A Crônica de Eastar – Capítulo 28

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Autor: Henrique Zimmerer

28 – Domando Aves

Era estranho ver o grupo sem Aros, pois sempre se espera uma figura imponente que vá à frente dos outros, e o Comandante era essa pessoa até a medula dos ossos.

Vê-lo em seu cavalo, com as costas eretas, as roupas com cores berrantes, falando e rindo com a voz grossa e clara que tinha, dava uma temática diferente para a viagem.

Naquele momento, Eastar só sentia o peso da tarefa que o pai havia lhe passado. De repente, aquelas “férias no planeta” haviam tomado uma proporção imensa. Aquela responsabilidade não estava em seus planos, ele nem se quer era um legionário. O que poderia fazer para ajudar os terráqueos?

Os espectros já o haviam abalado, mas ele sabia que daria a volta por cima do que aconteceu, até mesmo Remus não estava tão mal. Os garotos pareciam ter feito um trato secreto para jamais deixar o gigante ruivo se afundar em magoa. Sempre que Eastar percebia o olhar dele começando a vagar, Sean e Drun estavam ali, enchendo-o de perguntas e ele acabava voltando a sorrir.

Edwin tinha deixado a cerveja um pouco de lado, talvez fosse por conta da responsabilidade que lhe caia sobre as costas sem o comandante ali para apoia-lo, talvez fosse apenas por querer racionar um pouco para não ficar sem depois.

Allyn não deixava o lado do tenente, metade do tempo revirando os olhos com suas brincadeiras, a outra metade olhando para trás e observando o resto do grupo. Eastar imaginava que aquela fosse a maneira dela de se importar com todos.

— Uma moeda por seus pensamentos. — Jaime encostou ao lado do cavalo de Eastar.

— Moeda?

— Sim, ué.

— Ele provavelmente não sabe o que é uma moeda, Jaime — disse Sindar, acompanhando-os pelo outro lado do jovem.

— O quê?

— Tem algumas coisas básicas que ele simplesmente não conhece. Explico algumas e mostro outras, mas é impressionante a falta de conhecimento dele. Apesar de ele jurar que estudava com a mãe a nosso respeito.

— Isso é… — Jaime olhou para o estelar, que tinha um sorriso meio envergonhado no rosto. — Bem, não é nada demais, já que é a primeira vez que você vem aqui.

Eastar assentiu e ficou mais confiante.

— Então, o que é moeda?

— Moeda é algo que usamos para comprar coisas. É o que chamamos de dinheiro… — Ele parou, confuso. — Como você fez pra passar todo esse tempo em Londrian?

— Ele não gastou nada, é impressionante como estelares não precisam de nada pra viver. Enchi o guarda-roupa dele, demos a comida que quisesse e, pronto, ele não fazia mais nada além de treinar e… ah, sair comigo.

Eastar riu, malicioso, da última parte.

— Oh! Eu queria essas mordomias. — Jaime suspirou.

— Pessoal. Quietos. Venham aqui. — Edwin sussurrou.

Os três olharam para a frente e viram o tenente olhando para eles, acenando com as mãos. Allyn estava agachada ao seu lado, um arbusto os escondia de uma enorme planície gramada à frente, que alcançava o leito do Rio Song.

Eastar olhou em volta e percebeu que o caminho que tomaram devia tê-los levado alguns poucos quilômetros acima da cachoeira onde estavam no dia anterior.

Vendo todos os outros descerem dos cavalos e se juntarem a Edwin e Allyn, ele decidiu imitá-los. Caminhou com Sindar e Jaime até uma árvore onde pudessem amarrar os animais, depois seguiram devagar até onde os outros estavam.

— Ele não sabe o que é dinheiro! — Jaime sussurrou para o grupo.

Alguns seguraram a risada com o comentário, Edwin e Allyn apenas levantaram uma sobrancelha para ele, que balançou a cabeça sorrindo.

— Muito bem, deixando o conhecimento do nosso garoto de olhos azuis de lado, olhem ali — continuou o sirion de cabelos brancos.

Logo à frente deles, onde as árvores acabavam e uma pastagem intensa começava, seguindo até o rio e se estendendo em todas as direções depois dele, havia pássaros incríveis.

