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『INCÓGNITAS』

Tempo;Rompido (T;R)

『INCÓGNITAS』

Autor: Sora

Terça-feira, dia 15 de junho de 1998.

...

— O Yoshizinho vai ficar bem...?

— É só ele responder tudo o que sabe. Não tem mistério, ele é bastante inteligente para evitar de fazer alguma coisa que eles considerem suspeita... afinal, ele também é inocente nessa situação.

Em frente a uma das pequenas delegacias da aldeia de Shirakawa-go, estavam duas garotas e um garoto maior do que elas, de cabelo e olhos acinzentados; Aki, Misaka e Kotarou.

— Sim, sim! É apenas um interrogatório do bem!!

— Essas palavras estão me deixando com mais receio ainda, Mizinha... – Os três esperavam por seu amigo, Asano Yoshiaki, o garoto que estava junto de Kudo Suzuha antes de seu desaparecimento, com quem foi vista pela última vez.

Obvio que era o correto a se fazer, mesmo que não fosse ajudar em alguma coisa, já que a garota desapareceu na noite daquela sexta-feira, sendo que tanto Yoshiaki como seus outros amigos e amigas, receberam a notícia apenas domingo.

Resumindo, praticamente dois dias após o, de fato, sumiço dela. Yoshiaki foi o último a ser visto com Suzuha, quando os dois foram a uma peça de teatro em um dos templos da vila, portando os convites que ganharam no jogo de pôquer que Natsumi os chamou para disputarem, na lojinha do senhor Hisoka há exatamente uma semana.

Os três seguiam ali, parados enquanto esperavam pela saída do garoto; o céu estava parcialmente nublado, com alguns raios de Sol atravessando as repartidas e densas nuvens acinzentadas. Já chegávamos à marca de 17h da tarde.

Até que, segundos após isso, o garoto saiu com dois delegados caminhando ao seu lado. Logo, Aki e Misaka esboçaram um sorriso de alívio, mas desfizeram o mesmo ao notar a expressão abatida de Yoshiaki.

— Yoshizinho... o que aconteceu? – As duas e Kotarou se aproximaram do garoto, que olhou para seus amigos e abriu um sorriso forçado e entristecido.

— Não se preocupem, apenas fizemos algumas perguntas sobre o dia do encontro entre ele e a senhorita Kudo. Mesmo que esteja um pouco tarde, não podemos deixar batido nenhum detalhe e temos que recuperar o tempo perdido. – Falou o alto e bem forte delegado da esquerda.

— Vamos continuar nossas buscas incessantemente, enquanto não a encontrarmos... iremos nos esforçar cada vez mais para que possamos encontrá-la, na melhor das hipóteses, com vida. – O da direita, bem mais magro, mas também bem alto, complementou.

Após isso, os quatro se despediram devidamente e agradeceram o esforço dos policiais da aldeia, que seguiam suas buscas e investigações a todo vapor.

O mistério do desaparecimento de Suzuha assolou não só seus familiares e amigos, mas toda a aldeia em geral. Afinal, era aquele mês...

— Pessoal... eu estava pensando aqui, comigo... – Misaka murmurou cabisbaixa, enquanto os quatro seguiam a pé voltando para suas casas – Será que... esse sumiço da Suzu... seria alguma coincidência?

— Hein...? – Aki foi a primeira a reagir, enquanto Yoshiaki e Kotarou pararam de andar ao mesmo tempo que as duas garotas.

— Você não sabe? Sobre a história que essa cidade tem por trá-.

— Misaka. – Interrompendo a garota, Yoshiaki chamou por seu nome, fazendo os as duas o olharem assustados, excluindo Kotarou – Não quero falar sobre isso, me desculpe. Sei o que você está pensando e, sinceramente, não quero acreditar que seja isso...

“Hein? O que? O que foi? Eu não sei do que vocês estão falando!”, Aki, bastante preocupada e acima de tudo curiosa, divagou consigo mesma.

— Sim, está certo... me desculpe por falar em um momento tão inapropriado... – Misaka deu um sorriso mais forçado ainda e Yoshiaki agradeceu silenciosamente. Enquanto Aki ainda estava perdida em seus próprios pensamentos, sem entender absolutamente nada.

