, aquele pirralho que havia causado a ele tanta dor e sofrimento e sempre ria quando uma lágrima escorria de seus olhos parecia tão impotente naquela posição.

Suas mãos pressionavam mais e mais, ele sentia que a qualquer momento elas poderiam afundar naquele maxilar que parecia ser tão frágil. A diferença de força entre os dois era notória e as chances daquele rapaz escapar eram baseadas apenas na misericórdia de Vilian, mas ele não a alcançou. Logo seu corpo se aquietou, as mãos de Vilian não impediam mais que o ar passasse por suas narinas, mas naquele momento ele já não era mais capaz de respirar.

Assim que viu aquele cadáver o arrependimento veio sobre ele, mas não havia tempo para isso, sua liberdade estava em jogo e se fosse pego agora teria que responder pela morte do caçula da família.

Quando estava prestes a sair uma garota o chamou, ela era a primogênita da família, uma boa garota que por diversas vezes cuidou dos ferimentos de Vilian e até mesmo intercedeu por ele. A única pessoa que valia a pena naquele lugar. Seu rosto estava desolado, com diversas lágrimas escorrendo através de seus olhos.

Vilian não foi capaz de olhar nos olhos dela, pois sabia que aquelas lágrimas eram porque ela tinha visto o cadáver de seu irmão. Ele apenas pulou o muro daquele lugar e correu, o máximo que pôde e o mais rápido que pôde. Não havia destino em seus passos, mas Vilian sentia-se livre, mesmo ciente de poderia morrer a qualquer momento. Ficou sem comer por um bom tempo até que desmaiou em meio à floresta, já longe de sua antiga cidade.

Ele acordou algum tempo depois, com a boca seca e a barriga roncando de fome. Após mais algumas horas andando ele finalmente encontrou um lago, foi estranho para ele, de certa maneira parecia que algo nas águas o atraia. Após beber até se saciar conseguiu pescar um peixe e depois de muitas tentativas acendeu um fogo para assa-lo. Pelo menos mais uma noite ele sobreviveria.

Decidiu ficar ao redor daquele lago por um tempo, afinal tinha água e comida para ele ali. Com o tempo encontrou algumas árvores frutíferas na região.

Tendo muito tempo livre para si ele começou a praticar ainda mais, seguiu treinando seu corpo e após uma luta contra um javali selvagem, onde ele se feriu, Vilian descobriu que poderia se curar. Tudo o que fazia e aprendia era de maneira instintiva, algo dentro dele lhe dizia que era capaz.

Sua vida não era ruim, mas às vezes ainda se pegava chorando, arrependido por ter matado aquele garoto, lembrando-se das lágrimas que rolaram pelo rosto daquela garota e ele era a causa delas. Ao mesmo tempo sentia-se arrependido por não ter matado seus pais, que provavelmente fariam com outro o que fizeram com ele.

Certo dia ele ouviu o barulho de cavalos e se escondeu debaixo da água. Vilian era capaz de ficar mais de uma hora por lá sem se afogar. Para seu azar aquelas pessoas pararam por ali, na verdade, era esperado que parassem, afinal, um lago é sempre um bom lugar para se parar.

Ele ouvia as pessoas conversarem e se assustou quando viu a cara de um cavalo mergulhando na água, e o pobre animal também se espantou afastando-se imediatamente relinchando em seguida. Os donos daquele animal correram para ver o que era e foi então que eles descobriram Vilian. Foi nesse dia que ele conheceu a caravana, na época não era tão numerosa quanto é atualmente.

A princípio ele reagiu de maneira temerosa, tentando até mesmo lutar contra eles, mas não demorou muito para que Eulália o neutralizasse e sentasse com ele para conversar.

Ela logo percebeu o potencial dele e toda a raiva contida que continha dentro de si. De maneira sagaz Eulália começou a lhe contar parte de sua história e seus ideais, não demorou muito para que ela lhe contasse sobre seu objetivo de atacar Tavira. Vilian ficou fascinado com tudo o que ouviu, toda a raiva contida, o desejo de vingança. Era muito fácil de se identificar com todos aqueles sentimentos naquele momento.

Na atualidade o pobre Vilian vivia um momento complicado, andando na corda bamba, entre a morte e a vida.

Lembrando do dia em que o conheceu Eulália chorou, preocupada, pensando se ele sobreviveria.

Logo todos direcionaram seus olhares para o mesmo lugar, pois Clóris voava em direção a eles trazendo novidades sobre o estado de Vilian.

Por LiamGt | 11/11/18 às 00:42 | Ação, Aventura, Fantasia, Romance, Brasileira, Magia, Drama