Eastar não precisou pensar muito para ter certeza de que eram Trots. Eram lindos, alguns chegavam a ter dois metros de altura. Tinham corpos como o de avestruzes, com as penas vermelhas e brilhantes, suas cabeças tinham um topete de penas brancas e seus bicos eram longos e coloridos, indo de amarelos vivos há um vermelho muito escuro.

Havia cerca de quinze deles rodando nos leitos do rio e dentro dele.

Enquanto observavam, o grupo viu alguns enfiando a cabeça na água e tirando de lá, jogando peixes para o alto e pegando-os com os bicos. Inclinavam a cabeça para cima e deixavam o peixe escorregar garganta a dentro.

— Lindos, não é? Ainda bem que estamos no outono. — Sindar sussurrou no seu ouvido do jovem.

— Sim, claro. Outono… — Eastar confirmou com a cabeça sem querer admitir o óbvio.

— Parece que ele também não sabe o que é o Outono, princesa. — Jaime sussurrou, segurando o riso.

— Ah, pelo amor de Ulmo, Eastar!

— Qual é!? Não me culpe por minha mãe ficar me impedindo de descer toda hora!

— Tudo bem, tudo bem…

Ela começou a explicar sobre as estações do ano e tudo o que acontecia de acordo com elas. O estelar se forçou a prestar atenção, mas sua cabeça continuava se virando para as aves, suas cores e movimentos eram hipnotizantes.

— Bem o que importa é que as estações afetam o temperamento dos Trots, e sua penugem. — continuou a princesa, segurando o rosto do parceiro com a mão para evitar que ele se distraísse. — Quando estamos no outono, suas penas ficam vermelhas e eles ficam assustados, mas não ariscos, se tornam um pouco selvagens, mas possíveis de domar.

— Entendi…, meu pai contou que adorava caçá-los no verão junto com reis de Londrian… como eles ficam nessa época?

— O mais arisco possível. Completamente selvagens e agressivos, geralmente não julgaria uma pessoa de ser inteligente ao procurá-los no verão, mas como é seu pai, acho que entendo.

— Rá! Faz todo o sentido… — Eastar percebeu que tinha falado alto demais, olhou para os outros que acompanhavam a aula dele com caras de tédio. — Desculpem… tudo bem, e agora?

Edwin sorriu como um bêbado que ganha uma caneca cheia de cerveja.

Remus foi o primeiro a ficar de pé. Esfregou a mão e se virou para os garotos.

— Sean, Drun. Vocês já devem ter feito isso na primavera, mas agora é um pouco diferente. Entendam, eles vão correr. Vocês têm que ser rápidos e precisos. Segurem eles pelo pescoço. Façam direito!

Os garotos se levantaram sorrindo e se viravam para correr quando o gigante os segurou pelas golas das camisas cinzentas e finas. Os dois se assustaram por um momento, mas o sirion aproximou seu rosto do deles e disse baixinho:

— Mostrem pra eles!

— O quê? Sério? Já podemos mesmo?

Sean começou a ficar extremamente empolgado, começando a dar pulinhos como costumava fazer. Drun deu um sorrisinho esperto e concordou com a cabeça.

— Sim, mas lembrem-se, apenas o básico. Pouco, limitação de tempo. Se alguém se esquecer disso, eu terei que desacordá-lo.

— Não esqueceremos. — Os dois disseram junto e se viraram.

Eles fecharam os olhos, após alguns segundos, o restante do grupo começou a ficar apreensivo, Allyn e Edwin levantaram as sobrancelhas para o ruivo, que apenas sorriu e levantou uma das mãos, pedindo para que esperassem.

Mais alguns segundos, e os garotos abriram os olhos. Estavam brilhando mais do que o normal, o castanho de Sean e o verde de Drun criavam fachos de luz que atingiam as árvores a frente, as últimas antes da pastagem.

A luz ainda tremeluzia um pouco, mas todos ficaram surpresos e, antes que alguém dissesse algo, os dois dispararam para a frente, saltando sobre os arbustos e correndo a uma velocidade enorme, disparando como dois leopardos enquanto riam e gritavam.

— Remus, como isso é possível? — Allyn olhou espantada para o gigante

— Esses garotos são incríveis. Eles só precisam de alguém que os ensinem bem. — Ele olhou para a frente e gargalhou. — Falando nisso, é melhor irmos logo ou eles assustarão todos os Trots.

