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Capítulo 06 - Abram-se as cortinas, é a nova atração

Tecnomancer (TM)

Capítulo 06 - Abram-se as cortinas, é a nova atração

Leia este capítulo com música.

Lucas não acreditava no que via. 

No carro em chamas Tizen se contorcia enquanto era consumido pelas chamas. Incapaz de fugir devido ao peso do ciborgue sobre o veículo. 

E se ele sofria deste jeito, Soren já deveria estar morto há muito tempo. 

Culpa. 

Em questão de um mês seus companheiros morreram. Cada um deles. 

Ambições, caprichos, problemas. Não lhes sobrou nada. 

Este mundo estava corrompido. Gente do seu tipo não valia nada. Eram descartáveis; peões em um tabuleiro que não escolheram jogar. 

Desde o início, esses são os caminhos que podem trilhar: morrer como ninguém ou viver como um vagalume. 

Brilhando em um curto espaço de tempo e se dissipando no infinito. 

Isso não era vida. 

O Andarilho estava certo, ele não era um salvador. 

A sociedade nunca precisou de um para início de conversa. 

O que eles precisam é de alguém com a força necessária para endireitar o rumo das coisas. 

Os olhos de Lillia estavam vermelhos. De medo, não de pesar. 

Afinal, ela não sentia nada pelos seus amigos. 

Já o olhar do ciborgue brilhava de prazer. Reluzia insanidade. 

Durante um curto espaço de tempo, Lucas enxergou, diante dele, duas figuras esfumaçadas: ma branca e outra negra. 

Ambas estenderam suas mãos para ele. 

Luz e Treva. 

Justiça ou vingança.

— Confie somente na Luz — havia dito Daemus.

— Eu não confio em ninguém. — murmurou Lucas.

Afinal, o mundo não funcionava em uma simples dicotomia. 

Calar o algoz não bastava. A vingança tem um caminho longo que eventualmente tem fim e se torna vazio; a justiça é questionável quando a mão que comanda é a mesma que julga.

E para isso um caminho diferente era necessário.

No centro das duas figuras, quase imperceptível, havia uma terceira. Não tão brilhante quanto a Luz, nem tão escura quanto a Treva. Possuía características das duas, mas não fazia parte de nenhuma delas.

Balanço.

Ele estava surpreso de ter sido notado depois de tanto tempo esquecido.

E de braços abertos recebeu Lucas como um velho amigo.

A maleta de Lillia ainda estava dentro do carro. Lucas enfiou seus braços entre as serragens escaldantes e retirou-a.

O capacete branco flutuou ao seu encontro e lhe recebeu como seu mestre. 

Embora fosse a primeira vez que o usava, sabia, como se houvesse lhe pertencido desde sempre, como funcionava. 

Sua aparência mudava dependendo de como o usuário se enxergava. De como aceitava o papel que lhe cabia. 

O Andarilho era um mensageiro da Luz e abdicou de seus sentidos por confiar nela de forma cega. Por isso sua forma era a mesma de uma cabeça de manequim branca. 

Já Lucas queria ver o mundo mudar com seus próprios olhos, carregar o peso dos mortos que por aqui passaram, dos vivos que continuavam a sofre e daqueles que por ventura nascerão nesse mundo impiedoso.

Queria trazer medo e ordem àqueles que deturpam o sentido da vida. 

Assim, o capacete tomou a forma de um esqueleto tecnológico. Haviam chifres que cresciam de suas têmporas. 

Um ceifador dos ímpios, um cavaleiro destinado a trazer o apocalipse.

— Me desculpem por não poder sofrer a sua perda, eu tenho muito trabalho pela frente.

Quando abriu os olhos, o mundo era diferente. Não de modo físico, mas sim como o percebia.

Para além da fome, fama e dinheiro; ele tinha outro objetivo. Maior. Mais difícil. Tortuoso.

Olhou para o ciborgue que segurava Lillia pelo pescoço, desdenhoso. O capacete permitia que enxergasse seu fluxo de mana, tudo que se escondia atrás de sua carcaça biônica e sua identidade. 