Entretanto, vendo aquela situação, ela preferiu se abster e não quis perguntar ou insistir para que Misaka contasse o que iria contar. Yoshiaki era o que mais estava sofrendo com o desaparecimento de Suzuha, já que ele esteve com ela pela última vez antes de ir embora e sumir no mesmo dia...

Com isso, a garota de olhos violetas apenas deixou aquilo passar por enquanto e seguiu em frente com os três. Pelo caminho, os quatro novamente deram de cara com uma das irmãs gêmeas de cabelo ruivo que andava com uma mochila nas costas... essa era a primeira que eles já conheciam bem.

— Natsuzinha!

— Pessoal... – Natsumi olhou com um pouco de insegurança para os quatro, que andaram até ela – Nos encontramos mais uma vez andando por aí, não é? O que estão fazendo aqui ainda?

— Yoshizinho foi chamado para depor na delegacia... afinal, ele foi o último a ser visto com a Suzuzinha... – Murmurou Aki em resposta, com um tom pesado. Natsumi seguiu em silêncio, com a boca um pouco aberta enquanto a olhava.

— Entendo... ainda... não a encontraram, não é?

— Natsu-!

— Me desculpem... eu preciso ir para casa, a Harumi está me esperando. – Natsumi quebrou o chamado de Yoshiaki que já ia por impulso ao se lembrar rapidamente do que Aki lhe disse no dia anterior. Ela deu um sorriso fechando seus olhos e começou a andar mais rapidamente, passando por seus amigos – Espero que... a encontrem logo... realmente torço por isso.

As palavras de Natsumi pareciam pesar uma tonelada ao serem proclamadas, ao mesmo tempo que eram frias e estranhas; ela disse aquelas últimas três frases sem se virar, de costas e com um sorriso melancólico, voltando a andar para o caminho de sua casa, sendo observada pelos quatro.

— Gente... vamos procurar pela Suzuzinha! – Aki exclamou literalmente ‘do nada’, deixando Misaka, Kotarou e Yoshiaki impressionados – Vamos procurar! Ela pode estar em lugares que gosta muito ou que já frequentamos muito com ela! Os policiais não sabem disso, pois o Yoshizinho estava muito abalado para lembrar!

— Aki... – Misaka murmurou, enquanto ela e Yoshiaki a fitavam boquiabertos e com olhos semicerrados.

— Acho que seria uma boa ideia. – Kotarou, surpreendendo ainda mais os dois ao seu lado, respondeu.

— Kotarou...?! – E era obvio que Yoshiaki estranhou e muito aquela atitude dele, que naturalmente iria recusar e ainda expor fatos e argumentos que fariam Aki se conformar e desistir.

— Isso já está me deixando cansado também. Então, faremos isso, eu e Misaka, Yoshiaki e Aki. Olha que duplas boas, o final do seu nome combina com o nome completo dela.

— Você tá de brincadeira, né...?! – Após a piadinha de Kotarou, que olhava em direção ao garoto de cabelo escuro, ele perguntou com uma expressão irritada.

— Não vamos ficar até tarde, certo? Assim que escurecer, levarei a Misaka para a casa, faça o mesmo com a Aki. – Kotarou o respondeu, dando de ombros para a impaciência de Yoshiaki, que apenas escutou em silêncio – Elas moram próximas, então nós dois nos encontramos e vamos para nossas casas. Está bem assim para você...?

— Sim! – Aki respondeu com um sorriso confiante, puxando Yoshiaki pelo braço enquanto Kotarou empurrava Misaka pelas costas, cada dupla indo para uma direção.

Sem contestar mais, já que não conseguiriam da mesma forma...

 

Δ Δ Δ

 

A dupla de Yoshiaki e Aki seguia caminhando pelos locais onde “Suzuha gostava de ir” ou que “eles já frequentaram juntos diversas vezes”. Esse foi o pedido da pequena garota de quatorze anos, que ainda seguia esperançosa de encontrar sua amiga desaparecida.