Mais a frente, Sean e Drun pareciam ter escolhido seus alvos, cada um perseguia um Trot, se aproximando cada vez mais da ave. Com o barulho que faziam, os outros animais começaram a ficar assustados e alguns correram enquanto outros levantavam as cabeças e observavam a comoção.

De trás dos arbustos, o restante do grupo resolveu seguir os garotos. De repente, as luzes aumentaram, vermelho, verde, castanho e, Eastar percebeu, amarelo também. Olhou para o lado e viu Sindar com os olhos incrivelmente brilhantes e com um sorriso no rosto.

—  Melhor ser rápido, garotão. — Ela piscou para ele e saiu em disparada.

O estelar ainda ficou um segundo observando a cena, aquele grupo de homens e mulheres correndo, rindo como crianças, tentando alcançar as aves que finalmente tinham decidido que o melhor era correr o mais rápido possível daquele lugar.

Ele riu e correu, em poucos segundos estava na dianteira, as aves não pareciam tão velozes e o jovem entendeu o porquê de Remus deixar os garotos participarem, não deviam precisar liberar muita energia, apenas o bastante para aumentar a velocidade a ponto de acompanhar os Trots.

Olhando para trás ele percebeu que o grupo estava se separando, perseguindo os alvos escolhidos. Edwin e Jaime já seguravam o pescoço de Trots que corriam na mesma direção, o tenente pulou para cima da ave e, antes mesmo de o animal perceber, já havia sido montado e controlado.

Jaime não teve tanta sorte. Assim que pulou, o seu deu uma guinada para o lado onde ele estava, e ele passou por cima da ave, tropeçando e quase caindo, se não fosse pelo apoio do pescoço, que ele não havia soltado.

Resolvendo escolher um alvo também, Eastar seguiu Remus, que ia na direção de alguns animais que haviam corrido para o rio.

O ruivo havia escolhido o maior Trot da área, ele devia saber que seu peso poderia ser demais para alguns.

Seguindo lado a lado, os dois se aproximaram do rio.

— Segure o pescoço, suba, puxe o pescoço para trás para que ele pare. O pescoço controla, não se esqueça! — O gigante gritou, empolgado, para ele.

Eastar acenou com a cabeça e disparou, deixando Remus para trás. Focou seus olhos no Trot, que pareceu ficar quase em câmera lenta. Os dois entraram no rio e, de repente, já estava agarrado ao pescoço do animal e pulando em suas costas, puxou o pescoço da ave e o parou.

— Rá! Consegui!! — Socou o ar e virou o Trot na direção do grupo.

O estelar parou de sorrir quando viu que todos olhavam para ele com graus diferentes de espanto e admiração.

Remus estava na beira da água, seu Trot havia ido embora, mas ele mal parecia ter notado. Passaram alguns segundos tensos até que Sean quebrou o clima.

— QUEEEE DEMAAAIISS!! Faz de novo, Eastar, faz de novo! — O garoto deu pulinhos excitados em cima de sua montaria, que começava a ficar inquieta.

— Fazer o quê?

Drun ficou ao lado do amigo e falou primeiro.

— Andar em cima da água assim, foi incrível!

Os olhos dele continuavam brilhando com força, piscavam algumas vezes, mas a luz parecia ainda mais intensa que antes.

— Puxa vida, garoto. Nunca vi nada tão veloz assim! — Edwin olhou admirado.

— Humf… só pra se mostrar, aposto. — Sindar cruzou os braços, mas sorria.

— Desculpa gente, mas nem vi o que eu…

— DRUN!

Remus disparou em direção ao garoto. Os olhos de Drun tinham uma luz intensa e descontrolada, um verde forte e selvagem que parecia ir ficando cada vez mais brilhante, diminuía, e então ficava ainda mais intenso do que antes.

Enquanto todos tentavam entender a situação depois do grito que o gigante ruivo havia dado, este já estava ao lado de Drun.

Com um movimento rápido, acertou a lateral da mão na nuca do garoto, que caiu completamente mole em seus braços. O Trot não correu, apenas olhou, confuso, aproximando a cabeça do rosto adormecido.

— Por que você fez isso Remus? — Eastar perguntou indignado.

— Você ouviu o que eu disse a eles, Eastar? Sobre desacordá-los se eu precisasse? Pois bem, não foi uma escolha.