Gomek Bultrath. 

Este era seu nome. 

[O artefato Elmo do Portador da Chave foi equipado]

[Devido à incompatibilidade espiritual, o artefato se transformou em Elmo do Demônio Oprimido.]

[A habilidade Escaneamento Avançado está disponível enquanto o usuário for o portador do elmo.]

[Diversas funções estão indisponíveis. Necessário mais mana, força, reflexos e habilidade técnica.]

[Escaneamento Avançado (única)]
[Permite revelar todas as informações de um indivíduo e seus pertences desde que o nível de poder entre o portador não seja maior que 1.5x. Esta habilidade permite medir o nível de risco que um oponente representa com base em leitura biométrica e inferir seu estilo de combate. Torna mais fácil detectar quaisquer equipamentos tecnológicos contidos no raio de 250 metros.]

[Experiência +100%, regeneração +100%, absorção de mana +100%]

[A habilidade Frenesi Devastador foi gerada de acordo com o perfil do portador.]

[Frenesi Devastador (única)]

[Triplica a força, regeneração, resistência e sentidos por 15 minutos. Após, deixa o usuário sob estado de sinapse motora por um dia, incapaz de se movimentar.] 

Lucas ativou a habilidade de imediato. Seus músculos pulsaram e cresceram descontrolados. Em instantes ele adquiriu estatura e corpo equivalente ao de um orc. 

Suas roupas, incapazes de se esticarem para acomodar seu novo corpo, se rasgaram.

— Que desperdício… Eu adoraria brincar com uma gostosa como você. — disse Gomek, lambendo o rosto da mulher, já roxa e quase sem vida. 

Foi então que, atendendo suas preces ou não, um feixe de luz atingiu abaixo da axila de Gomek, fazendo-o retrair seu braço e soltando Lillia no chão. 

Buscando ar, ela tossia de maneira incontrolável. 

— Eu não senti nada, mercenariozinho. — retrucou com desdém. 

— Eu ainda nem comecei. 

Lucas avançou e desferiu um soco contra o rosto do ogro. 

Ao bloqueá-lo, viu seu braço de metal se torcer e explodir em mil fragmentos menores. 

Lucas não deu tempo para descanso e conjurou redução de gravidade. 

Quando os pés de Gomek deixaram o chão, lá estava Lucas preparado para chutar seu estômago. 

Como uma bala o ogro voou para o alto. 

Repleto de força hercúlea, o humano pulou, ficando acima do inimigo e chutando-lhe a cabeça. 

Ele caiu como um cometa, abrindo uma cratera no chão. 

Lucas pousou sobre o ciborgue e sentou-se. Uma torrente sem fim de socos atingiam todas as partes do corpo do inimigo, transformando-o em uma pilha de sucata. 

Agora terrorizado, Gomek ativou os propulsores em seus pés e tentou fugir. 

Antes que conseguisse Lucas agarrou seus calcanhares e girou com ele, arremessando-o em um dos prédios da redondeza. 

— Você não vai ter tempo de se arrepender. — disse o humano com olhos de raiva transcendental. 

Lillia que se recuperava observava perplexa à sequência de acontecimentos. 

Como se carregasse um animal para o abate, ele arrastou Gomek - que agora era só torso e cabeça - até o furgão em chamas. 

— Tizen e Soren, onde quer que estejam, vejam eu cobrar pelas suas vidas. Essa é minha oferenda. 

Ele ergueu o corpo do ciborgue sobre sua cabeça e partiu-o ao meio. 

Sobre a cabeça pisou, achatando-a e espalhando sangue e miolos sobre o chão. 

Diante de cena tão horrível, era possível escutar o soluçar de desespero de Lucas. Que por detrás do capacete soava sombrio e demoníaco. 

As testemunhas se amontoavam ao redor, mas temiam se chegar perto demais.

Drones de diferentes emissoras sobrevoavam o perímetro do incidente para tentar cobrir o incidente.