— Por que isso, de repente...? Eu estou cansado.

— Vamos, Yoshizinho, só mais um pouco até anoitecer! – Os dois seguiam andando pela pequena rua em uma grande descida, indo devagar para não acabarem tropeçando e rolarem fatalmente abaixo.

— Ei, Aki... – Yoshiaki a chamou bem baixo, enquanto os dois seguiam descendo a rua – Você não notou a Natsumi um pouco... estranha hoje, não?

— Pois é. Acho que ela também está bem abalada com o desaparecimento da Suzuzinha... mas, vamos encontrá-la, tenho certeza!! – Aki seguia esbaldando sua confiança de repente, o que deixou Yoshiaki com um pouco mais de esperança também sobre isso.

Assim que os dois chegaram no contorno daquela rua, viram um carro totalmente branco e que não era um carro de polícia, parado com dois homens de vestes cinzas dentro do mesmo...

Yoshiaki não notou, pois olhava para seus arredores, buscando algo que fosse lhe dar uma dica ou um milagre ocular que encontraria a Suzuha, mas Aki... Aki ficou vidrada naquele carro, que repentinamente fechou suas janelas escuras e partiu em disparada ao contrário de onde ela e o garoto seguiam.

— Ei, Yoshizinho... – Aki puxou a camisa do garoto, apontando para uma passagem que se abriu assim que o carro saiu dali – Vamos ali.

— Você viu algo?

— Não... só quero dar uma olhada.

— Mas... ali não é o lixão? – Yoshiaki e Aki andaram lentamente até a entrada do médio lixão que havia ali na aldeia, bem em suas “profundezas”; por isso era tão pouco movimentado aquele local onde os dois estavam.

Era um lixão de objetos abandonados, mas também haviam algumas sacolas e as vezes nem isso com lixo, obviamente. O cheiro era forte e obrigava os dois a tamparem seus narizes. Pela esquerda desse lixão, havia uma ponte onde atravessava aquele local para o lado mais movimentado da aldeia.

Ou seja, eles já haviam atravessado aquela ponte bem estreita para ir para “esse lado”. Enquanto os dois seguiam procurando, Yoshiaki notou que a escuridão já começava a tomar conta do local, olhando para cima e já conseguindo ver algumas estrelas piscando.

— Ei, Aki... – Yoshiaki chamou pela garota, ainda olhando para cima, mas não veio nenhuma resposta – Aki! – Ele a chamou pela segunda vez, com mais força, olhando parta trás e vendo suas costas tremulando. O garoto não entendeu bem o porque daquilo e decidiu ir até ela – Senhor, o que você está fazen-?

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!!!!!!!!!! – O grito da garota foi alto o suficiente para fazer alguns corvos reunidos no lixão baterem voo drasticamente, assustando Yoshiaki que ficou de olhos arregalados e trêmulos, já imaginando o motivo daquilo – NÃO...! NÃO PODE SER VERDADE...!

— Aki, o que fo-?! – Antes que Yoshiaki pudesse completar, ele viu uma cabeça desprendida de seu corpo, como se fosse uma cabeça de boneca, com diversas moscas a rodeando. A boca estava aberta e os olhos arregalados e sem luz alguma.

Ele parou, pensou, juntou as informações em seu cérebro e tentou piscar por um tempo longo de dez segundos, abrir mais uma vez seus olhos e confirmar que tudo aquilo era uma ilusão ou que ele realmente via a cabeça de uma boneca. Passou-se o tempo, mas nada mudou quando ele reabriu os olhos...

O cabelo castanho-claro e os olhos verdes e sem luz já demonstravam o que aquilo era: a realidade, nua e crua. Suzuha estava morta.

— Impo...ssível...! Como isso...?! – Yoshiaki caiu de joelhos ali mesmo, não se importando com a pilha de objetos velhos e abandonados, enquanto Aki seguia fuçando por todos os arredores da cabeça de sua amiga...

Até encontrar pedaços de seu corpo ao fundo, braços e pernas, principalmente, além de alguns órgãos que a fizeram colocar as mãos em frente a sua boca para prender um súbito vômito que subiu arranhando sua garganta.