Vendo a confusão nos olhos do jovem, Remus balançou a cabeça, cansado.

— Olha, nós não somos como vocês estelares. Toda essa energia que descobrimos dentro de nós não passa de uma fagulha para alguns de vocês, como seu pai e você mesmo, mas, para nós, é muito. — Ele encarou Drun, que estava mole em seus braços. — É algo confuso e desnorteante, e precisamos ter muito cuidado. Coisas horríveis podem acontecer se você a usa de maneira errada.

— Que tipo de coisas horríveis?

— Aquelas que você viu na Floresta Escura. — Allyn disse, cruzando os braços. Ela olhava o garoto com uma expressão triste.

Remus saiu andando com Drun nos braços, enquanto Sean acompanhava o gigante, olhando preocupado para o amigo.

Edwin foi atrás deles com Allyn e Jaime, deixando Eastar ainda parado com Sindar ao seu lado.

— O que ela quis dizer?

— Espectros, Eastar.

— Quêêêêê?? — Arregalou os olhos enquanto a encarava.

— A reserva interna acaba puxando a energia de todas as fibras e órgãos do seu corpo se você não souber controlá-la, por isso leva tanto tempo para alguém aperfeiçoar, nem mesmo Jaime compreende a própria reserva completamente.

— E você?

— Bem, eu tive o Sabor como meu professor, então não precisa se preocupar.

— Mas o que isso tem a ver com espectros?

— Eu nunca vi acontecer e o que sei foi me passado por meus tutores e histórias que li, mas dizem que quando uma pessoa usa a reserva de maneira errada, quando libera energia demais sem estar preparada… bem, dizem que essa energia consome o corpo da pessoa.

Eastar franziu o cenho, confuso. A princesa coçou a cabeça e suspirou.

— Não sei se estou explicando direito…. É como se a reserva sugasse o corpo da pessoa, transformando seus órgãos, ossos, músculos…. A reserva transforma tudo em uma massa negra, toma conta da consciência da pessoa e a transforma completamente, virando aquilo que você viu na floresta. Seres que só pensam em consumir ainda mais energia, que não ligam pra mais nada. Eles não têm medo, não tem compaixão. Só fome e raiva.

— Isso é… bem sinistro.

— Sim, entende por que Remus fez aquilo? Ele ama aqueles meninos.

— Entendi… esses garotos… eles meio que suprem a falta do Relles, não é? Não entendo direito, mas é como se aliviassem a dor que o Remus poderia estar sentindo.

— Quem diria que esse aspirante a legionário tem sensibilidade. Que fofura!

Sindar o beijou e sorriu, concordando com a cabeça.

— Ter alguém assim por perto ajuda a superar a perda de alguém. — Ela deu um sorriso triste.

— Desculpa, tô trazendo más lembranças de novo?

— Tudo bem. — Ela segurou o braço dele. — Vamos segui-los.

— Acho que a brincadeira acabou, não é?

— Infelizmente, mas pelo menos podemos adiantar um pouco a viagem… quer dizer, assim que o Drun acordar.

Eastar riu e a acompanhou.

O grupo estava sentado em círculo, Drun deitado no colo de Remus enquanto este acariciava seus cabelos. O estelar se sentou junto deles.

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By | 2017-12-06T20:56:19+00:00 06/12/2017 as 8:56|A Crônica de Eastar|8 Comments

About the Author:

Jhinn
  • Davi Rhodis

    Essa falta de conhecimento do Eastar e mto boa kkkk
    E tenso ver alguém que a gente gosta triste e não poder fazer nada :/
    Obrigado pelo cap o

    • Henrique Zimmerer

      Isso que dá matar aula com a própria mãe kkkkkk

      • Davi Rhodis

        Sim se ele não quis aprender em anos… não vai aprender em dias asduhaduh

  • Carolina Carvalho

    Queria ter esssa mordomia do Eastar kkk
    E hj tivemos uma aula de conhecimento kkk
    Obrigada pelo cap <3

    • Henrique Zimmerer

      O famoso vida mansa kkkkkkk…

  • Kyt Kayamba Ghumbs

    your only saturated healer by watching a movie,
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  • Marcelo

    Eastar o maior velocista do mundo da Dc

    • Henrique Zimmerer

      kkkkkkk foda-se o velocista escarlate… o negocio é o vagalume azul kkkkkk