A essa hora, a figura do homem de capacete partindo um ciborgue ao meio repetia em vários murais holográficos da cidade.

Os jornalistas japoneses estavam chamando o sujeito de Kessho Akuma; os latinos de Diablo de Cristal; chineses de Jingmo.

A polícia enfim chegava à cena - em uma atuação teatral. Apenas após o inimigo ter sido eliminado.

Viaturas cercaram Lucas e policiais armados apontavam suas armas para ele.

— Polícia de San Cristóbal, renda-se, retire o capacete e aguarde aproximação! Sob luz do da lei 16892/90, você está sendo acusado de terrorismo!

— Vocês estão malucos? O terrorista era aquele ciborgue! — gritou Lillia.

— Senhorita Lillia, temos muitas razões para crer de que eles estivessem trabalhando juntos. — o comandante de polícia aproximou-se dela e cobriu-a com um casaco — Venha, eu vou levá-la até a delegacia.

— Trabalhando juntos? — ela olhou para seu segurança com dúvidas quanto a isso.

Lucas sorriu e se mexeu. Ele havia escaneado o sujeito e não havia nada que pudesse esconder.

Afonza Anastasía.

Nem mesmo seu transmissor de carbono na forma de uma orelha. 

Tão bem feito que possuía até mesmo pele sintética. Algo caro demais para um simples comandante. 

Em um piscar de olhos ele estava diante do comandante, enforcando-o e usando o homem como escudo.

— Fique ao meu lado. — disse ele para Lillia.

— Me solta, seu desgraçado!

— Solte o comandante agora mesmo! — gritou um dos policiais.

— Tem algum tenente nessa merda?

Um ursan retirou seu quepe, ergueu as mãos e se aproximou de Lucas com cuidado.

— Tenente Dordon Cunnan. Com quem eu estou falando?

— Muito sagaz, hein parceiro? Mas vai ficar querendo.

— Quais são suas exigências para liberar os dois reféns?

— Dois? Não, só um. Ela é minha contratante.

— Você quer dizer que ela é sua cúmplice?

— Chega de perder tempo. Você tá envolvido nessa merda toda da Landell ou não? O irmão dela te pagou também?

Lucas sentiu os batimentos do comandante, seu refém, acelerarem; mas não os de Dordon. Ele estava limpo.

No entanto, não era só por isso que ele fez a pergunta. Diante das câmeras, os telespectadores tinham a mesma reação do tenente.

— Sobre o que você tá falando?

— Se o irmão dela também te pagou pra dar cabo nela. Sim ou não?

— O que? Eu sou um policial, eu honro a farda que visto! 

— Não dê ouvidos a ele, Dordon. Atira nesse puto! — comandou o homem, tremendo de nervosismo, cuspindo enquanto gritava.

Lucas agarrou sua orelha direita e puxou; arrancando-a e jogando-a para Dordon que , surpreso, apanhou o objeto.

Ela era mecânica, um transmissor clandestino. Proibido por lei a policiais.

Havia um símbolo sutil em seu lóbulo - quase como uma marca d’água - o da Corporação Landell.

Afonzo urrava tentando se desvencilhar e ordenava que atirassem em Lucas.

— Os registros de ligação ainda estão salvos. É só acessar o banco de dados e você vai encontrar o bastante para assumir o lugar desse idiota.

Afonzo havia perdido toda a sanidade que ainda lhe restava, temendo ser descoberto: — Atirem no terrorista! Atirem! Matem ele! Me salvem!

Lucas golpeou-o com a coronha de sua pistola, apagando o homem e jogando-o como um saco de batatas na direção de Dordon.

— É todo seu.

— Largue as armas e venha com a gente até a delegacia.

— Não vai acontecer. — de um de seus bolsos retirou uma flashbang e arremessou contra os policiais.

Seus braços ergueram Lillia e ele entrou em um beco enquanto a carregava no colo.

— Pra onde a gente tá indo?

— Pra onde você me contratou.