Suas lágrimas não paravam de cair pelos metais e brinquedos destroçados que rodeavam as partes mutiladas do corpo da garota, enquanto Yoshiaki seguia em choque total, olhos super-arregalados enquanto fitava o céu já de noite.

Foi quando Aki não aguentou ao ver um pedaço de seu coração estraçalhado no chão, finalmente empurrando o vômito para fora.

— Suzuzinha...! Suzuzinha...! Por que...?! Como isso foi acontecer...?!

Aki seguia aos prantos, com um pouco de seu vômito ainda escorrendo pelo canto de sua boca; a crueldade estava estampada naquele local, até que Yoshiaki saiu de seu choque e acordou de novo para a dura realidade... olhando para o lado e vendo aqueles mesmos homens de cinza que a Aki observou antes de entrarem ali, correndo na direção deles com duas grandes facas.

— AKI!!! – Ele gritou para a garota que seguia em pânico, sem conseguir escutar e nem ver mais nada, até que foi forçadamente tirada do chão pelas mãos de Yoshiaki e teve de começar a correr – VAMOS, CORRA!!!

— Hã...?! – Foi só quando os dois estavam correndo, sem que ela percebesse de primeira, que acordou também para a realidade e viu os dois homens em sua caça – AAAAAAH! O QUE É ISSO?!

— Eu não sei! Mas, tenho um palpite nada agradável para isso...! – Yoshiaki já desconfiava sobre quem assassinou brutalmente a Suzuha, a resposta estava os perseguindo nesse exato momento. Os dois foram em direção à ponte estreita, que balançava um pouco... o que os deixou sem saída a não ser parar de correr e começar a andar lentamente por ela – Droga, maldita ponte...!

— Yoshiziiiinho...! – Aki estava com medo, olhou para trás e viu que os homens também não estavam correndo, caminhando com cautela para que a ponte não caísse. Porém, essa olhadela para trás da garotinha foi fatal, lhe fazendo tropeçar e cair para o lado.

— AKIIIII! – Yoshiaki ainda conseguiu ter o reflexo aguçado para segurar na mão direita da garotinha, que agora estava pendurada... entre a vida e a morte – Segure firme, Aki!!!

— Yoshizinho!! – As mãos de ambos começaram a suar e escorregar, ao ponto de Yoshiaki ter que se encurvar para continuar a segurando... tudo isso enquanto os dois homens se aproximavam cada vez mais – Não... por que... por que isso está acontecendo?!

— Segura! Eu vou te puxar e iremos voltar para casa!! -Yoshiaki tentou alcançar com a segunda mão, mas se fizesse isso, iria cair junto com ela – Droga, droga, DROOOOOOOOGA!!!!!

Não durou muito, quando a ponte deu uma leve balançada e a mão da garota se soltou da mão de Yoshiaki, que ficou boquiaberto e de olhos arregalados enquanto via sua amiga caindo daquela altura que beirava uns vinte metros da ponte, até o rio abaixo...

Aki apenas pôde ver suas lágrimas esvoaçando em seus últimos segundos, com as memórias de toda sua vida passando como um filme em sua cabeça em um piscar de olhos sinistro. E, antes de Yoshiaki, completamente abismado, os dois homens cinzas ou a ponte, ela viu o céu e as estrelas...

Deneb.

Vega.

Altair.

O Triângulo de Verão. E, sem conseguir pensar em mais nada, se despedir de ninguém e nem mesmo conseguir mais gritar, o destino a puxou com todas as forças para aquele rio que se tornaria a parede de aço mortal a tragando para as profundezas do pós-vida...

E a última coisa que ela pôde escutar, antes do som final da forte batida que deixaria tudo escuro para ela de uma vez...

— AAAAAAKIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII!!!!!!!!!! – Foi o grito ensurdecedor de Yoshiaki, da ponte, quando o som de uma pequena explosão interna e externa fez tudo acabar.

 

『Segundo Fim』

Por Sora | 17/11/18 às 11:48 | Suspense, Ficção Cientifica, Sobrenatural, Slice of Life, Mistério, Drama, Comédia