— Você vai me levar no colo até lá? Tá maluco?

 — Tem ideia melhor, porra? Cê precisa me pagar, não vai fazer isso morta. 

Em sua interface, 5 minutos haviam passado. Restavam 10.

Mais que o suficiente, pensou. 

Em uma viela pouco iluminada, gangsters com roupas coloridas revezavam-se espancando um gnomo que estava escorado no pneu de uma SUV.

— Me põe no chão. — pediu Lillia.

Dali dava para ver a avenida, mas ninguém ligava para o que estava acontecendo nas sombras. Era a lei das ruas: não se intrometa no que não te diz respeito. 

Seu terno estava encharcado e sujo, o rosto além do reconhecimento, repleto de hematomas e sangue, os cabelos laranja desgrenhados.

— Tu quis fudê com a Kichiku Wanpakunakama, agora a gente fode contigo, cagueta de merda! 

Atendo-se a um frágil fio de sanidade, ele respondeu - com dificuldade -: — não fui eu! Foi o Tommy! O Tommy!

— Eu vou apagá tu de uma vez! — respondeu um meio-orc colocando sua arma sobre a têmpora do gnomo. 

Lucas e Lillia emergiram das sombras. 

Quando os gangsteres perceberam-nos, arregalaram os olhos, surpresos. 

— Kessho akuma! 

— É o Kessho akuma! Caralho, que que ele tá fazendo aqui?

Sem entender o que estava acontecendo, Lucas apontou para si mesmo. 

— Tão falando de mim? 

— Kessho Akuma significa demônio de cristal, deve ser por causa do capacete… — respondeu Lillia, calando-se depois de olhar para um painel holográfico na avenida. 

Ele reproduzia as cenas da luta entre Gomek e Lucas. 

Ela apontou para o holograma e Lucas sacudiu a cabeça. 

— Então eu tô famoso… Ainda bem que não viram meu rosto. — suspirou aliviado. 

— Kessho Akuma ou os caralho, não se mete nos rolê da KW? Tá entendendo? 

— Porra, cala essa boca… 

Lucas avançou como uma bala e socou o rosto do meio-orc armado. 

Sons de ossos quebrados e um corpo caindo. 

Seu rosto estava afundado e ele sem respirar. 

Morto. 

Os outros bandidos, em um senso de camaradagem invejável (e pura ignorância) atacaram-no com katanas, bastões de baseball e facas. 

Alguns segundos depois, estavam todos mortos. 

O gnomo fitava Lucas como um salvador. Ele se levantou como se fosse a tarefa mais árdua de sua vida e começou a chutar o corpo desfalecido do meio-orc.

— Seu miserável! Seu puto! Desgraçado! Eu disse que não fui eu! Kichiku é o caralho, eu vou acabar com essa merda!

Com sua raiva descarregada, arrumou os cabelos e estendeu a mão para Lucas.

— Eu te devo a minha vida, me chamo Dorsi e trabalhava com inteligência da Kichiku Wanpakunakama. Se um dia precisar da minha ajuda, eu estarei no mercado público, banca 48. É só perguntar se tem maçãs de Odunn e eu vou saber que é você.

— Hm… Eu não salvei você, só quero a chave desse carro.

— Não, se não fosse você, esses nojentos teriam me matado. Tô pouco me fodendo se você quis ou não, mas um gnomo sempre paga o que deve. — Dorsi mexeu nos bolsos de um dos gangsteres e retirou um molho de chaves — Aqui, toma.

— Se cuida aí. Boa sorte na próxima.

— Pode deixar… Kessho Akuma.

Lucas abriu o carro e colocou Lillia para dentro. Antes de sentar-se, agradeceu o pobre sujeito para só então partir.

Restavam 6 minutos e chão para percorrer.


Por General Xin | 13/01/21 às 13:58 | Ação, Aventura, Fantasia, Sobrenatural, Artes Marciais, Romance, Brasileira, Magia, Poder, Drama, Ficção Cientifica, Maduro, Tragédia, Adulto, Moderno